PSICO


Volume 5-6-- 1987 -- p11-35

 

A PSICANALISE DOS LEIGOS - TEMA CÍCLICO

Malomar Lund Edelweiss

 

"...: Esclareço: leigos não-médicos e a questão é a de se também. Aos não-médicos deva permitir-se o exercício da análise". Sigmund Freud - "A Questão da Análise dos Leigos" (1,2).
"Nisto lhe disse João: Vimos um homem que, em vosso nome, expulsava demônios e lhe proibimos porque ele não é dos nossos" (São Marcos 9,38).

 

O início da análise profana

Antes da guerra de 1914, afora alguns médicos, praticavam a psicanálise a Dra. Phil. Hermine Hug Hellmuth, em Viena, e o Pastor Oskar Pfister em Zurich. A primeira se dedicava predominantemente ao campo pedagógico. Contribuiu com valiosas observações analíticas sobre a criança, sendo também lembrada por ter excogitado a técnica do jogo para a psicanálise infantil, e que "Melanie Klein deveria explorar tão brilhantemente após a guerra" (3). As análises de Pfister se relacionavam a adolescentes perturbados por conflitos, especialmente mor&s. Ele as complementava com aconselhamento ético e exortações religiosas. "Por volta da última parte da' guerra, Meianie Klein iniciou sua famosa carreira ajudando Ferenczi, em sua clínica de Budapest, no tratamento analítico de crianças" (3, pag. 312). A Sociedade Psicanalítica de Viena, desde o início, já tivera membros não-médicos,mas que jamais chegaram a praticar a psicanálise. Assim, Max Graf e Hugo Helier, Como estes, também o Barão Alfred von Winterstein que, entretanto, encetou a prática psicanalítica ao deflagrar da guerra de 19)4.
Nos dois primeiros anos do término da beligerância, aumentou o número de não-médicos no tirocínio psicanalítico. Otto Rank foi o primeiro. Pouco depois, Sigfrid Bernfeld e Theocfor Reik. Em! 1923, Anna Freud, doutora em direito. Mais tarde, August Âichhorn, pedagogo, sucessor de Freud, A testa do movimento psicanalítico vienense, após a 2. guerra mundial, em 1945, Ernst Kris, Robert Wlder e outros. Em Londres, naquela mesma época, tornaramse conhecidos 1 D. Flugel, Barbara' Low, Joan Riviere, ElIa Sharpe, e James e Alice Strachy, famosos como autores principa 1s da versão inglesa das obras de Freud, a praticamente oficializada 'Standard Edition'.[p.11]


O caso Reik


Ao fim da primeira de 1926, Theodor Reik foi processado por um de seus pacientes e acusado de tratamento prejudicial, invocando-se a lei austríaca contra o charlatanismo. Era exercício ilegal da medicina o tratamento de alguém por qualquer pessoa não- médica. No concernente a Reik, por felicidade,o querelante era indivíduo desequilibrado, de fé inaceitável. Isto, talvez mais que a intervenção pessoal de Freud, balanceou a demanda a favor Reik.
O caso deu ensejo, em julho do mesmo ano, ao opúsculo "A questão da Análise dos Leigos", com o sub-título "Palestra com um interlocutor Imparcial". Tem a forma de diálogo entre o pró-

