PSICO


Volume16 -- 1979 -- p 71-77

O INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA PUC. RS DE 1976-1978

 

Irmão Henrique justo(1976)

 

1978: efeméride importantíssima para o Instituto de Psicologia da PUC. RS, pois transcorre seu jubileu de prata. 25 anos na vida de uma instituição universitária não muito, mormente tratando-se de um curso então novo no país. Tendo presente as limitações de toda comparação, podemos dizer que nosso curso se encontra na adolescência, comparado com cursos similares de países mais adiantados que, em várias oportunidades, tive a felicidade de conhecer. Caracterizam-nos sentimentos de adolescente: justa euforia pelo que já conseguimos realizar em tão curto lapso de tempo; mas, do outro lado, talvez sem as perspectivas suficientemente amplas, sem as alternativas moderadamente seguras da adultez. Nosso Instituto adolescente, como todo adolescente, corre o perigo de fechar-se no narcisismo de sua presumida auto-suficiência. Acautelemo-nos sapientemente para que, no futuro, não necessitemos repetir com relação à Psicologia a lamúria de um velho: "Que pena de não nos defrontarmos com os problemas da vida aos 17 anos quando sabemos tudo!" Com o avançar dos anos, ficamos mais sábios e menos sabidos. Segundo a nossa colega Dra. Edela Lanzer Pereira de Souza, Ex-Presidente do Conselho Regional de Psicologia, a Psicologia, em nosso meio, encontrar-se-ia na 5 das oito idades de Erik Erikson. Ë um convite à modéstia e ao esforço!


Não vos falarei no punhado de Professores idealistas de Psicologia que, sob a orientação segura do psicólogo Relia Székely -- húngaro, discípulo criativo de Freud, acolhido pela Argentina - lançamos, a 30 de junho de 1953, os alicerces do curso pioneiro de formação de psicólogos dos três Estados sulinos. Modestos alicerces do atual amplo e complexo prédio intelectual do Instituto de Psicologia.
Tive, nos três últimos anos, a responsabilidade da direção 4este Instituto na qualidade de seu quarto Diretor.¹ [p.71]

transferido para. o Prédio 17, me coube, inicial- mente, a tarefa de organizar alguns aspectos da infra-estrutura material: sala dos professores, gabinetes para os três Departamentos e os professores de regime especial.
Notável iniciativa da gestão apterior foi aperfeiçoada, imprimindo periodicidade semestral a nossa revista PSICO, até então çom aparecimento intermitente. Mantém ela intercambio com cerca de 40 periódicos similares, nacionais e estrangeiros.
O espírito de pesquisa - no sentido amplo e estrito da palavra - recebeu forte impulso. Nós somos quase totalmente "satélites culturais" de outras nações..SÓ reduziremos gradativamente nossa dependência cultural no momento em que

1º confrontarmos, através de adequado controle, a validade de teorias, técnicas e instrumentos psicológicos importados com a nossa realidade; em geral, os aplicamos ingenuamente, como se polegada correspondesse a centímetro e milha a quilometro...

2º quando fizermos descobertas novas no vasto campo do psiquismo.

A recente criação do Laboratório de Psicofísica visa à incentivação do espírito de pesquisa.
Passou a época da "palpitologia". Até as intuições, muitas vezes geniais, mas sem uma mensuração sequer, como diz Raymund Cattel no livro "The Scientific Analysis of Personality" (Penguin Books, 1970, p. 14), mesmo as intuições de grandes vultos da Psicologia como janet, Freud, Adler, Jung, etc., sempre que possível, são submetidas ao crivo da verificação experimental. O psiquismo humano é o mais complexo dos organismos. Daí ser naturalmente a humildade a primeira característica do bom psicólogo, e não a onipotência, fruto da ignorância ou da meia cultura. O estudo continuado, a auto e hetero-observação metódica é outra característica do profissional responsável.
A mim me fez pensar muito uma manchete e um artigo de duas páginas da Folha da Tarde de 04 de agosto de 1977, com fotos de psiquiatras. O título rezava acusatoriamente: "Quatro psiquiatras, quatro soluções,, e o paciente é o mesmo." O psiquismo humano, sadio ou perturbado, é de incomensurável complexidade. E ilusória ingenuidade querer reduzir-lhe a riqueza a meia dúzia, a cem, a mil esquemas. O Amazonas não cabe no leito do riacho Ipiranga![p.72]

