Boletim

 


Volume 7-- 1968 -- p 25-33

 

CONSIDERAÇÕES EM TÔRNO DO ESTUDO DE ATITUDES
DE DEPENDÊNCIA E INDEPENDÊNCIA DO ESTUDANTE
DO NíVEL MÉDIO

 

Jurema Alcides Cunha (1),
Ignez Braga de Moraes (2),
Saldanha da Rocha (3), Irma
Salerno (4), tília Costa (5).
Maria Nadir Coelho


Êste trabalho se tomou possível, como parte de um planejamento amplo para o estudo de adolescentes, pela colaboração do Centro de Pesquisas e Orientação Educacionais e de Execução Especializada (5. E. C., Brasil) e o Instituto de Psiquiatria da Universidade de Maryland (Md., U. 5. A.). Foi desenvolvido pela Comissão Especial de Pesquisa, da qual fizeram parte, em diferentes épocas, além dos autores, os seguintes psicólogos e professôres: Flávia Sant' Ana, Luiza Werba, Maria Spader, Regina Rocha do Vafle, Jorge E. E. de Moraes e Suely Maraninchi.

 

Neste estudo sôbre atitudes de dependência e independência, consideraremos, em primeiro lugar, as informações prestadas por alunos de nível médio, num levantamento sócio-cultural, realizado em Pôrto Alegre, numa amostra proporcional [p.25] e representativa de estudantes (6), no que se refere a dados para julgar da independência econômica. Em segundo lugar, e já num âmbito psicolÓgico, mais específico, discutiremos as respostas a alguns itens de um estudo de atitudes (7).
Pela análise dos dados colhidos, podemos concluir que "a maioria dos estudantes não adquiriu independência econôrnica, o que revela que, em nossa cultura, a familia toma a si o encargo de manter os filhos na escola, enquanto isso lhe é econômicamente possível. A grande porcentagem de estudantes, freqüentando as escolas diurnas, demonstra uma menor disponibilidade de desenvolverem completamente, atividades com fins lucrativos, O elevado número de estudantes que, no momento de prestarem informações, possuiam pais vivos, estando a maioria dêles em situação social média ou acima da média, facilita tal dependência econômica, o que é comprovado pelo fato de que grande parte da minoria que trabalha, colabore apenas parcialmente nas despesas do lar.
Cabe referir, ainda, como resultado dos levantamentos procedidos, a existência de um pequeno número de alunos contemplados com bôlsas de estudo, especialmente provenientes de camadas sociais menos favorecidas, o que consiste também[p.26] num sinal de falta de independência econômica do nosso estudante" (8)
Vejamos, agora, como se situa o estudante face a itens do instrumento utilizado para o estudo de atitudes, que envolvem uma determinação do grau em que o estudante necessita de outras pessoas. Êstes ítens são de múltipla escolha entre as respostas: "Concordo fortemente"., "ConcordO", "Fico em dúvIda", "Discordo" e "Discordo fortemente".

POSSO GERALMENTE TOMAR CONTA DE MIM MESMO, SEM PRECISAR DOS OUTROS

A concordância com o item envolve uma afirmação de autosuficiência. A questão se coloca de forma muito aberta, permitindo uma interpretação, que envolve desde implicações financeiras, até a forma do aluno se situar frente as outras pessoas, dentro de uma escala que vai da dependência à independência emocional.
Nas respostas ao item, predominou, em todos os grupos sócio-ocupacionais e para ambos os sexos, a concordância, embora esta não se expresse de forma tão decisiva, já que pouco ultrapassa 50% o número daqueles que se manifestaram neste sentido. Desta maneira, para os alunos, classificados, em têrmos da categoria sõcio-ocupacional da família, no grupo supedor, a porcentagem foi de 61% de concordância, para 58% no médio e 52% no inferior. Observa-se, portanto, mais afirmação de auto-suficiência entre os alunos do grupo superior, com grande diferença para o grupo inferior. Por outro lado, não há diferenças significativas nas atitudes, assumidas, por alunos ou alunas, ainda que a concordância ao item seja maior no sexo masculino, em todos os grupos sociais, embora com escassa diferença, para o sexo feminino, no inferior.

