SPRGS
PSICANÁLISE: CIÊNCIA OU IDEOLOGIA?
(Painel Fictício em um Ato)
Roberto Harari, psicólogo
"Onde se encontrará a sabedoria e onde está o lugar do conhecimento?" (Já 28).
"Tanto para os homens, como para os conceitos, é perigoso que sejam arrancados do solo em que se desenvolveram e se originaram" (Freud, "O Mal-Estar na Civilização", 1930).
"É porque é verdadeira que a teoria de Marx pôde ser aplicada com êxito, e não porque foi aplicada com êxito que ela é verdadeira, O crio tério pragamatista pode convir a uma técnica que não tenha mais horizontes além do seu campo de exercício porém, não a conhecimentos científicos" AlthusserPara Ler "O Capital".)
APRESENTAÇÃO
Em "A Questão da Análise Leiga"(1926), Freud utilizou, como argúcia retôrica, a discussão com um suposto interlocutor contra o qual colocava os seus próprios pontos de vista. Este "discutidor" de seus conceitos era o representante egrégio do constituído que, munido de arsenal imponente, fornecido pela ideologia correspondente, instrumentava razões e contra-razões nunca, a um primeiro exame, fúteis ou irresponsáveis.
Will Durant, em "Filosofia, Cultura e Vida", fazia uso de uma técnica, em certos aspectos, análoga, ao opor - para expor - aos personagens mais caracterizados da humanidade, polemizando sobre temas em que ditos personagens tinham especializado as suas obras.
Baseado nos pré-citados antecedentes, pensei que este capítulo poderia adotar uma estrutura desta natureza e que os "discutidores" tratariam ou maltratariam os distintos pontos de questionário-base deste livro de acordo com seu conceito específico sobre a "coisa" psicanalítica.
Assim, imaginei esta ficção, na qual participam:
1) O Dr. Gamma, psiquiatra, com anos de atividade profissional, autor de um texto dás. sico sobre a matéria; (G)
2) O Dr. Agostinho Pedro Anker, renomado psicanalista; (A.P.A)
3) O Psicólogo, ou Psiquiatra Revolucionário que (quase) não Trabalha (é recém formado); (P.PR.Tj
4) ODr.HarariHH)
5) O Sr. Coordenador.
Desde já, um esclarecimento e um pedido de excusas ao leitor: os nomes dos personagens que me acompanham são totalmente fictícios; como ensinava FREUD, qualquer semelhança com personagens reais, é pura coincidência. Perdão, o quarto personagem muitas vezes acreditará que tem razão, antes de dá-la a seus discutidores.
ATO ÚNICO
Senhor Coordenador:
Bem, como todos vocês sabem, reunimos, hoje, neste painel, um conjunto representativo de profissionais da saúde mental, a quem já remetemos oportunamente um questionário-base sobre o tema a dilucidar. Entendo que todos vocês (aos painelistas) já tenham configurado os elementos capitais de suas respostas, pelo quê, convido.os a iniciar este debate. Dr. Gamma, por favor.
G,: Obrigado! Bem, eu creio que, tratando-se do tema psicanálise, temos, em primeiro lugar, que situá-la como aquilo que ela realmente é. Em outras palavras, defini-la. Entendo que o ponto em que seguramente poderemos ter um acordo básico é o que a caracteriza como[p.10] método psicoterapêutico, integrado ao conjunto de métodos e de técnicas de diversa natureza, por meio dos quais o psiquiatra alivia a dor psíquica de seus pacientes. Entre as possibilidades terapêuticas do profissional, é um elemento importante que deve ser utilizado quando as circunstâncias o indiquem e requeiram. Em tal sen...PP.RT. :Perdão! Digamos as coisas como realmente são! A psicanálise poderá aplicar-se quando o bolso do paciente o permita. Hoje, em dia, é uma terapia classista!
A.PA. :Você faz uma afirmação errônea e parcial. Não leva em conta que a cada paciente lhe dedicamos nada menos que quatro sessões semanais, de cincoenta minutos cada uma. Considere ainda que um psicanalista não ganha mais que um colega bem conceituado de outra especialidade. Isto é um fato. E certo que não está ao alcance de qualquer um a possibilidade de se analisar, porém, isto responde ao sistema sócio-econômico em que vivemos; não é culpa nossa. Existem, por outro lado, instituições nas quais se atendem pessoas de escassos recursos econômicos. Em relação ao indicado pelo Dr. Gamma, desejaria esclarecer um aspecto. A psicanálise não é um elemento valioso a mais com que conta o psiquiatra; seu uso não é homólogo ao de um psicofármaco, senão que requer um árduo e intensivo treinamento, - além, da análise pessoal, desde logo, - que se outorga na Associação Psicanalítica. Quem não for membro dela, a meu juízo, não deveria ser denominado psicanalista e, teoricamente, não deveria tampouco exercer a psicanálise.H. :Muitos dos que preconizam, como você, este exclusivismo monopolístico, Dr. Anker, mantém uma conduta diferente em seus consultórios, em que dão, por exemplo, supervisão a psicólogos impedidos de ingressar na Associação Psicanalítica. Hoje, em dia, por sorte, a melhor identidade profissional dos psicólogos estimula a que se tratem e supervisionem cada vez mais com psicólogos, antes que com médicos. De todos os modos, este último é um fenômeno relativamente recente, o que não acontece com a contradição antes aludida. Que me responde a isso?
P.P.R.T. :Nêo está claro? (com malícia).
A.P.A:(Faz que não houve a P.P.R.T.) Bem, eu não tenho nada contra os psicólogos. Quem se aproxima de nós são pessoas capazes e entusiastas, às quais não se pode negar o que pedem. É uma pena que não possam ingressar na AssociaçãoH. :Muitos de seus consócios afirmaram diretamente que os psicólogos não temos nada que fazer na Associação Psicanalítica. Você, por outro lado, o lamenta, e junto com você, muitos outros de seus colegas, porém, fazem alguma coisa para que isto mude?
A.P.A. :Bem, sim... as opiniões estão divididas... enfim, cada um tem seus fundamentos e temos que respeitá-los.
G.:De acordo!
PP.R.T.:O que se passa é que não lhes convém ter mais capacidade ainda, e sim, em contrapartida, alimentar um mercado paralelo de psicanálise que ao mesmo tempo os alimenta. Por outro lado, um psicólogo é muito perigoso, porque sabe muito mais psicologia que um médico, que da matéria não conhece praticamente nada ao egressar da Universidade. Quem vão ser os mais dóceis para a Aprendizagem na Associação? Os médicos. As pressões do avanço do povo vão romper esta estrutura reacionária, é só questão de tempo.
H. :Deixar fora da Associação Psicanalítica aos cientistas de outras disciplinas alheias à medicina - como se a análise fora medicina!