.
prio Freud e certo ouvinte não simpático à psicanálise, o qual, deveras, representa o alto-funcionário da justiça austríaca, referido no pós-escrito de junho de 1927: "Homem de atitude benévola e integridade incomum, com o qual mantive conversação acerca da causa Reik e ao qual, assim como me fora por ele pedido, eu entregara laudo de caráter privado. Sei que não havia conseguido convertê-lo ao meu ponto-de-vista e, por isto, fiz também que o meu diálogo com o interlocutor imparcial não terminasse pela concordância" (4).
A primeira manifestação escrita de Freud ao tema é o prefácio ao livro de Pfister "O Método Psicanalítico", de 1913:
"Pergunta-se, apenas, se o exercício da psicanálise não supõe instrução médica, da qual o educador e o cura de almas devem ficar excluídos, ou se não há outras circunstâncias que se oponham ao intuito de colocar a técnica psicanalítica em mãos outras que não as médicas. Confesso não vejo tais restrições. O exercício da psicanálise requer muito menos escolaridade médica do que preparo intelectual psicológico e livre perspectiva humana; a maioria dos médicos, contudo, não está equipada para a prática da psicanálise. .
Também nesta primeira tomada de posição, Freud não omitiu aviso prudencial:
"A aproximação do terreno da anormalidade anímica fará necessário ao analista-educador familizar-se com os conhecimentos psiquiátricos mais imperiosos e, sobre isto, chamar o conselho do médico sempre que o diagnóstico e o prognóstico do distúrbio pudessem[12] apresentar-se duvidosos. Em certo número de casos, so- mente a cooperação do educador com o médico poderia trazer resultados satisfatórios" (ib).
Motivado pela incriminação a Reik, Freud mais encareceu seu ponto-de-vista:
"O movimento contra! a análise dos leigos parece não ser nada mais que uma vergôntea da velha resistência contra a análise em geral. Infelizmente, muitos dos nossos membros são tão míopes ou estão de tal jeito obcecados pelos seus interesses profissionais a ponto de aderirem a ele". È o que desabafa numa carta a Max Eitingon (6).
E Jones comunicou a Freud quando surgiu a publicação:
"Enquanto o Sr. tinha deixado algumas poucas coisas não ditas, havia-nos dado perspectiva inteiramente diferente de todo o problema, perspectiva que todos sentimos ser da mais vasta importância. O que, penso eu, o Sr. estabeleceu além de toda dúvida, é que seria muito prejudicial ao nosso movimento proibir a análise leiga. Haverá analistas leigos e deve havê-los porque nós os necessitamos. A necessidade de exercitação adequada é, natura1- mente, óbvia. A questão mais ampla, a de quanto deveríamos colimar fazer da análise profissão independente, tendo somente alguns laços com a medicina, é extraordinariamente interessante e acho que ainda há muito a dizer a respeito disto. Com! toda a probabilidade, entretanto, isto não será feito por nós mas pelo destino". Freud replicou: "Apreciei muitíssimo sua última observação sobre "A Análise dos Leigos". Alegra-me saber que, ao menos, fiz alguma impressão sobre o Sr Certamente, o destino decidirá quanto à relação última entre psicanálise e medicina, mas isto não implica em que não tentemos influenciar o destino procurando moldá-lo pelos nossos esforços próprios" (3, pag. 315).

 

