Boletim

 


Volume 6-- 1968 -- p 44-51

 

DOIS ESTUDOS SôBRE O ESTUDANTE DE
NIVEL MÉDIO

 


JUREMA ALCIDES CUNHA (1), MARIA IGNEZ BRAGA DE MORAES (2), NADIR SALDANHA DA ROCHA (3), IRMÃ COELHO SÃLERNO (4), LÍLIA COSTA (5)

 


Ëstes estudos se tornorom possíveis, como porte de um planejamento amplo para o estudo de adolescentes, pela colaboração entre o Centro de Pesquisas e Orientação Educacionais e de Execução Especializada (S.E.C. do RS., Brasil) e o Instituto de Psiquiatria do Universidade de Maryland (Md., USA.). Alguns aspectos dêste trabalho e algumas outras características sócio-culturais dos estudantes de nível médio são discutidas num ensaia para a 2.° ediçao do livro "Rio Grande do Sul, Terra e Povo", Editôra Globo, Pôrto Alegre (no prelo), intitulado "O estudante de nível médio no Rio Grande do Sul", de autoria de Jurema Alcides Cunha e Maria Ignez Braga de Moraes (dados transcritos com a permissão da Editôra). Foi desenvolvido pela Comissão Especial de Pesquiso, da qual fizeram parte, em diferentes épocas,[p.44] além dos autores, os seguintes psicólogos e professóres: Flávia Sant´Anna, Luiza Werba, Maria Spader, Regina Rocha do Valle, Jorge E. B. de Moraes e Suely Maraninchi.

 

I

DISCUSSÃO DAS INFORMAÇõES PRESTADAS PELO ESTUDANTE DE NIVEL MÉDIO SÔRRE A DISCIPLINA NO LAR E SUA ATITUDE FRENTE A AUTORIDADE DOS PAÍS


Um levantamento sócio-cultural realizado numa amostra representativa (6) e proporcional de estudantes de nível médio de Pôrto Alegre (2% da população estudantil total), revelou aspectos bastante significativos a respeito de disciplina. As informações foram prestadas p51os próprios alunos, em resposta a um inventário de dados sócio-culturais, e nelas se baseia o presente estudo. Por outro lado, é completado pelas respostas a alguns itens constantes de um estudo sôbre atitudes na adolescência. ( 7)
Em cada grupo sócio-ocupacional, encontramos mais de um têrço dos alunos que fazem referência ao papel de ambos os pais em questão de disciplina. Esta distribuição é bastante homogênea e sua correlação com a classe social é nula. Entretanto, vemos que tal papel não é, aparentemente, desempenhado dentro de' um sistema rígido, com base no mêdo. Esta ij'npressão se baseia nas respostas preferenciais ao item "Sinto mêdo quando enfrento meus pais". Foi alta a percentagem de alunos que responderam nunca, nos três grandes grupos sócioocupacionais, numa correspondência a 53% no grupo superior, 43% no grupo médio e 37% no grupo inferior, que assinalaram
resposta semelhante. Pequenas diferenças entre êstes grupos se verificaram nas escolhas das respostas sempre e freqüentemente, com 7% no grupo superior, 8% no médio e 10% no inferior. Entretanto, se tomarmos, juntas, as respostas de vez em quando e raramente, encontraremos 39% no grupo superior, 54% no médio e 47% no inferior. Vemos, portanto', que 62% dos alunos do grupo médio refere sentimento de mêdo frente aos pais, seja êste freqüente ou não. Para a mesma informação, verifica-se a correspondência de 46% de casos do grupo superior e 57% do grupo inferior. Portanto, com exceção do[p.45] grupo superior, mais da metade dos alunos refere algum sentimento de mêdo frente aos pais.
A anáiise da distribuição de dados em relação ao papel da mãe, na disciplina, mais decisivo e se delineia mais nitidamente, em função do grupo social, do qual os alunos são oriundos. Pelo cálculo da correlação entre o papel disciplinar da mãe o grupo sõcio-ocupacional, se chegou a uma correlação de 0,45, portanto, média, revelando as percentagens o papel mais atuante da mãe no grupo inferior. Comparemos, agora, êstes dados com as respostas relacionadas, preferentemente ao item "Minha mãe é dominadora". No grupo superior, a maioria das respostas se encontram em de vez em quando (28%), raramente (28%) e nunca (25%), portante, com 81% dos alunos que não referem freqüência na percepção de atitude dominadora da mãe. Já no grupo médio, embora encontremos 28% de alunos que assinalaram a resposta de vez em quando, temos também outros 28% que a percebem dominadora sempre ou freqüentemente, sendo de 42% as porcentagens adicionais para as respostas raramente ou nunca. No grupo inferior, encontramos a porcentagem de 29% para a resposta de vez em quando e 30% de alunos que responde sempre ou freqüentemente.

