Na Academia Paulista de Psicologia
Gomes, W. B. (2005).
Museu Virtual da Psicologia no Brasil
MuseuPSI
Senhores Acadêmicos
Academia é um dos signos que compõe este intrincado e extraordinário sistema de linguagem. Os signos estilizam nossos gestos, especificam nossos intentos e preservam nossa memória. Signos são como penas esvoaçantes que enchem nossos olhos de cores e nossas vidas de significados. Mas eles são incertos, erradios, fugidios. Alguns passam, outros ficam mas há aqueles que permanecem para servir a rotina de cada dia, afirmar referencias culturais, tirar o sossego ou, melhor, trazer plenitude e dignidade. Academia é um destes signos que permanece, designando o lugar do exercício físico, seu primeiro sentido, e o lugar do exercício intelectual, sua derivação metonímica. O termo Academia, como sabemos, vindo de um herói mitológico e tendo como sentido o agir independentemente, deu nome à escola de Platão, cujos ensinos inspiram a todos nós. Em um sentido ou outro, o termo aponta para a plenitude da capacidade física e da capacidade intelectual, um incremento de arte, ciência e esporte: o tradicional mente sana corpore sano
Enquanto monumento ao intelecto, o que se pode esperar de uma academia? Para responder a essa pergunta temos que resolver três paradoxos. O primeiro pergunta por que o trabalho pioneiro dos fundadores e os feitos da nossa arte não vinha sendo propriamente reconhecido, não seriam auto-evidentes? O segundo questiona se a iniciativa de reconhecer não se reverte em auto-homenagem aos proponentes de tal ação? O Terceiro quer saber como reconhecer sem se auto-homenagear e como homenagear sem ser reconhecido? Com efeito, nós estamos diante de uma legítima situação de ambigüidade e temos a nossa frente um sério problema retórico a ser resolvido.
Nossa relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo se apresenta em sentidos que se constituem em esforços de maior ou menor sucesso à interpretação de ambigüidades. Nossas relações são ambíguas, mas é na ambigüidade que reside o mistério, a surpresa, o encanto e, sobretudo, a possibilidade de rever sentidos. Somos bem sucedidos na decifração de sentidos quando damos ao mundo o que é do mundo, ao outro o que é do outro, a nós o que por direito nos pertence. No entender de Merleau-Ponty esta é a abertura a experiência. O argumento não extingue a ambigüidade, mas apresenta-se como uma boa ambigüidade por se instituir como retórica ética.
Ao contrário, quando não nos atentamos as sutilezas das nossas relações e deturpamos nossos sentidos caímos na má ambigüidade e nosso argumento não se transforma numa ética retórica. No entender de Sócrates este foi o grande equívoco dos sofistas.
Em sua retórica, a Academia se apresenta e se justifica na web com um argumento que nesta análise é reiterado do seguinte modo:
O cultivo da psicologia alcançara em nosso meio considerável importância e, a exemplo do que é verificado em outras áreas de conhecimento, julgou ser chegado o momento de se fundar uma Academia, tendo entre os seus objetivos a importante finalidade de preservar a memória.
Preservar qual memória? Neste ponto da análise somos obrigados a reduzir o espectro do entendimento e nos fixar na sua base de sustentação: as quarenta cadeiras e os quarenta patronos que as identificam. A ambigüidade assume maiores proporções quando se pergunta quais os patronos e quais os ocupantes das cadeiras. Temos então o problema da retórica e da ética. Uma possibilidade é nos deixar levar pelo equívoco das más escolhas e construirmos uma ética retórica, a ética que nos convém e que mostra o que nós queremos mostrar. Outra possibilidade é buscarmos a história para fazer justiça aos que nos precederam, abrindo os caminhos por onde hoje trilhamos. Um importante subsídio para a segunda possibilidade está nos projetos desenvolvidos pela Academia, dos quais eu destaco o projeto "O legado da psicologia para o desenvolvimento humano". Stanovich, um pesquisador e professor de uma universidade canadense, disse que uma das ciências mais populares mas paradoxalmente menos conhecida é justamente a ciência da psicologia.
Estamos agora em condições de interpretar que os desafios encontrados por este grupo de valorosos colegas que se dispuseram a propor e a consolidar esta Academia foram encaminhados com a dignidade da retórica ética. A Academia é hoje um monumento em defesa da boa ambigüidade, o reconhecimento do esforço fundador dos nossos pioneiros, e a perspicácia e perseverança daqueles que trabalham na manutenção e no avanço deste ofício.
