CRÍTICA DO SITE

  • Fernando Molica - Repórter da Rede Globo de Televisão e membro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo
  • Hélio Ademar Schuch - Prof. Dr. do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.
  • Marcelo Soares - Marcelo Soares (ex-colaborador do Transparência Brasil) está de blog novo "E você com isso?" O trabalho de Marcelo Soares contra a corrupção e a impunidade é conhecido e respeitado no Brasil e no exterior.


Algumas dicas de um colega mais velho

por Marcelo Soares

A professora Rosa Nívea pediu que eu escrevesse um texto para a revista Repórter, como uma espécie de ombudsman convidado. É uma honra.

Antes de mais nada, quero parabenizá-los. Há exatos dez anos eu tinha a idéia fixa de que o curso de jornalismo da UFRGS precisava ter uma publicação na Internet, onde os alunos pudessem publicar as reportagens feitas nas disciplinas de redação. Por algumas vezes eu sugeri a idéia à professora, que foi uma das primeiras almas no mundo do jornalismo a achar que eu tinha algum jeito na profissão. Mais tarde, ela foi a orientadora da minha monografia. Sou imensamente grato a ela por tudo isso – e agora ainda mais, com a adoção da idéia da revista eletrônica.

Imaginem o que era a Fabico há dez anos, quando eu fiz a cadeira de Redação 1. Lá na última sala do segundo andar, tínhamos máquinas de escrever. A maior parte delas inutilizadas. Independente da boa vontade dos professores, era impossível produzir nas condições de temperatura e pressão essenciais à prática do jornalismo. As máquinas só deram lugar ao laboratório de informática em 1998, sob a sombra do Provão. As faculdades que não tivessem uma estrutura minimamente atual corriam o risco de serem fechadas. Como num passe de mágica, surgiram os computadores.

Publicar é essencial para o aprendizado do jornalismo. Uma coisa é escrever para os amigos, para a professora ou para a gaveta. Outra coisa é escrever para o público em geral – necessariamente uma massa amorfa, que não te conhece e portanto pode e vai fazer juízos absurdos num piscar de olhos sobre o texto e quem o escreveu. Com alguma sorte, o texto pode cair na mão de um especialista no assunto, que pode mandar um e-mail mostrando ponto por ponto por que diabos o autor não entende absolutamente nada do assunto.

Com a permanente falta de recursos para as universidades públicas, porém, quando é que os alunos, curricularmente, publicariam alguma coisa? Lá no final do curso, fazendo uma ou duas edições do Três por Quatro no sétimo semestre e uma ou duas Sextantes no oitavo. É pouco, muito pouco. Até chegar lá, alguns já tinham conseguido estágio em algum lugar. Outros tinham simplesmente apertado o botão do tanto faz.

Aproveitem ao máximo essa oportunidade da disciplina de redação. Para ajudar, eu queria dividir com vocês algumas coisas que eu aprendi sobre jornalismo e reportagem ao longo desses dez anos que se passaram desde que a Rosa Nívea me chamou pra revisar a revista científica da Fabico.

1. "Jornalista que tem pauta não fica sem trabalho". O conselho é do professor Hélio Schuch, da UFSC. Nunca esqueci. Por dois anos, foi a operacionalização dessa frase que colocou o bife na mesa lá em casa. O mercado de trabalho é cada dia mais complicado e emprego é uma coisa rara. Há cinco anos não sei o que é ter carteira assinada, mas nunca fiquei sem trabalho. Trabalhos muito bons, aliás.

2. O computador transforma um bom jornalista num ótimo repórter. Mas não melhora um mau jornalista. Essa também não é minha – é do Elliot Jaspin, um dos primeiros repórteres a ganhar um Pulitzer com técnicas de reportagem com o auxílio do computador. Não pensem na Internet apenas como uma plataforma de publicação ou como uma tecnologia para se comunicar com as pessoas. Há uma riqueza incrível de informações na Internet. Bem usadas, elas podem ser a diferença entre uma matéria boazinha e uma grande matéria. O banco de dados do IBGE, por exemplo, é riquíssimo em informações sobre como vivem as pessoas dos mais de 5 mil municípios brasileiros. Procure conhecer e usar bem esses recursos. Mas preste muita atenção na próxima dica.