- entendo que constitui uma desautorização ao selo imposto por FREUD, em tal sentido. Não há melhor evidência disto que "Questão da Análise Leiga" (1926), nem afirmação mais rotunda que aquela que, em dito trabalho, refere que a psicanálise é algo mais que uma terapia das neuroses, já que esta é apenas uma de suas aplicações, e acrescenta que "talvez venha o futuro demonstrar que nem é sequer a mais importante" Vinculando a psicanálise ao empirismo de sua prática técnica não há lugar para as outras aplicações, que não chegam a cristalizar-se praticamente pelo impedimento ao ingresso de outros profissionais que renovariam a estrutura cientifica e técnica de sua Associação. Renova. riam ou resgatariam? Por exemplo, a carência de formação epistemológica e metodológica por parte dos membros de sua instituição deu lugar à substanciação de certas teorias infundadas que,revisadas lógica e gnoseologicamen. te, pecam nada menos do que por serem antipsicanalíticas. O circuito fechado em que fun. ciona os canais de comunicação, dirigidos verticalmente de cima para baixo, possibilita e talvez até estimule a idealização dos emisores[p.11] - figuras e modelos de identificação - que se constituem, sem comê-la nem bebê-Ia, em líderes de grupos recortados por aparentes claras diferenciações. A ausência, insisto, de rigorismo incita à adscrição irreflexiva a determinados autores e teorias. Encontramonos, assim, com um amorfo espectro contraditório em que coexistem, pacificamente conceitos amplamente desencontrados. E não se pense que postulo o dogmatismo uniformizante. Não. Porém digo, quanto destas discrepâncias não tem surgido de um extremo sacrifício, qual seja, abandonar FREUD e, por favor, não me considerem ortodoxo. Quero dizer, que psicanálise é aquela onde os traumas substituem a categoria central do inconsciente, isto é, o desejo? Que psicanálise é aquela outra onde se subalterniza nada menos que o Edipo à agressão dos pais para o filho? Ou ainda, que psicanálise é aquela de mais além, na qual o analista, tutorizando ou analizando, lhe confessa que sentimentos ffie produziu o seu discurso? E também, quero dizer, que tipo de instituição psicanalítica pode ser essa, na qual não se trabalha por criar 'as outras aplicações"? De certo, não
existem?A.P.A. :Sim, sem dúvida, que existem. Esta é uma deficiência nossa. Agora, em relação ao que disse antes, é algo teoricamente bem co'ocado, porém, lhe direi, ou melhor dito, recordar-lhe-ei, algo que você terá comprovado e verificado na prática, e é o fato de que o analizando, vendo como trabalham os analistas, de distintas posições, vê que as diferenças não são tão cruciais, tão decisivas, como parece sê-lo na teoria.
H. :Pois isto é mais alarmante ainda. Isto indicaria que haveria uma homogeneidade na técnica, derivada não se sabe de onde, que viria como imposta de fora, ou desde as teorias A, B, C, D, que são, no que tange à. prática técnica, intercambiáveis. Entretanto, resulta que são não articuláveis entre si. Se esta situação prossegue, está em perigo, sem dúvida, o futuro científico da psicanálise, que deixa de ser uma teoria para converter-se em uma cega aplicação de determinadas fórmulas e regras de enquadramento.
Perdoem o ex-abrupto, porém, não seria recair em práticas mágicas?A.P.A. :Eu sou mais otimista que você e não me parece que a coisa pinte tão negra. Minha esperança, mais ainda, minha convicção, é que as diferenças teóricas chegarão a poder superar-se pela natural integração dos conceitos. Vai passar como no desenvolvimento evolutivo da criança, em que, logo após disociadas e clivadas as emoções, estas voltam a se integrar na posição depressiva. Em to as posturas, há algo de recuperável e não que rechaçar do plano nenhuma abordagem pois isto é justamente uma conduta dissociada, enferma, em que nós, os psicanalistas não podemos incorrer. Se não, se formos sectarizantes, como vamos ensinar aos a deixar de sê-lo?
G - : Estou totalmente de acordo com o Dr. Anker porém, gostaria de acrescentar alguns elementos a mais. Desde já que como seres humanos devemos ser amplos e considerado para como o próximo, e como você disse, nã rechaçar do plano a honesta abordagem d um colega. Aceitá-lo, respeitá-lo, dissenti com propósitos integradores, são finalmente atos de amor e que é a psicoterapia senão amor? Um tipo especial de Eros, ao quais poderíamos chamar de "Ëros Psicotera pêutico". Em minha prática, distintas teoria e métodos me serviram, me são úteis para trato com o enfermo - Os embandeiramentos as exclusões, são por fim das contas, condutas esquizóides, nas quais, ratifico, não devemos incorrer.
H- Permitam-me discordar de vocês. Deixaram de lado uma dissociação altamente saudável para os homens, em geral, e a ciência e a psicanálise, em particular; é a que separa a verdade do erro; o conhecimento do reconhecin jento-desconhecimento.
Numa palavra, passam por cima da indagação da cientificidade das teorias expostas (entre parênteses: "quanto destas teorias está integrado por conceitos e quanto, por palavras?"). Se, pelo contrário, estamos contestes em que o sujeito é excêntrico em relação a si mesmo, se o que chega, em sua consciência. não são mais do que deformações sistemáticas e enganosas, se o ego, por fim, é o lugar do desconhecimento e das ilusões, concluiremos, facilmente, que há um valor, diria eu, constitutivo da psicanálise, e que o transmitimos ao paciente em cada interpretação: a busca da verdade, que é tal por opôr-se e diferenciar-se do erro, o aparente, o mendaz. Entendo que trairíamos este valor supremo que "ensinamos" ao paciente e não o praticamos nós mesmos: que pouco amor prodigamos à ciência, a nossa ciência psicanalítica, se a justapomos com o que não é ciência, o que é igual, se acrescentamos conceitos científicos[p.12] com noções ideológicas, em aras de uma integração tão impossível como é a de nos propormos a articular deuses com vacas, laranjas e Napoleão. Por isso, reitero que a psicanálise deve dissociar de si todos aqueles parasitas que a fagocitam fazendo-a crer que a nutrem, apesar de que um exame perspicaz descobre, ali, justamente, uma psicanálise anêmica e caquética.PPRT:Escutei atentamente o que vocês disseram e os três pecam num ponto capital: o fato de isolar a técnica do contexto sociopolítico em que vivemos, O que diz o Dr. Gamma me parece um resaibo religioso, idealista; O Dr. Anker situa Melanie Klein onde não acredito que lhes corresponda, e o Psicólogo Harari revelou-se-me como um cientificista. O que se passa é que-.. (Diálogos simultâneos, incompreensíveis, em tom elevado).
COORDENADOR: Por favor, solicito que não dialoguem entre si! (A PP.R.T.): Continue, por favor.
P.P.R.T. :Perdão! Tive que ser franco para lhes dizer o que penso. Quero dizer que vocês não perceberam a conexão que existe entre o exercício da profissão e o momento em que 2S- tamos vivendo neste país, em nossa Argentina, devastada pelos monopólios do imperialismo ianque. O que a mim preocupa é como contribuir, a partir da psicanálise, com a tomada de consciência de nossa condição de povo explorado e dependente, em ser efetivamente, um agente de mudança, que como tal contribua a forjar a Revolução Social.G.:Você, está confuso. A questão não é que...
