BOLETIM



 

REFLEXÕES PARA UMA FORMATURA OU
ESBOÇOS PARA UMA IDENTIDADE*

José Luiz Caon

Caminante, son tus huellas
El camino, y nada más,
Caminante, no hay caminos,
Se hace camino al andar.


(A. Machado)

 

(I)

Não chore ainda não.
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar.
Felicidade, aqui,
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar!

 

Minha formanda! Vou falar-te à moda do psicólogo, isto é, coloquialmente.

Hoje, começas a pertenecer ao quadro dos profissionais reconhecidos como psicólogos. Já eras psicóloga, mesmo antes de perteneceres à classe dos psicólogos. Sim! Pois um estudante de psicologia que assume o papel de psicólogo, deve ser considerado como se realmente fosse psicólogo, rezam nossos padrões de ética.

Psicólogo, de fato, é aquele que faz psicologia, tenha ou não tenha titulo de psicologia. Pertence à classe dos psicólogos, aquele que é reconhecido como psicólogo pelas leis e regulamentos jurídicos da Nação. Creio estar colocando claramente a questão: tu eras, és e serás psicóloga, por causa da prática da psicologia; e tu começas a ser psicóloga, por pertenceres à classe dos psicólogos. O suporte fático, que é a tua atividade como psicóloga, hoje, se reveste e se cobre com o titulo que legitimamente te é conferido.
Bem-vinda à minha classe, cara amiga. Sinto-me orgulhoso com a tua presença e com a tua chegada. Tenho certeza que teus[p.45] professores, supervisores, amigos e familiares se orgulham de ti. E eu te recomendo a todos, comunidade, profissionais e não profissionais da psicologia.
Quero ser o primeiro da classe dos psicólogos a te parabenizar, a te acolher e a te orien
o atretanto, com uma ressalva: somente no n me daqueles que vivem o primado do ser- psicólogo acima do fato do pertencer-a-uma- classe; e, somente, ainda, no nome daqueles que se esforçam por fazer mais ciência do que fortuna.
Recebo-te nesta classe nova, à qual quero bem e estimo, que está se organizando, apesar das muitas contradições internas e externas que está enfrentando e superando. Ela precisa de ti.
Vejo-te, pressurosa e insegura, entre tantos candidatos que, no final deste ano, buscam integrar-se nesta minha classe. Parece-me ouvir uma pergunta tua: - Há lugar para mim ainda? Sem dúvida, que há, minha amiga! O povo deste pais está precisando de mais psicólogos. Entretanto, confesso que não posso esconder a angústia que me causao-fato-dever tantos jovens entusiasmados, buscando a psicologia como profissão, e não encontrarem condições para receber uma formação mais adequada. Os institutos, principalmente, os particulares, sabendo que a safra é boa, redobram as turmas: o que é uma solução aparentemente louvável. Não redobram, entretanto, as condições: o que, evidentemente, não é de se louvar! E a tendência é de crescermos muito em quantidade: atualmente somos uma das nações que mais psicólogos têm, quase sempre condensados, nos grandes centros urbanos. E eu fico pensando: Tantos psicólogos, e tanta necessidade de psicólogos.. - E eu fico cismando: Até psicólogos podem ser feitos em série nos institutos.., mas consciências, não!

Seu padre toca o sino
Que é para todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer.

Quando olho para este curso novo, o caçula da Universidade, onde estiveste, durante cinco anos, salta-me aos olhos um fato: em 1973, tu disputaste uma vaga com quinze candidatos. Agora, cinco anos depois, uma vaga será disputada por vinte e sete candidatos. Esta procura bem evidencia o quanto o curso está sendo valorizado pelos jovens estudantes. Se me fosse pedido situar o Curso dentro do contexto da Universidade, ousaria empregar a expressão da lingua de SHAKESPEARE: The last but not the Ieast- O que vem em último lugar, mas não o de[p.46] menos importância, tanto para a nossa Universidade, como para a nossa Comunidade.
O Departamento de Psicologia está de parabéns. A Universidade está de parabéns. Teus amigos e familiares estão de parabéns. E, tu, minha amiga, muito mais. Es a prata da casa, as primicias e a recompensa de teu e do esforço de todos nós. Não somente preenches uma antiga lacuna, mas, em a preenchendo com o pioneirismo, coragem e perseverança, preenches este vazio que deixava nossa Universidade em desvantagem perante as outras universidades do Brasil.
Universidade! Sempre te chamaram Alma Mater. Mas os teus tempos são de via-crucis, minha mater dolorosa. Em 1925 SIGMUND FREUD definiu-te dizendo: "Universidade é um lugar onde se ensina a ciência acima de todas as diferenças religiosas e nacionais; onde se fazem investigações, onde se mostra aos homens até que limite compreendem o mundo que os rodeia até que ponto podem eles submetê-lo à sua ação". (1). Quem se aproximar de ti, minha Universidade, deveria ter estas intenções. Se alguém quiser te combater, que te combata com a força das idéias e não com a força que se emprega para reprimir e controlar o crime.
Senhores Ouvintes! E como diz nosso
Poeta-Cantor:

Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar.

