Histórico

Em 1976, então aluna de graduação de Ciências Biomédicas da UNIFESP-EPM, iniciei estágio de iniciação científica com o Dr. Jorge Almeida Guimarães. Foi ele quem me apresentou, pela primeira vez, as sementes de Canavalia ensiformis

C.ensiformis plant C.ensiformis seeds

Feijão-de-porco, (jackbean em inglês), Canavalia ensiformis.

Entre maravilhada e horrorizada, observei as convulsões que o extrato aquoso dessas sementes produziam em camundongos. Meu projeto de pesquisa então tinha como foco isolar e caracterizar a toxina convulsivante dessas sementes. 

Em 1978, me formei Bacharel em Ciências Biomédicas e ganhei o Prêmio ABIFARMA, primeiro lugar na categoria universitária, com o trabalho “Toxina Convulsivante da Canavalia”.

Em 1980, já casada com o Jorge, mudamos de São Paulo para Niterói, para trabalhar na UFF.  Continuei estudando a toxina convulsivante da Canavalia, e em 1981, concluído o meu mestrado, batizei-a como Canatoxina, e publiquei o meu primeiro artigo científico (Carlini & Guimarães, 1981).

Link: http://dx.doi.org/10.1016/0041-0101(81)90104-5

Em meados de 1982, fui transferida para o Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ, onde permaneci até julho de 1997. No doutorado, defendido em 1985 sob a orientação do Jorge Guimarães e vinculada à UNIFESP,  descrevemos a capacidade da Canatoxina de induzir agregação de plaquetas e ativar a via da lipoxigenase (Carlini et al., 1985).  

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1987286/?tool=pubmed

A partir do meu doutorado, e iniciando a orientação de alunos de pós-graduação, o embrião do LAPROTOX começou a se desenvolver. Além de toxinas vegetais, também estudávamos toxinas protéicas de venenos de serpentes, sempre com ênfase nas relações estrutura-função.  Os meus 15 anos da UFRJ foram muito produtivos, e formaram uma base sólida para a minha carreira científica.  Guardo com muito carinho as lembranças dessa época, que me rendeu grandes amizades e colaboradores para toda a vida. 

casa do Armando

Churrasco na casa do Armando (IC, no centro, abaixo). Em cima, da esquerda para a direita: Lina Zingali (mestranda), (?), Ana Assreuy e Marina (colo), Christina Barja-Fidalgo (doutoranda) e Paulo, Dione (técnica), Grace (IC), Mônica (IC), Célia. No meio: Jamil Assreuy (doutorando), Sônia Ubatuba, Ricardo (marido da Grace) e Lívia (colo), Jorge e Fernando (colo). 1987.

Departamento de Bioquímica - ICB - 1985

Departamento de Bioquímica, ICB, Universidade Federal do Rio de janeiro (1985). De pé, da esquerda para a direita: D. Carminha(1), Dione (3, de vermelho), Sérgio Verjowski (4), Sônia Ubatuba (5), Hector Barrabin (10), Vera Lúcia (11), Helena Scofano (15), Leopoldo De Meis (17), Marilvia Petrevski (20), Jamil Assreuy (21), Seu Oscar (22), Jorge Guimarães (23), Thomas Maack (24), Célia Garcia (25) Elias Alves (26). Sentados: Martha Sorenson (1), Cida Ribeiro Vieira (2), Carlinhos (3), Mônica (4), Kátia Gondim (6), José Roberto Meyer (7), Célia (8, grávida do Fernando), Hatisaburo Masuda (9), Heloisa (11), Ana Assreuy (12), Raquel (13). 

O meu pós-doutorado, um período de crescimento tanto em termos pessoais como profissionais, foi realizado de out/1993 a nov/1995 com bolsa do CNPQ, no Department of Biochemistry da University of Arizona, em Tucson, AZ, nos Estados Unidos. Meu supervisor foi o Dr. Michael Wells, um dos esteios do Center of Insect Sciences da U-of-A, bioquímico renomado por suas pesquisas com o metabolismo energético dos insetos. 

Dr. Michael Wells

 

 

Dr. Michael Wells (1938-2006), Department of Biochemistry, University of Arizona, Tucson, AZ 

(foto: http://aedes.biosci.arizona.edu)

Nessa época aconteceram dois fatos importantes, que mudaram o rumo das nossas pesquisas com a Canatoxina.  O primeiro fato foi quando, um pouco antes da ida para Tucson, obtivemos a sequencia de aminoácidos de dois peptídeos trípticos da Canatoxina, e ambos tinham homologia com a urease de C. ensiformis.  Inicialmente pensei haver contaminação da Canatoxina com urease, e somente após infindáveis experimentos durante o pós-doutorado, eu me convenci que a Canatoxina é um isoforma da urease, e que as duas são proteínas diferentes.

A escolha do local para o meu pós-doutorado refletiu o segundo fato que mudou o rumo dos estudos com a Canatoxina: a descoberta das propriedades inseticidas das ureases.

Grace B. S. Barcellos

 

Grace B. S. Barcellos,   uma pessoa muito especial, marcou essa fase da minha vida.

 

 Grace B. S. Barcellos (1962-1995) com suas plantas de Canavalia ensiformis, na casa de vegetação da University of Arizona, Tucson, no verão de 1995.

 

Grace foi para Tucson na mesma época que eu, para um doutorado-sanduíche no mesmo departamento de Bioquímica da U-of-A, com planos de clonar o gene da Canatoxina.A Grace tinha um olhar mais para a planta, e se perguntava qual seria o papel fisiológico da Canatoxina numa época em que eu estava mais centrada nos efeitos farmacológicos da proteína em mamíferos. Ela vivenciou comigo, trabalhando junto na bancada, dividindo as dúvidas e as expectativas, toda a fase da descoberta que a Canatoxina é uma isoforma de urease.  Dividir essa viviência nos aproximou muito, mais que orientadora e aluna, e nos tornamos amigas e confidentes. 

Grace se foi, tragicamente e sem aviso, aos 33 anos, fulminada por um raio enquanto escalava montanhas em Utah, em agosto de 1995.  Deixou sua filha, Lívia, então com 8 anos. Deixou protocolos em branco, perguntas no ar. Deixou um enorme vazio, uma vida inacabada. Saudades, Grace, onde quer que você esteja !

De volta ao Brasil em novembro de 1995, decidimos sair do Rio de Janeiro. Queríamos mais qualidade de vida e segurança para nossos filhos, Fernando e Eduardo. Eu queria fazer um concurso público, e assegurar estabilidade como docente.  Em janeiro de 1997, fiz concurso para professor titular do Departamento de Biofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em julho de 1997, mudamos para Porto Alegre. E assim começava a atual fase gaúcha do Laprotox.