SPRGS
MESA REDONDA
A idéia da realização de uma Mesa Redonda com os coordenadores dos cursos de pós-graduação surgiu como decorrência da preocupação dos editores da revista da SPRGS de oportunizar o debate entre os representantes de universidades do RGS, favorecendo dessa forma uma visão geral e integrada do que as nossas instituições educacionais oferecem ao profissional graduado.
A coordenação dos trabalhos coube à equipe de Publicações, representada por Ester Zaslavsky e Beatriz Magadan.
Compuseram a mesa Inúbia Duarte Andrade (PUCRS), Juracy Marques (UFRGS) e Tánia Mara Gaili (SPRGS).
O representante do Programa de Pós-Graduação em Administração, Francisco Pedro Pereira de Souza (UFRGS), impossibilitado de comparecer à Mesa-Redonda, expõe suas idéias também nesta edição-
Como ilustração prática publicamos resumos de teses apresentadas nas UniversidadesMesa redonda realizada na Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul com as Coordenadoras dos Cursos de Pós-Graduação
Compunham a mesa:
Inúbia Andrade: Coordenadora do Curso de pós-graduaçãoem Psicologia Aplicadada PUC.
Juracy Marques: Coordenadora do Curso de Pós-Oraduação da Educação.
Tania Mara Galli: Presidente da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, e as coordenadoras da comissão de Publicações da Sociedade, Beatriz Magadan e Ester Zaslavsky
Vinte e oito de maio de 1980, às 20:30 horas.
Beatriz - Nós podemos então dar abertura aos trabalhos, dentro da idéia que a gente pôde conversar individualmente com cada um anteriormente. inicialmente poder íamos retomar nossa conversa. Assim, quanto ao objetivo. Além de ser uma atividade para ser puna Revista da Sociedade de Psicologia, seria também ode oportunizar o debate entre as coordenações dos Pós-Graduações no sentido de discutir dificuldades, filosofia e também informar às pessoas- Nós levantamos alguns tópicos, a partir das conversas que tivemos individualmente e através de contatos com pessoas que colocavam a respeito dos Ris-Graduações. Seria assim a filosofia dos cursos, a sua procura pelos psicólogos, aspectos positivos, dificuldades mais emergentes, o tipo de aluno que busca o Mestrado, os critérios de seleção e avaliação, orientação dos cursos para o mercado de trabalho, se eles estio ajustados a este ou não. Esses e alguns outros pontos que pudermos ver no decorrer da discussão. Gostaríamos que o nosso debate fosse o mais informal possível, deixando então em aberto para que possa ser discutido. Inclusive a Inúbia traz alguma novidade. Antes de iniciarmos o debate em si, pensamos em fazer a apresentação dos participantes da mesa.
Inúbia Andrade: Coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Aplicada da
PUCRS.
Juracy Marques: Coordenadora do Curso de Pós-Graduação de Educação da UFRGS.
Tania Mara GaIli: Presidente da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul[p.3]
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Poderíamos iniciar em termos da filosofia dos cursos.
Inúbia: Inicialmente, gostaria de manifestar minha satisfação pela realização do encontro desta noite sob a liderança da Sociedade de Psicologia.Juracy: O nosso curso é bem específico, é só Psicologia Educacional. Por regulamento, nós temos que dâr absoluta prioridade para psicólogos. Nós podemos admitir, por legislação, aqueles professores de Psicologia Educacional que silo professores universitários, que tenham se formado pelos Cursos de Filosofia ou Pedagogia antigos, que tinham uma carga horária grande de Psicologia, e que estejam lecionando Psicologia Educacional em Universidades há mais de 5 anos. Têm que ser formados há mais de 10 anos e estar lecionando há mais de 5. E isso vai variando, porque parece que nós já atendemos o grosso dessa clientela, que é das pessoas que não tinham tido acesso aos Cursos de Psicologia. Que são recentes, vamos dizer, Então, o que tem acontecido é que o nosso Curso de Psicologia Educacional foi ficando reduzido porque o número de psicólogos é pequeno, é especifico á Psicologia Educacional. Ao mesmo tempo, desses que nos procuram ainda a seleção elimina um ou outro, por razões muitas vezes de falta de tempo, mais do que por falta de competência.
A nossa linha, em termos de filosofia de curso é uma linha Psico-pedagógica, uni problema de fundamentação da Educação, que seria aprendizagem e desenvolvimento;e uma linha de Dinâmica de Grupo que está mais inserida num conceito de educação mais amplo, que seria educação na empresa.
