PSICO

 


Volume 16-- 1988 -- p 40-45

 

REMEMORANDO...

Ruth Cabral

INTRODUÇÃO


Uma atividade qualquer não emana de um único campo de trabalho. Assim considero a função da psicologia escolar. Com este pressuposto, o que vou apresentar tem como objetivo retratar momentos importantes do exercício da Psicologia, no Rio Grande do Sul, desde seus primeiros ensaios, destacando, porém, seu papel nas instituições educacionais. Não vou fazer um relato puramente histórico, mas enfatizar fatos marcantes e pessoas que tiveram atuação destacada em cada evento

PRIMÓRDIOS DA PSICOLOGIA ESCOLAR

Década de 30.

No final da década dos 30 uma jovem recém-formada em escola complementar (antiga escola normal e hoje Instituto de Educação) foi nomeada para uma escola em zona rural, perto das bar-[p.40] rancas do rio Uruguai, fronteira com Santa Catarina. Ao chegar ao grupo escolar lhe coube uma classe de alfabetização com 52 crianças, 12 das quais não falavam português. O trabalho foi muito árduo e ela sentia-se bastante insegura de suas tarefas. No ano seguinte foi designada para a direção do grupo escolar. Foi então que resolveu vir a Porto Alegre para buscar orientação para o trabalho junto aos pais e crianças, buscando o Centro de Pesquisas e Orientação Educacional (CPOE), existente na época como órgão técnico da Secretaria da Educação e Cultura. Com Da. Marietinha Silva e Da. Graciema Pacheco obteve orientação segura sobre aspectos psicopedagógicos, sobre fatores físico-sociais que estariam envolvidos na aprendizagem e, mais do que tudo, apoio psicológico para manter- se ativa e diligente. Naquela época já se fazia psicologia escolar e se oferecia orientação psicológica. Quem o fazia? Que tipo de técnico? Ao que testemunhei eram professoras que haviam feito o curso complementar e, com muito estudo autodidata e alguns cursos de aperfeiçoamento fora do estado ou do país tinham alcançado um elevado nível de conhecimentos técnicos. O tempo foi passando e nossa professora foi, mediante concurso de entrâncias, transferida para outra zona do interior do estado, onde começou um novo mister - o de orientadora de educação elementar. Para tanto, veio a Porto Alegre e, junto com outras professoras, freqüentou cursos no CPOE. Nestes cursos fazia parte fundamental o estudo de psicologia evolutiva, psicologia escolar e social, entre outras disciplinas. Aí já estávamos nos idos da década de quarenta. Nesta época a psicologia no Rio Grande do Sul se fazia como atividade aplicada em educação, nas escolas normais e em algumas instituições para a educação de excepcionais. As pessoas que exerciam tal atividade tinham, em geral, feito curso em Belo Horizonte e sido alunos de Da. Helena Antipoff, que as orientava no estudo da psicologia evolutiva e as introduzia no conhecimento dos trabalhos de Piaget. No Instituto de Educação de Porto Alegre fazia-se um trabalho magnífico (1).

Década de quarenta.

Na década de quarenta houve um fato marcante - a criaçãq das faculdades de Pedagogia e Filosofia que foi procurada por nor-[p.41] malistas e alunos de outros cursos, já exercendo funções técnicas em algumas instituições educacionais ou de trabalho (2). Outro fato de relevância foi a criação do Curso de Administração e Orientaçâo, no Instituto de Educaçâo de Porto Alegre (1). Nestes três cursos havia um conjunto de disciplinas voltadas para vários enfoques psicológicos. A partir de então começarani a ser abertas oportunidades para o exercício da psicologia em instituições diversas.

Década de cinqüenta.

Podemos citar o Serviço de Orientação e Orientação Especial, cujo decreto de criação instituia 5 cargos de psicólogos. Nesta década foram também criados os serviços de psicologia no SENAI, SENAC. companhia Carris, DAER e VARIG nos quais teve papel principal o professor Nilo Maciel e laboraram muitos colegas, como Oiara Esteves, Malvina Rosat, Maria Caminha. Em (lia Ribeiro e Carlota Güntler (3). Outros dois trabalhos, mais dirigidos para a área clínica foram instituidos na década - o do Juiiado de Menores, no qual trabalhou o falecido colega Antônio Meira, e o Departamento de Psicologia Clínica iniciado na UFRGS(2).
Ao final da década de cinqüenta já tínhamos muitas pessoas trabalhando em psicologia e foi fundada a Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, que teve como primeiro presidente o colega Arthur de Matos Saldanha (2).

Década de sessenta.