A posição de Freud

As primeiras alíneas da monografia', citada em epígrafe, são prosseguidas de comentário: as considerações feitas são condicionadas ao tempo e ao espaço. Ao tempo: até pouco antes, a ninguém importava quem. exercia a psicanálise. Ao espaço, porque a lei territorial obedece a determinada! lógica: os nervosos são doentes, os leigos são não-médicos, a psicanálise é procedimentos para a cura ou alivio de sofrimentos nervosos, todos os tratamentos semelhantes são reservados aos médicos; portanto, não se permite que leigos pratiquem a análise de nervosos, sendo puníveis se tal acontecer. Diante de colocação tão simples, continua Freud, mal se ouse preocupar-se com o problema da análise leiga. Ocorrem, entretanto, certas complexidades das quais a lei não se ocupa certas complexidades das quais a lei não se ocupa mas que, por isto mesmo, requerem consideração. possivelmente se dê,[p.13] no caso, que os doentes não sejam como os outros doentes, os leigos não sejam propriamente leigos e os médicos não sejam bem aquilo que se devesse esperar de médicos e sobre o que se pudessem basear suas reivindicações" (7).
Os cinco primeiros capítulos, praticamente, nada mais são que o resumo sucinto e claro "ad personam" da concepção psicanalítica das perturbações mentas. Nos dois últimos, Freud entra vigorosa e diretamente em defesa da psicanálise profana:
"Permita-me eu dê à palavra "charlatão" o sentido a que faz jus ao invés da interpretação legal. Para a lei, charlatão é quem trata enfermos sem poder legitimar sua qualidade de médico pela posse de um diploma estatal. Eu preferiria outra definição: charlatão é quem empreende qualquer tratamento sem possuir os conhecimentos e as capacidades para isso requeridos. Apoiando-me nesta definição, ouso afirmar que - e não só nos países europeus - os médicos fornecem para o charlatanismo na psicanálise preponderante contingente. Com muita freqüência exercem tratamento psicanalítico sem tê-lo aprendido e sem compreendê-lo.
Em vão objetar-me-ia o Sr. que isto seria falta de consciência, e que isto o Sr. não assacaria aos médicos. Pois o médico sabe que seu diploma não é alvará para a flibusteria e que o doente não é nenhum proscrito. Dever-se-ia conceder, ao médico, que ele age de boa fé ainda que, eventualmente, se encontre em erro.
Os fatos subsistem. Esperamos que eles acabem se revelando tais quais como o Sr. os pensa. Procurarei expor-lhe como se torna possível que, nas coisas da psicanálise, o médico valha proceder de maneira como ele cuidadosamente não faria em nenhum outro terreno" (ib. pag. 262).
O tom, áspero e contundente, manifestado em alguns pontos da dissertação é atribuído por Jones a mais uma recente intervenção cirúrgica no maxiliar, sofrida por Freud, do que ao velho ressentimento contra Associação Médica Vienense, que tão mal o tratara na primeira apresentação da psicanálise (3). Deveras, o mestre afirma': "Depois de 41 anos de atividade médica, diz o conhecimento que tenho de mim mesmo, realmente, nunca' fui médico de verdade. Cheguei a ser médico impelido por um desvio de minha intenção originária, e o triunfo de minha vida consiste em que, depois de um grande descaminho, achei, novamente, o rumo inicial". ( ...)" Nunca brinquei de "doutor". Minha curiosidade infantil, claramente, seguia' outros rumos. Em minha juventude, tornouse-me irresistível a necessidade de entender algo dos enigmas deste mundo e de contribuir, talvez, com algo para' a sua solução" (ib. pag. 240).
Intelectualmente brilhante, estudioso e sonhador, Freud conhecia a medicina da época e suas falhas. Não lhe poupava críticas como também lhe não desconhecia os direitos e virtudes. No conao tratamento das neuroses, era categórico ao dizer que os conhecimentos acadêmicos "em nada contribuíam, absoluta-; mente nada". A orientação oficial do estudo era inteiramente outra, de desrepeito diante da investigação psicológica.
"Seria tol'erável se a escolaridade médica apenas malograsse na orientação dada no domínio das neuroses. Mas faz muito mais. Dá atitude falsa e prejudicial. Os médicos não despertados em seu interesse pelos fatores psíquicos da vida, estão sempre muito prontos a dar-lhes pouco valor e escarnecê-los de não científicos" (ib.
264,65).