Rosenhahn, em experimentos de muita repercusão, evidenciou a dificuldade em diferenciar mentes sadias de insanas. (Apud Mackay, D., Psicologia Clínica, Zahar Ed,, Rio, 1977, p. 53.) Lança ele uma pergunta pungente após experimentos em que sadios eram confundidos com doentes e vice-versa: "Quantas pessoas sadias, mas não reconhecidas como tais, são inantidas em nossas instituições psiquiátricas?" (ld. ib.)
Novo convite à modéstia, à prudência.
Neste triênio de direção do Instituto, ampliamos o leque do currículo, a fim de oferecer aos estudantes preparação mais atualizada:
Reintroduzimos o Estágio de Psicopatologia, unindo teoria e
prática.
Introduzimos duas disciplinas importantes:

o Psicologia Institucional
o e Psicologia Organizacional,
assim como duas técnicas psicoterápicas de grupo:
o Psicodrama
o e Terapia Familiar.

Estas disciplinas e estas técnicas, além de revelarem abertura ao novo em Psicologia, atende a uma necessidade gritante de um país subdesenvolvido como o nosso, embora se fale eufemisticamente em país em desenvolvimento, que não e pode contentar com técnicas individuais, somente acessíveis à elite econômica. Limitar-se às técnicas individuais, ademais de denotar atraso cultural - pois gozam de ampla aceitação qos países culturalmente adiantados - revela falta de sensibilidade à necessidades da população modesta, que ainda constitui a grande massa em nosso país.
Mais duas técnicas psicoterápicas têm sido oferecidas: uma dentro do currículo normal e outra, já duas vezes, em época de férias:
Terapia centrada no Cliente (da linha humanista) e análise Transacional.
Esta diversificação, oembora lenta, é absolutamente indispensável. Assim como nem todas as doenças se curam com o mesmo remédio, assim nem todos os distúrbios psíquicos se remedeiam com uma só técnica, como já foi indiscutivelmente demonstrado pela experimentação cientifica. (Cf. por ex., Lazarus, A.A., Psicoterapia Personalista", interlivros, B. Horizonte, 1977, p. 216.)[p.73]

Terapia é fundamentalmente uma relação, em contato humano. Ora, como foi provado recentemente, em razão 4e "n" variáveis pessoais intervenientes do terapeuta ou do paciente ou cliente, ou de variáveis situacionais (como posição: sentada ou deitada; face à face ou em ângulo), esta relação pode não alcançar o grau necessário à ação terapêutica. Novos enfoques, coragem em checar pontos de vista tradicionais, recursos metodológicos mais aperfeiçoados, abalaram muitas noções e práticas consideradas, até há pouco tempo, conquistas mais ou menos definitivas. Além disso, cada dia se avolumam as provas no sentido de evidenciar que as técnicas serão exitosas na medida em que o psicólogo tiver certas características de personalidade.

Ciência não admite dogmatismos. Ciência não admite idolatria! "O ídolo não tolera a fé na libertação; escreveu no maravilhoso livro
"EU e TU" uma das glórias da cultura israelita, Martim Buber, cujo centenário de nascimento ora transcorre. Repitamos: "O ídolo não tolera a fé na libertação.' O ídolo agrilhoa; o ídolo enjaula; o ídolo fanatiza. Podemos aplicar a não Roucos estudiosos das grandes figuras da História da Psicologia o que Bernard Shaw disse dos seguidores de Karl Marx: ele "mereceria de seus discípulos algo melhor do que a idolatria". (apud "Marx: o julgamento da História", Melhoramentos, SP, 1975, p. 156.)

O fanatismo reduz o campo de visão, leva a repetições desgastantes, impede o progresso. "Patológico é o momento em que o indivíduo permanece preso à mesma estrutura, sem mudança e sem criação",, escreveu há pouco em seu livro "O Ser da Compreensão",,a psicóloga Monique Augras, da Fundação Getúlio Vargas. (1978, p. 12) Situação patológica idêntica se passa nas instituições: Não se renovando; seu organismo será vítima da necrose.

