Depois de quatro meses de trabalho, a Comissão de Graduação em Economia finalizou sua proposta de reforma curricular. A atual gestão da Comgrad, composta pelos professores Ronaldo Herrlein Jr., Sérgio Monteiro, Giacomo Balbinotto Neto, Ricardo Dathein e João Marcos Leão da Rocha e pelos estudantes André Coutinho Augustin e Bernardo Frederes Kramer Alcalde (Pato) começou a discussão sobre o novo currículo no início deste semestre em trabalhou em cima de uma proposta elaborada pela Comgrad anterior, que previa uma flexibilização do currículo. A idéia foi mantida e a proposta final da Comgrad prevê 33 disciplinas obrigatórias, enquanto o antigo tinha 41. Em compensação, as eletivas aumentaram de 7 para 11 e os créditos complementares de 6 para 12.
Por que mudar o currículo?
Após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1996, as diversas áreas de formação começaram a rediscutir suas diretrizes curriculares. No caso da Economia, o debate se deu principalmente nas instâncias da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Economia (ANGE), além do COFECON, da FENECON, da ANPEC e da SEP. As diversas entidades encaminharam suas sugestões à Câmara de Ensino Superior (CES) do Conselho Nacional de Educação (CNE) que estabeleceu as novas diretrizes curriculares de Economia, em substituição à antiga legislação sobre o assunto, de 1984 (Parecer 375/84 e Resolução 11/84). Foi então emitido o Parecer CNE/CES nº 380/2005 que deu origem à Resolução nº 7, de 29 de março de 2006. Além disso, todos os cursos de bacharelado do Brasil devem obedecer ao Parecer CNE/CES nº 184/2006, referente à carga horária mínima (no nosso caso, 3.000 horas). Toda essa legislação, além de uma explicação sobre ela pode ser encontrada no caderno da ANGE sobre as novas diretrizes.
Em 2007, a CES fez algumas alterações nas diretrizes, com o Parecer 95/2007 e a Resolução 04/2007. A principal mudança foi a obrigatoriedade de uma Monografia, enquanto a resolução anterior falava em um “trabalho de curso”, com “desejável formato final de um artigo”. O prazo dado para que as universidades se adaptem à nova legislação foi de dois anos (ou seja, julho de 2009).
Outro motivo para mudar o currículo é a divisão do curso em diurno e noturno a partir de 2010, prevista no projeto da UFRGS para o REUNI.
As novas diretrizes curriculares
Os cursos de Economia devem ter no mínimo 3.000 horas de aula. Dessas 50% são estipuladas pela Resolução 04/2007, com a seguinte distribuição:
- Os conteúdos de Formação Geral (Introdução à Economia, Ciências Sociais e Ciências, Políticas, Filosofia, Ética, Administração, Direito, Contabilidade, Matemática e Estatística) devem corresponder a, pelo menos, 10% da carga horária curso.
- Os conteúdos de Formação Teórico-quantitativa (Contabilidade Social, Microeconomia, Macroeconomia, Economia Política, Economia Internacional, Economia do Setor Público, Economia Monetária, Desenvolvimento Sócio-Econômico, Estatística Econômica e Econometria), 20% da carga horária.
- Os Conteúdos de Formação Histórica (História Econômica Geral, Formação Econômica do Brasil, Economia Brasileira Contemporânea e História do Pensamento Econômico), 10% da carga horária.
- E os conteúdos de Metodologia, Técnicas da Pesquisa em Economia e Trabalho de Curso, 10% da carga horária.
Os outros 50% da carga horária podem ser definidos por cada instituição de ensino. Além disso, as diretrizes permitem a inclusão de atividades complementares e estágio curricular supervisionado no currículo.
Cada curso deverá elaborar um Projeto Pedagógico, contendo:
I – concepção e objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às suas inserções institucional, política, geográfica e social;
II – condições objetivas de oferta e a vocação do curso;
III – cargas horárias das atividades didáticas e da integralização do curso;
IV – formas de realização da interdisciplinaridade;
V – modos de integração entre teoria e prática;
VI – formas de avaliação do ensino e da aprendizagem;
VII – modos da integração entre graduação e pós-graduação, quando houver;
VIII – incentivo à pesquisa, como necessário prolongamento da atividade de ensino e como instrumento para a iniciação científica;
IX – regulamentação das atividades relacionadas com trabalho de curso, como componente obrigatório a ser realizado sob a supervisão docente;
X – concepção e composição das atividades de estágio curricular supervisionado opcional, contendo suas diferentes formas e condições de realização, observado o respectivo regulamento; e
XI – concepção e composição das atividades complementares.