3. Matemática é um saco, mas é fundamental. Quando eu entrei na faculdade de jornalismo, meu primeiro alívio foi ter me livrado da bendita matemática. Com a prática, porém, a gente percebe quantos erros saem publicados pelo fato de os jornalistas não saberem matemática. Não sei se ainda tem, mas uma coisa legal pra me abrir a cabeça foi a disciplina de estatística, no segundo semestre. Muita gente achava chato. Pra mim, foi imensamente esclarecedor. Toda hora a gente precisa lidar com números. E os números contam muita coisa a quem sabe ouvi-los. Ainda não sei tão bem quanto gostaria, mas melhoro um pouco a cada ano. Seria muito mais fácil se eu tivesse prestado mais atenção lá no primeiro grau. Parece maluquice, mas é verdade: jornalista que sabe calcular percentagens ganha fama de inteligente. Procure aprender também a usar o Excel, que calcula e relaciona grandes massas de números.

4. Ouvir o outro lado não é favor; é parte fundamental da história. Muitas vezes a gente fica de saco cheio pra ouvir o outro lado. A gente pensa que o sujeito vai negar tudo, que não vai querer falar, que vai mentir... mas muitas vezes a parte saborosa da história está aí. Em 2004, uma equipe de repórteres de O Globo, coordenada pela editora Angelina Nunes, analisou declarações de bens de todos os políticos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Muitos enriqueceram bastante. Todos foram entrevistados. A explicação de uma deputada sobre seu enriquecimento foi hilária: "é que eu não bebo chopinho". Eles não teriam publicado isso se não tivessem ouvido o outro lado. Uma minha: fui com um colega na Folha, em 2000, procurar funcionários fantasmas na Assembléia Legislativa de São Paulo. Um deputado mantinha funcionários num escritório político no interior do Estado, onde ele tinha duas ambulâncias. A explicação dele: "Aquilo lá é um INPS do %$#*@, tem duas ambulâncias lá que passam o tempo inteiro baldeando doente pra São Paulo". Declaração gravada. Como a Folha é um jornal familiar, o texto saiu com este título: "Escritório é 'um INPS', diz deputado".

5. Leia jornais e revistas, muitos. Não se limite a ler os jornais locais. A imprensa gaúcha tem muito a melhorar ainda. Leia a Folha de S.Paulo, O Globo, o Correio Braziliense, o New York Times, o The Guardian. A Internet facilita muito isso. Observe como esses jornais tratam as pautas, como é o texto deles, como eles se organizam e são editados. Um exercício muito legal é o de decompor uma matéria. Quando leio uma reportagem interessante, a cada informação eu me pergunto: "como ele ficou sabendo disso?". Aprendo bastante com esse exercício. Pelo menos uma vez por mês dou um jeito de comprar um jornal ou uma revista importados pra ler no ônibus, no banheiro, na cama. Meus favoritos: New York Times (EUA), The Economist (Inglaterra), Financial Times (Inglaterra), El Pais (Espanha). Em São Paulo, dois jornais internacionais são publicados diariamente: International Herald Tribune (pertence ao NYT e é editado em Paris) e Corriere Della Sera (Itália). Sempre que sobra um tempo, pego um deles.