NA MINHA VIDA SEMPRE SINTO NECESSIDADE DE AJUDA E CONSELHO


A concordância com o item envolve uma afirmação, pelo menos relativa, de falta de auto-suficiência. A questão é restrita, no sentido de que envolve "outros" como agentes assisteneiais para as necessidades expressas do estudante. Respostas[p27] que indicam consciência e aceitação dessas necessidades não esclarecem se constituem uma constante na vida do estudante, ou se fazem prementes em situações críticas, permitindo que tais necessidades sejam interpretadas como manifestações de dependência infantil, necessidades eventuais de apoio. emocionai, até de ajuda material.
Nas respostas ao item, predominou, em todos os grupos sôcio-ocupacionais e para ambos os sexos, a concordância, com porcentagens significativamente acima de 50%, isto é, 64% no grupo superior, 69% no médio e 76% no inferior. Os dados sugerem que, embora haja respostas compatíveis com uma atitude de dependência da maioria dos alunos, esta é bem mais evidente no grupo inferior. Por outro lado, a análise das diferenças, por sexo, demonstra mais concordância no sexo feminino, em todosr os grupos sociais, sendo a maior diferença no grupo superior, que é, também onde aparece a menor porcentagem de concordância para o sexo masculino.

Discussão: Os dados parecem sugerir por respostas de atitudes expressas, compatíveis com maior ou menor auto-suficiência, que coexistem tendências para dependência e independência entre os alunos. As respostas analisadas parecem evidenciar que o estudante, frente ao problema dependência-.:
independência, se situa com as implicações tipicas das dificuldades que enfrenta em sua faixa evolutiva. A consciência e aceitação de necessidades de assistência é mais explícita, embora não impeça a afirmação de auto-suficiência, relativa porém, possivelmente em vista de certas dificuldades para o emprêgo de recursos, que garantam uma independência em têrmos mais objetivos. Tal afirmação é tanto mais manifesta, quanto mais alto está o aluno na escala social, sendo também mais aparente no sexo masculino.

SINTO DESAGRADO, FREQÜENTEMENTE, QUANDO DEVO TOMAR UMA DECISÃO

Éste item é de múltipla escolha entre as respostas: "Corcordo fortemente", "Concordo", "Fico em dúvida", "Discordo" ou "Discordo fortemente".
A discordância com o item envolve uma afirmação de autodeterminação. A questão é restrita e implica na conotação aí etiva aliada à maior ou menor capacidade de se autodeterminar .[p.28]

Nas respostas ao item predominou, em todos os grupos scio-ocupacionais e para os diferentes sexos, a discordância, com uma porcentagem bastante significativa no grupo superior, isto, de 71% e 56% no grupo médio e 57% no grupo inferior. A afirmação mais decisiva de auto-determinação; pela resposta "Discordo fortemente) e, proporcionalmente, quase duas vêzes mais acentuada no grupo superior (19%), do que no inferior (10%). Por outro lado, aproximadamente um quarto dos alunos do grupo médio e do grupo inferior escolheram a resposta "Fico em dúvida", que aparece em apenas 16% no grupo superior. Observa-se, portanto, maior afirmação de autodeterminação entre os alunos do grupo superior, com grande diferença de atitude nos grupos médio e inferior. No que se refere às diferenças entre sexos, verifica-se que a discordância ao item é mais acentuada no sexo masculino, do que no feminino.