Essas são as linhas de um curso qualquer. Então as pessoas quando procuram, já procuram com um interesse, elas procuram ou porque querem fazer treinamento de Recursos Humanos na empresa ou porque querem fazer Psicopedagogia Escolar ou lecionar Psicologia Educacional, buscando mais fundamentação em desenvolvimento e aprendizagem.
Então, parece ser uma especialização bem caracterizada.
Não acredito que mude nos próximos anos, mas corre o risco de descontinuar se o número de interessados continuar a ser tão pequeno como tem sido nos últimos anos. È bem possível que se descontinue e se abra uma outra concentração, que tenha mais candidatos. Refiro- me não do ponto de vista de mercado de trabalho, mas do ponto de vista de aspirações dos candidatos em relação ao que querem.
Hoje, está muito na moda a Sociologia. Nós te- mos duas disciplinas de Sociologia e pratica mente todos os alunos fazem.
Então eu vejo, neste momento, quase uma substituição da Psicologia, como moda que envolveu os anos 50 e 60, pelas Ciências Sociais:
Sociologia, Política, Antropologia. Ao mesmo tempo, o Psicólogo não sente, não tem sentido até agora nenhuma pressão para fazer Pós-Graduação.Tania: Por que a senhora acha isto?
Juracy: Eu acho que a legislação, toda a organização profissional, já coloca como término de sua formação o curso de psicólogo. Não se abrem perspectivas para que haja necessidade de Pós-
Graduação. Mesmo por que a Lei do Psicólogo é bastante antiga. Ela surgiu quando nem se perguntava sobre Pós-Graduação no Brasil. Então não há esta compatibilização entre o curso de aduação e o curso de pós-graduação.[p.4]Tania: São coisas estanques, não é?
Juracy: É. Enquanto que em outras profissões, outras regulamentadas ou com tradição maior, como é o caso da medicina, todo estudante de Medicina aspira fazer uma residência,
O psicólogo, em nosso país, neste momento, considera que a sua formação de graduação já lhe deu todas as capacitações necessárias para o mercado.Tania: Por outro lado, uma coisa que se observa, é que os psicólogos atualmente não têm buscado os curos formais de especialização, mas buscam recursos informais de continuar se aperfeiçoando. Seja a supervisão, seja os grupos de estudo que se formam.
Como é que explica isso? Por um lado, o psicólogo não parece estar voltado para obtenção de títulos. Busca mais a instrumentação do seu trabelho, sendo crescente este desejo que se observa. Existe um movimento de busca dessas alternativas de aperfeiçoamento, enquanto que os cursos de Pós-Graduação, oferecem alternativas e não são procurados. Por exemplo, o Curso de Psicologia Educacional ainda conserva muito uma relação direta com a Escola. Então, custa ao psicólogo de empresa por exemplo, atentar que aquela objetiva educação também.
Juracy: Que a empresa é uma instituição educacional, é unia coisa que existe e que faz parte de seu trabalho. Mas isto é coisa que ele vai aprender quando entra no Pós-Graduação.
Eu acho também que há um descompasso entre as possibilidades que o curso oferece e a divulgação delas junto aos alunos potenciais.
E é curioso porque em termos de Recursos Humano% a nossa maior concentração de Recursos Humanos é em Psicologia. Temos seguramente as pessoas mais tituladas, mais experientes, de nível mais internacional quanto a publicações, em Psicologia. E não temos a procura do curso predominantemente para Psicologia, e sim para o ensino.Inúbia: O que podemos observar lá na PUC é um pouco diferente. Como nós tínhamos as três concentrações, a Escola, a Organização, a Clínica, podia-se ver bem diferente os interesses por á. reas de concentração. Nosso curso foi reconhecido em 1975 com as três concentrações, mas desde o início a procura maior foi sempre em Clínica.
A Escolar foi se extinguindo, pouco a pouco e agora nós temos apenas alguns alunos que vão apresentar tese mas, praticamente, não têm sido mais procurada.Tania: Funcionou quanto tempo?
Inúbia: De 72 a 78. Funcionou mas com pouquíssimos alunos. Já na área da Clínica, o que se vê é bem diferente. Há procura para as cadeiras isoladas, não para o mestrado em si. Então, o aluno faz diversas disciplinas e tem o certificado de especialização e não tem o interesse em fazer a tese que lhe daria o titulo de Mestre. Parece que o buscado ai, é um pouco diferente desta posição que o Graduação fecha, eles vão à procura de especialização na área de Clínica, mas sem o interesse de chegar ao Mestrado. Então, eles sentem vontade de estudar Psicologia - Dinâmica, Psicopatologia, Psicoterapia, utilizando disciplinas do Mestrado para se instrumentar para o consultório, para a clínica.