II
Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Prá você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Prá quem quer cantar.

Dia da formatura é dia de anseios, sauda e também de alegrias. Falarei do que podem os teus anseios, minha amiga. Creio que muitos deles se resumem na resposta à pergunta: Que fazer como psicólogo?
Em primeiro lugar, o psicólogo que quiser se adentrar no mundo da psicologia, deve orientar-se no espaço, no tempo e na História. O psicólogo, é um "homo viator", por excelência. aquele que, além de se orientar, propõe-se a[p.46] tarefa de ajudar aos outros viajares a se orientarem. Mais do que qualquer um, deve ele saber dos pontos cardiais.
As referências básicas que servem de pontos carcliais, por enquanto, são FREUD e sua insuperada psicanálise; PIAGET e sua abrangente psicologia genética; as abordagens objetivas de PAVLOV, SKINNER € outros ao sistema nervoso central e ao comportamento. E um quarto ponto cardial que orienta o psicólogo, na sua caminhada, e dá sentido aos outros três é a sua própria história pessoa) inserida dentro da história e realidade do seu povo.
Iniciemos com FREUD. FREUD foi psicólogo sem ter pertencido á classe dos psicólogos oficiais. Pertencendo à classe médica, deixou de fazer medicina para criar e fazer a psicanálise, isto é, fazer psicologia. Pois, minha amiga, a psicanálise, mesmo quando feita por médico, não deixa de ser psicologia. Vou ler-te uma passagem do próprio autor da psicanálise, professor SIGMUND FREUD. Diz ele: "Com efeito, dei por encerrada a questão deque a psicanálise não é um ramo especializado da medicina, e, por minha parte, não concebo que seja possível deixar de reconhecê-lo. A psicanálise é uma parte da Psicologia, nem sequer da Psicologia Médica, no velho sentido do termo, nem da Psicologia dos processos mórbidos, senão simplesmente da Psicologia como tal. Não representa, certamente, a totalidade da psicologia, senão sua infra- estrutura, talvez todo o seu fundamento. A possibilidade de sua aplicação com fins médicos não deve induzir-se em erros, pois também a eletricidade e a radiologia encontraram aplicações na Medicina, não obstante a isto, a ciência a que ambas pertencem segue sendo a Fisica." 2). Reivindicar e situar a psicanálise dentro da psicologia é fazer como FREUD, é ser ortodoxo, legitimamente ortodoxo, é desatrelar a psicanálise de qualquer tentativa que lhe queira usurpar a originalidade, a integridade e toda a sua verdade. FREUD zelava adultamente pela sua criação. "Por outra parte", - continua, "tal argumento histórico (o fato de ter sido criada por um médico) é uma arma de dois gumes: seguindo-se o curso de sua evolução, poderíamos recordar a frieza, também a persistente animosidade com que a profissão médica tratou desde o inicio à psicanálise; disto se desprenderia que tão pouco hoje alguém tem direito a assumir prerrogativas sobre ela mesma. Embora, por minha parte, não admito tal implicação, tenho todavia fortes dúvidas sobre se a atual solicitude com que os médicos cortejam a psicanálise se embasa, desde o ponto de vista da teoria da libido, na primeira, ou na segunda das subfases de ABRAHAM; isto é, se se trata de uma tomada de posse com o propósito da destruiçao ou da preservação do projeto" (3).
Psicanálise também pode ser feita por médico, mas por ser médico, ao fazer psicanálise, o médico não está fazendo medicina, mas sim, psicologia. Não houve, não há nem haverá nenhuma varinha mágica que possa transformar a psicanálise em medicina. A tentativa de mistificar-lhe a natureza não reforçou a mentalidade popular de que quem busca o psicanalista é louco?