O papel do pai tem, em todos os grupos, escassa significação para o aspecto disciplinar, não chegando no total dos casos a alcançar 20% de alunos que referem ser o pai a pessoa que, principalmente, se utilizava ou se utiliza dos recursos disciplinares, que serão discutidos mais adiante.
As percentagens para os diferentes grupos se apresentam numa distribuição bastante homogênea, sendo nulo o resultado do cálculo da correlação entre o papel do pai e o grupo social. Torna-se interessante, aqui, ver como os alunos percebem a autoridade paterna, através de sua resposta ao item "A autoridade de meu pai ê algo que não se discute". 77% dos alunos do grupo superior assinalaram as respostas concordo ou concordo fortemente. 84% de alunos do grupo médio e, também 84% do grupo inferior assinalaram as mesmas respostas. Isto parece sugerir que autoridade deve ter sido entendida, aqui, como decisiva na determinação de normas gerais aceitas no lar, possivelmente com maior participação ativa da mãe, para a aplicação das mesmas.
A investigação sôbre recursos disciplinares foi realizada através do seguinte item do inventário sócio-cultural:[p.46]

Costuma ou costumava ter:

- castigos corporais 1, Sim 2, Não
- repreensões? 1, Sim 2, Não
- privação de alimentos? 1, Sim 2, Não
- isolamento? 1, Sim 2, Não
- privações de coisas agradáveis? (cinema, programa de televisão, sorvete, etc....) 1, Sim 2, Não
- tarefas a cumprir? 1, Sim 2, Não


As repreensões foram o recurso disciplinar mais comumente lembrado pelos estudantes (59% dos casos), embora em 30% dêsses casos, aliado a tarefas a cumprir e privação de coisas agradáveis. De um modo geral, dos alunos que prestaram informações a êste respeito, 80% dos castigos eram de efeito predominantemente moral: Em 20% dos casos restantes, a ênfase estêve nos castigos fisicos, principalmente castigos corporais, freqüentemente acompanhados por práticas de efeito moral. Houve referência também a outros, salientando-se como o mais sério, a privação de alimentos.
O cálculo da correlação entre classe social e castigos físicos revelou um resultado de 0,54, portanto, uma correlação média. Os casos que lembraram os castigos de natureza física, como recurso disciplinar utilizado pelos pais ou responsáveis, nos revelaram dados surpreendentes com a percentagem de 25%, registrada nas classes não privilegiadas, restando, portanto, cêrca de 75% de casos distribuídos entre o grupo médio e superior. Considerada a composição sócio-ocupacional do grupo superior, é de surpreender que 37% dêsses casos seja por ela abrangida. Por outro lado, chama atenção que justamente o grupo que refere menor sentimento de mêdo, ao enfrentar os pais, seja aquêle no qual predominam os castigos físicos. £stes resultados sugerem que a utilização de castigos de natureza física não favorece o sentimento de mêdo em relação aos que os administram.
Vemos que as tarefas a cumprir predominam nitidamente em 58% dos casos do grupo inferior, acompanhadas em mais da metade dos casos por repreensões e, às vêzes, por privação de coisas agradáveis. Segue-se a privação de coisas agradáveis, em 31%, como recurso disciplinar no grupo inferior. Predominando neste grupo o sentimento de mêdo em face aos pais, vemos que os recursos disciplinares, de tarefas a cumprir e priva-[p.47] ção de coisas agradáveis, devem ter alguma relação com o sentimento que as figuras de autoridade suscitam nestes alunos.

RESUMO

Ëste trabalho é tentativa pan interpretação de informações, prestadas por alunos, de uma amostra representativa de nível médio, a respeito da disciplina no lar e de sua atitude frente à autoridade dos pais. No estudo, a significação da variável sócio-ocupacional foi considerada em têrmos do papel que as figuras parentais desempenham em cada nível, salientando-se como mais decisivo e mais nítido o papel da mãe.
Os sentimentos frente à autoridade dos pais foram discutidos, especialmente, o do mêdo. É feito um levantamento dos recursos disciplinares utilizados em diferentes grupos sócioocupacionais, a natureza do mesmo discutida em relação à atitude dos alunos frente às figuras de autoridade.

SUMMARY

This study has been an attempt to interpret the information about home discipline and attitude toward parental figures, given by students from a representative sample of the secondary level. The meaning of the socio-occupational variable was associated to the role, that each parental figure seems to play at each level, with particular concern of the mother's role, as the most clearcut and significant one. Feslings displayed toward parents authority have been discussed, with particular emphasis to fear. The disciplinary means used at home have been discussed in terms of frequency for the different socio-occupational groups and their nature have been analysed and associa-
ted to the attitudes toward the authority figures.

II
DISCUSSÃO DAS INFORMAÇÔES PRESTADAS PELO ESTUDANFE DE NíVEL MÉDIO SÕBRE SUA ATITUDE FRENTE A RELIGIÃO

As informações aqui discutidas foram prestadas pelo estudante de nível médio sôbre religião, através de um levantamento sócio-cultural realizado em Pôrto Alegre, numa amostra proporcional[p.49] e representativa. (8) Entretanto, esta discussão também se baseia nas respostas a alguns itens de um estudo sôbre atitudes na adolescência.

