Boletim
A ANSIEDADE COMO FATOR DE AJUSTAMENTO
PESSOAL
Dra. Juracy C. Marques
Pôrto Alegre - Brasil
APRESENTAÇÃO
Nosso trabalho desenvolver-se-á do seguinte modo:1. Inicialmente, os Srs. preencherão um questionário de preferências, relacionado com a nossa tese sôbre ansiedade; com isto terão uma experiência dêste questionário, podendo entender posteriormente o que se disser a seu respeito. Recolheremos as respostas, pois em relaçáo à ansiedade prosseguimos as pesquisas, sendo a tese apenas uma de suas etapas.
2. Faremos, a seguir, rápida incursão nas teorias que apresentam a ansiedade como fator de ajustamento. Tomaremos um filósofo Kierkegaard, um psiquiatra Suilivan, e um psicólogo May como focos dessa incursão.
3. Depois, com resumo mimeografado, apresentaremos, dentre o que nos foi possível examinar, as principais pesquisas feitas neste setor nos últimos dez anos e publicadas em revistas científicas de psicologia.
4.Dirigiremos, então, convite a uma conversa mais ampla,
onde os Srs. perguntarão e eu tentarei responder. As perque, porventura, ficarem sem uma conveniente resposta, serão muito significativas podendo apontar direções de pesquisa.[p.5]TÉCNICA
Uma de nossas assistentes, do Serviço de Orientação Psicopedagógica da Faculdade de Ciências Econômicas, lerá a parte escrita de notas que preparamos para esta palestra e eu farei os comentários de esclarecimento sôbre cada uma dessas notas. Acreditamos com isto tornar a conferência menos monótona, favorecendo as possibilidades de compreensão dos conteúdos a apresentar.
DESENVOLVIMENTO
1. KIERKEGAARD1 . 1. A ansiedade deve ser entendida como orientada para a liberdade. Liberdade é o objeto de desenvolvimento da personalidade. Sempre que a possibilidade é visualizada pelo indivíduo, a ansiedade está potencialmente presente na mesma experiência.
- Aqui temos a considerar as idéias gerais de Kierkegaard sôbre ansiedade divulgadas em 1844, portanto anteriores ao existencialismo e à psicanálise. Tais idéias compõem uma antecipação muito rica do que viria a constituir-se, em aspectos filosóficos e psicanalíticos, como sistemas de pensamento, mais ainda, uma antecipação das direções de pesquisa que só atualmente ganham relêvo e consistência.
Neste comentário da teoria de Kierkegaard, visando a entender ansiedade como ajustamento, temos que ter presente a dimensão liberdade nos têrmos em que êle a coloca: Liberdade do indivíduo frente às direções que a vida lhe apresenta, liberdade que se torna mais liberdade na medida em que é posta em prática. Êle visa a determinadas possibilidades de realização pessoal e nestas possibilidades a concomitante presente, é a ansiedade. No momento em que o indivíduo renuncia à experiência de ansiedade, deixa de usar sua liberdade.1 .2. Tôda pessoa tem a oportunidade e a necessidade de mover-se no sentido de seu desenvolvimento. A criança aprende a caminhar, vai para a escola. O adulto move-se em direção ao casamento ou novos empregos. Tais possibilidades, como estradas que não se podem conhecer antes de as ter percorrido, envolvem naturalmente ansiedade.[p.6]- Trata.se de um refôrço da idéia de liberdade colocada em têrmos de desenvolvimento. Ou, para usar uma terminologia talvez mais clara, em etapas evolutivas. Se a criança recusa aceitar o desenvolvimento, ela ficará numa posiçao regressiva, fixando como conseqüência determinados comportamentos não compatíveis com as exigências de desenvolvimento pessoal.