O fazer psicanálise dentro da classe médica, não faz dela medicina. Ela continua sendo psicologia. Perante confusões deste gênero, o humor do nosso imigrante alemão diverte ao dizer; pelo fato de gatinho nascer em forno, não nasce biscoito, mas gatinho mesmo.
Portanto o pertencer a uma classe não muda a natureza do psicanalista e da psicanálise feita por ele. Estará sempre fazendo psicologia, quer pertença à classe dos médicos, ou à dos psicólogos, ou a uma outra qualquer.
Portanto, se psicanálise é psicologia, e psicologia é ciência, e se a ninguém é vedado fazer ciência a não ser numa sociedade ou instituição obscurantista, é lógico que qualquer cidadão, e muito mais o psicólogo, pode aspirar legitimamente a fazer tste tipo de ciência, O que pode ficar restringido, e realmente o está, é o exercicio da psicanálise como técnica psicoterapêutica que, em nosso pais, é matéria de direito aplicado definido -
Em nosso contexto, portanto, um psicólogo que aspira à formação analitica coerentemente procurará somente aqueles psicanalistas que lhe permitam teorica e praticamente tal formação, isto é, total crescimento pessoal e profissional.
O próprio FREUD, sabendo das restrições que queiram impor ao exercício da psicanálise, em certa ocasião escreveu a seu amigo OSCAR PFISTER: "Não sei se compreendeu a relação secreta que existe entre (as minhas obras)
Psicanálise e Medicina e O Futuro de uma Ilusão. Na primeira, pretendo proteger a psicanálise contra os médicos, na outra, contra os padres. Eu quereria conferir-lhe, à psicanálise, um estatuto que ainda não existe, o estatuto de pastares de almas, seculares, os quais não teriam necessidade de ser médicos nem o direito de ser padres." (4).
Se FREUD é tão favorável a que a psicanálise seja situada dentro da psicologia, então como compreender a atitude de muitos psicólogos que não a aceitam? Tudo indicaria que a psicanálise tem tal brilho e poder de verdade, que ao invés de atrair os meus colegas psicólogos, mais os afusca e os espanta. Isto também ocorre com muitos médicos, sacerdotes e educadores.[p.47]