Uma elevada porcentagem dos alunos, num total de 96%, revela terem religião e cêrca de 3% declaram-se sem religião. A significação mais profunda dêstes dados foi procurada nas respostas ao item "Sinto que a religião oferece um sentido à minha vida". No grupo sócio-ocupacional superior, 70% dos casos responderam concordo fortemente ou concordo, para 76% no grupo médio e 82% no inferior. Por outro lado, encontramos as porcentagens de 11% no grupo superior, 8% no médio e 3% no inferior, para as respostas discordo e discordo fortemente. Éstes dados sugerem que as camadas menos favorecidas parecem dar maior significação ao apoio da religião em sua vida.

Quanto à filiação religiosa os dados se encontram assim distribuídos:


Católica................... 4,39%
Protestante.............. 13,52%
Israelita................... 7,48%
Espírita................... 2,30%
UmbandiSmo.......... 0,58%
Mormonismo........... 0,29%
Outras...................... 0,29%
Indeterminado......... 1,15%

O assunto se configura mais complexo, quando se verifica que 13% dos casos declararam uma segunda religião, embora menos da metade dêstes tenham-na especificado.
As composições mais freqüentes se verificam entre as religiões católica e protestante, católica com espirita de orientação kardecista, católica com umbanda, embora sejam encontradas, ocasionalmente, combinações menos esperadas.
A seleção de respostas para o item "Religião é algo multo pessoal e não implica em prática", levou à seguinte distribuição[p.50] nos três grupos, para concordo e concordo plenamente: grupo superior 53%, médio 57% e inferior 67%. As porcentagens para discordo e discordo fortemente, foram as seguintes: 29% para o grupo superior; 22% para o médio e 18% para o inferior. Ora, no levantamento sócio-cultural, apenas 6% defendem um sistema religioso pessoal, quer participem ou não de alguma religião socialmente reconhecida. Portanto, os dados sugerem que o item foi interpretado preferentemente em função de aspectos exteriores da religião. Entretanto, o fato de que as porcentagens de concordância ao item são muito maiores que o número de alunos que não freqüentam atos e oficios religiosos, sugere que a atitude expressa esteja relacionada mais com as caracteristicas da adolescência - liberdade de escolha e também tendência a se independizar de laços tradicionais - características não totalmente expressas em padrões comporta- mentais.
No quadro geral, em relação à freqüência a atos e ofícios religiosos, 51% dos casos referem uma freqüência semanal; 10%, mensal, 11% sàmente vão à igreja em dias especiais. Encontramos, ainda, 8% que só vão à igreja quatro vêzes por ano ou menos, e 1% não freqüenta a igreja. Por outro lado, cêrca, da 17% dos casos omitiram êste dado e 2% não respondeu às perguntas sôbre religião.
A resposta ao item "A participação em atividades religiosas é uma necessidade", supunha uma escolha entre: Sempre, Freqüentemente, De vez em quando, Raramente e Nunca, tendo sido levantada uma porcentagem de 50% para sempre, na totalidade dos casos. Aqui, novamente, encontra-se que as classes menos favorecidas são mais tradicionais em sua observância religiosa, baseada em maior freqüência a atos e ofícios religiosos. Assim, encontramos para as respostas Sempre e Freqüentemente, a seguinte distribuição: 57% no grupo superior; 67% no médio e 79% no inferior. Em relação às respostas Raramente ou Nunca, encontramos: 13% no grupo superior; 11% no médio e 6% no inferior. A contradição aparente entre êste e o item anterior sõmente pode ter a explicação, sugerida anteriormente, em têrmos de características especiais da faixa de idade, uma vez que a maioria dos estudantes da amostra é constituída de adolescentes.
Os dados sugerem que, embora a quase totalidade dos estudantes declarem possuir religião, a sua observância religiosa, em têrmos de participação em serviços religiosos, não é tão significativa.

Do ponto de vista sócio-cultural, se observa maior religiosidade, nas perspectivas estudadas, nos grupos médios e, principalmente, no inferior.
Contudo, a atitude face à religião parece estar mesclada com outros aspectos psicológicos, comumenta em jôgo na faixa de idade dos informantes.

RESUMO

Éste estudo apresenta os resultados parciais de um levantamento sócio-cultural entre estudantes do nível médio, numa amostra representativa. Foram coletados dados a respeito da filiação religiosa e prática religiosa, entendida em têrmos de freqüência a atos e ofícios religiosos. Sstes itens foram discutidos em relação à atitude dos alunos frente! à religião e à observância religiosa, do ponto de vista psicológico e sócio-cultural.

SUMMARY

This study is concerned with religion, religions feeling and religion observance of secoondary students. Information was collected from a socio-cultural inventory, used in a representative sample of students in Pôrto Alegre (Erazil). Items have been discussed and associated with students attitudes toward religion and religion observance from both a socio-cultural and psycholcgical view.[p.51]

 


 

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