A.P.A. :Isto é um bom romance, é novela. Quem supõe que você é agente de mudança...
H. :Agente de mudança! Quanto dano nos tem feito a nós psicólogos esta muletinha infalível!
COORDENADOR: Por favor! Solicito-lhes, novamente, que deixem quem está fazendo uso da palavra concluir a sua exposição.. -
(TODOS CONCORDAM INCONFORMADOS)P.P.R.T. :Continuarei, então. Hoje, em dia. enfrentamo-nos com conflitos distintos dos conflitos de outros momentos. Os pacientes, os analisandos, são também distintos, à medida que eles é que são os portadores materiais desses conflitos. A preocupação pela luta de classes, exacerbada em nosso país pela violência cotidiana que o regime realiza sobre todos nós e, muito em particular, sobre a classe operária, surge reiteradamente e se expressa por distintas vias no material dos analisandos.
H. :Quantos pacientes tem você, em tratamento, e quantos teve, em geral?
PP.RT. :Bem.. - dois.. - porém nos dois a problemática é afim, a preocupação é a mesma e por isso é.-.
H :Também a sua preocupação é a mesma.. -
COORDENADOR: Rogaria ao Dr. Harari que não interrompesse ao dissertanteH. :Bem. Eu apenas queria esclarecer. --(?).
P.PR.T. :Como dizia, por isso é que não concebo que uma análise bem levada escotomize a problemática sócio-política do país como tema a ser tratado, nem concebo que a análise finalize sem um comprometimento ativo do analisando com a realidade que lhe cabe viver.G:Equivoco-me, ou você quer dizer que o paciente deve ter algum tipo de militância política para que se o considere curado?
P.P.ILT. :Não, você não se equivoca. Assim, como sua cura se evidencia em outras áreas, por distintas ações que esperamos do analisando, na área sócio-política o que eu espero, é que consiga consciência da injustiça desta sociedade enferma e que, estando sadio, faça o que está a seu alcance para modificá-la, isto é, sará-la.
A.P.A. :Isto não é psicanálise, é sugestão. Você tem de ignorar que FREUD disse que devemos cuidar-nos muito de querer fazer o paciente à nossa imagem e semelhança, que devemos respeitar sua vida e que ele eleja o que lhe pareça adequado, justo e correto. O que você postula é totalmente improcedente, é puro proselitismo político.P.P.R.T :Você acredita que não faz proselitismo político? Se você cala o que sabe sobre esta sociedade, se não o vê com o analisando, não é cúmplice da manutenção deste sistema? Não está fazendo propaganda inconsciente- mente? Não está lhe dizendo implicitantemente que tudo está bem como está, que não há nada que modificar? Ou se não, inclusive, não lhe diz. - embora sem dizer-lhe - que, bem, que talvez terá que mudar algumas coisas, ou muitas, ou tudo, porém que disto devem se ocupar os outros?[p.13] Não crê que ao postular a assepsia, você se converte num adaptancionista?
H. :Gostaria de lhe responder, se o Dr. Anker, me permite (Este concorda). Bem, eu creio
que um texto que é quase inevftável que hoje citemos aqui é o "Análise terminável e interminável." Recordar-se-á, que, nesta obra, FREUD colocava se é exeqüível e conveniente despertar, com fins preventivos, um conflito ainda não manifesto. Concebe duas supostas vias para conseguir-se tal objetivo, a saber: o precipitar situações nas que o conflito se torne atual, ou discuti-lo com o paciente na análise, assinalando as possibilidades de que se produza. Permitir-me-ei alongar-me um pouco mais nestas colocações, posto que a lucidez de FREUD e a atualidade e vigência de seus postulados o solicitam. Diz assim (abre o livro e lê): "na profilaxia analítica dos conflitos pulsionais só podem pôr-se em consideração dois métodos", consistindo o primeiro "na provocação artificial de novos conflitos na transferência-carentes, entretanto, de caráter real," julgando a este respeito que "de modo algum se pode esperar alcançar grande proveito com este procedimento". Resta somente então, (aquele caminho que talvez fosse o único que temos em conta desde o princípio. O analista assinalará ao paciente a possibilidade de outros conflitos pulsionais) despertando sua expectativa de que também ocorram nele. Fá-lo-á na esperança de que esta informações e advertências tenham por resultado ativar nele, um dos conflitos aludidos, em medida moderada, porém suficiente para permitir seu tratamento. Mas, em tal caso, a experiência nos oferece uma resposta inequívoca, pois o efeito esperado não se produz. O paciente se cientifica de nossa mensagem, porém não reage em absoluto. "Muito interessante, por certo, - pode pensar consigo próprio - porém não me faz sentir nada" - Com isso teremos acrescentando algo mais a seus conhecimentos, sem modificá-lo em absoluto. (Fecha o livro com ar de identificação com o mestre). Esta é a citação. Por que a trouxe a consideração? Bem, porque creio que fornece o ponto indicado e adequado para o tema que nos ocupa. Em que sentido? Pensemos no seguinte: que fazemos com um paciente a quem manifestamente não lhe preocupa sua militância política, que jamais falou em suas sessões sobre o fato de comprometer- se com alguma mudança de estruturas possíveis, que, numa palavra, orbita ao redor de outros conflitos? Ou seja, que
fazemos com um paciente notoriamente apolítico? Sim, já sei, você (dirigindo-se a P.P.R.T.) dirá que dito paciente, igualmente, faz política e, igualmente, tem uma ideologia, a qual sendo, nele, inconsciente, se lhe impõe e se nos impõe em suas ações. Agora, bem, esta indiferença para "o social" (?), segundo tenho lido, deve ser considerada como sintoma. Afirmar-se-ia, consequentemente, que o paciente reprimiu sua sensibilidade social, sua capacidade de identificação com os outrus, seu altruísmo; que nega a realidade que o circunda e que se refugia onipotentemente em seu mundo privado, de relações primárjas. Ê um dissociado, um enfermo, e devemos insistir na análise para dissolver estas defesas o que conduziria a que, também nesta, área, se faça consciente o inconsciente, e o paciente,
- logo após a elaboração subseqüente. - se politize tal como corresponde aos sadios. Porém, agora me pergunto: em virtude de que, senão por causa de uma afirmação ideológica, ergo não precisamente científica, posso dizer eu que o paciente deve ser um revolucionário? Por que não posso sustentar que, diante do estado de coisas atuais, que ele se nega a considerar, pois, que se deixe de se negar e se torne monarquista!?... Perdão, desviei-me um pouco no raciocínio. Faço esta colocação dando por sabido que, - como diz FREUD e se comprova na prática cotidiana
- tudo isto, ao paciente, em tanto lhe é inatual, ou não o modifica ou, - o que é muito mais perigoso, - talvez, o submeta à figura de un analista temido, - idealizado, que apresenta um superego ideológico, exigente e severo. Porém, voltemos ao exemplo da monarquia, ou se vocês quiserem indistintamente, do nazismo. Existe um implícito, em tudo isto: eu devo sustentar que "a boa ideologia", - boa a meu juízo,. - está contida no paciente, e que se trata, então, de extrai-la para que essa bondade-saúde latente se
torne ato e...