Na década de sessenta foi criado um Curso de Aperfeiçoamento em Psicologia na PUCRS, quando se iniciou a formação especifica de psicólogos em nosso estado, uma vez que dos 24 meses iniciais evoluiu para um curso de três anos e para o atual curso de formação de psicólogos. Com a formação específica instituída ampliou-se o trabalho de psicologia e gradualmente foram sendo criados outros cursos, inclusive no interior do estado. Esta foi a época mais rica de trabalho dentro dos órgãos oficiais do estado. Na primeira metade da década aconteceu um fato interessante. A Assembléia[p.42] bléia de Deputados promulgou uma lei dando direito a que todo o funcionário público com curso superior pudesse ser enquadrado em cargo técnico condizente com tal nível de formação, Cerca de uns cem professores que haviam se formado em pedagogia requerem tal direito. Foi então que o decreto, chamado jocosamente de "trenzinho da alegria" os enquadrou como psicólogos e a SEC foi dotada de um grupo de excelentes profissionais que pensavam ser aproveitados como técnicos em educação e tiveram de fazer treinamento em serviço para poderem exercer suas funções em trabalhos de psicologia escolar (1). Também nesta época foram oficializados os cursos de formação de psicólogos e as pessoas que exerciam funções na área da psicologia puderam registrar-se no MEC, passando a obter carteira de identidade profissional que lhes dava direito legal para exercer funções específicas de psicólogo (4). A partir de então ampliou-se o serviço de.psicologia escolar nas escolas de 29 grau, onde podemos destacar o Instituto de Educação, o Colégio Parobé e o Ginásio Júlio de Castilhos (4). As escolas de primeiro grau ou primárias, como eram denominadas na época, eram atendidas através de técnicos do CPOE e SOE que dispunham de psicólogos com experiência em psico-pedagogia e da SEFAE que iniciou uma clínica para alunos com problemas emocionais (1). O atendimento no interior do Estado era precário, exceto nas cidades que dispunham de faculdade ou universidade ou de uma escola especial que tivesse de educador especializado. Santa Marip, por seu Instituto da Fala, criado pelo saudoso Dr. Reinaldo Coser, com a colaboração do Dr. Milton Sanchis, apresentava uma clínica médico-psicopedagógica. Caxias do Sul, através do Clube. de Saúde, atendido pelo Dr. Henrique Ordovás F9 e a Orientadora Enedi AIberti, oferecia recursos de psicopedagogia para atender crianças com problemas de aprendizagem (5).

Década de setenta.

Esta foi a época de regulamentação profissional, com a criação doConselho Federal de Psicologia, sendo nosso primeiro conselheiro o colega Arthur de Mattos Saldanha. Logo após foram instalados os Conselhos Regionais e o da 7 região, a nossa foi presidida inicialmente pelo colega Cícero Emidio Vaz (2).[p.43]
A profissão foi oficialmente regulamentada, mas o exercício funcional, o espaço a ocupar e o reconhecimento da enorme soma de prestação de serviços tem sido uma conquista que se prolonga até os dias de hoje. A década de setenta e após tem nos trazido crises e progressos. Crises de transformação na psicologia escolar quando ao ser reformada a estrutura da SEC foi instituída a descentralização dos serviços de psicologia escolar que passou para algumas escolas e delegacias de ensino. Ainda a interrupção de criação de novos cargos de psicólogo para suprir a demanda destes técnicos, foi outro problema. Esta carência de psicólogos nas escolas tem sido suprida com professores habilitados em psicologia, configurando um desvio de função nada vantajosos para os colegas. Progressos houve, com a criação de serviços de psicologia nas escolas particulares, fato que abriu espaços para novos trabalhos.

Década de oitenta-

Saliento a criação do Sindicato de Psicólogos que teve como primeira presidénte a colega Suely Brunstein. Esta tem sido uma década de esforços para transpor grandes dificuldades, mas também de progressos com a criação de novos cursos de mestrado, com o doutoramento de várias colegas em Estados do país e no exterior (6).
Crises temos tido- Não poderia ser diferente em face dos tem- pos atuais. O que nos resta fazer agora? Julgo que nossa tarefa é a de ocupar os espaços disponíveis, de cumprir as atividades do dia a dia da melhor forma possível, estudar e comunicar aos colegas os resultados de nossos esforços, prestigiar nossas entidades de classe e, principalmente, respeitar aqueles a quem tentamos ajudar. Esta é uma época que necessita de profunda reflexão sobre nossos valores, nossa conduta ética, nosso saber científico, nossa aspiração espiritual. Busquemos, pois, nossa meta de crescimento pessoal para contribuir da maneira mais adequada para que nossa profissão contribua socialmente para o progresso e adaptação pessoal-social de todos nós.[p.44]

 

FONTES DE REFERËNCIAS:

1. Experiência pessoal.
2. Entrevista com o psicólogo Artur de Manos Saldanha.
a Entrevista com o médico José Lacerda de Azevedo.
4 Entrevista com a psicóloga Nadir Saldanha da Rocha
5. Entrevista com a educadora Enedi Alberti.
6. Entrevista com a psicóloga Suely Brunstein.[p.45]

 


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