A breve análise é um pleito de louvor a iniciativa e a gestão desta Academia e expressa o meu contentamento e enlevo diante do honroso convite para a filiação como membro correspondente. Ao buscar um correspondente no Rio Grande do Sul, reconhecido por espalhar gaúchos por todo o Brasil, principalmente pelas amplas e férteis regiões do oeste e extremo norte, a Academia encontrou um brasileiro que se tornou gaúcho depois de muitas andanças por este país.
Nascido no Estado do Rio, encontrei a alma matter no Recife de Pernambuco, nas duas universidades em que estudei, a Católica e a Federal, instituições que tiveram o privilégio de contar no seu quadro docente com a participação qualificada do nosso saudoso colega e membro correspondente desta Academia, Prof. Paulo da Silveira Rosas. Em São Paulo consolidei-me como profissional e como professor universitário na cidade de Bauru, primeiro trabalhando em um serviço de psicologia organizado pelo acadêmico Waldecy Miranda, e depois lecionando e pesquisando na Fundação Educacional atual UNESP-Bauru, sobre a sábia orientação do Prof. Geraldo José de Paiva, um laureado desta Academia. A acolhida pós-doutorado foi no Rio Grande do Sul onde encontrei o Prof. Claudio Hutz na banca do concurso para a Universidade Federal de Santa Maria. É minha impressão que o Prof. Hutz não só entendeu que as minhas provas eram boas mas que estava diante de um bom rapaz. Pois agilizou minha transferência para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e me apresentou a irmã Mara Hutz, uma destaca cientista no campo de genética humana que este ano está celebrando o número mágico de 100 artigos publicados em revistas internacionais e com quem tenho a alegria de estar casado a 20 anos.
Como membro correspondente, quero neste discurso inaugural, justificar o meu novo ofício dizendo algumas palavras sobre a psicologia que encontrei no Rio Grande do Sul. Durante anos o Rio Grande do Sul foi uma terra de disputa entre portugueses e espanhóis, dando origem a uma linguagem e a uma cultura peculiar expressas na fala e nos modos gaúchos. Por ter permanecido ao lado de Dom Pedro II na Guerra dos Farrapos, Porto Alegre, a capital, foi reconhecida como uma cidade leal e valorosa, recebendo em troca o apoio necessário ao seu desenvolvimento urbanístico, inspirado em Buenos Aires e Montevidéu, e ao desenvolvimento intelectual inspirado no ideal positivista.
Impressionou-me na história do Rio Grande do Sul o curto espaço de tempo decorrido entre a criação da Escola Normal em 1869 e a fundação da primeira faculdade, Engenharia, em 1895. Três anos depois, inaugurava a terceira Faculdade de Medicina do Brasil. No nascer do século XX, Porto Alegre já contava com quatro faculdades: Engenharia, Farmácia, Medicina e Direito. A formação intelectual de Porto Alegre prosperou no embate entre religiosos e positivistas, e nestes embates estavam sendo lançadas às bases para o recebimento de uma nova ciência, a psicologia. Os positivistas embora contrários ao ensino superior público souberam criar modos de repassarem verba estatal a corporações dispostas fundar faculdades. Os religiosos, católicos e metodistas, organizavam escolas e juravam que o ensino e cultivo das humanidades era uma responsabilidade deles e de mais ninguém.
Coube a escola normal a introdução dos ensinamentos da nova ciência em seus ensinamentos, aqui aportados em grande parte por influência das recém criadas instituições mantidas por evangélicos norte-americanos. O próprio patrono Lourenço Filho foi atraído para a psicologia pelo acervo de livros psicológicos disponíveis na biblioteca de uma instituição metodista de Piracicaba. Na Escola Normal de Porto Alegre, temas de psicologia estavam incluídos na disciplina de Educação Física, Intelectual e Moral em 1906, o termo já fazia parte o nome de uma disciplina em 1923, Pedagogia, Psicologia e Direito Pátrio, alcança o status de disciplina autônoma em 1935, estabelecendo os gabinetes de psicologia na década de 1940. É muito possível que ensinamentos de psicologia estivessem presentes antes de 1906, mas não nos foi possível ainda encontrar a documentação (Lhullier e Gomes). Uma das primeiras iniciativas para o estabelecimento da pesquisa em psicologia no Rio Grande do Sul veio da Secretaria da Educação por meio dos Centros de Estudo e Pesquisas Educacionais, fato reconhecido por Lourenço Filho em seu clássico texto de 1955.