P - P.R.T. :Já que você quer discriminar ciência de ideologia, pennita-me interrompê-lo, posto
que eu lhe vou fazer uma distinção precisa sobre isto. Como tem a ousadia de confrontar o socialismo com a monarquia, ou o nazismo? Não demonstrou Marx, por acaso, que a evolução natural do estágio capitalista conduz ao socialismo, e não se adequa a esta demonstração o fato de ser conceptualizada como conhecimento científico? Assim, pois, mal pode você confundir sistemas distintos, misturar os reacionários com os progressistas, já que cientificamente uma coisa é certa: os sistemas superados não retomarão. A luta do [p.14] povo conduz à possibilidade: a Revolução Social e a correspondente socialização dos meios de produção. O problema, então, é muito simples: ou se está com a ciência e a Revolução, ou não somos mais que meros suportes do sistema e de sua ideologia!H. :De modo que, concedido, tendemos para o socialismo. Diria, então você, que o paciente. possui uma verdade revelada, que é este conhecimento que nós possuimos - em seu inconsciente, e que é preciso extrai-lo. Demos uma volta a mais na espiral. Este suposto de sua afirmação é aquilo que Althusser demonstra encontrar-se no núcleo de todo empirismo. Os empiristas, quando imaginam que estão conhecendo, separam, no objeto real, do objeto real, o essencial que se constitui no objeto de conhecimento. Porém, onde está esse objeto de conhecimento? Imediatamente, o reconhecem como pertencente ao objeto real.
Não é uma produção da e na teoria, senão que o objeto real mesmo "fala" por si só e diz por onde deve ser recortado para encontrar sua essência. Basta apenas respeitar as linhas de demarcação do objeto real, as quais se impõem ao observador que constrói a teoria. O objeto de conhecimento não é, então, outra coisa que uma parte do objeto real. Não está oposto nem diferenciado deste, não guarda com ele uma relação de alteridade, não existe no plano do pensamento, da teoria, da ciência.
Eu des-oculto, retiro o véu do inessencial que obtura a visão da essência pura, em nosso caso, "a boa ideologia", que eu decido que está no paciente sob título de tal essência. Tratarei, então, de retirar a escória inessencial - o apoliticismo - para que emerja, limpida e fulgurante, "a boa ideologia", o caroço da fruta. Dir-meão, por que diz que "eu decido", como para demonstrar que isto não está no analisando? E lhes responderia: Com que conceito de defesa, de repressão, neste caso, trabalham vocês, e com que conceito de sintoma? Porque, repassemos: o sintoma é uma formação transacional, entre pulsão e defesa. Satisfaz a ambos parcialmente e, em sua cristalização, ambos fracassam parcialmente. Como bem se sabe, os exemplos, além do sintoma, são as clássicas "formações" do inconsciente: sonho, chiste, atos falhos, lacunas e incoerências, o discurso da associação livre no que reconhecemos as ramificações do reprimido que busca abrir passagem à consciência de maneira deformada e encoberta.Não descobre um inconsciente ativo e eficaz. Agora, entretanto, que formação é "a indiferença manifesta perante o social"? Tem aiguma vinculação nosológica e/ou conceptual com a "befle indifférence"? Parece ser o caso de uma repressão bem sucedida - originária?
- já que aparece como apoliticismo, como uma ausência de "ser revolucionário", varrido totalmente da consciência. Porém, se é um sintoma, tem que haver repressão mal sucedida que produz efeitos na consciência. E, aqui, nos encontramos num beco sem saida teórica. Seria assim: a indiferença perante o social é um sintoma, então, há repressão fracassada, então haverá efeito da repressão
- do retorno do reprimido - porém, não há efeitos da repressão, então a repressão deve ser exitosa, então isto não é psicanálise, é uma teoria feita de contradições e de hipóteses "ad-hoc". E uma ideologia na qual eu decido como deve ser "o homem", e de acordo com essa preconcepção, com essa noção, digo que todos os homens são assim, temos essência comum, embora esta não se veja e não sirva para nada. Eu vou desvendá-la. Esta concepção peca por especularidade, de reflexos que refletem e se reflexam. Você encontra, no paciente, o reflexo do que você pensa e sente, e, ao mesmo tempo crê que reflete o que o paciente pensa e sente, e se conforma, assim, um circulo vicioso de fascinações duais, em que sempre encontramos aquilo que temos dito - o' casualidade! - que tem que estar. Sua teoria da leitura é altamente chamativa tanto como esse estranho inconsciente com que você teoriza, esse sábio inconsciente que conhece de economia politica e de movimentos revolucionários. Esse inconsciente não é freudiano, é supérfluo dizê-lo. Quase se afirmaria que tem um certo ar do inconsciente junguiano.
PP.RT. :Você e suas teorias complicadas e filosofantes! Por acaso falei do inconsciente, ou coisa parecida? Considero que devemos não valorizar tanto ao inconsciente, que para mim não é nenhum sábio nem nada que se pareça, senão, melhor, que o ego do analisando, por sua parte sadia capaz de raciocinar, de refletir e de compreender a realidade que os rodeia. Por acaso os pacientes são infra-dotados?A.P.A. :Bem, aqui, parece que tem de ver o doutrinamento político com a "psicologia do ego" estado-unidense. Os extremos sempre se tocam.. -
P.PR.T.:Veja, isto, de "psicologia do ego", entendo que não vem por acaso. Vocês estão[p.15] empenhados em fazer-me dizer coisas que eu não digo, e para isto tomam
qualquer elemento que tenham à mão. A mim me interessa o contato humano com o paciente, com sua alienação, compreendê-lo e ajudá-lo para que sua práxis vital sej a realmente criativa e produtiva. Não estou nessa de teorizar, não busco como baluarte as doutrinas crípticas.H. :(com tom sério): Fiz um coquetel indigesto:
um pouco de humanismo do jovem Marx, outro pouco de compreensão fenomenológica, algo de voluntarismo consciencialista e um rançoso empirismo como fecho de ouro - -.P.P.R.T. :Bem, eu não estou disposto a contestálo com "ismos". - - Pense o que quiser... (molestado).
G. Fiquei um pouco à margem, escutando-os e, ao fazê-lo, evocava casos de minha experiência, com pacientes de distintas convicções ideológicas, políticas, sociais. - - eu creio que consegui com eles o que constitui, a meu ver, a atitude técnica precisa: contemplar e respeitar a ideologia de cada um que cada um elabora em função de sua concepção do nundo e da vida, todos os pacientes, em uso de suas capacidades e de sua liberdade, têm, conscientemente ou não, uma Weltanschaung, uma concepção do mundo e da vida.
H: Você também tem uma Weltanschaung quando crê que os pacientes são "livres" ou que agem em uso de sua liberdade, que quer dizer com isso?G.:Pois, precisamente isto: que em função desse dom humano, dessa liberdade que nos é dada a cada um, nesta vida, cada um elege seu projeto de vida, de acordo a determinada ideologia a determinados valores.