O Instituto de Psicologia da PUC não quer que as águas dos conhecimentos psicológicos se convertam num açude estagnado. Não:
deseja vê-los qual rio cristalino, de águas cantantes continuamente renovadas.

O espírito científico nos fornece um par de asas, melhor (comparação mais atual) nos faz subir num satélite e dar constantemente voltas ao mundo à cata dos progressos havidos em nossa especialidade.

Todos nos indignamos com a miopia dos intelectuais de Viena rejeitando, no final do século passado e no início da atual centúria, as novidades apresentadas por Freud. Não corremos o perigo de repetir,[p.74] oitenta anos depois, a mesma atitude de rejeição em face dos avanços atuais da Psicologia? Poderíamos, por algum tempo, represar os progressos da ciência: dentro de poucos anos, contudo, romper-se- iam as comportas para sermos vexamosamente levados de roldão pelas águas dos conhecimentos acumulados em outros centros. Querendo ou não: pós ajudamos a fazer História ou somos arrastados por ela.


Mas, prossigamos nossa revisão.

Ampliamos o SAP: Serviço de Atendimento Psicológico a pessoas de poucos recursos. Passou este centro a funcionar igualmente no turno da manhã e ao longo de todos os meses de férias escolares. Ademais, tornou-se centro de residência do Curso de Pós-Graduação em Psicologia e de um curso de especialização n Psicoterapia. Até a metade do ano, atuarão li cerca de 50 estagiários, residentes e candidatos à especialização. uma forma permanente de auxiliar pessoas de baixa renda. Este trabalho lembra-nos a grande figura do romancista-psicólogo que foi Tolstoi. Aristocrata, após a campanha contra guerrilheiros no Cáucaso e a Guerra da Criméia, experimentou violenta crise de consciência: poderia continuar sua vida de senhor feudal depois de haver contemplado a miséria e o sofrimento do povo? Instalou-se em lasnaia Poliana, onde fundou uma escola para os filhos dos camponeses, redigiu uma cartilha para eles, abrindo, assim, esperanças à pobreza. Morreu em viagem, em pequena estação ferroviária. O nosso originalíssimo Mário Quintana refere-se assim ao episódio:

"A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)"

As últimas palavras deste gigante da humanidade revelam comovedora preocupação pelos infelizes: "Mas os camponeses, como morrem os camponeses?"

Retornemos, porém, da Rússia czarista ao Instituto de Psicologia da PUC:

Realizamos com êxito as duas primeiras Semanas Internas de Psicologia, respectivamente em 77 e 78.

Quanto aos estágios, iniciamos a desenfatização da importância do relatório, deslocando-lhe o peso para a assistência direta aos estagiários quer nos próprios locais, quer nos Seminários. Despreocupados com uma tarefa que se convertera, ao longo dos anos, em verdadeiro[p.75] pesadelo para os finalistas, disporão eles, doravante, de mais horas e energia para seu aperfeiçoamento profissional prático.
A Psicologia passou a atuar na Reitoria e em duas secções do Hospital Universitário da PUC.
Empenhou-se a direção para que cinco psicólogos nossos prosseguissem os estudos em outros centros: uma das nossas professoras no Brasil e os quatro outros nos Estados Unidos - preocupada com o perigo da endogenia e a formação de um empobrecedor gheto científico.

Outro dos cuidados foi acentuar a democratização cio relacionamento entre direção os corpos docente e discente. Do habitual distanciamento, senão de oposição, entre direção, ,professores e alunos, especialmente do Diretório Acadêmico, passamos a uma atitude de mútuo respeito, de valorização recíproca, irmanados na tarefa da formação de bons psicólogos, nosso objetivo comum.