Juracy: O que eles querem é eficiência de desempenho.
Inúbia: Exato, de desempenho, então eles não têm interesse na área docente.
Tania: Mas têm no conhecimento em si.
Inúbia:E a área de Organizacional tem sido mais procurada. Observamos que em 79 houve uma receptividade muito boa por parte dos psicólogos quando foi oferecido um curso de um aro que permitia a especialização capacitando ao exercício profissional.
Assim nós tivemos no ano passado muito interesse dos psicólogos, com uma procura bem grande, e esse ano decaiu. Conservou-se mais ou menos uniforme para engenheiros, administradores e outras áreas que também procuram a Psicologia Organizacional, mas para psicólogos nao.Juracy: Eu acho assim, que a Universidade tem que ser fiel a ela mesma no sentido de que representa uma possibilidade de um estudo de alto nível e de uma pesquisa, inclusive pura, de aplicações não imediatas, que só ela pode fazer, que nenhum outro lugar vai conseguir desenvolver.[p.5]
Tania: Só a ela cabe fazer?
Juracy: Não, eu acho que poderiam determinadas empresas até manterem a pesquisa pura. Mas a Universidade é fiel a ela mesma, na medida que corrige distorções. Por exemplo assim, há um excesso de candidatos, ou mesmo de profissionais na área clínica, e há uma escassês de profissionais na área educacional e na área organizacional. Então, nós não podemos simplesmente responder aos interesses dos candidatos per se, então nesse caso nós só ofereceríamos clínica. Então me parece que a nossa função também é um pouco corrigir estas distorções de mercado, digamos assim. Nós, não podemos ir contra o mercado, porque nós também vivemos dele, mas acho que nós temos uma obrigação de, em alguma medida, suprir uma falta de interesse, de visão momentânea que esteja o- correndo em uma ou em outra área. Agora, a verdade é esta que às vezes as coisas ficam difíceis e não temos condições de manter. Mas temos que fazer força.
Inúbia: É nesse sentido que eu acho importante colocar o que a Bia referiu no início, que eu teria algumas novidades. Eu teria que contar rapidamente o histórico do Mestrado, porque agora houve uma mudança de objetivos, uma retomada de posição que seria interessante ser discutida aqui. Inicialmente o nosso Mestrado foi credenciado, nas três áreas. Funcionou precariamente. Precariamente, em relação ao corpo docente que sempre teve dificuldades com o número e titulação dos orientadores. Teriam que ser Doutores, PHDs, e livre-docentes, conforme o MEC exige, mas contávamos predominantemente com estes últimos. Bem, essa situação vinha se sustentando até semana passada. Nossa "mudança" é bem recente. Com o processo de recredenciamento, veio a Comissão do MEC, avaliou o curso e dois aspectos foram levantados como deficitários- Um seria a biblioteca com problemas de furcionarnento, livros, etc., mas ainda seria um problema contornável, dependendo exclusiva- mente da PUC. Mas, nós temos o outro problema que é a titulação do corpo docente, Recursos Humanos. Então, como fazer, o que fazer, surgiu uma discussão e na semana passada eu tive um encontro com o Reitor e a situação ficou definida, e eu acho que devemos entender essa decisão como uma "regressão a serviço do ego".
Nós não vamos aceitar alunos novos em nenhuma área do mestrado por um período mais ou menos de cinco anos.. Um grupo de professores nossos vão para fora, para o exterior, fazer seus cursos de doutorado e aí sim teremos na volta o corpo docente exigido pelo MEC. E ai nós vamos poder contar realmente com esse pessoal, porque terão a capacitação exigida e necessária. Mas, há outro aspecto que ficamos alertas, de ficar só na área clínica - nossa opção foi desativar duas áreas de Mestrado que seriam a Escolar e a Organizacional, e concentrar na de Clínica todos os esforços, por toda a tradição do nosso curso de Psicologia da PUCRGS, por toda a orientação do Curso de Graduação desde o começoRealmente a PUC tem uma vasta tradição nisto.