P.P.R.T. :Cada um elege? Oxalá! O sistema, Dr. Gamma, se mete em nós e, subrepticiamente, nos faz constituir uir projeto de vida curiosamente parecido aos demais, porque nos gera necessidades e nos coloca metas diante das quais não nos resta muita escolha, a menos, como dizia, que reflexionemos desde a teoria revolucionária do marxismo e tomemos consciência da alienação em que vivemos. Somente assim poderemos dar-nos conta de que a verdadeira escolha, está por fazer-se e que está na opção pela Revolução.
H.:O Dr. Gamma quase disse o que Sartre! "O homem está condenado a ser livre". Eu, com FREUD, lhe diria: "O homem está condenado a não ser livre". E este é um ponto em que se adverte que a psicanálise é um "método psicoterapêutico a mah senão que a revolução tcrica por ela ii plicada provoca a ruptura,- entre outras do mito ideológico "do homem livre", mamente suturado às concepções livre transformistas e livre-empresaristas. Porque onde fica senão o sujeito descentrado aprisionado por sua compulsão repetitiva buscando sempre o objeto impossível inacessível do desejo "frustrante" por defi nição? Onde as racionalizações e intelec tualizações sistematizadas que são as que tentam legalizar, com lógica, as inibições, os sintomas, as angústias, os traços caracterológicos enraizados? As escolhas e rechaços de nossas vidas estão determinados inexoravelmente por este hiato fundamental que faz com que fiquemos divididos: que exista o inconsciente, e que sua estrutura presida o dever real de um sujeito. Fica de pé, ainda, outra circunstância, qual seja que se o sujeito é, em tanto tal, constituído por suas identificações, - essencialmente com seus objetos primários, muitas vezes não é mais que uma mera ilusão sua crença no afastamento de tais identificações. Uma análise cuidadosamente conduzida desmonta e desmascara estes auto- enganos e desemboca na assunção consciente dessas identificações que, por suposto, são ineludíveis. A via para poder dispor mais de si próprio, para resgatar-se da opacidade implícita no valorar-se e valorar aos demais, desde as deformações que chegam a consciência, é, obviamente a análise pessoal. Ou seja, dito de outro modo, que somente conseguiremos instituir os alicerces de tal "liberdade",
- entendida não como essência metafísica, como, em quê, e de que maneira não somos livres. E, por favor, não me chamem de exorsista.
Enquanto ao economismo e socialismo mecanicistas do Psicólogo ou Psiquiatra Revolucionário que (quase) não Trabalha, entendo que uma leitura séria de Althusser far-lheia compreender que o que acaba de arguir não é precisamente a teoria revolucionário do marxismo, mas, pelo contrário, algumas noções de iniciação hegeliana que foram retomadas por certos gangsters intelectuais contemporâneos, entre os quais ocupa um
lugar destacadíssimo ERICH FROMM.
A.P.A. :Em linhas gerais, comparto o que nos acaba de expor o psicólogo Harari. Queria acrescentar, ainda, que as posturas que se auto-intitulam "revolucionárias", [p.16] enconultimamente eco em determinados membros de nossa Associação suscitando posições dissímiles de apoio a de ataque. O interessante é a tomada de consciência deste grupo sobre as condições gerais em que se desenrola nosso trabalho, isto é, numa Sociedade marcada pela luta de classes. Aqui, nesta revista (e com um gesto de "agora vocês vão ver", tira de sua pasta um seminário de notícias), um destes colegas afirma que "é uma ilusão crer que é possível uma desalienação individual. É necessário intentar com outros a luta pela mudança estrutural da sociedade de classes." E quando o periodista..
P.P.R.T.:Exato! Assim é que se fala!
A.P.A. :. . .lhe perguntou sobre se com isto queria dizer advogar o socialismo, sua resposta foi ternamente messiânica e digna de ser revisada nesta mesa. Disse: "Exatamente. Já FREUD disse que há duas classes de possibilidades diante da problemática da sociedade: as autoplásticas (operar para dentro) e a aloplásticas, ou agir para fora. As segundas são muito importantes e muito sadias: estamos neste mundo para mudá-lo". Sublinho esta
conclusão final
H. :Aí está a definição ideológico.essencialista! Aí, está "a boa ideologia" reprimida. Porém, por outro lado, sinceramente, não há dúvidas do messianismo implícito nesta tão contundente decisão. Você que os deve conhecer bem, Dr, Anker, acredita que tais colegas são honestos e bem intencionados, ou não será...
COORDENADOR: Considero que a pergunta do Dr. Harari não é pertinente e que leva a discus. são científica a um terreno pessoal. Rogar-lhe. ia, portanto, que não insista nela.P.P.R.T.:Comprovo, cada vez, com mais precisão, que Harari é um reacionário...
H. :Não lhe permito! Você não vai me faltar ao respeito! (Recompõe-se, indignado).
COORDENADOR: Senhores, por favor, ordem! Peço (dirige.se a P.P.R.T.) que fundamente sua acusação.H. :Deve retificar-se!
P.P.R.T. :Faria se você dissesse outras coisas que as que esteve, hoje, dizendo o tempo todo! Porém, o cúmulo, realmente, é que duvide das boas intenções dos colegas revolucionários.. - isso já é para que a gente termine de caracterizá-lo como reacionário.
II.: Está bem, não devo esquecer que você é maniqueísta. Os que dizem o que você diz são os bons; os que não, são maus. E isto, a partir, reitero, de que se diga, não importa que se faça, e menos importa ainda a existência de uma distância abismal entre o principismo verbalista e a ação. Pelo visto, basta com apregoar - judeu-cristamente? - que "Es- - tamos neste mundo para mudá-lo", para que você preste seu mais fervoroso apoio as estas palavras. Porque parece que as palavras, neste nosso mundo, no Terceiro Mundo, produzem transformações espetaculares. Digo eu: Não será que existe uma confusão terrível, produto de deformaçao profissional? Quero dizer, se a palavra é tão vital em nossa profissão, se a matéria, o material e a materialidade da análise radicam na palavra, que produz transformações reais em nossos pacientes ao ser bem pronunciada, não será que por uma sorte de hipostase onipotente cremos que tudo muda pelo fato de desvela-lo e revelá-lo? Porque insisto, sob o risco de me tomar tedioso, uma coisa é materialidade do significante, e outra coisa é a materialidade da produção, a distribuição e o consumo dos bens de uma determinada formação social. E, agora, não me venham dizer que quero separar FREUD de Marx, senão que a questão deve ser colocada em outro espaço, e é se se pode ser um psicanalista freudiano se pensamos que com a análise contribuímos para fazer a Revolução, fazendo revolucionários aos pacientes? E, neste último caso, por acaso é ser marxista? Minha resposta a ambas perguntas, é totalmente negativa. As afirmativas configuram efeitos híbridos e ilusões apaziguantes do superego ideológico do próprio analista, que acarreta como conseqüência o não incorrer numa prática política certa.G. : Interessa-me destacar nessa afirmação do colega mencionado, que vocês ressaltaram, algo que me parece errôneo por ser unilateral. É a que diz que o aloplástico, o agir para fora é algo "muito sadio" - Eu creio que o que faz a esse colega dizer isso é o que acaba de indicar o Dr. Harari, isto é, o desejo de transformar aos pacientes, desde e com a análise, em revolucionários, gente de ação. E o que se disse antes da militância: sem ela, não há alta possível. Deixando de lado se a miitância é tal ou qual, aí há um prejuízo: privilegiar a ação sobre a reflexão, ou diretamente, subalternizar a esta última.