É idéia presente em sua teoria que tais desenvolvimen tos supóem sempre ansiedade e que só através da ansiedade êles ocorrem. Dêste modo, na medida em que o indivíduo sente a ansiedade comum às situações de vida, êle está fazendo seu desenvolvimento normal. Quanto melhõr viva a ansiedade, melhor será seu desenvolvimento. O avanço, em têrmos de desenvolvimento, é proporcional à vivência mais parcial ou mais completa da ansiedade.1 .3. A ansiedade neurótica é uma forma mais constritiva, não criadora, que resulta do ftacasso do indivíduo de mover-se, de ir além de situações de ansiedade normal. Há ansiedade em qualquer atualização de possibilidades. Quanto mais possibilidade êle tiver, maior será seu potencial de ansiedade.- Temos aqui a classificação de ansiedade na sua acepção mais freqüente: a neurótica. Na teoria de Kierkegaard, ansiedade neurótica é conseqüência da recusa de viver a ansiedade normal, prejudicando assim o desenvolvimento. O indivíduo renuncia às possibilidades que as situações oferecem, deixa de ser criador, vive um conflito de forma regressiva, recuando para posições anteriores, evitando a ansiedade que a situação envolve.1 .4. "Possibilidade significa Eu posso. Em um sistema lógico, é suficiente dizer que a possibilidade torna-se realidade. Mas isto nãe é fácil, um determinante intermediário é necessário Êste determinante intermediário é a ansiedade." (5).
Nesta citação Kierkegaard coloca o que significa POSsibilidade. Vma vez que eu vejo determinadas direções Possiveis, concomitantemente tenho a vivência do que eu Posso. Posso escolher entre elas e ir adiante ou posso simplesmente renunciar a qualquer avanço e permanecer onde estou, recusando as oportunidades Esta vivência provàvelmente é ronin e arcáica, situase nqs primórdios da história do de-[p.7] senvolvimento de cada personalidade. Mas é uma experiên decisiva. Algumas vêzes, entretanto, por temor, as renunciam à ansiedade e perdem os benefícios fundamen do eu posso.1 .6. O mito de Adão retrata o despertar interno indivíduo para a auto-consciência. Quanto consciência, mais eu.- Kierkegaard refere-se ao início da vida, interpretando o mito de Adão como uma representação poética do instante em que o indivíduo se coloca frente a si mesmo. Um dar-se conta da própria contingência, da própria limitação, é dar-se conta também das suas possibilidades, pois é a co
ciência da limitação que enseja a consciência da possibilida
O Eu emerge, então, dêsse conscientizar-se. O Eu, sendo a instância que decide e controla a economia e a dinâmica da personalidade, será tanto mais eficiente quanto mais dominar os mecanismos através dos quais opera. Há uma alusão aqui ao inconsciente que não estava definido nesta época e muito menos incorporado ao pensamento científico ou filosófico de então. Como sabemos, sua definição só foi surgir, posterior- mente, com Freud.1.7. Tôda pessoa que estêve sêriamente doente experimentou a ansiedade de não ficar boa: flertava porém com o risco de não se recuperar, pois o indivíduo simpatiza com a possibilidade que mais odeia ou teme.- Aqui estamos novamente ante lampejos de compreensão da dinâmica do inconsciente. Tôda vez que tememos algo, ao mesmo tempo desejamos êste algo. Assim, quando nos vemos face a um conflito ou diante de uma situação que o provoca, nossa tendência para aceitá-lo, encarando o desafio, vivendo a ansiedade, é muito forte. Mas, é forte também a tendência a evitar a coisa, a não assumir, a renunciar, a regredir a posições anteriores mais seguras e portanto menos provocadoras de ansiedade. Em situação de terapia vê-se claro, como as pessoas, em função de ganhos secundários, simpatizam com aquilo que odeiam. Há vantagens para a parte não sadia, dissociada do ego, porque isto significa a negação do problema e portanto um meio de apaziguamento, um recurso Dara evitar a ansiedade.[p.8]1 . 8. O indivíduo sadio vai adiante a despeito do conflito, enquanto que a pessoa doente refugia-se numa condição de defesa, sacrificando sua liberdade.- É a confirmação! do que explicava: quanto maior o número e a intensidade das defesas, menor o desenvolvimento pessoal, maior o sacrifício das possibilidades, maior o empobrecimento da personalidade.1 .9. Não há experiência mais dolorosa do que a ansiedade. Mas, ao fugir da ansiedade, o indivíduo perde sua mais preciosa oportunidade de desenvolvimento como ser humano. A ansiedade é melhor professor do que a realidade, pois qualquer um pode, temporàriamente fugir à realidade, evitando situações desagradáveis; mas a ansiedade é uma fonte de educação sempre presente, porque o indivíduo a carrega consigo mesmo.- Há aqui um paralelo entre ansiedade e realidade, colocando as duas como fontes primordiais de educação, entendendo-se esta como desenvolvimento da personalidade. A realidade é o fato externo, pressionando o sujeito a ser objetivo, a manter com ela um relacionamento positivo. A ansiedade é o fato interno impelindo-o a éste relacionamento também objetivo com a realidade internalizada. que permite o relacionamento com a realidade externa.