A elaboração do Projeto Pedagógico deverá seguir as seguintes exigências:
I – comprometimento com o estudo da realidade brasileira, sem prejuízo de uma sólida formação teórica, histórica e instrumental;
II – pluralismo metodológico, em coerência com o caráter plural das ciências econômicas formadas por correntes de pensamento e paradigmas diversos;
III – ênfase nas inter-relações dos fenômenos econômicos com o todo social em que se insere; e
IV – ênfase na formação de atitudes, do senso ético para o exercício profissional e para a responsabilidade social, indispensável ao exercício futuro da profissão.
As diretrizes prevêem ainda que o curso deverá proporcionar aos estudantes:
I – uma base cultural ampla, que possibilite o entendimento das questões econômicas no seu contexto histórico-social;
II – capacidade de tomada de decisões e de resolução de problemas numa realidade diversificada e em constante transformação;
III – capacidade analítica, visão crítica e competência para adquirir novos conhecimentos; e
IV – domínio das habilidades relativas à efetiva comunicação e expressão oral e escrita.
A reforma na UFRGS
No início de 2007 a Comissão de Graduação em Economia da UFRGS instituiu uma comissão para elaborar o novo currículo, sob a coordenação do professor Carlos Henrique Horn. Por motivos pessoais, ele teve que se afastar e foi substituído pelo prof. Sérgio Monteiro.
Naquele ano, o DAECA realizou diversas atividades relacionadas à reforma curricular, dentre as quais se destacou uma semana de discussão que contou com uma palestra do então presidente da ANGE, Rubens Sawaya, um debate sobre o currículo da UFRGS com os professores Gentil Corazza e Sabino Porto Jr. e uma assembléia de estudantes para definir as posições do DAECA sobre o currículo.
Desta primeira comissão, participaram os professores Sérgio Monteiro, Sabino Porto Jr., Luiz Paulo Nogueról e Julio César de Oliveira e os estudantes Juliana Camargo e André Coutinho Augustin. No fim do ano a comissão estava funcionando razoavelmente bem, mas vieram as férias de verão e tudo parou. Em 2008 e as coisas não andavam, até que em setembro foram feitas reuniões com os professores de cada área (história econômica e economia política, macro, micro, métodos quantitativos) para discutir o currículo. Sobre essas reuniões não podemos dizer muita coisa, pois não foi permitida a presença de nenhum estudante!
Depois disso, marcamos uma reunião com o prof. Sérgio Monteiro para apresentar as sugestões do DAECA para o novo currículo. Com as sugestões dos professores e dos estudantes, foi montada uma nova proposta, discutida em reuniões da Comgrad em que mais uma vez não foram convocados os representantes discentes.
REUNI
Um dos fatos que influenciou a mudança no currículo foi a entrada da UFRGS no Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o famoso REUNI. Para quem não conhece, é um polêmico programa do Ministério da Educação lançado em 2007 que prevê a expansão de vagas nas Instituições Federais de Ensino Superior. Cada universidade tem autonomia para criar seu plano de expansão, desde que cumpra algumas metas estipuladas pelo MEC, como a relação mínima de 18 alunos por professor (a relação na UFRGS antes do REUNI era de 19 alunos por professor).
Até 2012, a UFRGS criará 1532 vagas presenciais em cursos de graduação. Para isso está prevista a contratação de 410 professores e 450 servidores técnico-administrativos, além de investimentos em infra-estrutura. A universidade também se comprometeu a aumentar a taxa de conclusão para 80%, um número que nos parece difícil de se alcançar (a taxa anterior era de 65%).
Na FCE, o REUNI criará 10 vagas de Ciências Atuariais (com a contratação de 2 professores), 20 vagas de Relações internacionais (4 professores) e 10 vagas de Economia (9 professores). Já foram abertos os editais para dois professores de RI e os dois de Atuariais (embora o DCCA tenha destinado uma das vagas para contratar um contador, em vez de um atuário).
A principal mudança será na Economia. O curso vai ser dividido em noturno (50 vagas no 1º semestre e 50 no 2º) e diurno (50 vagas, apenas no 1º). Isso ocorrerá já no próximo vestibular, mas ainda não foi contratado nenhum dos 9 professores prometidos. Outra promessa que estamos esperando é a construção de um novo prédio (ver postagem anterior). Os recursos para construí-lo foram passados pelo MEC no final de 2007, mas por motivos burocráticos as obras ainda não começaram. Segundo o vice-diretor da FCE, prof. Carlos Horn, a licitação deve ser feita em breve e não há motivos para essa obra demorar mais de dois anos. Esperamos que ele esteja certo.
Em relação à criação do curso noturno, apoiamos a iniciativa. Esta é uma antiga reivindicação dos estudantes de Economia, que na sua maioria trabalham e não tem condições de realizar o curso em dois turnos.
A proposta da Comgrad
A partir de março, já sob coordenação do prof. Ronaldo Herrlein Júnior, a Comissão de Graduação entrou em um ritmo de trabalho intensivo, com a meta de finalizar o novo currículo até o final de junho. Foram em média duas reuniões por mês (no fim já estavam sendo feitas reuniões quase que semanais), sempre com a presença dos representantes discentes.
