As práticas editoriais associadas aos periódicos científicos impressos e eletrônicos na contemporaneidade nos colocam diante de um gênero de publicação que circula em um espaço social singular – a comunidade científica, os pares – e que se configura inicialmente segundo estrutura e função surgidas no século XVII. Segundo Houghton (1975), os primeiros periódicos científicos – Journal des Sçavans e Philosophical Transaction – datam de 1665. Ambos contribuíram como modelos diferentes para a literatura científica: o primeiro influenciou o desenvolvimento das revistas dedicadas à ciência geral, sem comprometimento com uma área específica, e o segundo se tornou modelo das publicações das sociedades científicas, que apareceram em grande número na Europa, durante o século XVIII.

O periódico científico, no processo de comunicação da ciência, funciona como uma das instâncias de consagração. Ao atuar como um filtro seletivo, reproduzindo as sanções e exigências próprias do campo científico, confere valor às pesquisas e as situa no seu grau de originalidade em relação ao conhecimento já acumulado em determinada área do conhecimento. Diferentes autores corroboram que o modelo ideal de periódico é um instrumental qualitativo. Garante a memória da ciência, aponta seu grau de evolução, estabelece a propriedade intelectual, legitima novos campos de estudos e disciplinas, constitui-se em fonte para o início de novas pesquisas, dando visibilidade e prestígio aos pesquisadores entre um público altamente especializado, os seus pares.

Na medida em que o reconhecimento científico orienta a produção das revistas, os critérios de avaliação dessas publicações científicas ditam as metas a serem alcançadas pelas equipes editoriais. Enquanto os periódicos científicos existiram apenas no papel, a identificação de critérios para a avaliação e comparação de desempenho manteve a coerência das possibilidades de produção vista a partir de um único suporte. A criação dos formatos eletrônicos, no entanto, impulsionou a migração do impresso para o espaço on-line; diversos títulos ganharam versões híbridas (eletrônica e impressa) e outros tantos já nasceram na Internet, desafiando o estabelecimento de novos parâmetros de qualidade para esse tipo de publicação.

Com o objetivo de verificar os elementos editoriais e gráficos das revistas editadas pelas áreas de Ciências Humanas; Ciências Sociais Aplicadas; Lingüística, Letras e Artes, publicadas entre 2003 e 2004 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a pesquisa Os elementos comunicacionais dos periódicos científicos e a relação com os suportes impresso e on-line: estudo-piloto na UFRGS problematizou aspectos técnicos, semânticos e persuasivos relacionados à comunicação científica por meio de periódicos. Percebeu-se no conjunto de 23 títulos analisados o cenário contemporâneo deste tipo de publicação: a migração do suporte tradicional impresso para o eletrônico, sinalizando impasses e lacunas desta transição, assim como as novas estratégias de visibilidade do conhecimento.

O trabalho de pesquisa desenvolvido entre 2005 a 2007 levou em consideração que a avaliação de periódicos tem sido objeto de pesquisas desde a década de 60, envolvendo a busca de parâmetros para dimensionar a qualidade das informações registradas. Como ponto de partida, analisamos roteiros elaborados por pesquisadores que visaram estabelecer critérios para analisar os periódicos científicos, considerando o que estava consolidado no produto editorial pronto e publicado. Procuramos, contudo, enfatizar o outro pólo da produção editorial, ou seja, o planejamento, o estabelecimento de fluxos de edição, bem como a definição de estratégias de circulação. Entendemos que essa poderia ser uma contribuição singular dos estudos da Comunicação junto a um tema que vem recebendo atenção de pesquisadores vinculados majoritariamente ao campo das Ciências da Informação. As revistas são editadas por pesquisadores especialistas em seus campos, mas que muitas vezes não detêm o conhecimento dos processos de produção editorial. Portanto, as comissões podem encontrar nos roteiros que propomos a seguir – um voltado para o meio impresso e outro para o on-line – orientações a respeito dos diferentes aspectos que devem ser observados e sistematizados na edição de periódicos científicos, visando sua consolidação e qualificação.

Estamos em um momento de intensas e rápidas mudanças no âmbito da produção editorial, em particular daquelas associadas à comunicação científica. Entendemos que os itens reunidos e sistematizados nos roteiros propostos correspondem a demandas de um período histórico específico caracterizado pela crise do modelo clássico de produção, distribuição e consumo dos periódicos científicos. Esse processo passa pela inevitável migração do suporte tradicional impresso para o eletrônico, sinalizando mudanças tanto no mercado editorial como nas estratégias de visibilidade do conhecimento. Vejamos, então, as orientações direcionadas aos periódicos impressos e aquelas direcionadas aos eletrônicos. Enfatizamos nos roteiros três etapas fundamentais – o planejamento editorial, o fluxo editorial e a circulação – que visam assegurar a qualidade da produção de um periódico científico.

Mais informações sobre a pesquisa desenvolvida pode ser encontrada junto à publicações.

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