H. :Com o que a gente indica algo um tanto estranho para o exercício da psicanálise: [p.17] fabricar psicopatas. Já sei que me vão dizer que nem toda ação é atuação, que a psicanálise não constituiu ainda uma teoria da ação, que, No Princípio Foi A Ação, e, por ai, até que propugno a masturbação mental contenplativo nos pacientes. Estas críticas são tão inconsistentes que nem merecem ser refutadas. O que sucede, sim, é que quem pensa como você (P.P.R.T.)acusam ao sistema de induzir e premiar aos psicopatas e, entretanto, em sua prática intentam provocar o mesmo, porém, para outro lado. Outra vez uma armadilha ideológica que se resolve "invertendo-se" a problemática, não transportando-a para outro terreno. Ademais, em quantos casos, o desejo de "revolucionarizar" pacientes não deriva de uma identificação projetiva, por meio da qual se inocula que outros, - os analizandos, - façam aquilo que a gente não faz.., porém, sim, apregoa. Já que se alguém também quiser fazer, talvez tomasse consciência que a militância de um analista não se joga com seus pacientes, senão por fora dos mesmos, na prática política.P.P.R.T. :Desde já, meu desacordo. Eu entendo que essas rígidas dissociações que você faz, são a conseqüência de não querer comprometer-se, a nível profissional, com a Revolução. Por exemplo, em meu caso, já estou fazendo algo que me vincula profissionalinente com a Revolução, quando penso no modo de poder atender mais pacientes, de conseguir ir mais além da psicanálise clássica através da instrumentação dos conhecimentos analíticos para constituir terapias populares, massivas. Em vista do que não podemos postular como meta algo assim como "psicanálise para todos", é preciso introduzir estas modificações técnicas que apontam essencial' mente para a redução da longitude temporal do tratamento analítico habitual. Desta maneira, eu concebo - e não estou só nisto,
- que se pode chegar, dentro da profissão, e no aspecto que agora consideramos, o "puramente" técnico, a situar-se em mediações precisas que configurem, bem enfocada, uma militância dentro e desde a prática da profissão.
G.:No uso das terapias breves, jamais pensei como um revolucionário. Para mim, é uma técnica a mais, eficaz ou não, de acordo com os pacientes, ou seja, com sua indicação específica, que se integra no arsenal terapêutica. Não faz pensar que a gente seja revolucionário, realmente, por utilizá-la.H. Exatamente. E diria mais. As terapias breves, - e com isto não é minha intenção fazer julgamento sobre as transformações reais que podem produzir nos pacientes, - quando se degenerarem em "populares" e são vendidas com como tais, apela, em primeira instância, ao desejo reparatório do terapeuta que está vinculado à premissa-invocação: "ajudarás a mais pessoas e serás, assim, revolucionário". Sabem com que comparei, muitas vezes, este tipo de raciocínio. Parecer- lhes-á estranho.Pois, com os "hippies". Ambas são formas, por meio das quais, o sistema expressa, porém controla, contém e freia, os germens que podem apodrecer suas bases. Ë o necessário para que não aconteça nada. Os "hippies" ilhando-se num mundo imaginário, "pleno e rico", crêem estar fora do sistema, sem dar-se conta de que o necessitam, assim como, "establishment", deles. Os terapeutas breves, por sê-lo, se crêem populares? Um espelhismo ideohizico em que se assevera se sai do sistema atravs de modificações nas técnicas que fazem ao axercício profissional, partindo de um implícito de tamanho peso, como o que se segue: como tudo é como é, tenho que ver como faço para aliviar a situação. Porém, atenção! Tudo seguirá sendo como é, claro que com maior alívio para os pacientes, que são abarcados em maior quantidade. E outra vez: não digo que o fato de atender e ajudar a mais pessuas necessitadas "seja mau", de modo algum., - se não, não seria o que sou: psicoterapeuta, - senão que o que sim é errôneo é a falsa consciência científica, técnica e revolucionária com que se aborda dito que.fazer. Enquanto os profissionais ficam seduzidos com essa falsa consciência, nem entendem bem porque trabalham de uma determinada maneira e não de outra, nem se entendem a si mesmos como contra- revolucionários adeptos do reformismo burguês.A.P.A. :Eu acrescentaria que as terapias breves, indubitável "boom" de um tempo para cá, requerem também ser revisadas ao nível que você mencionou como "transformações reais que podem produzir nos pacientes". Ou seja, que haveria que se questionar, comparativamente, com a psicanálise, qual é o critério da aita, ou da saúde com que se manejam as terapias breves, em que conceito de neurose se embasam, e qual é a teoria que sustenta esta modalidade técnica.
H. :(Com sorriso benévolo) Dr., outra vez o empirismo? Não me vá dizer você, o mesmo que [p.18] diz Bleger, isso de que a psicoterapia breve deve chegar a estruturar seus próprios marcos conceptuais, sua própria teoria da personalidade, da enfennidade e da cura! Se isto é assim, devemos concluir que as teorias são um subproduto epifenomenal das técnicas. Com isso, este autor deve considerar que o
movimento vai desde um tecnicismo cego, - porém que contém em seu seio uma sabedoria própria, - que se vai esclarecendo da Idéia? - e chega finalmente à teoria que a avaliza, que suporta esta prática técnica. Es- turnos em presença, então da "teoria da técnica", aberrante designação que, em base do empirismo, crê que a teoria não é de um objeto de conhecimento formal abstrato, através de cuja postulação uma disciplina se constitui enquanto ciência, senâo que a teoria o é dos objetos reais concretos. Outra vez, sim, a fascinação dual das quimeras ideológicas: faço- me uma teoria que avalize e "funde" minha técnica e não parto de um abstrato-de- pensamento que me conduza ao concreto-de- pensamento e dai ao objeto real-concreto. Não começo com o inconsciente, mas com as terapias breves. Então, se procede assim, claro: cada técnica terá sua teoria, e - á casualidade! - a teoria suporta esta técnica. Nada de tudo isso é Freud, e me remeto, para isso, à sua obra, onde tudo isto se encontra "em estado prático", como diria Althusser, e especialmente à citação que antes inclui, da obra "AnáliseLeiga". Em outras palavras: a coisa é pensar e produzir outras aplicações da análise, porém não fazer outras pseudopsicanálises, ou dizer que "a psicanálise está superada", definindo por tal, a análise clássica, e esquecendo em primeiro lugar que a análise é uma teoria científica formal abstraída de seu objeto, o inconsciente. Ergo, é desde esta ciência, com a mesma teoria da personalidade, da enfermidade, da cura, etc, etc, - que lemos sintomaticamente - desde onde devemos começar para trabalhar na prática teórica e na prática técnica para localizar novos conhecimentos e/ou novos reordenamentos do campo. E não novas palavras,
- embora que sejam alemãs, - senão novos conceitos: não palavras vazias, mas plenas de um sentido articulante. Somente a partir destes elementares enunciados fundamentais, é que podemos chegar à confrontação sistemática da prática técnica psicanalítica clássica com as terapias breves derivadas da teoria psicanalítica.