A proposta recebida pela Comgrad anterior tinha grandes equívocos. A primeira reivindicação do DAECA foi a volta de Introdução às Ciências, pois essa é uma área de grande importância para o economista e havia se tornado eletiva (junto com Introdução à Ciência Política). A idéia foi bem aceita pelos professores, e a disciplina tornou-se novamente obrigatória. A única crítica que ouvimos foi que os professores de Ciências Sociais costumam ser ruins. O engraçado é que ninguém propôs que Estatística saísse do currículo e nós sabemos que os professores que o Departamento de Estatística nos manda são bem piores que os de Sociologia.
Outro problema era a retirada de Estrutura e Interpretação de Balanços como obrigatória. Concordamos com a diminuição do conteúdo de Contabilidade de dois para um semestre. No entanto tiraram justamente a parte que o economista mais usa, e deixaram só os razonetes e princípios contábeis de Introdução à Contabilidade. Sugerimos então a criação de uma nova disciplina chamada Contabilidade e Análise de Balanços, a exemplo do que ocorre na USP, UNICAMP, UFRJ, UFSC, PUC-SP e PUC-Rio. Os professores de Economia gostaram, mas a idéia não foi bem recebida pelo chefe do Departamento de Contabilidade, prof. João Marcos, pois o DCCA não possuiria professores suficientes para criar uma nova disciplina, uma vez que as atuais são dadas junto com outros cursos e a nova demandaria turmas apenas para Economia.
Analisando as turmas dos semestres anteriores, vemos que não é bem assim que ocorre. Muito mais do que a falta de professores, é a falta de organização do DCCA que impede a criação de novas turmas, como foi mostrado no documento que encaminhamos à Comgrad. No fim, foi aceita nossa sugestão.
Em outros dois pontos apresentados pelo DAECA, não houve apoio dos professores: a manutenção de Economia Agrícola e Metodologia da Ciência como obrigatórias. Hoje Metodologia é uma disciplina pouco aproveitada pelos estudantes por dois motivos:
- é ofertada pelo Departamento de Sociologia, que normalmente destina professores substitutos sem a experiência necessária para lecioná-la;
- é uma disciplina do segundo semestre, etapa na qual o estudante médio ainda não possui a maturidade teórica necessária e muito menos interesse em estudar esse assunto. No entanto, com o passar do tempo, a maioria dos estudantes – e não apenas aqueles que desejam seguir carreira acadêmica – sentem falta desta formação metodológica, fundamental, por exemplo, para a elaboração do trabalho de conclusão.
Em uma das propostas iniciais da COMGRAD seria criada uma nova disciplina de Metodologia, oferecida pelo próprio Departamento de Economia, o que consideramos uma excelente idéia. No entanto, essa idéia foi abandonada, frustrando as expectativas dos estudantes e fugindo do que diz a Resolução nº 7, de 29 de março de 2006, do Conselho Nacional de Educação, que prevê o ensino de metodologia nos currículos de Economia.
Sobre Economia Agrícola, é ima disciplina que prepara o estudante à melhor compreensão da realidade econômica brasileira e, sobretudo, gaúcha. Um setor com tanta importância para nossa economia não pode ficar de fora do currículo. Além disso, consideramos essencial para a universidade a integração entre ensino de graduação, de pós-graduação, pesquisa e extensão. Portanto, uma faculdade que, há mais de quarenta anos, criou uma pós-graduação em Economia Rural e hoje conta com um grande número de professores realizando pesquisas na área, deve compartilhar esse conhecimento gerado com os estudantes de graduação.
Uma mudança que contou com nosso apoio foi a criação de três “eixos de formação“: Empresas e finanças, Políticas públicas e Teoria Econômica. O estudante que cursar oito disciplinas eletivas pertencentes ao mesmo eixo, terá isso constando no seu histórico escolar (pode-se optar por não realizar nenhum eixo). Também foi ampliado o rol de eletivas. Outras mudanças para melhor foram a nova resolução de créditos complementares e a flexibilização dos pré-requisitos.
Veja aqui a proposta final da Comgrad.
Quais disciplinas virariam eletivas pela proposta da Comgrad?
Introdução à Administração
Introdução à Ciência Política
Metodologia da Ciência
Instituições de Direito
Economia Agrícola
Economia Monetária II
Política e Planejamento Econômico
E agora?
O próximo passo para a aprovação do novo currículo é a discussão no Plenário do Departamento de Economia, que reúne todos os professores e nove representantes discentes. Semana passada foi feita a primeira reunião, para apresentar a proposta. Na ocasião o DAECA entregou uma carta aos professores com nossa opinião sobre o currículo. As próximas reuniões, para decidir as mudanças, estão marcadas para os dias 11 e 19 de agosto.
Quem tiver interesse em participar pode entrar em contato com o DAEA pelo e-mail daeca.ufrgs@gmail.com.