Texto do Centro Acadêmico Livre de Economia da UFSC sobre o uso dos manuais no ensino de economia:
O Pensamento Manualesco no Ensino de Economia e seus
Riscos Para a Formação do Economista
Um processo de Reforma Curricular que seja histórico, isto é, identificado com uma determinada realidade social, e também político, ou seja, inserido em uma disputa entre a ocultação e a denúncia da dinâmica do desenvolvimento desta realidade, deve englobar aspectos da formação de um economista que a mera discussão a respeito da grade curricular e conteúdo programático não contempla.
De fato, o que se percebe em nosso – e o “nosso” já evidencia aqui uma profunda cisão entre os estudantes, que desde 2005 estão organizados em torno de uma proposta que vincule o ensino de Economia da UFSC ao real, e os professores, mais interessados em apenas uma redefinição conservadora do currículo, sem maiores transformações, não obstante a realidade alterar-se aos nossos olhos – atual processo de Reforma Curricular é uma elevação da consciência estudantil, que tem conseguido avançar de uma análise sobre o currículo até uma interpretação mais ampla e totalizante da Universidade, sua estrutura e forma de reprodução. Da distância do currículo em relação à realidade brasileira, chegou-se ao tema do colonialismo intelectual. A materialização deste em nossas salas de aula não poderia ser mais clara e objetiva que sob a forma dos manuais.
O uso dos manuais parece corresponder a um despreparo intelectual dos professores, como se fossem incapazes de apresentar aos estudantes algo minimamente atrativo sobre os autores ditos clássicos e imprescindíveis para o estudo da Economia. Além disso, é como se obedecesse a um silencioso pacto entre estudantes e professores que, não à vontade diante do desafio de estudar a realidade, fazem o mais cômodo: debruçam-se sobre modelos e neles constroem suas religiões, seus castelos de cartas.
Não é de causar surpresa, portanto, o enorme espaço conquistado pelos manuais no curso de Economia. Vestidos de uma roupagem moderna – pois em profunda sintonia com as últimas teorias e modelos econômicos – e dotados de uma forma interna de conteúdo absolutamente fragmentária e “fisicalista”, os manuais inseriram na formação do economista um suposto domínio de conceitos e ferramentas, ao mesmo tempo em que aproximaram estudantes e professores do centro dinâmico do saber científico: as indústrias do conhecimento de onde emanam estes alfarrábios. Ninguém melhor que a própria realidade para fazer ruir este castelo, já que o aparato analítico destes manuais não tem qualquer identificação com a realidade brasileira (a crise pela qual passa a profissão de economista é reflexo desta incapacidade teórica e prática) e a pretensa sintonia entre a origem destes manuais e o público colonial que o consome revela-se, em realidade, mais uma relação assentada na alienação da capacidade de pensamento crítico que um desenvolvimento teórico.
É por estas precisas razões que se associam, na consciência estudantil do processo de Reforma Curricular, elementos desta estrutura alienante do ensino de Economia na UFSC: as viagens à campo não só não existem, como não devem existir, pois representariam o maior dos contrapontos ao currículo obsoleto, a saber, o grito silencioso de uma realidade estranha aos manuais. É este antagonismo que a proposta dos professores não pretende superar.
O que os manuais abortam da formação do economista é aquilo de que ele mais necessita quando chamado a atuar profissionalmente: o pensamento transformador, a análise rigorosa da realidade, o entendimento profundo de sua economia nacional e da posição desta no mundo. Em suma, a inteligência (de fato, muitas são as passagens de manuais que destoam e duvidam desta inteligência e enumerá-las requereria um espaço muito maior).
Segundo o filósofo venezuelano Ludovico Silva, a função dos manuais é a de construir receitas que retirem do estudante a criatividade intelectual, o seu poder de pensar e alterar a economia. Caio Prado Jr., por sua vez, identifica nos manuais um dogmatismo científico e uma teorização às avessas: diante de um modelo estranho, a realidade é que passa a estar errada. No seio de ambas as interpretações está o fato de que a crítica aos manuais não se resume à sua forma: “o problema não é escrever manuais [...], o problema é ter um pensamento manualesco”, considerou Ludovico. Certamente, o uso manualesco do conhecimento corresponde a uma necessidade dos professores quando a teoria não condiz com a realidade e as práticas didáticas lhes são insuficientes! Superar o pensamento manualesco – que transgride o processo de ensino e aprendizagem desvincula a teoria da realidade, afasta a sala de aula do mercado de trabalho, infantiliza os estudantes e os aliena de sua condição pensante, aprofunda o colonialismo intelectual, pelo qual pagamos o altíssimo preço em termos de fuga de cérebros, de pagamentos de royalties e de baixíssimos níveis de registro de patentes – requer antes superação imediata dos manuais! E que seu lugar passe a ser ocupado pelos escritos originais, pois os estudantes têm a capacidade de entendê-los.
Desde o fim da Idade Média a Igreja não tem mais o monopólio sobre a bíblia. Em nosso curso de Economia, porém, Pindick’s, Blanchard’s e Krugman’s – apenas para citar os mais ordinários – continuam a gozar do monopólio sobre a obra de muitos que os antecederam. Seria engraçado (os guardiões da modernidade desempenhando uma prática medieval) se não fosse trágico: os estudantes deixando de pensar por si próprios, comprometendo o desenvolvimento científico e tecnológico de seu país.
É por esta realidade que a questão dos manuais tem de ser pensada muito mais seriamente. Não se trata somente de facilitar a análise (argumento principal dos manualescos, que acabam não percebendo que com isso desvalorizam sua aula e sua função enquanto professor); trata-se, na verdade, de inviabilizá-la, corrompê-la, desviá-la, ocultá-la do essencial: a formação de um economista crítico e competente.