6. Procure tornar-se um especialista na área que for cobrir. A dica é do Marcelo Beraba, ombudsman da Folha. Segundo ele, o colunista Clóvis Rossi, experiente na cobertura de relações internacionais, procura conhecer o assunto tão bem quanto um diplomata do Itamaraty. Para isso, ele lê tudo o que pode sobre o assunto e entrevista os maiores especialistas da área que cobre. Essa é a diferença entre um ótimo jornalista e um repórter normal. Aliás: nesta profissão, não existe nada melhor do que a possibilidade de aprender com os maiores especialistas. Outro dia fui fazer uma matéria sobre políticas sociais. Entrevistei a professora Lena Lavinas, da UFRJ. É a maior especialista brasileira nesse assunto. Conversamos por mais de uma hora. Valeu-me por um semestre inteiro de aulas de economia. Obviamente, se eu fosse me especializar nessa área ainda seria muito pouco.

7. Junte as pecinhas do quebra-cabeça. Não tenha medo de procurar compreender um assunto até suas últimas conseqüências. Muitas vezes, em grandes casos de corrupção, surge tanta informação que a gente perde o rumo. Confie na sua própria inteligência: quando a gente não entende mais onde as coisas se encaixam, é porque a cobertura está errada. O que o repórter tem que levar ao leitor é a compreensão do assunto, e não a mera citação do assunto. Se essa preocupação fosse levada mais em conta na cobertura de assuntos importantes, como as eleições, haveria menos matérias declaratórias e mais reportagens fundamentadas. O que interessa a uma cobertura de eleição é ter uma idéia do que será o governo seguinte – não o adjetivo maldoso que um candidato impinge ao outro.

8. Pesquise, pesquise, pesquise. Pesquise muito sobre o assunto que vai cobrir. Procure saber tudo sobre o assunto antes de entrevistar alguém. Pode parecer que estou me repetindo, mas não estou. Entrevista é a técnica de apuração mais usada, mas é mal usada se não for fundamentada em pesquisa. Certa vez alguém foi entrevistar Ernesto Geisel, então presidente da Petrobrás. A primeira pergunta: "quantos barris de petróleo a Petrobrás produz por dia?" A resposta de Geisel: "se você não sabe nem uma informação básica assim, não vejo razão para, na condição de presidente da Petrobrás, conceder-lhe uma entrevista. Passe bem".

9. Olho nas fontes. Muitas vezes, quando um assunto nos cai no colo, a primeira pergunta que a gente faz aos colegas é: "quem é que fala sobre esse assunto?". Pergunta errada. Precisamos saber quem entende do assunto. A fonte famosa que fala todos os dias aos jornalistas sobre inflação geralmente não é a melhor fonte para falar sobre metas de inflação. Se você vai fazer matéria sobre urna eletrônica, a melhor fonte não é o presidente do TSE – um ministro, que conhece tudo de leis –, e sim o japonês que prepara o programa que conta os votos. Quando falar com eles, não deixe de fazer o que eu chamo de "a segunda pergunta". Preste atenção na resposta dele às suas perguntas. Entendeu o que ele disse? Entendeu tudo? Não precisa pedir pra ele explicar nem um pedacinho? Será que não interessa ao seu leitor um pouco mais de detalhes sobre o que ele disse? Preste muita atenção nas fontes.

10. O lead está morto, longa vida ao lead. A crítica mais comum ao lead é que ele é burocrático, burro, um formulário que a gente preenche. Mentira de preguiçoso. Quem tem informação e observa bem faz ótimos leads. Ainda não inventaram nada mais conciso. Para provar isso, eu pus outro dia na Wikipedia 20 exemplos de bons leads, que têm o quem, o quê, o como, o quando, o onde e o por quê mas são gostosos de ler. Boa leitura: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lead

É isso, pessoal. Qualquer coisa, entrem em contato. Fico de olho nas matérias de vocês.

Marcelo Soares é jornalista, coordenador dos projetos Deu no Jornal e Excelências, da Transparência Brasil. Teve diversas funções auxiliares no Correio do Povo, foi redator e repórter de política na Folha de S.Paulo, escreveu como freelancer para diversas publicações brasileiras e estrangeiras (CartaCapital, Expressão, Los Angeles Times) e foi fundador e gerente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Escreve diariamente no blog do Deu no Jornal: http://deunojornal.zip.net