Objetos para Ação


Montagem realizada no dia17 de maio de 2004.

O ar capturado é a matéria que se deixa modular. O que o aprisiona é um fino tecido com cores vibrantes. O ar, esse elemento sem corpo visível, deixa-se ver porque assume a configuração da forma que o contém, e o objeto que o captura torna-se inflado, mole. O objeto ergue-se repleto de ar, para em seguida cair pesado sobre o chão, que o acolhe e o achata. Engolindo o ar, ele arma-se, revela-se pleno, resiste, faz sua delicada oposição ao movimento do corpo para depois descer até o piso, e aí deixa que o seu prisioneiro escape, lentamente ele expira o ar que o mantém vivo. No chão, sem o ar que lhe empresta o volume, ele achata-se até ser apenas um plano de cor. Estendido, murcho, ele espera pelo seu parceiro, que continua, como sempre, em volta dele e de tudo mais.Cor plana deitada no chão.
O objeto, essa forma inerte de tecido, não tem ele mesmo a capacidade de capturar o ar que está em todo o espaço. Presença que não se deixa ver, mas que tudo ocupa. É o movimento do meu corpo que conecta ar e objeto. O corpo movimenta-se, desloca-se pelo espaço, desarruma o ar e agita a serenidade invisível de sua presença. O corpo sente o ar, todavia não o vê, respira, mas não o vê. O corpo enche-se de ar e, motivado pela vida que dele extrai, agita-se, desloca-se e leva consigo pelo espaço esse objeto vazio. Essa forma murcha engole a substância que a revela. Cheia de ar, a forma deixa-se ver por inteiro.
O corpo, assim como a forma manipulada, está sempre enchendo e esvaziando. O corpo está todo no espaço e é a partir dele que o espaço multiplica suas direções. O corpo, ligando essas duas naturezas, objeto e ar, desdobra cores e formas. Amalgamados, objeto, ar, corpo, movimento e espaço encontram-se no tempo propondo ritmos e durações.
Tantos olhares olham esses objetos e suas formas mutantes, para neles verem criaturas marinhas, balões de gás, reis, rainhas, serpente, dragão, farto vestido, capa, anêmona, bola, coelho, casa, casulo. Formas geométricas que o ar e o olho de quem vê distorce. O que os olhos vêem nesses volumes e que insiste em se desfazer? Formas breves que o corpo conduz pelo espaço. As formas nunca são as mesmas, por mais que o corpo movimente-se com precisão repetindo o mesmo gesto escolhido. É o olhar que dilata esses corpos e amplia suas formas para o espaço particular de quem olha.