Entretanto, se superadas as tuas naturais resistências à formação analítica que são de ordem consciente e inconsciente, sociais e também financeiras, alguém ainda se atrever a te barrar as portas, fica de olho, minha amiga! É muito provável que as razões invocadas para te impedir tal passo não sejam nada psicanalíticas. E estas avessas razões, a própria psicanálise só até certo ponto conseguirá interpretar. Há quem, como LACAN, já tenha chamado a atenção para a ixnpostura de certas instituições psicanalíticas.
FREUD ainda era favorável a que a psicanálise se tornasse acessível às classes populares. Eis como ele escreve: "A experiência extraida do material policinico ensinará que modificações são necessárias para tornar acessível a terapia psicanalítica a setores populares mais amplos e adaptá-la às inteligências mais débeis".
(5).
Pelo que se vê, a ortodoxia freudiana pede que a psicanálise, ao contrário do que se divulga, permita acesso a profissionais de diferente formação e que ela se adapte a setores populares mais amplos. E há quem, como AICHHORNe BRUNO BETTELHEIM, já tenham feito com sucesso esta tentativa, junto a adolescentes e crianças institucionalizados.
A elitização e fechamento da psicanálise em pequenos conventiculos que mais fazem fortuna do que ciência, não passa de uma traição à causa freudiana, traição que se torna necessário denunciar.
E para encerrar este assunto, trago-te o nome de três psicanalistas mulheres, como ANNA FREUD, MELANIE KLEIN, e ARMINDA ABERASTURY, muito seguidas em nosso meio, das quais não posso dizer se foram psicólogas oficializadas, mas com toda certeza posso te dizer que nunca precisaram ser médicas.
Eu agora espero que os entusiasmados com a psicanálise, mas que ainda não venceram as resistências contra ela, não venham a passá-las, agora, contra mim...
JEAN PIAGET e sua abrangente psicologia genética é outro ponto cardial orientador. Este homem deu um avanço imponderável à psicologia. Não pertenceu a nenhum quadro oficial da psicologia. Ele mesmo afirmou: "É preciso, efetivamente, lembrar que jamais em toda a minha vida prestei um exame de psicologia, exceto no bacharelado, com a filosofia" (6). E, paradoxalmente, só aos oitenta anos adquire o título de doutor em psicologia!
Bem cedo, percebeu que uma criança de pouca idade não tem menos inteligência que outra mais crescida de doze ou treze anos. Ela tem uma inteligência diferente. Propôs-se o es-tudo deste fato por dois anos, que se prolongaram para mais do que 40 anos de trabalho profícuo e revolucionário que reorganizou toda a abordagem da inteligência e dos convencionais meios de avaliá-la, que, na sua grande maioria não passam de provas de rendimento, tipo tradicional prova de rendimento escolar.
Hoje, um psicólogo que se aproxima de uma criança, ou de um adolescente, sem empregar a abordagem psicanalítica e psicogenética, sem dúvida, está fazendo trabalho que deixa a desej ar.
PIAGET é um psicólogo do desenvolvimento, cuja abordagem aos processos cognitivos se aproxima à abordagem aos processos afetivos estudados pela psicanálise. Segundo ele, os processos congnitivos e os processos afetivos são as duas faces da mesma moeda. Uma face não é acausaL da outra. Uma correspondeàoutra.
Até pouco tempo, os psicólogos da psicologia experimental, manietados por urna tradição que ao invés de lhes ser asas, lhes era armadilha e impecilho, não levaram a sério o heterodoxo e o novo investigador, por causa de seu método clínico. E o que lhe era mais negado, agora, se torna o mais valorizado: seu método clínico, na pesquisa experimental, oportuniza fazer mil coisas com um só sujeito e não apenas uma só coisa com mil sujeitos. Este método leva o psicólogo a abandonar o estudo com animais em cativeiro e a substitui-los por sujeitos humanos, e a sub stituir o cativeiro por um ambiente livre. Desaparece, assim, também a perigosa atitude de transportar para o comportamento humano os princípios do comportamento animal,preso em cativeiro.