A.P.A. :Bem, seguindo essa linha, convirá, então, comigo, em que a terapia breve de inspiração psicanalítica comparte com a psicanálise clássica um mesmo critério de cura, de saúde e de alta, e que é que o paciente pode chegar a instalar-se na posição depressiva, tal como a formula Melanie Klein. Ou seja, que possa integrar suas emoções para com um mesmo objeto, do qual possa ver o bom e o mau, ou seja, que tolera a ambi. valência; que também sintetize seus sentimentos para si mesmo, desistindo da posse interna de um objeto idealizado pela aceitação madura das próprias limitações, que abre o campo acerca das próprias possibilidades vitais; que predomine o instinto de vida sobre o instinto de morte (com certeza: "isto é irrefutável").
P.P.R.T. :Não estou de acordo. Eu creio que este critério esmaga as possibilidades de efetuar dissociações onde estas são necessárias. Não vejo porque seja preciso ver sempre o bom e o mau em todos e em tudo. Concretamente, aqui, neste painel, cada um crê ter o bom para si e o mau para o outro, e se fosse assim, poderíamos discutir?
A.P.A. :Se fosse totalmente, assim, nem sequer teríamos podido sentar-nos juntos nesta mesa e tolerar-nos mutuamente, e isso que, em muitos instantes, a discussão é de tom acalorado.
H. :Estou com o que disseram nas últimas participações, porém, não assim como foi for. mulado pelo Dr, Anker, previainente. Temos que colocar-nos qual é a rede ideológica da qual provém o conceito "posição depressiva", por um lado, e sua compatibilidade com o pensamento freudiano, por outro. Isto é, ver se é tão certo, isto de que Melanie Klein é a continuadora de FREUD, isso de que tudo o que FREUD não viu, o viu Melanie Klein. Para esta autora, da posição depressiva, surge o mecanismo sadio, base de todo o sucesso e de toda a sublimação: a reparação que é do dano produzido fantasiadamente aos objetos amados. Diz-se que é uma reparação que tende a restituir sua integridade aos objetos ia- ternos, segundo certos leitores. Outros, por outro lado, - entre os que me éituo, - não deixam de advertir inúmeras passagens da obra kleiniana nas quais a reparação surge ao efetuar processos sobre objetos reais, extero
nos, isto é, condutas reparatórias, fatos categorizados como reparatórios. Deste ponto, um só passo a mais e nos encontramos imersos na problemática tão cara ao cristianismo: a salvação da alma pecadora. Será um ressaibo da religião na ciência? Porém, se somos[p.19] conseqüentes com o cristianismo, advertimos prontamente que uma via privilegiada para obter o perdão divino e salvar-se é a sujeição ao preceito: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo". FREUD ocupou-se na refutação detalhada dos argumentos que subjazem a este utópico postulado, na obra "O Mal-Estar na Civilização". Recordemos que, nesta obra, se coloca o porquê deve-se querer a todos igualmente, - "depressivamente", - e dizia a este respeito: (busca o parágrafo e lê): "meu amor é, para mim, algo muito precioso, que não tenho direito de desprezar insensatamente. Impõe-me obrigações que devo estar disposto a cumprir com sacrificios. Se amo alguém, é preciso que este o mereça por qualquer titulo... Mereceria meu amor se se me assemelhara em aspectos importantes, a ponto tal que pudesse amar nele a mim mesmo; o mereceria se fosse mais perfeito do que eu sou, em tal medida que pudesse amar nele o ideal de minha própria pessoa, deveria amá-lo se fosse o filho de meu amigo, pois a dor deste, se algum mal lhe sucedesse, também seria minha dor, eu teria que compartilhá-la. Por outro lado, se me fosse estranho e não me atraísse nenhum de seus próprios valores, nenhuma importância que houvesse adquirido para minha vida afetiva, então me seria muito difícil amá-lo. Seria até injusto que eu o amasse, pois os meus apreciam meu amor como uma demonstração de preferência, e lhes faria injustiça se os equiparasse com um estranho. Porém, se tenho de amá-lo com esse amor geral por todo o universo, simplesmente porque também ele é uma criatura deste mundo, como o inseto, o verme e a cobra, então me tomo para mim que só lhe corresponde uma infima parte de amor, de nenhum modo tanto como a razão me autoriza a guardar para mim mesmo. A que vem, então, tão solene apresentação de um preceito que, razoavelmente, a ninguém se pode aconselhar cumprir?" (Perturbado diante dos raciocínios esmagadores do gênio). Que mais posso dizer eu? Que o critério de alta é que um sujeito seja capaz de amar "depressivamente" depois do que acabei de ler?
A.P.A. :Claro, creio que você se preocupa com o destino do instinto de morte, e que me coloca em que lugar fica quando postulamos a posição depressiva como saúde. Pois fica nas canalizações implicadas nas boas sublimações da agressão, da agressão produtiva, construtiva.
H.:E isso o que é?
A.P.A. :Como que é? Ê a agressão a serviço do trabalho, da vida E a agressão de poder morder para comer, de lutar contra a enfermidade, em nosso caso, contra a terra para lhe extrair produtos; contra o metal para modelálo, etc, tal qual o especifica Menninger. Isto quer dizer que a posição depressiva implica ademais, uma inibição da agressão mas... digamos.. descarnada da posição esquizoparanóide e um deslocamento da mesma sobre outros objetos.
H. :Insisto! Creio que em sua colocação, inclusive com este esclarecimento, subsiste um obstáculo epistemológico imbricado no cristianismo, e em sua tradição, que impede objetivar, como mencionei anteriormente em relação à ciência e à ideologia, que é preciso dissociar entre os seres humanos porque somente assim um sujeito é capaz de discriminar e somente assim pode inscrever- se isto na metapsicologia pulsional freudiana. Há que recolocar-se se a tão falada "fusão Instintiva", que atravessa a posição depressiva, - porém, parcialmente, segundo se diz, se dá em todo o sujeito e em qualquer "posição", - não é operacionalizada aos efeitos de ocultar a apreensão da estrutura da pulsão de morte.
P.P.R.T.:Eu, diferentemente de você, diria isto em nível mais concreto, novamente. A nivel de uma psicologia concreta, o que há que se propor como objetivo terapêutico é que um indivíduo aprenda e saiba odiar a quem provocam a maior parte dos sofrimentos, próprios e alheios neste nosso pais neo- colonialista subsidiário do capitalismo monopolista: os detentores da propriedade, os exploradores, a oligarquia nativa agro- exportadora e mantenedora aliada ao imperialismo ianque. A eles não se deve querer, e se não é um submetido anal que não detecta a procedência de suas penúrias mentais. Esclarecê-lo é tarefa do analista e para isso devemos mostrar uma e outra vez onde está o bom e onde está o mau!
