Influência do Tamanho de Recipiente no
Desenvolvimento Vegetativo Inicial de Porta-Enxertos Cítricos[1]
Paulo Vitor Dutra
de Souza[2],
Gilmar Schäfer[3], Paula de
Oliveira Melo[4], Eduardo
Limberger[5]
e Anderson André Dias4
A qualidade das mudas é um dos fatores básicos para uma boa produtividade, sendo que esta deve estar bem formada dentro de um conjunto de práticas culturais adequadas. Entre diversas razões, principalmente de ordem sanitária, existe a necessidade de produzir mudas de citros livres de pragas e moléstias. Por isto, o processo tradicional de produção de porta-enxertos cítricos em sementeiras vem sendo substituído por sistemas de produção em tubetes sob estufas, com posterior transplante para sacos plásticos ou citrus potes. Entretanto existe uma grande discussão de qual o tamanho de recipiente a utilizar e quais suas influências no desenvolvimento da muda de porta-enxerto até o momento da repicagem e até o ponto de enxertia.
O volume do substrato afeta o desenvolvimento vegetativo de porta-enxertos cítricos (Rezende et al. 1995), entretanto Girardi et al. (2001) não encontraram diferenças no desenvolvimento do porta-enxerto, da repicagem até o ponto de enxertia, mas recipientes com capacidade maior resultaram em mudas de maior tamanho após a enxertia.
O objetivo deste trabalho foi o de avaliar o desenvolvimento vegetativo de porta-enxertos cítricos, cultivados em tubetes com diferentes capacidades de volume.
O experimento foi conduzido em casa de vegetação com sistema de irrigação por micro-aspersão, na Estação Experimental Agronômica da UFRGS, a partir do dia 27 de setembro de 2001 até os 120 dias após a semeadura.
O delineamento experimental adotado foi o de parcelas subdivididas, em esquema fatorial 3 x 3, com quatro blocos e cada parcela constituída por, no mínimo, 16 tubetes. Nas parcelas principais foram testados três volumes de tubetes (50, 120 e 280 cm3) e nas sub-parcelas foram testados três porta-enxertos cítricos (Trifoliata - Poncirus trifoliata (L.) Raf.; ‘C13’ – P. trifoliata x Citrus sinensis (L.) Osbeck.; Limoeiro ‘Cravo’ - C. limonia Osbeck.). Como meio de cultivo utilizou-se o substrato comercial Eucatex Plant Max CitrusÒ (composto de cascas processadas e enriquecidas, vermiculita expandida, perlita expandida e turfa processada e enriquecida).
A semeadura foi realizada em tubetes cônicos, com seus respectivos volumes, vazados na parte basal, fixados em bancadas a um metro da superfície do solo, com uma semente por tubete.
Foram realizadas as seguintes avaliações: percentual de germinação; diâmetro do colo da planta; altura das plantas, medida desde o colo até o meristema apical; matéria seca total por planta (secagem a 65 °C até peso constante); e área foliar por planta, medida com o auxílio de um medidor de área foliar de marca LI-Cor, modelo LI-3100. As médias foram submetidas à análise de variância e à análise de regressão.
Na Fig. 1 estão representados os resultados do percentual de germinação dos porta-enxertos cultivados em diferentes volumes de recipientes. O percentual de germinação do Trifoliata e ‘C13’ não foi afetado significativamente pelo aumento do volume do recipiente, o que já poderia ser esperado, pois mesmo que os tubetes possuíssem alturas diferentes, fator que aumenta a drenagem nesse substrato (maior Yg), este não seria um fator decisivo para a germinação das sementes. A única curva de regressão significativa para volume de recipiente foi encontrada para limoeiro ´cravo´, com comportamento quadrático. De qualquer maneira, apesar da significância, o percentual de germinação foi superior a 80%, o que é aceitável comercialmente. Entre os três porta-enxertos estudados o ‘C13’ apresentou, em valores absolutos, uma maior germinação (média de 95%) e o Trifoliata uma menor germinação (média de 80%).
Na Fig. 2 estão apresentados os resultados do desenvolvimento vegetativo dos porta-enxertos cítricos, cultivados em diferentes volumes de recipientes. Para todas as variáveis analisadas houve interação significativa entre os fatores, indicando haver comportamento distinto dos porta-enxertos nos diferentes volumes de recipientes.
O diâmetro do tronco (Fig. 2A) e a matéria seca das plantas (Fig. 2C) demonstraram diferenças significativas somente para o limoeiro ‘cravo’, tendo aumentado proporcionalmente ao volume dos recipientes.