Kierkegaard, porém, considera que a realidade não é tão boa mestra quanto a ansiedade. Daquela se pode fugir, ainda que temporàriamente, enquanto que desta, por ser algo interno, é mais difícil fazê-lo. A não ser que êle se recuse a vivê-la, entrando então em problemas de repressão e defesa.2. SULLIVAN1. A robustez do ego (ego-forte) desenvolve-se do enfrentar com sucesso a ansiedade decorrente de experiências criadoras; disto resulta um Eu maduro.- Vemos aqui, de modo ólaro, a ansiedade colocada como fator positivo. Para Sullivan a primeira influência educativa na formação da personalidade é a ansiedade que a criança sente como decorrência de seu relacionamento com a[p.9] mãe. Influência educativa deve aqui ser entendida corno fator de ajustamento à realidade. A ansiedade vivida pela criança decorre da frustração que a mãe, consciente ou inconsciente- mente, provoca no filho ao não poder atender sua voracidade e onipotência. Quanto melhor a criança puder elaboraro esta ansiedade, melhor será estruturado o seu ego e mais condiçoes terá de vir a se tornar uma personalidade sadia.2.2. A capacidade de tolerar ansiedade é pré-requisito para elaboração da mesma.- Muitas pessoas não se defrontam com ansiedade porque absolutamente não a toleram. Tôda vez que deparam com alguma situação ansiosa procuram fugir, através de vários mecanismos, sendo os mais comuns os de negação, o fazer de conta que está tudo bem. Uma capacidade mínima de tolerar a ansiedade, de conviver com ela é indispensável para que possa ser elaborada e originar o "insight".2.3. É através da experiência de ansiedade que o Eu surge, na formação da personalidade.- É uma repetição, um refôrço do que já foi comentado.2.4. As áreas da personalidade marcadas por ansiedade tornam-se áreas de significativo crescimento; em psicoterapia ou em relações humanas o indivíduo pode lidar com sua ansiedade construtivamente.- Esta afirmação encontra resposta significativa na minha experiência. Tomemos o caso do aluno trabalhando dinâmicamente na sala de aula; aquêles aspectos em que se mostra mais perturbado, que produzem um tensionamento maior em sua atividade são exatamente os que nos podem dar uma medida do seu progresso ao término do semestre, constituem, por assim dizer, sua área sensível.Em psicoterapia também isto ocorre: é preciso descobrir as sensibilidades peculiares ao paciente para poder ajudá-lo em seu crescimento. Vejamos para exemplo: se alguém me toca neste dedo, não sinto nada, pois êle está perfeitamente são. No entanto se eu tivesse nêle um corte recente e alguém o tocasse é evidente que eu sentiria. As partes machucadas pelas experiências vividas são as áreas ricas para abordagem, quando se visa o desenvolvimento da personalidade.[p.10]
3. MAY3.1. As personalidades ricas em criatividade são as que mais freqüentemente se defrontam com situações provocadoras de ansiedade. Constatamos que personalidades pobres apresentam relativamente pouca ansiedade neurótica.- Rollo May é um dos maiores especialistas em ansiedade. Considera-se obra clássica seu estudo publicado no livro "O significado da ansiedade", pois nêle realizou uma tomada de posição analisando as várias contribuições ao tema: da literatura, da filosofia, da sociologia, etc. Ao fim dêste livro apresenta uma pesquisa, bseada em casos clínicos, mostrando como às personalidades pobres correspondem escassas vivências de ansiedade e como as personalidades ricas evidenciam experiências de ansiedade.3.2. Goldstein (3) também sustenta a íntima relação entre personalidade criadora e a exposição freqüente a situações de ansiedade.- Goldstein, citado por Roilo May, reforça as idéias que defendemos. As pessoas que aceitam o desafio e o risco lançando-se às experiências, colhem os resultados, enquanto as que se sentem temerosas, que evitam expor-se, matêm uma atitude defensiva de auto-proteção, fugindo às situações provocadoras de ansiedade.