No embate para a criação da Faculdade de Filosofia, os religiosos venceram os positivistas, e colocaram o Prof. Oscar Machado (1903-1984), um graduado da Southern Methodist University, como primeiro professor da disciplina de psicologia para o curso de filosofia. Machado trazia idéias funcionalistas e behavioristas não muito apreciadas pelos alunos, sendo em seguida foi ultrapassado pela psicanálise e o carisma de Décio de Souza (1907-1970). Souza havia estudado na Universidade de Chicago, na Universidade de Colúmbia, e no Instituto de Psicanálise de Nova Iorque. A disciplina de Souza produziu entre os alunos um impacto tão surpreendente que pode ser considerada como a pedra angular para da profissionalização em psicologia no Rio Grande do Sul. Além de psicanálise, foi um grande incentivador das medidas psicológicas, do psicodiagnóstico, das técnicas projetivas, e do estudo de psicopatologia, criando ainda na década de 1940, estágios de psicopatologia para os alunos da disciplina de psicologia, uma prática que acompanharia o desenvolvimento da formação no Estado.
O pioneiro da profissão no Rio Grande do Sul foi Nilo Maciel (1920-1993), conhecido como o criador de vários serviços de psicologia em grandes empresas e instituições públicas como o Departamento Estadual de Estradas e Rodagens, a Companhia Carris de Porto Alegre e a VARIG. Isto nas décadas de 1940 e 50. Para analisar com cuidado as funções de motorneiro e aviador, Maciel se deu o trabalho de aprender a conduzir bondes e a pilotar aviões. Conduzir bondes foi um tanto bucólico, a não ser por alguma variação nas paisagens urbanas. Com o avião a emoção foi mais forte, pois foram necessárias duas aterrissagens de emergência, um nos campos de cima de serra, outro nas charqueadas de Rio Grande. Depois dessas, foi impedido de voar, com justiça, por sua esposa.
O Curso de Filosofia da UFRGS foi o primeiro formador de psicólogos no Rio Grande do Sul, tarefa em seguida assumida pela Pontifícia Universidade Católica, dos irmãos maristas, com a criação de um Curso de Psicologia em nível de especialização, em 1953. Note-se que na mesma época em que estavam sendo criados os primeiros cursos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1959 é organizada a Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, uma entidade que participou ativamente do movimento para o reconhecimento da profissão e para a fundação dos Conselhos. A Sociedade continua em atividades com um expressivo corpo de associados, ocupando espaçosa e bem montada sede no charmoso bairro da Auxiliadora em Porto Alegre.
Nesta mesma década de 1950, Irmão Henrique Justo traduzia e adaptava para o português uma bateria de testes psicológicos obtidos junto a uma universidade lassalista canadense. Os testes foram muito utilizados nos Estado. No entanto, sua contribuição mais marcante foi trazer para o Brasil o Teste das Pirâmides das Cores de Max Pfister, um trabalho conjunto com um patrono desta academia, cadeira 16, Theodorus van Kolck (Justo & van Kolck, 1960).
Paralelamente, ocorria no Rio Grande do Sul um importante movimento entre psiquiatras na direção aos ensinamentos de Freud. Já nos anos 1920, o ginecologista Martins Gomes, proferia palestras sobre psicanálise para alunos do curso de medicina. Na década seguinte Dyonélio Machado aplicava noções psicanalíticas à clinica psiquiátrica e traduzia para o português o livro Elementos de Psicanálise de Edoardo Weis, primeira obra sobre o tema publicado no Rio Grande do Sul. Nesta mesma época, conteúdos psicanalíticos eram introduzidos na Cátedra de Medicina Legal da Faculdade de Medicina por Celestino Prunes. Nos anos 1940, a psicanálise vai se tornando a força dominante no ensino de psiquiatria sob a orientação de Décio de Souza e de Mario Martins. Martins acabava de regressar de Buenos Aires, como o primeiro psiquiatra latino-americano a se tornar analista didata (Gageiro, 2001). Em 1961 o grupo de estudos em psicanálise organizado em torno de Mário Martins foi reconhecido pela International Psychoanalytical Association e transformado em Sociedade de Psicanalítica de Porto Alegre, por indicação da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. A psicanálise havia se tornado uma força hegemônica no Rio Grande do Sul que por sua vez se tornou um grande centro na formação de analistas. Por sua vez, a psicologia que surgia no Estado era fortemente influenciada pelas idéias da psicanálise.