Inúbia: E o maior interesse da classe, de vários colegas que nos procuram, é em Clínica. Bem, pensando nisso então, de fortalecer a área Clínica, e também numa intensão, de não dispersar agora esforços, para mandar diversas pessoas para o exterior, para outras áreas, nós resolvemos concentrar e desenvolver mesmo a Clínica. Então, o objetivo nosso é manter o Mestrado em Clínica, assim com bases bem sólidas e num planejamento geral do Pós-Graduação, englobando pessoas que iriam para diversos países já com um plano específico de assumir na volta, determinadas áreas dentro da Psicologia Clínica, talvez ampliando mais seu objetivo,não tão clínica-terapêutica como está agora, ou clínica-consultório, mas a Clínica chegando talvez até a um ponto mais comum com a educação, com a [p.6] prevenção. Bem, realmente investir toda nossa força nessas direções e deixar as duas outras áreas em especialização.
E um dos fatores que pesou nessa decisão, de não termos o Mestrado em Escolar, foi a UFRGS ter a Educacional, o que seria uma superposição. Acho mesmo que nós teríamos quase que fazer um acordo entre as Universidades, haver um intercâmbio, uma complementação abrangendo as diversas áreas da Psicologia, algumas áreas sob a responsabilidade da PUC, outras da UFRGS, etc.
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Juracy: É, nós, em Clínica, não temos nada. Nós temos é esta linha que é de educação-empresa que pode às vezes ficar um pouco coincidente com a organizacional e nós, não evitamos isso. Se uma determinada mestranda resolve fazer uma tese que esteja mais na linha organizacional, contanto que ela justifique o ponto de vista de treinamento em Recursos Humanos, que é Educação não formal, nós aceitamos- E, algumas vezes, nós temos coincidências com
o nosso curso e o nosso mestrado em Administração. Mas, nós não temos assim atritos, inclusive nossos alunos fazem certas disciplinas lá, eu estou colaborando com uma dissertação de lá, eles colaboram quando nós precisamos, e acho assim, que é bom não fecharmos a opção. Para mim, seria ótimo que a PUC tivesse toda uma linha de prevenção aonde houvesse essa interfertilização da educação com a clínica, em termos preventivos. Acho que seria bem interessante.Inúbia: É, acho que isto nós temos que repensar, neste planejamento geral, não é?
Tania: Inclusive, nós já temos necessidade de um planejamento de ensino globalizado, até excedendo o âmbito de cada Universidade, em função de necessidades do mercado, cliente, necessidades sociais, inclusive de incrementar determinadas alternativas que não estejam...
Beatriz: Eu acho que, inclusive a busca dos Cursos de Especialização está muito dentro disso, de que talvez os cursos de Pós-Graduação não estejam diretamente ligados às necessidades do mercado, porque começa-se a sentir, em termos práticos, de trabalho, uma falta de subsídios para melhorá-lo.
Então, busca-se um curso de especialização restrito àquele período, que seja menor, e que se aplique diretamente à fase daquele curso, de forma mais interdependente. Ao passo que o Mestrado, por exemplo, da educação, como a gente esteve conversando, uma coisa que, penso dificulta, a um grande número de pessoas a sua realização, é o fator tempo, já que exige uma dedicação integral, com uma bolsa pequena perto do que um psicólogo poderia ganhar em um trabalho. Então, dificulta a um psicólogo abrir mão do seu trabalho, de quanto ganharia por mês, para fazer o Mestrado.Inúbia: Isso aí tem outra conseqüência porque a incoerência de quanto ganha trabalhando, também é sentido, vamos dizer, pelo pessoal que se dedica ao Magistério, à atividade docente, e o que desenvolve atividade liberal. Não compensa, muitas vezes, economicamente, ser professora. Tem que gostar, tem que se compensar com outro tipo de gratificação. Se tu vais pesar em termos econômicos, a Universidade não pode nem competir com o que ganha um psicólogo em um consultório, em uma empresa.
Beatriz: Sim, mas tu, sendo professora, não ficas impedida de ter outra atividade, de trabalhares em empresa, e já pelo que conversamos anteriormente, no Pós de Educação para poder fazê-lo bem é exigido uma dedicaçâo quase integral. Porque além das horas de aula...
Juracy: É, nós damos preferência, nitidamente, para tempo integral. Admitimos que alguém faça o Curso em mais tempo, o normal seria fazer em 2 anos em tempo integral; admitimos que façam em 4 anos, tempo parcial. O tipo de aluno que nós buscamos, que é uma das perguntas aqui, é o aluno de tempo integral. E agora, por exemplo, este ano tem 6 na psicologia, 3 são do Nordeste.