Até que ponto expor-se é saudável ou neurótico, depende naturalmente, de cada çaso. Como ilustração se pode mencionar a experiência vivida por muitos de nós, psicólogos, quanto a problemas de seleção. Quando encontramos uma pessoa especialmente marcada pela vida, com muitos problemas que, pelo menos inicialmente, podem impressionar-nos, estamos em geral em presença de um candidato de destacado valor. Prova, na maioria das vêzes, ter melhores condições do que os demais, pois elaborou vivências e teve de ajustar-se a situações que lhe proporcionaram maior amplitude de visão do mundo. É uma pessoa que tem acentuados recursos de vivacidade, capacidade de improvisação, criatividade e ajustamento inteligente à realidade.3.3. Os resultados suportam a hipótese de que personalidades de maior inteligência, originalidade e nível de diferenciaçáo são também as que têm mais ansiedade.[p.11] - Complementa e completa o que dizia.3.4. Tornar-se consciente da defasagem entre expectativa e realidade, resolver o conflito entre expectativa e realidade é um poder criador e, ao mesmo tempo, superador de ansiedade neurótica.- A ansiedade é vivência que encerra expectativa. É um dar-se conta de que algo vai acontecer. É precaver-se mobilizando recursos para bem suportar o que vier a suceder ou para usufruir da satisfação que o acontecimento possa eventualmente conter. Likken (6) define ansiedade como uma resposta emocional antecipada a sinais de perigo prêviamente associados com estímulos neütros. A expectativa do ponto de vista psicológico é a realidade. A maioria dos terapeutas e educadores parece desejosa de ajustar o indivíduo à realidade externa. May, porém, assinala a possibilidade do indivíduo ser tão criador a ponto de, superado o conflito na realidade interna, ser capaz de encontrar e colocar suas expectativas no mundo externo.3. 5. O artista imagina uma paisagem que supera em beleza a paisagem real.- Coloa a possibilidade do indivíduo saudável, que vive ansiedade normal, ter condições de criar expectativas que configurem uma nova realidade.3.6. O cientista sustenta suas expectativas - hipóteses - sôbre uma realidade ainda não comprovada. Quando suas pesquisas são bem sucedidas, êle descobre esta realidade até então desconhecida ou negada.- May ressalta a idéia com dois exemplos, o artista e o cientista. Se êles não forem criadores, não levarem suas expectativas além da realidade objetiva, não progrediremos, ficaremos, apenas, removendo o conhecido, tentando ajustai os indivíduos. Porisso, o conceito de ajustamento é, em certo sentido, tão decepcionante quando entendido nos estreitos limites de ajustamento à realidade externa.
Do ponto de vista teórico mais amplo são estas as idéias selecionadas. Vamos agora a uma rápida incursão na área das pesquisas sôbre ansiedade, pesquisas que representam a tentativa dos teóricos do assunto de lidar com a realidade em têrmos práticos, operacionais.[p.12]LYKKEN -Personalidades sociopatas revelam de modo anormal pouca ansiedade manifesta em situações de vida que normalmente conduzem a tais respostas. Trabalhando com três grupos experimentais: 1) sujeitos psicóticos 2) sujeitos neuróticos e 3) sujeitos normais, Likken obteve como resultado, em relação ao questionário de ansiedade normal, um índice maior para os normais e um menor para 'Ós psicóticos (caracterizados na seleção para o experimento como indivíduos com nítidos problemas de sociopatia). O grupo de oneuróticos apresentou resultado intermediário ("d-test", P 0,05).- O trabalho de Likken é o que serviu de fundamento a minha tese sôbre ansiedade (7). O questionário de ansiedade normal foi por êle elaborado, especificamente para êste estudo. Quanto aos resultados da tese, o questionário, também de sua autoria, para a pesquisa sôbre sociopatas neuróticos e normais mostrou-se, com freqüência, pouco válido em nosso contexto culturaL Face a êste resultado, elaborei uma série de alternativas que pudessem corresponder melhor às características de nossa cultura em contraste com a Americana, de onde originàriamente procede o teste. Por exemplo: a) Penso que somos mais sensíveis ao problema do constrangimento em situações sociais. b) O ficar sem empregada três semanas para nós pode ser uma calamidade, para o Americano não, pois geralmente não tem empregada. c) Cuidar de uma pessoa da família que está hospitalizada; pelo que se sabe, para o Americano não se coloca êste problema pois os hospitais não permitem a permanência de famliares. d) Viajar de automóvel numa estrada deserta; quando fazem isto é por turismo, não ocorrendo a possibilidade, comum entre nós, de ficar na estrada sem gasolina, e) O ritual funerário também é culturalmente diferenciador. f) Quanto à experiência de temperatura, no original de Likken, havia uma alternativa sôbre temperatura de 6° abaixo de zero que modifiquei para 400 à sombra. g) Estar viajando numa estrada montanhosa e verificar que os freios deixaram de funcionar.., isto só se faz sentido para quem usa carro velho. h) Estar veraneando e saber que sua casa foi arrombada é uma experiência que tem sentido face a nossa realidade sócio-econômica. i) Receber nota zero em um exame no qual julga ter saído bem parece ser situação comum em nossas escolas. j) Emprestar um livro que considerava valioso e nao recebê-lo de volta, aqui é fato comum. 