As consequências imediatas da postura piagetiana aparecem na educação de crianças e adolescentes, principalmente no que se refere à construção de conceitos lógicos, matemáticos, lingüísticos e científicos. Seu método ativo centra-se na ação do aluno respeitando os estágios evolutivos e na interação social com os colegas. Não mais alunos enfileirados, encaixotados uns atrás do outro, na sala de aula, mas, em círculos pequenos, interagindo, experimentando, confrontando, discutindo, comprovando ou rejeitando abertamente hipóteses. Não mais o estudante que é levado a aprender pela experiência do professor, mas o estudante que aprende com a sua própria experiência, co-experimentando com os colegas. Não o estudante que aprende ou decora respostas, mas o estudante que constrói estruturas mentais pelas quais entende o processo e é levado a ver todas as respostas possíveis. Ao adestramento do aluno pela escola, proÕe-se a construção de sujeitos epistêmicos que pensam e interagem.[p.48]

1'IAGL'l' não propõe pessimisticamente O fechamento da escola falida. Propõe a transformação desta escola falida. Pauta-se pela sabedoria latina que afirmava: Não scholae, sed vitae
Não aprendemos para a escola, mas Isto é, não se aprende - para a
sabatina, para a vida. Ao tomar esta postura sensata, rejuvesnece a escola. Nem a escola é feita para servir ao vestibular, mas para preparar o futuro, O vestibular criou os seus cursinhos, que adestram os alunos, isto é, fazem aquilo que a escola até nisso tem fracassado. Entretanto, corresponderá a um décimo dos jovens brasileiros aqueles que podem fazer vestibular? E um jovem preparado para um vestibular tem condições de ser selecionado? E se for feliz num ano, teria as mesmas condições no ano próximo e subsequente? Uma escola que se propõe a preparar uma mínima parcela de jovens para vencer um concurso e não os prepara para a vida já está muito bem morta. Por isto, hoje, presenciamos e deixamos os mortos enterrarem os seus mortos. Aqueles que sobrevivem com a educação, sabem que até os coveiros dela lucram com sua morte. Vivemos realmente em tempos em que as empresas da morte têm polpudos lucros.
Em 1972, PIAGET, coerente com sua posição de que os processos cogntivos correspondem aos processos afetivos, propõs aos membros da Sociedade de Psicanálise dos Estados Unidos, uma fusão da psicanálise com a psicologia geM.irs . .-li,nndn- acredito que estas questões particuiares relativas ao inconsciente cognitivo são paralelas às questões que levanta, em psicanálise, o funcionamento do inconsciente afetivo
estou persuadido, continua PIAGET, que chegará o dia em que a psicologia das funções congnitivas e a psicanálise serão obrigadas a se fundir numa teoria geral que melhorará as duas, corrigindo uma a outra, e é esse futuro que é conveniente prepararmos, mostrando desde agora as relações que podem existir entre as duas" (7). E. JAMES ANTHONY, que há vinte anos caricaturizava a abordagem de PIAGET, como sendo uma psicologia sem afetos,, neste ano de 1977, faz sua autocrítica, propõe-se a corrigir o infeliz epíteto e postula um caminho novo que a psicologia oferece ao psicólogo: o exame da inteligência e dos afetos e a relação estreita que existe entre eles,
E como são vistos PIAGET e FREUD em nossos Institutos e Departamentos de Psicologia? Não creio que algum deles sej a estudado sistemática e: suficientemente nos cursos de graduação. Cabe-te retomar e aprofundar o estudo da Psicanálise e da Psicologia Genética, participando de grupos de estudo e círculos que felizmente os há em número razoável em nossa capital. Mas que esta equipe de estudos não seja homogênea, formada somente de psicólogos. Que ela seja heterogênea, onde profissionais de diferente formação realizem a mesma tarefa, onde seja possível corrigir certos vícios adquiridos durante a graduação, onde, enfim, o enriquecimento pessoal e grupal seja maior, mais rápido e mais profundo