Beatriz: Que vem especificamente para fazer o curso.
Tania: Com tempo integralíssimo, não é?
Juracy: É. E com cobertura de sua Universidade de origem.
Tania: E isto é um critério de seleção, exatamente porque já limita.
Juracy: Mas nós achamos assim, se um psicólogo se dispõe a ir para o exterior com a Bolsa da CAPES que não é também compatível com o salário que ele ganha, ele vai para o exterior, fica 4, 5 anos lá, com problemas de família, etc.,[p.7] e aceita; então porque não aceitar reduzir 2 anos do seu ordenado como um investimento da sua própria profissão.
Beatriz: Provavelmente, não são muitos também os que saem para o exterior e quanto a isto, uma questão que eu levanto:o nível, o tipo de aluno que vai buscar o Mestrado nessas condições.
Se, muitas vezes, não seria aquele profissional que, por exemplo, já tave mais dificuldade na faculdade, depois encontra também dificuldades no mercado de trabalho, então é conveniente pra ele, fazer um curso de Mestrado, já que não encontrou colocação. Isto também não poderia interferir quanto ao nível do aluno?
Às vezes, a gente conversa com pessoas que fazem o Mestrado, e elas levantam a qualidade e nível do aluno que vai buscá-lo. Então parece- me, que em determinado momento, o Pós-Graduação serve para suprir deficiências do Curso de Graduação. Não deveria ser assim. O Curso de Graduação deveria tornar apta uma pessoa para ela poder trabalhar corno psicólogo e o Pós-Graduação seria justamente uma coisa de aperfeiçoamento, de crescimento, em termos profissionais.
E. às vezes, a gente ouve as pessoas que cursam referirem ao contrário. Que o nível do aluno que busca o Mestrado é muito baixo, em geral. E que isso torna, também, às vezes, difícil a troca de experiências.Tania: Olha, Bia, eu vejo a coisa um pouquinho diferente. Voltando ao que se estava falando antes, em relação a: porque as pessoas não podem investir, de perder o seu ordenado, um pouco de dinheiro em 2 anos para ganhar outras. Uma questão de opção de valores Quando tu estavas falando isso, me ocorreu assim: eu acho que há uma coisa muito pragmatista e imediatista das pessoas em relação a resultados. Então, nesse nível, tem dinheiro, tem o fato de fazer uma tese, o fato de ficar pensando: "ah! o que que é que eu quero com titulo, não vou ser professor, isso não me interessa". O que é uma idéia errônea porque nem somente o professor se beneficia quando faz uma tese, nem só quem vai ser professor. Há, uma experiência pessoal inclusive muito interessante...
Inúbia: De crescimento.
Tania: Então eu tenho a impressão que está muito ligado a uma atitude, a uma atitude frente a um trabalho que é árduo, que é exigente, que não é só intelectual, é de crescimento, exige atitudes amadurecidas frente ao aprendizado.
Beatriz: Sim, mas eu coloco um outro dado de realidade, de coisas que a gente também ouve e levanta, de que os mestrados são elitistas. Evidentemente que é uma minoria que pode abrir mão, ás vezes, de um ordenado, de uma situação de vida para cursar um Mestrado A não ser que seja dependente, casado com outra pessoa que possa continuar lhe mantendo, ou filhos de pessoas mais abastadas.
Então, o nível dos alunos de Mestrado, se caracteriza também, por pessoas de nível sócio-econômico alto.lnúbia: Pela nossa experiência, não é assim. Nós mantemos o horário, o nosso, exatamente para não caracterizar uma situação dessas. São pessoas que trabalham, claro que eles têm que reduzir o trabalho no período que estão fazendo o Mestrado porque têm que ter tempo de leitura, para elaborar os trabalhos, mas é principalmente de manhã e à noite, então a parte da tarde teriam para a atividade profissional.
Quase todos os nossos alunos, quer dizer, só quem tem tempo integral são os bolsistas.Tania: Aí já dá o critério de seleção
Inúbia: Sim, são critérios diferentes.
Juracy: Mas nós admitimos esse aluno. Esse aluno é o que faz o curso, em tempo parcial. Ai esse aluno leva, em geral, 4 anos.
Inúbia: A duração média de nosso Mestrado é de 4 anos.
Juracy: Nós damos preferência ao aluno com tempo integral, agora todos os alunos de tempo integral têm bolsa da própria Universidade ou de outra instituição. Eu acho que ai não varia muito, eu acho que varia é no sentido de que a maioria dos alunos da PUC, estarem nesta situação de
tempo parcial.Núbia: É, a minoria é que são bolsistas.