Observa-se que para os porta-enxertos Trifoliata e limoeiro ‘Cravo’ houve uma resposta linear de crescimento em altura, diretamente proporcional ao volume dos recipientes (Fig. 2b). Porém, o efeito do volume do recipiente foi mais intenso sobre o limoeiro ‘cravo’, que apresentou um incremento da ordem de 78% do menor para o maior volume, enquanto que para o Trifoliata este incremento foi de 35%. Para o porta-enxerto ‘C13’ o comportamento não foi linear, indicando uma inflexão na curva com ponto máximo em 120 cm3. Este resultado denota as diferenças fenotípicas entre os porta-enxertos.
A área foliar por planta (Fig. 2D) realça os ganhos em tamanho do limoeiro ‘Cravo’. Para o ‘C13 a área foliar mostrou uma saturação de resposta nas plantas cultivadas no tubete de 120 cm3 e o trifoliata mostrou área foliar semelhante para todos os volumes de recipientes testados.
Os resultados deste experimento foram superiores aos resultados encontrados por Schäfer (2000) e Schmitz et al. (1998). Houve ganhos no desenvolvimento vegetativo, principalmente em volumes maiores de recipientes e também pelas condições climáticas desse experimento por ser realizado na primavera-verão ao contraponto com o experimento realizado por Schäfer (2000) que foi conduzido durante o inverno, com temperaturas e intensidades luminosas baixas e fotoperíodo curto, que embora em casa de vegetação, condicionaram uma menor velocidade de desenvolvimento das plantas.
Há necessidade de seguir-se avaliando o desenvolvimento desses porta-enxertos, após sua repicagem até o ponto de enxertia e, posteriormente, até a muda pronta, à fim de verificar se este comportamento induzido pelo volume inicial do tubete se mantém após a repicagem. Pois, caso não se mantenha e as plantas cultivadas em recipientes menores venham a recuperar seu crescimento, isto poderia significar economia em substrato, tubete e espaço na casa de vegetação.
- O volume de recipiente influi de forma diferenciada sobre
o desenvolvimento vegetativo, dependendo da cultivar de porta-enxerto, onde o
limoeiro ‘Cravo’ e o Trifoliata apresentam um desenvolvimento vegetativo maior
em recipientes com volumes maiores (280 cm3) e o citrange ‘C13’
apresenta seu maior desenvolvimento em tubetes de 120 cm3.
GIRARDI, E.A.; MOURÃO FILHO, F.A.A.; GRAF, C.C.D.; OLIC, F.B. Growth of citrus nursery trees related to the container volume. In: INTERNATIONAL CONGRESS OF CITRUS NURSERYMEN, 6., 2001, Ribeirão Preto. Proceedings... Ribeirão Preto: [s.n.], 2001. p.316-319.
REZENDE, L.P.; AMARAL, A.M.; CARVALHO, S.A.;
SOUZA, M. Volume de substrato e superfosfato simples na formação do limoeiro
“cravo” em vasos. I. Efeitos no crescimento vegetativo. Laranja, v.16, n.2, p155-164, 1995.
SCHÄFER, G. Caracterização molecular, diagnóstico e avaliação de porta-enxertos na
citricultura gaúcha. 2000. 81 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
SCHMITZ, J.A.K.; SOUZA, P.V.D.; KOLLER, O.C.
Germinação e desenvolvimento de plântulas de Poncirus trifoliata (L.) Raf. cultivadas em três substratos. In: REUNIÃO TÉCNICA DE FRUTICULTURA, 5.,
1998, Veranópolis, RS. Anais...
Veranópolis: FEPAGRO, 1998. p.48-52.

Fig. 1 - Influência do volume do recipiente no percentual de germinação de porta-enxertos cítricos. *Não houve diferença estatística para a interação.




[1] Trabalho de pesquisa financiado com recursos do Ministério da Agricultura, CNPq e CAPES.
[2] Eng. Agr., Dr., Prof. Adjunto, Departamento de Horticultura e Silvicultura, Faculdade de Agronomia, UFRGS: Av. Bento Gonçalves, 7712, CEP 91501-970, Porto Alegre, RS. E-mail: pvdsouza@ufrgs.br. Bolsista CNPq.
[3] Eng. Agr., MSc., Departamento de Horticultura e Silvicultura, Faculdade de Agronomia, UFRGS. Bolsista CAPES.
[4] Eng. Agr., Bolsista ITI CNPq.
[5] Bolsistas CNPq e FAPERGS, respectivamente. Faculdade de agronomia, UFRGS.