Jean-jacques Rousseau, falecido há duas centúrias exatamente, escreveu em sua obra "O Contrato Social" (Ed. Cultrix, SP., 1971, p. 21): "O homem nasceu livre, e em toda a parte se encontra sob ferros." A direção do Instituto de Psicologia está convicta ser possível transformar a escola de instituição manipulativa em instituição convivial, na nomenclatura de Ivan Illich, o autor de "Sociedade sem Escolas" (Ed. Vozes, 1973, p. 96 e ss.) Então, 'as ciências e as letras e as artes deixarão de ser meras guirlandas de flores para adornar cadeias de ferros a que os homens (leiamos: os alunos) estão pesos", no dizer de Rousseau em outra obra ("Discurso sobre as Ciências e as Artes", ib., p. 210.) Para isso, temos que deixar de temer a nossa própria liberdade e temos que aceitar a liberdade dos outros. Liberdade com responsabilidade, não há dúvida. Em vez de espécie de prisão segundo Illich - as escolas transformar-se-iam em jardins maravilhosos de flores, gramados e árvores, onde os estudiosos conviveriam numa sincera relação humana.

Na área dos cursos especiais, citarei somente alguns: dois dictados por Claude Van Reeth, das Universidades de Bruxelas e Paris, eminente especialista em Freud, sobre psicanálise e Psicoterapia Breve. Cursos sobre Jung e Carl Rogers - baseados em filmes (1976 e repetidos com êxito em 1977). Curso de Recuperação de Excepcionais, pelo diretor de um Instituto de Recuperação do sul da Alemanha, em colaboração com o Instituto Cultural Brasileiro-Alemão. 1 1977) Finalmente, palestra da mundialmente famosa psicóloga Zerka Moreno[p.76] sobre Psicodrama, em colaboração çom a sociedade de Psicodrama do RS.

Por que - perguntareis - esta enumeração de realizações ,e preocupações?, Vós, novéis psicólogos, na lufa-lufa dos estudos e dos estágios, quiçá não vos désseis conta dos continuados esforços da Direção, ,das coordenações dos Departamentos, de professores e do DAIP - pois o trabalho foi e será de equipe - para vos brindar a melhor preparação profissional possível dentro das nossas limitações pessoais e institucionais. Vossos pais, familiares e amigos aqui presentes - que acompanharam vossa luta de cinco ou mais anos - têm igualmente direito de saber de que o Instituto de Psicologia, longe de parar no tempo, é um curso dinâmico, com as antenas voltadas para o progresso, para a vida, pois é notória e, tantas vezes, justificada a acusação cje a escola estar defasada da realidade que a cerca. Nesta era do avião supersônico, não queremos voar folclórica ou ridiculamente com um modelo 1920, 30 ou 50, como sendo a última conquista da engenharia aero-espacial.

Como diretor do Instituto - cargo nada fácil, vos asseguro - não busco, não busquei a glória - "esse irrisório chocalho cheio de guisos e fitinhas coloridas", na expressão 4e Mário Quintana. Preocupa-me, preocupa-nos, a nós da equipe dirigente do Instituto de Psicologia e ao Diretório Acadêmico, a sólida preparação profissional dos futuros psicólogos. Que jamais se possa ler a respeito da nossa classe profissional a alarmante manchete de um dos jornais da capital na edição de um mês atrás exatamente: 23 de novembro (Folha da Tarde): "Almeida Machado declara que a maioria dos médicos é incapaz ou dependente."

Temos limitações, e muitas, a transpor. Mas, do fundo dos séculos nos ecoa a voz de aristóteles dizendo: "Para o pessimista, todo desafio é um problema; para o otimista, todo problema é um desafio."

juntos, enfrentaremos desafiadoramente nossas limitações.

E vós, novéis colegas, iniciai com humilde audácia a profissão. "Como todo jovem começa novamente a história da humanidade", nos ensina Martin Buber em seu livro "Worte an die jugend" (Palavras à juventude, Berlim, 1938, p. 5). Cada um de vós, de alguma maneira: positiva ou negativa, decidida ou vacilante, com brilhantismo ou mediocridade, marcará, doravante, a história da profissão de psicólogo no Estado, no Brasil.

Sede felizes! Deus vos acompanhei

1 Discurso pronunciado na solenidade da formatura de novos psicólogos: 23.12.78


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