1) Desejar comprar uma roupa para ocasião especial onde a presença é ne[p.13]cessária e não dispor de dinheiro. É urna tentativa de dimensionar as vivências de país pobre. m) Ser acusado de idéias perigosas no ambiente de trabalho refere-se às implicações psicológicas da instabilidade política. n) Perder o emprêgo por não cumprir horário; entre nós, os profissionais técnicos são tão solicitados que vivem correndo de um emprêgo para outro, sem poder atender ao tempo exigido. o) Mudar as fraldas de um nenê; havia no questionáiio original de Likken esta alternativa, como a que deveria ser escolhida a julgar pela população americana. Entre nós, a grande maioria dos adultos e adolescentes masculinos rejeitou tal possibilidade. Realmente parece ser uma diferença cultural acentuada do ponto de vista de "status" e papeis masculinos.Mas, vamos a pesquisa prôpriamente de Likken quanto à personalidade do psicopata. O conceito de psicopata é muito amplo, pode incluir desde o "borderline" até o psicótico, numa ampla gama de perturbações de conduta. Às vêzes os encontramos nos hospitais como doentes mentais e outros, talvez na maioria dos casos, nas mãos da política ou recolhidos a presídios. Likken procurou delimitar o conceito de personalidade psicopata, chamando ao síndrome com o qual trabalhava de personalidade sociopata. Definiu um tipo de grupo de psicopatas como apresentando características patogênicas de impulsividade, tendências anti-sociais, imoralidade, fracasso auto-destrutivo para modificar os padrões de comportamento a despeito de repetidas conseqüências dolorosas. Estas personalidades não manifestam ansiedade frente às situações de vida normalmente conducentes à tal reação. Vivem as maiores desordens psíquicas e parecem nada sentir. Não aprendem com as circunstâncias, sendo capazes de suportar reiterados castigos pelas mesmas faltas.
Likken utilizou-se de várias medidas de ansiedade: a Escala de Ansiedade Manifesta de Taylor que é predominantemente saturada quanto à ansiedade neurótica, o reflexo psicogalvânico, índices fisiológicos como transpiração, batidas cardíacas, etc. Constatou que os sociopatas apresentavam menor ansiedade, os normais maior, e o grupo de neuróticos resultado intermediário, O psicopata é pois um típico desajustado tanto social como psicolôgicamente. Daí a importância de sua pesquisa, apontando a ansiedade como imprescindível ao ajustamento.2. SCHACHTER e LATANE.em um estudo com prisioneiros, constataram que os classificados com índices baixos de ansiedade evitavam menos situações de aprendizagem perigosas do que indivíducs com altos índices de ansiedade.- Trata-se de um dos aspectos apontados por Likken em seu conceito de personalidade sociopata: fracasso auto-destrutivo para modificar padrões de comportamento
.3.JANIS,faz uma comparação entre índices de ansiedade e susceptibilidade à persuasão. As hipóteses, baseadas em seus estudos anteriores, eram: 1) índice alto de ansiedade neurótica relaciona-se com baixos índices de persuasão; 2) sentimentos de inadequação tornam o indivíduo susceptível à persuasão. Foram considerados sintomaas de ansiedade neurótica: fobias específicas, como mêdo a lugares altos, ambientes fechados, espaços abertos, estar sôzirjho no escuro, animais, trovões e relâmpagos; preocupações hipocondríacas como mêdo de fazer um exame físico, de ir ao dentista, de ser acidentado; preocupações com adequação sexual; ansiedade livremente flutuante e sintomas neuróticos relacionados com sentimento de insatisfação pessoal sem razão aparente, pesadelos, insônia, incapacidade de concentração por pensamentos interf e- rentes provocadores de ansiedade, preocupação com a própria saúde mental, experiência freqüente de sentimentos de ansiedade.Para testar a ansiedade socialmente orientada, foram considerados os seguintes aspectos: sensibilidade às situações embaraçosas, preocupações sôbre ajustamento social, sôbre o seu futuro "status", mêdo de ser criticado pelos superiores, de cair em situações competitivas, pânico de falar em público.