É MUITO BOM TER ALGUËM QUE TOME CONTA DE NOSSOS PROBLEMAS

Êste item é de múltipla escolha entre as respostas "Sempre", "Freqüentemente", "De vez em quando", "Raramente" ou "Nunca".
A aceitação mais permanente das implicações, contidas no item, envolveria dificuldades na autodeterminação. A sua rejeição mais constante, numa afirmação de possibilidades de autodeterminação. A questão se coloca de forma muito aberta, permitindo diversas interpretações.
Nas respostas ao item, a atitude foi ambivalente em todos os grupos, com a predominância da resposta "De vez em quando", em 47% do grupo superior, 45% do médio e 43% do inferior. Entretanto, tal ambivalência foi mais aparente no grupo inferior, com 28% concentrando a sua resposta em "Sempre" ou "Freqüentemente" e quase o mesmo número, isto é 29%, escolhendo as respostas "Raramente" ou "Nunca". Nos dois outros grupos, há predominância mais nítida de rejeição da assertiva, em 32%, do grupo superior e 30% do médio, embora tal rejeição não possa ser considerada significativa, pois não chegou a abranger um têrço dos alunos. No estudo dos resultados para os dois sexos, em diferentes grupos sociais, chama a atenção que, no grupo médio, há mais rejeiao entre os alunos do sexo masculino (32%) do que entre os do sexo feminino (27%), portanto, manifestando os alunos mais facilidade aparente de aceitar a autodeterminação. En[p.29] tretanto, tal relação se inverte nos demais grupos. Temos, no superior, a rejeição do item em 31% de alunos do sexo masculino, para 33% do sexo feminino e, no inferior, 22% do sexo masculino para 30% do sexo feminino.
Discussão: Os dados parecem sugerir, por respostas compatíveis Com aspectos de autodeterminação, que a afirmativa de tal atitude não é tão consistente no grupo total. No primeiro item, com exceção do grupo superior, as demais por- contagens pouco ultrapassam a metade de cada grupo . O segundo item, talvez, porque as implicações de dependência, para a aceitação, sejam mais profundas, determina posições mais ambivalentes em todos os grupos. A afirmação de autodeterminação é bastante mais evidente no grupo superior e, no primeiro item, entre os alunos do sexo masculino. No segundo item, encontramos algumas manifestação de maior dependência, entre alunos do sexo masculino, no grupo superior e inferior, para a qual os dados não permitem uma explicação, a não ser que o fato se prenda à variabilidade de interpretação do item, já referida anteriormente.
Os itens seguintes também são de múltipla escolha entre as respostas "Sempre", "Freqüentemente, "De vez em quando", "Raramente" ou "Nunca".

GOSTO DE MOSTRAR A MINHA INDEPENDÊNCIA

A aceitação mais permanente das necessidades, implícitas no item, envolvem manifestações de auto-afirmação. A sua rejeição mais constante implica na falta de manifestações exteriores ou na ausência da necessidade de auto-afirmar a própria independência. A questão é bastante aberta, porque permite interpretações a respeito do tipo de independência, das formas de demonstrá-la e existência da necessidade de tal manif estação.
Nas respostas ao item, observamos que "De vez em quando" predomina no grupo superior (38%), seguida de 33% de aceitação ao item e 30% de rejeição. A atitude do grupo superior é, aparentemente, ambivalente. No que se refere às diferenças entre os sexos, verifica-se que 48% dos alunos do grupo superior aceita a premissa, enquanto entre 38% de alunas, predomina a ambivalência. Já no grupo médio, predomina a rejeição em 38% de casos. Entre os alunos do sexo masculino há uma atitude ambivalente, com leve predominância da rejeição (37%) sôbre a aceitação[p.30]

(36%). Os aspectos mais nítidos são a manifestação de oafirmação no grupo superior masculino e a rejeição das implicações do item pelo grupo inferior feminino. As tendências, verificadas nos restantes subgrupos, são, até certo ponto, ambivalentes.