Juracy: Pra nós inverte, a maioria é tempo integral e a minoria é tempo parcial. Mas há essa possibilidade, tanto assim que, se o mercado forçasse, nós teríamos, talvez, a maioria em tempo parcial, porque não há restrições, é uma opção do aluno.[p.8]
Inúbia: E nós, quase não tivemos opção para ter esse critério, porque se nós fôssemos exigir, nós não teríamos alunos. Também tem que ver que nós não temos bolsa própria, da Universidade. Nós recebemos bolsistas que são quase todos de Pernambuco, da Bahia, da Paraíba e São Paulo.
Beatriz: Eu acho que o tipo de aluno que busca o Mestrado, tem uma característica.
Talvez pessoas mais independentes, que não tenham uma família constituida,'com filhos, ou que possa abrir mão do ganho.Inúbia: Eu acho que há uma seleção, é em termos de valor, de necessidade de crescer, aspiração. Eu acho que são pessoas, talvez, que não tenham se conformado mesmo com o que receberam, querem receber mais, não só para suprir deficiências, mas porque gostam mais de ler, gostam mais de estudar, de pesquisar, tem interesse também no magistério.
Lá, na PUC estava havendo uma política para os professores novos, de terem Mestrado ou serem alunos do Mestrado, ou já terem feito outro curso de Pós-Graduação.Tania: Professores de Graduação?
Inúbia: De Graduação.
Tania: Para incentivar o Mestrado, não é?
Inúbia: Para incentivar o Mestrado. E nós temos atualmente um nível bom de alunos.
Juracy: Agora, penso que nós poderíamos dinamizar mais a especialização. Inclusive, poderíamos ter especializações mais diversificadas, não nos a- termos aos critérios legais, hoje, da especialização com 360 horas. Poderíamos, talvez, ter especializações mais específicas.
Inúbia: Seria um aperfeiçoamento?
Juracy: É, como hoje estão chamando. Por exemplo, um curso de 200 horas em Rorschach,ou específicos para Dinâmica de Grupo.
Inúbia: Sim, disciplinas bem específicas, concentradas com um objetivo.
Juracy: De treinar pessoal, por exemplo, para empresa, em Dinâmica de Grupo.
Ester: Assim como se fosse um tipo de residência, buscando uma especialidade.Inúbia: Sim, nós temos talvez isso, o Aperfeiçoamento em Psicoterapia que funcionou um ano e meio, com 360 horas especificamente em Psicoterapia, com supervisão..
Acho que a pouca procura dos cursos de Pós- Graduação por parte dos psicólogos tem duas causas básicas: o próprio curso e a clientela. Na primeira causa observa que muitas vezes o que pudemos oferecer, ensinar não é exatamente o que o psicólogo procura. O objetivo do Mestrado por exemplo é pesquisa e docência.
Poucos são os colegas que gostam de magistério e pesquisa. Pelo lado dos psicólogos acho que há pouco interesse pela docência em si, pelo estudo, pela especulação científica. Nós, como classe parece-me que nos interessamos mais por técnicas, práticas do que por teorias e nos esquecemos que ambas devem vir juntas e que a pesquisa permite o avanço da ciência.Tania: Agora a minha impressão é que as novas gerações saem da Universidade, saem do Graduação, um pouco mudadas. Saem muito mais conscientes da necessidade de continuar o aperfeiçoamento do que anteriormente, do que há pouco tempo acontecia, que as coisas eram escassas, e não era uma coisa tão freqüente. Hoje, já se fala com muita naturalidade, os alunos falam.
Beatriz: Na minha maneira de ver, o Mestrado poderia ser mais adequado, com uma experiência profissional intermediária. Ao sair do Graduação ter uma vivência profissional de pelomenos 2 anos, depois entrar então para Mestrado. Porque aí poderia inclusive saber definir, mais identificado com a sua própria área. E, muitas vezes, a gente vê o pessoal saindo da faculdade, se sentindo inapto para atuar profissional- mente e recorrendo ao Mestradc para buscar subsídios e então sentir-se mais seguro e entrar no mercado.