Meu pinho toca forte
Que é prá todo o mundo
Não fale da vida
Não fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar!

Um terceiro ponto cardial é a abordagem ao sistema nervoso central, principalmente quanto a seu aspecto evolutivo. Aos quatro anos de idade, o cérebro da criança alcançou noventa por cento do seu peso. A base r,eurofisiológica, está para o psicólogo, assim como as pilhas estão para a luz de lanterna. Que podes fazer como psicóloga perante um cérebro faminto, desnutrido, desmielinizado, imaturo e abandonado, ou desaferentado no dizer de DE AJURIAGUERRA, como o são os cérebro destas trezentas mil crianças de nosso Estado, das quais a FEREM está atendendo a duras penas somente a quarenta e uma mil? Que pode fazer um psicólogo perante estas crianças cuja maturação psiconeurológica global é de 3,4,5 e 6 anos? Será preciso primeiro buscar explicações à psicanálise ou à psicologia genética para compreender a conduta anti-social e marginalizada destas crianças? FAWLER DE MELLO, presidente e um dos fundadores da Fundação Nacional do Bem Estar do Menor, relata que a "CPI do menor... chegou àcon. clusão de que, pelo menos, aproximadamente quatorze milhões de menores, de zero a dezenove anos, estariam em vias de marginalização" (8). Entretanto, o pessoal técnico fala em vinte e cinco milhões... Creio que um psicólogo poderia contribuir na reabilitação destes menores, prestando atenção, preponderantemente ao aspecto da psicomotricidade destes menores, sem esquecer, evidentemente, os aspectos afetivos e cognitivos.
Observa que existe uma marginalização que a psicopatologia não considera. E fato que a doença mental margiliza o paciente; que as condutas anti- sociais marginalizam o infrator. Mas, sem dúvida, a doença mental e a criminalidade podem ser vistas como resíduos e processos passivos da marginalização. A marginalização da qual a psicopatologia não fala e à qual o presidente da FUNABEM se refere é produto e, ao mesmo tempo,processo ativo. É marginalização que gera marginalização. A doença mental e a criminalidade pouco têm de ver com esta marginalização, embora este tipo ativo de mar-[pg.49] ginalização sej a uma excelente matéria-prima da doença mental e da criminalidade.
Tu poderás discordar de mim por eu colocar tanto realce na maturação do sistema nervoso central. Eu te respondo que cérebros famintos, ou mutilados, estão em pior situação que as percepções emocionalmente escotomizadas - Que é mais grave, um ponto cego e reparável na tua experiência mental, ou um ponto cego nunca reparável na base fisiológica da tua mente? Recorda-te que o sistema nervoso central é o tecido nobre por excelência: uma célula morta, ou mutilada é insubstituível. Poderá haver urna sub stituiç&o funcional grosseira e aproximada, mas nunca uma reparação completa. E a estimulação pela psicomotricidade poderá acordar nas células remanescentes certas funções que de aI- guina forma realizam aquelas funções que irremediavelmente morreram com as células originais -
Realço a abordagem ao sistema nervoso central, porque em psicologia é praxe sadia seguir a lei de LOYD MORGAN, ou a lei da navalha de OCCAN, que diz: "Nenhuma atividade animal deve ser interpretada, em termos de processos psicológicos mais elevados, se puder ser razoalvelmente interpretada por processos mais iniciais na escala da evolução e desenvolvimento psicológico". (9).
E por falar em sistema nervoso central, tu verás logo que a clientela que te procura até 12 ou 15 anos, na sua grande maioria, traz comprometimentos psiconeurológicos - Que na tua equipe de formação permanente haja neurologistas do desenvolvimento do sistema nervoso central e que a psicoterapia pela psicomotricidade, ou como se diz, educação psicomotriz, seja uma área de teu interesse, principalmente quando lidares com crianças e com a educação no Ensino Fundamental, Supletivo
eMobral.
Nesta altura, quero te alertar para um fato que te pode passar desapercebido. O deficiente mental excepcional passou a ser tratado como uma vedete dos desavantajados. O enorme interesse da comunidade, atraido para este menor, está longe de ser o interesse pela criança de aprendizagem lenta que vive nos bairros e vilas, e é taxado de preguiçoso, indisciplinado, ou desinteressado,pelos adultos, pais ou professores. Onde estão as escolas maternais, jardins e pré-primários que tanto estimulam os pequeninos cérebros destas crianças de classes pobres pré-escolarmente abandonadas? Não adianta exigir escolarização somente entre os sete e quatorze anos, pois a intervenção escolar neste momento é tardia, muito tardia. Oxalá imitássemos neste ponto os países desenvolvidos!
E que pode fazer um psicólogo com as crianças do Ensino Fundamental? Este pais, há quarenta anos, com LOURENÇO FILHO foi um pioneiro no atendimento à criança das primeiras séries. Atual-mente, não se pode dizer que a criança pré-escolar, de primeira série ou de Ensino Fundamental, sela o principal interesse do estagiário, ou psicólogo escolar, a não ser excepcionalmente. E há Institutos que confundem psicologia escolar com orientação vocacional e profissional, tarefa que pode ser deixada aos orientadores vocacionais.
Digo-te que as primeiras séries do Ensino Fundamental devem ser de máximo interesse para o psicólogo. Lá se evidenciam os distúrbios da psicomotricidade, da linguagem e da lecto-escrita. Lá estão a usina e o olho do tufão que geram a clientela do MOBRAL, do Supletivo, do analfabetismo, da evasão e da marginalização escolar.
O outro ponto cardial que te orientará no teu trabalho como psicóloga é a tua história pessoal, mergulhada na história do teu povo. Tu estudaste numa universidade pública, nela estás te formando. A universidade ainda é mantida, em boa parte, pelos cofres públicos, isto é, pelo povo brasileiro, ricos e pobres. A tua formatura, na sua maior parte, é um presente do povo brasileiro, destes cento e dez milhões de simpáticos fãs de samba, futebol e carnaval. Eles podem esperar de ti alguma retribuição.
Leva a este belo, bom e generoso povo, os conhecimentos que adquiriste. Mostra-lhe que és capaz de ajudá-lo como psicóloga. Não sejas dos que escondem o jogo, iludidos na sua fantasia de estarem escondendo um jogo que não têm. E quando se esconde algo que não se roubou, alguma coisa não deve estar muito bem. O povo, ao conhecer psicologia, não fará mau uso dela, podes me crer. Aqui, vale recordar, refrescando a memória, aquilo que DOM HELDER CAMARA lançava emrostoaos paises desenvolvidos, quando estes negavam aos paises subdesenvolvidos o direito de explorar a energia nuclear, pois estes podiam fazer mau uso dela, diziam aqueles. Mas quem foi que pulverizou hediondamente Hiroshima e Nagazaki? Certamente, não um país subdesenvolvido. Não é o povo que fará mau uso da psicologia, mas os charlatões, os mal intencionados e os prepotentes. Um povo só poderá se desenredar da influência dos charlatões da psicologia, dos mal intencionados e dos prepotentes quando puder ser um povo psicologicamente bem informado. Tarefa do psicólogo para com o povo é esclarecê-lo em relação á psicologia. E é também aprender com ele. E por que não? Aprender com o povo, que tanta psicologia sabe, sem saber que a sabe. Escreve, pois, publica, participa, dá palestras, conversa com crianças, jovens, adultos e anciãos sobre psicologja. Populariza a psicologia com o cuidado sadio de não vulgarizá-la ou banalizá-la. É uma das muitas formas de retribuir ao povo o presente que ele te deu financiando boa parte de tua formação.
Entre o dar e o receber, passa-se um fenômeno de duplo aspecto que depende da natureza do que é[p.50]