DESAGRADAM-ME AS PESSOAS QUE VIVEM DIZENDO O QUE DEVO FAZER

A rejeição mais permanente das implicações do item envolve a necessidade de orientação constante. A aceitação mais permanente revela necessidade de auto-afirmação, autodeterminação e auto-suficiência. A questão é bastante aberta, permitindo uma va;labiidade de interpretações, inclusive envolvendo o problema de contrôle exterior nas relações inter-pessoais
Nas respostas ao item, a atitude ambivalente predon,ina em todos os grupos. A resposta "De vez em quando" aparece em 44% do grupo superior e médio e em 41% do grupo inferior. Entretanto, embora predominante, esta resposta não concentrou a maioria das escolhas, uma vez que as porcentagens correspondentes são inferiores a 50% no exame da distribuição das respostas, em têrmos de aceitação ou rejeição da afirmativa, e predomina a aceitação em todos os grupos, com 40% para o grupo superior, 32% para o médio e 33% para o inferior. A conclusão aparente é que todos os grupos admitem necessidade eventual de orientação, principalmente alunos das camadas sociais mais baixas. Da ponto de vista sócio- cultural, os resultado:; sugerem uma dose maior de conformismo nas classes menos favorecidas, onde 12% dos alunos escolhe a resposta "Nunca", para 5% na mesma resposta, no grupo superior. Na análise ds diferenças por sexo, observamos que, embora maior número de rapazes admitam um desagrado eventual "por pessoas dizerem o que devem fazer", as diferenças em relação ao sexo feminino não são tão significativas, assunundo uma posição mais definida os alunos e alunas do grupo médio e inferior, observando-se nos demais subgrupos tendencias, até certo ponto, ambivalentes.

Discussão: Os dados parecem sugerir uma ambivalência, mais ou menos generalizada, em relação às implicações dos itens. Existe mais def' ção no sentido de auto-afirmação no grupo superior, principalmente masculino- Existe maior grau de conformismo nos demais grupos. A posição assumida pelo Sexo feminino, em relação aos dois itens não apresenta consistência significativa, talvez pela variabilidade possível de interpretaão dos mesmos.[p.31]

CONCLUSÃO

1. Admitindo a maioria doe itens do instrumento, para o estudo de atitudes, urna certa variabilidade de interpretações, as conclusões do presente trabalho se revestem de urna significação relativa.
2. Os dados parecem revelar que existem tendências coexistentes para atitudes de dependência e independência entre os alunos.
3. A consciência e a aceitação de necessidades de assistência é mais explícita, embora não impeça a afirmação de auto-suficiência relativa, possivelmente em vista de certas dificuldades para o emprêgo de recursos que garantam urna independência em têrmos mais objetivos Algumas dessas dificuldades se evidenciam pela conclusão a respeito da falta de independência econômica do nosso estudante.
4. A afirmação de uma necessidade de autodeterminação não é muito consistente no grupo total.
5. Os indícios de urna atitude no sentido da autoafirmação são, até certo ponto, ambivalentes no grupo total.
6. O grupo sôcio-ocupacional superior apresenta manifesta-. ções, que revelam uma tendência mais definida em relação a atitudes de independência, enquanto o grupo sócioocupacional inferior apresenta manifestações que revelam uma tendência mais definida em relação a atitudes de dependência. De um modo geral, o grupo inferior parece ser mais conformista, O grupo sócio-ocupacional médio situa-se numa posição que tende à eqüidistãncia entre ambos, com ocasionais oscilações..
7. O sexo masculino, em geral, revela uma tendência mais definida que o feminino em relação a atitudes de independência, embora êste último apresente oscilações eventuais, as quais não é possível interpretar micamente na base dos dados aos quais se refere o presente trabalho.
8. As dificuldades para determinação mais efetiva de aUtudes do adolescente frente aos estímulos apresentados, ressalvados os aspectos mencionados na primeira conclusão, parecem corresponder, até certo ponto, a dificuldades, que a maioria dos alunos enfrenta em sua faixa evolutiva.[p.32]


SUMMARY

This study is concerned with dependency and independency within a stratified sample of a Brazilian culture, composed by secondary students. There is doubtful high significance of the data, since most of the items were liable to varied iaterpretation. However, data suggest that both tendencies of dependency and independency de coexist among the students. Awareness and acceptance of help guidance are more explicit, at the sarne time as the relative degree of assertion of selfsufficiency. Self-deterrnination is not very consistent within the whole sample. Tendencies of self-assertiveness are somewhat ambivalent. Data suggest that the upper-middle studcnts tend to be more independent, while the lower-middle students tend to be more dependent. Generally speaking, this last group tends to conform more. Middle class students are not so definite, presenting occasional changes of attitude in one or another direction. Male students teM to be more independent than females. Fernales prcsent more varied attitudes toward independency and dependency

 



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