Juracy: Mas, nós temos este critério de 2 anos.
núbia: Nós, não. Inicialmente havia esse critério, depois foi colocado em discussão, em reunião de professores, e nós chegamos à conclusão que na nossa realidade não era válido, porque assim cDmo tinham excelentes alunos saindo e que perderiam a oportunidade de ir para o exterior, se a gente não desse aquela oportunidade, naquele ano, tinham outros que tinham 2 ou 3 anos de formados, que teriam o tempo, mas que não tiveram a experiência ou condições, capacidade. Então, não era um critério obje[p.9] tivo, real. Ficaria uma coisa assim, muito rígida por dois anos, impedir ou não.
É mais interessante, para nós, avaliar o currío culo da pessoa, a justificativa do porque querem o curso. Ver as condições atuais do futuro aluno e suas possibilidades, dentro do possível.Juracy: Cada situação real?
lnúbia: Exato. Fazer uma entrevista e uma prova de seleção. Nós vimos que isso era necessário. Inclusive, a redação, o português.
É incrível, mas isto foi necessário. Pelo menos
saber uma língua, de preferência inglês.Tania: Isto também era visto antes?
Inúbia: Não, no primeiro semestre do curso, se dava essa chance, para pessoa poder entrar e fazer. A prova, por exemplo, foi um teste em espanhol, de interpretação daquele texto, quer dizer o espanhol, eles teriam que saber e interpretar.Ester; Quer dizer que a seleção acontece no primeiro semestre?
Inúbia: Não, a prova de inglês é no primeiro semestre.
Beatriz: Não necessariamente inglês, não é?
Inúbia: É, a de línguas. Mas a preferência é inglês.
Beatriz: E a seleção é feita avaliando o curriculo da pessoa, a entrevista, e aí também consta uma prova objetiva, teórica?
Inúbia: Não é objetiva. Ë de redação, de interpretação
de texto. Mas é avaliada muito a justificativa, "porque procura aquele curso".Tania; Uma coisa que se sente na Sociedade quando se faz um levantamento de expectativas, de indicações, de sugestões, e mesmo por exemplo, quando se tem um curso programado, então o que acontece é que se faz "n" telefonemas através da secretária para consultar os interesses das pessoas. Muitos dizem que querem, e nem todos são os que realmente comparecem, efetivam a matrícula e...
Também há uma distância, parece que o desejo existe, o que não existe é talvez, uma possibilidade no momento.
O movimento em si, fica centrado em pessoas que estão mais ligadas ao professor que vai dar o curso.Inúbia: O que eu acho assim.., O que há é-uma falta de motivação na classe para crescer, e eu não sei, pode ser uma impressão minha, mas eu acho o psicólogo muito acomodado, se conforma com pouco. O nível de aspiração, é baixo. São poucos os que querem realmente estudar, crescer, se aperfeiçoar, fazer pesquisas.
Beatriz: Será que em outras áreas não está acontecendo a mesma coisa aqui no Brasil? Porque parece que o Mestrado está em crise, no Brasil. Inclusive, eu vejo em outras áreas, pessoas que saem do Brasil, vão fazer curso no exterior e que quando voltam estão completamente desa' daptados ao mercado de trabalho, eles não têm emprego, porque o mercado também não valoriza este aspecto cultural, também exige uma çoisa mais imediatista.Então, as pessoas passam muito tempo sem ter colocação. Se eles não vão mandados pelo próprio local de trabalho, eles voltam e têm muita dificuldade. E pessoas demuita competência.
Porque o número que sai da graduação é tão grande que preenche todas as vagas do mercado, eles voltam e perdem o momento, a não ser que eles já tenham sido encaminhados pelo próprio local.Tania: O que está em crise então, o Pós-Graduação ou o mercado?
Inúbia: Ou são as pessoas?
Tania; Nesta altura, o Pós-Graduação cumpre o seu papel de continuar existindo, se mantendo até, às vezes, com dificuldades de sobrevivência também.
Beatriz: Sim, eu penso no sentido de reavaliar certas coisas, em termos do pós-graduação.
Inúbia: Mas eu concordo com a professora Juracy quando ela diz que o Pós-Graduação tem que atender, mas não tem que se submeter. Eu acho que a Universidade tem um aspecto de liderança de orientar
Juracy :É. Tem um aspecto também de cumprir uma função que não é cumprida em nenhum outro local, que é zelar pela qualidade, pela reflexão, pelo pensamento profundo. Realmente, posicionar-se pela pesquisa, se colocar, não nas soluções imediatas, mas nas soluções a longo prazo, acho que tem uma função. Agora, em termos de país subdesenvolvido, que é o nosso caso; isso se torna muito difícil, então essa dificuldade, ao meu ver, tem de ser continuamente [p.10] tratada e superada. Nós não podemos nos submeter às dificuldades e fazer da dificuldade a nossa função.