Para medir a ansiedade relacionada com provas e exames, os sentimentos vividos pelo indivíduo antes e durante as provas foram observadas com ênfase nos seguintes sintomas: preocupações e sentimentos de inadequação, batimentos cardíacos acelerados, transpiração, desejos de fuga das situações de exame e baixo rendimento no teste por interferência emocional.[p.15]As conclusões a que o autor chegou, foram: 1) altos índices de ansiedade socialmente orientada são agsociados com escores também altos em medidas de persuasão; 2) indivíduos com baixos índices de ansiedade são menos susceptíveis à persuasão do que indivíduos com índices altos; 3) existe relação entre ansiedade socialmente orientada e ansiedade provocada por testes e provas; 4) a relação entre ansiedade neurótica e ansiedade provocada por testes e provas não é estatisticamente significativa.
- Aqui gostaria de chamar atenção, em primeiro lugar, para a pesquisa em si e para a definição dos tipos de ansiedade, ou seja, definição operacional para fins de pesquisa.
Quanto aos aspecto da ansiedade relacionada com provas e exames, existem testes específicos já bem estudados pelo grupo da Universidade de Yale, sendo Mandler e Serason os principais representantes.
Ansiedade socialmente orientado recai no âmbito do teste de Likken.A ansiedade neurótica é melhor avaliada através de testes projetivos.Não há necessidade de comentar mais, pois o resumo é suficientemente amplo para permitir compreensão satisfatória do material.4. ATKINSON e LITWINrealizaram um estudo comparativo entre motivos de realização frente a testes e provas e suas implicações nas atitudes de procurar ser bem sucedido e evitar o fracasso. Partiram da constatação que estudos sôbre motivos de realização apontam escores altos como indício de rendimento superior; estudo de testes de ansiedade, frente a situações de provas, consideram escores altos como prejudiciais ao bom rendimento. Em face disto tentaram relacionar estas duas direções de pesquisa à procura de sucesso e à atitude de evitar o fracasso.Observando pessoas nas quais o motvio de conseguir sucesso é maior do que a motivação para evitar o fracasso, elaboraram as hipóteses: 1) com maior freqüência sele. cionam tarefas de dificuldade intermediária: 2) trabalham mais tempo em exames finais e conseguem notas mais[p.16] altas nesses exames do que pessoas nas quais evitar o fracasso é o motivo predominante. Os resultados confirmaram a hipótese.- Temos aqui uma pesquisa de ansiedade associada aos resultados dos trabalhos de McClelland sôbre motivos de realização. O fracasso e o sucesso, por outro lado, são temas freqüentes em pesquisas que visam compreender a ansiedade como fator de ajustamento. Se a pessoa é bem sucedida e procura o sucesso, é provável que tenha realizado uma boa elaboração de suas ansiedades e as esteja utilizando de forma criadora. Se, no entanto, procura o fracasso, algum grau de ansiedade neurótica, não elaborada, deve possivelmente ser o móvel subjacente de tal comportamento.5. FEATHER estudou os efeitos do fracasso quando a expectativa é de sucesso e o significado da ansiedade relatada pelo indivíduo como conseqüência desta circunstância.Utilizou uma tarefa de solução de problemas como instrumento básico de sua investigação. Esta tarefa consistia num teste de raciocínio e associação de palavras. Os sujeitos eram do sexo feminino, alunos universitários de um curso introdutório de Psicologia. Foram distribuídos em três grupos: 1) o grupo de baixo fracasso; 2) o de fracasso intermediário e 3) o de alto fracasso. Foi previsto no planejamento da pesquisa que, independente do rendimento que os sujeitos apresentassem nos testes, a distribuição de acertos e erros seria: para o p rimeiro grupo 80% de sucesso (acertos), para o segundo 50% de sucesso e para o terceiro apenas 20% de sucesso. O sucesso ou fracasso não dependia do tipo de resposta do sujeito, mas era anteriormente programado. Em-lhes dito, após cada tentativa, se haviam acertado ou errado, conforme estava previsto. Os sujeitos foram testados individualmente.