No mesmo ano do reconhecimento da profissão, 1962, a PUCRS dá início ao seu curso de graduação, um dos primeiros a ser organizado no país. As atividades de pós-graduação stricto sensu tiveram início em 1972, tanto na PUCRS, com o Curso de Mestrado em Psicologia Aplicada sob a liderança de Pedro Finkler quanto na UFRGS, com o Programa de Pós-Graduação em Educação, com uma forte área de concentração em Psicologia Educacional onde se destacou a psicóloga e pesquisadora Juracy C. Marques. Para enfatizar a atualização das iniciativas gaúchas, basta lembrar que o primeiro programa de pós-graduação stricto sensu foi criado na PUCRJ em 1966, seguido pelos programas organizados pela USP em 1970. A terceira leva de programas surgirá justamente em 1972, com a PUCSP e a PUCCAMP (Dados obtidos junto a CAPES). O grande avanço da pesquisa empírica muito deve a duas grandes damas da psicologia brasileira: Jurema Alcides Cunha, em avaliação psicológica, e Angela Biaggio em desenvolvimento humano.
Na organização do campo profissional a presença do Rio Grande do Sul também se destacou fornecendo o primeiro presidente do Conselho Federal de Psicologia, Arthur de Mattos Saldanha. Aliás entre os 15 conselheiros da primeira gestão figuravam 5 nomes hoje associados a esta Academia: Arrigo Leonardo Angellini, Osvaldo de Barros Santos, Virgínia Leone Bicudo, Odette Lourenção van Kolck, e Reinier Antonius Rozenstraten.
A história da psicologia no Rio Grande do Sul pode ser acompanhada através de literatura publicada no decorrer do século XX, incluindo teses produzidas pela Faculdade de Medicina, Faculdade de Direito, traduções, livros e, também, periódicos. Entre os periódicos se destacariam o Boletim da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul que circulou entre 1966 a 1970, a Revista Psico que circula ininterruptamente desde 1971; e os Cadernos de Psicologia Aplicada do Centro de Orientação e Seleção Profissional da UFRGS que circularam entre 1973 e 1975. Recentemente, com apoio do CNPq, organizei o Museu Virtual da Psicologia que está digitalizando e disponibilizando todo este material. O MuseuPsi, como foi carinhosamente denominado pelos meus orientandos, espera ampliar as suas bases para incluir literatura de outros estados, oferecendo um conjunto de textos clássicos de psicologia produzidos no Brasil, a exemplo do que já acontece em outros países.
Sem dúvida alguma, o Rio Grande do Sul ocupa posição importante no desenvolvimento da psicologia no Brasil. São evidências: a consolidação da profissão, o grande interesse por cursos de graduação, os centros de excelência em pesquisa e pós-graduação da PUCRS e da UFRGS, e os periódicos Psicologia: Reflexão e Crítica (UFRGS), primeira no rank do qualis CAPES, e também a excelente revista Psico (PUCRS).
Quando meus filhos me perguntaram por que eu estava sendo convidado para ser membro correspondente da Academia Paulista de Psicologia, eu disse para eles que certamente a escolha deve-se ao meu interesse por história da psicologia. Na verdade, não se trata de um interesse apenas em memória e documentação, mas também na convicção de que a melhor forma de entender a ciência presente e de planejar ciência futura passa pelo estudo da história, principalmente numa área da fragmentada e dispersa como a nossa. O estudo da história mantém presente em nossos horizontes o compromisso ético, pois das nossas ações dependerá o futuro das próximas gerações e o julgamento das nossas ações.
Referências
Justo, H., & van Kolck (1960). Teste das pirâmides de cores (2ª Edição). Porto Alegre: PUCRS.
Lourenço Filho, M. B. (1955). Psicologia no Brasil. Em F. Azevedo (Org.) As ciências no Brasil (Vol II, pp. 263-296). São Paulo: Melhoramentos.