Beatriz: A nivelar pelo pior, não é?
Juracy: Fór que então, neste caso, nós estaríamos assim exercendo uma função cartorial que está superada, de simplesmente conceder alvarás de competência a "A", "B"ou"C",enãoéoobjetivo. Então é preferível que as sociedades científicas supram esta parte do treinamento em serviço, de atender cursos curtos, de mobilizar a classe pera um determinado interesse e atender aquele interesse, ainda que seja com a cooperação da Universidade.
Beatriz: E, inclusive, a participação da Tania nessa Mesa Redonda veio a partir de uma idéia da professora Juracy de colocar realmente essa idéia. A Sociedade de Psicologia, como órgâo cultural e também participante, um órgão integrador nesse sentido.
Juracy: Uma Sociedade Científica. Eu acho que nós temos medo de nos caracterizarmos como uma Sociedade Científica, mas é o que nós devemos
ser.Inúbia: Estaria assim apoiando.
Juracy: Principalmente, em se tratando de Psicologia, porque a psicologia além da parte de aplicação, ela tem, pelo menos na pior das hipóteses a)% de ciência. Ela não é uma atividade puramente aplicada, como seria a medicina, que se apoia em "n" ciencias, mas a Psicologia tem uma larga extensão da Psicologia que é ciência e ciéncia pura, e ciência que inclusive dá fundamento pera outras, como é o caso da Educação que se apoia na Psicologia. Então, a rigor, a Sociedade de Psicologia é uma sociedade científica também, o que não quer dizer que deixe de ser uma sociedade profissional.
Beatriz: Inclusive, funcionando como integradora e mediadora, no sentido de estimular os próprios cursos e a ligação com a Universidade.
E também, eu acho, que no sentido de estimular encontros, onde os profissionais pudessem expor seus trabalhos, pudessem se manifestar.Juracy: Trocar experiências.
Tania: A produção científica da classe apareceria.
Beatriz: É um aspecto que a gente levantou, de certa forma.
Tania: Eu acho que esta é uma das faces da Sociedade de Psicologia que é da identidade da Sociedade e que tem de sei colhida, abrilhantada e acrescentada em termos de consciência de cunho científico.
Inúbia: É que antes não havia o Conselho, tem toda uma História por trás. A Sociedade tinha que assumir papéis que não eram dela, mas, eu acho que agora está definida.
Tania: Mas, o que a professora Juracy está ôolocando é uma perspectiva de sobrevivência, porque lá pelas tantas, estes velhos temas que quase não se encontram soluções, se desgastam, e as suas soluções se refletem nas coisas imediatas, daquele momento, e fazem uma História sem uma tradição.
Inúbia: Não há História, há momentos desvinculados.
Ester: O que eu observo na faculdade, é que o aluno que entra vai adquirindo ao Iopgo do curso, mesmo no graduação, aspectos crônicos, e quando se forma, tende a desacreditar na formação. Então, os grupos vão passando informações, ele já vai para determinada cadeira ou para determinada situação, com a opinião formada, ele nem quer conhecer.
Eu acho que quando ele se forma, ele não quer ir também para uma especialização, para um Mestrado, porque ele já tem um cónceito formado e, talvez numa posição onipotente, muito crítico, de nem buscar e conhecer o que é.
Tanto que nós vimosque uma das motivações deste encontro seria a de esclarecer as pessoas sobre o que são realmente estes cursos, porque existe um desconhecimento, sobre o que oferecem e o que pode ser buscado.Inúbia: Já estamos em cima da hora não é, eu acho que ficou faltando algo importante: a filosofia, aorientação do Mestrado.
Beatriz: Acho que a professora Juracy colocou em termosd a UFRGS.
Inúbia: O nosso Mestrado tem por base a psicologia Dinâmica, eu acho que isso aí é importante esclarecer porque exclui outras correntes.
Nós chegamos à conclusão que nós não podemos abarcar todas as teorias correntes, então considerando a orientação, inclusive dos próprios professores que compõem o corpo docen[p.11] te, e também a tradição de todo o curso de graduaç5o, nós achamos melhor concentrar e desenvolver Dinâmica: Freud, Melanie e Hartman príncipalmente. Acho que isto é importante.Beatriz: Eu acho que a gente poderia dar por encerrado e deixamos nossos agradecimentos às pessoas que compareceram tão gentilmente.