H. :Visto que aquilo que previamente expliquei sobre a ideologização pré-científica que você postulava, caiu em saco furado, e insiste em suas afirmações, tentarei lhe demonstrar que o que acaba de dizer se afasta outra vez e de outra maneira da teoria psicanalítica. Nem falarei que para você as séries complementárias não existem e que o conflito de um iadivíduo se joga com o aqui-e-agora. Não são repetições compulsivas de um passado sempre[´p.20] presente, senão que é um presente puro e diáfano, sem curativos e ataduras. Isso não é psicanálise, obviamente. Porém queria lhe mostrar as falências e as falácias a que conduz a busca de uma coerência interna de seus apotegmas apodíticos com o substancial da psicanálise. Vejamos. Se aquilo que você sustenta é certo, esse ódio que devem sentir os explorados para os exploradores, se disso!. veria até se tornar irreconhecível e desaparecer numa sociedade justa. Ê assim?
P.P.R.T:Bem, em realidade... hummm. - - creio que sim. Não haveria motivos para odiar, seríamos todos iguais, não haveria situações sociais frustrantes, não existiriam os que têm e os que não tem, diminuiria muitíssimo a inveja, a rivalidade, a competição rapace que caracteriza ao capitalismo. Sim!... Minha resposta é que é assim.
H. :Ou seja, a teoria fonnal abstrata muda de acordo com as mudanças sociais - Algo assim como que haveria uma teoria psicológica para o homem do capitalismo, outra para o homem do socialismo, haveria, inclusive, uma personalidade "neurótica de nosso tempo" distinta da de outros tempos. Muito interessante. Porém eu me pergunto onde ficaram os conceitos, as unidades do discurso científico, as constantes invariantes que articulam os suportes de uma teoria? Estamos na mesma que dizer uma teoria para as terapias breves, outra teoria para a psicanálise, e assim sempre. Em suas afirmações se nota de novo o erro de justapor e confundir o objeto de conhecimento com o objeto real. Nas suas como na dos "culturalistas" ingênuos. Como me coloca um questionamento como o que
acaba de fazer, preparei uma citação também de "O Mal-Estar da Civilização", para que
recuperemosa FREUD. Diz: "Se se elimina o direito pessoal de possuir bens materiais, ainda substituirão os privilégios derivados das
relações sexuais, que necessariamente devem converter- se em fonte da mais intensa inveja e da mals violenta hostilidade entre os seres humanos, equiparados em tudo o restante Assim, o que.G.:Ai, poder-se-ia questionar a FREUD se não toma também a relação sexual como uma propriedade privada concebendo à família, ou creio que à monogamia como "necessária".Não poderia abolir-se a família e a monogamia e socializar-se as relações sexuais, acaso?
P.P.RT. :Exatamente! (satisfeito).
H. :E porque não abolimos o Êdipo também?!!! Assim, nada de invejas e nada de ciúmes! Todos seríamos iguais, o pai com o filho em relação à mãe... e a cultura, onde fica, senhores? Dão-se conta que estas são palavras e que estamos tratando de negar a matriz constitutiva da passagem, da natureza para a cultura? Ou, do contrário, pensemos nos homens puros, fora da cultura, nas essências metafísicas impossíveis por definição! (com evidentes mostras de desgosto).
(Há um breve silêncio, que se recorta entre a fumaça produzida pelo fumar nervoso e inquieto de um público expectante que não perdeu nenhuma palavra do que se disse. O funcionário do anfiteatro aproveita para aproximar-se do Sr. Coordenador e comunicar-lhe que está na hora de fechar).
COORDENADOR: Senhores! Lamentavelmente, informam-me que o painel deve terminar em cinco minutos. Sabemos que todos os presentes, sem exceção, que a problemática colocada daria para muitas horas mais, para muitos painéis a mais. Hoje, devemos parar aqui. Rogaria, portanto aos senhores painelistas que dêem por finalizada sua participação com uma última iatervençâo sintética. Dr. Gamma, porfavor.
G. :Bem, como puderam seguramente apreciar, eu não vim com estrito afã polemizador. Participei somente quando considerei oportuno e sem desejos de esgrimir nas discussões. Talvez se deva ao fato de eu ser o maior, - em idade, claro - (risos) dos painelistas, e que. esta circunstância implique que o ímpeto juvenil de discutir se me tenha passado. Queria terminar minha participação aclarando meus conceitos sobre alta e cura. Para mim um indivíduo está em condições de finalizar sua assistência quando puder amar, criar, produzir, sem restrições nem mutilações. Portanto, este critério se adequa a cada paciente específico, no qual há que ver como funciona. Isto faz com que, para mim, a psicoterapia,
- eu não sou psicanalista, - seja uma arte e não uma ciência; que depende mais da instituição clínica do terapeuta que das complicadas teorias e que, em definitivo predomine o contacto humano antes que o enquadramento técnico. Nada mais.APA. :Eu creio ter definido minha posição com a clareza possível a algo que não pode ser mais que uma introdução ao tema. Como [p.21]disse o Sr.. Coordenador, aguardo o momento em que, em outro painel, possa desenvolver com maior amplitude o esboçado hoje.
PP.RT. :Espero que minhas posições também, tenham ficado claras, dentro das limitações assinaladas. Quero agradecer, isso sim, ao Sr. Coordenador, seu convite para que eu integrasse este painel, que me ofereceu a ocasião de expor minha ideologia terapêutica revolucionária. Isto que fiz hoje, configura para mim, um ato de clara militância científica-política.
H. :Para encerrar, desejaria fazer certos esclarecimentos e definições. Em primeiro lugar, que um painel desta natureza resulta altamente proveitoso pelo fato de que, embora não provoque ostensivamente uma mudança no pensamento dos painelistas, implanta o germen das inquietudes que identificamos como o reconhecimento da problemática, talvez ausente, até este momento, para o outro. Logo, devo aceitar que meu interesse e minha dedicação ao tema, ou melhor, à temática, induzem a que me apaixone, e por momentos, perca as estribeiras, pelo que peço aescuip Porém entendo que, na ciência, os '"a se defendem e afinnam até que uma nova ma de cientificidade supere o passado demarque como relativo. Se não pensasse as sim, não poderia considerar-me fiel à honestidade intelectual que transpassa toda a obra freudiana.
SR. COORDENADOR: Senhores! (aos painelistas). Não me resta mais que agradecer-lhes, muito vivamente, sua presença, que prestigiou esta reunião cientfirR, apreciada por um público tão atento
numeroso, ao qual lhe daremos ocasião, próximo encontro, para que coloque as duvidas e interrogações que hoje, infelizmente, os painelistas não poderão responder. Somente me resta recordar- lhes que a transcrição literal deste painel, com certos comentários esclarecedores, será incluída no volume coletivo "Psicanálise: Mudança ou Adaptação", que nossa Editorial Rodolfo Alonso, lançará proximamente. Muito obrigado.
(Aplausos)
(Pano Lento).
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