Antes do examinador confirmar se a resposta era correta ou não, os sujeitos eram instruídos a dizer qual das duas alternativas era por êles esperada. Concluiu-se que a quantidade de ansiedade provocada em uma situação de rendimento depende, pelo menos, de três fatôres: de uma disposição relativamente estável de evitar fracasso, do grau em que o fracasso é esperado e de quanto o fra[p.17]casso é repulsivo ao indivíduo. Mudanças no nível de ansiedade relacionada ao fracasso são uma função da expectativa inicial e da quantidade e qualidade de modificações que ocorrem durante a execução.- Trata-se de outra pesquisa de tipo experimental, fazendo previsão dos montantes de sucesso ou fracassso a serem vividos pelos indivíduos que participam do experimento.É evidente que êstes sujeitos são informados, após, das características da pesquisa na qual colaboram. No caso em questão, o fato de serem considerados bem sucedidos ou mal sucedidos não tinha nenhuma relação com seus próprios méritos pois, independente do que produzissem, de antemão seriam considerados de alto, médio ou baixo rendimento. É um tipo de jôgo com cartas marcadas, só admissível pan fins experimentais, tendo o pesquisador o dever ético de "abrir o jôgo" ao fim.Outro aspecto desta pesquisa é a pergunta feita ao sujeito sôbre sua expectativa quanto ao rendimento, se alto, médio ou baixo. Está relacionado ao conceito de ansiedade como antecipação. Vê-se que esperar o fncasso é um elemento importante na determinação do modo como o mesmo é vivido posteriormente.6. Em nossa tese sôbre ansiedade, trabalhando com o questionário de ansiedade normal de Lykken e tendo como sujeitos candidatos à escola média de segundo ciclo, encontramos um índice de ansiedade normal significativa- mente conveniente aos grupos divididos por sexo e idade; média entre 20 e 24 num total de 32 pontos. Entretanto, a ansiedade normal está presente de modo equivalente em qualquer dos grupos, pois não existem diferenças significativas quanto aos resultados dos quatro grupos divididos por sexo e idade; média entre 20 e 24 num total de 32 pontos. Entretanto, a ansiedade normal 'está presente de modo equivalente em qualquer dos grupos, pois não existem diferenças significativas quanto aos resultados dos quatro grupos estudados. (E = 1,15 menor que 2,69 P 0,05). Êste dado reforça a hipótese pesquisada e confirmada por Lykken de que sujeitos "normais" apresentam um conveniente grau de ansiedade frente a situações de vida que envolvem ameaça ou são onerosas às noções comportamentais do sujeito.[p.18]RESUMO
Neste trabalho que é o material elaborado de uma conferência gravada que se realizou na Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, apresenta-se estudas sôbre os fundamentos teóricos da ansiedade como fator positivo de desenvolvimento pessoal. A autora comenta, também, alguns aspectos de sua teses sôbre Ansiedade, defendida em recente Concurso de Livre-Docência. Viver a ansiedade para poder elaborá-la e dêste modo aumentar as fôrças pessoais de compreensão e ajustamento é uma das idéias principais aqui desenvolvidas. São apresentadas seis pesquisas de tipo experimental como exemplos do farto material existente sôbre o assunto. É incluída a bibliografia de todos os autores, obras e pesquisas cuja referência é feita ao longo do trabalho.
SUMMARYThis paper relies ou material from a recorded lecture delivered at the Rio Grande do Sul Psychology Society. Tt presents a discussion of the basic theories of anxiety taking it as a positive factor for personal development. The author presents also some comments on her recent thesis about Anxiety including some of the experimental investigations upon which the thesis was drawn. To tolerate anxiety in order to feel what its meaning is and as a consequence to develop better understanding toward the self and the outside world is one of the major ideas commented throughout the paper. References are inclucled.
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