O autor continua: ninguém deve exercer a psicanálise se não tiver adquirido esse direito pela necessária formação. Ser médico ou não, é inteiramente secundário. As autoridades constituídas, incitadas pelos médicos profissionais, pretendiam., na época, proibir aos leigos o exercício da psicanálise. Como conseqüência, seriam atingidos também os membros não-médicos da Sociedade Psicanalítica, portadores de formação excelente e habilitados pela prática. Promulgada a lei, consagrar-se-ia o seguinte: bom número de pessoas ver-se-ia proibido de uma atividade a qual, tem-se plena convicção, sabem exercer muito bem, enquanto que a mesma atividade seria livre para outros aos quais falece a garantia de capacidade idêntica. Não seria, com certeza, este o resultado que a lei desejava alcançar. Na própria Áustria, durante a monarquia, eram conhecidas as exceções "ad personam" pelas quais se permitia o exercício médico a curandeiros nos quais se confiava. A esta altura, quando Freud escreve, 1926, seria impedir, nessa mesma terra, uma atividade exercida eficazmente em países de igual nível. S3ria anacromismo aplicar à psicanálise normas que não passariam de "verdadeiro furor prohibencli, certo pendor à tutelagem, interferência e proibição que, sabidamente, não traeem bons frutos."
Mas não é notório que alguns dos colaboradores médicos de Freuci não o acompanhavam, senão defendiam a exclusividade médica no tratamento psicanalítico dos neuróticos? Como explicar
procedimento desses discípulos? "Com certeza, não sei", diz Freud, "penso que seja o poder do sentimento profissional... ser, talvez, outra coisa. Argüir motivos de çoncorrêncla significaria, não apenas acusá-los de sentimentos baixos, mas ainda atribuir- lhes extraordinária miopia". Aqueles discípulos poderiam, ainda, estar sob a influência de certos e determinados momentos "que, na prática psicanalítica, indiscutivelmente, asseguram a precedência do médico sobre o leigo" (ib. pag. 272). Uma dessas precedências seria, por exemplo, a do diagnóstico.
Ora, Freud, - contra Jung que achava imprescindível ao psicanalista, pelo menos, a formação universitária completa - defendia a tese de que todo indivíduo de certa madureza vivencial, tendo recebido preparo psicanalítico adequado, estaria em condições de tratar dos pacientes. Mas, sempre que surgissem sintomas dúbios, de natureza somática e não psíquica, mesmo durante o tratamento psicanalítico, a4nda que fosse médico, o analista deveria encaminhar o paciente a médico não analista para que fizesse, co- lateralmente, o tratamento clínico necessário.
"Subiste a prescrição técnica de que o analista, quando surgirem tais sintomas dúbios durante o tratamento, não o submeta ao próprio juízo mas o submeta à perícia de médico alheio a aná- use, por exemplo um internista, ainda' que ele próprio (o analista) seja médico e versado nos conhecimentos médicos" (ib. pag.
278).
Há interesse tríplice no domínio psicanalítico: "o do enfermo, o do médico e - last not least - o da ciência,...""Ora, para o enfermo, pouco importa que o analista seja médico ou não, provisto que o perigo de equívoco sobre seu estado se elimine pelo devido diagóstico médico ao início do tratamento e de possíveis ocorrências incidentais ao curso do mesmo. - lhe, isto sim, de importância incomparável que o analista tenha as qualidades de personalidade que o façam digno de confiança e tenha adquirido aqueles conhecimentos de compreensão assim como a experiência que, só e unicamente, o capacitam a preencher sua tarefa" (. ..) "Vamos ao interesse dos médicos. Não posso crer que ele venha a lucrar pela incorporação da psicanálise na medicina""Pois é importante reconhecer que a formação psicanalítica entrecorta, apenas, o campo do preparo médico, mas não o inclui simplesmente nem é por ele absorvida" (ib. pags. 278-80).
Muita coisa da formação médica seria perfeitamente inútil para o psicanalista e, de outro lado, muita coisa indispensável ao psicanalista não lhe é fornecida no currículo acadêmico habítual. Seria necessário lhe fosse ensinada a psicologia abissal ou profunda, que seria sempre a parte predominante, além de uma introdução à biologia com grande incurso no estudo da vida sexual, mais os conhecimentos adequados da nosologia psiquiátrica. De outra parte, seriam indispensáveis: história da civilização, mitologia, religiosa e ciência da literatura. Em suma, o caminho para a psicanálise, através da medicina, seria bem mais longo, através de inúteis desvios, ao invés de outro mais direto e eficiente.
O terceiro interesse seria o da ciência. A psicanálise, encampada pela medicina, nunca seria mais do que um capítulo da psiquiatria. Na qualidade de "Psicologia Profunda" ou estudo do inconsciente, poder-se-ia tornar imprescindível às ciências da cultura humana e às suas grandes instituições como a arte, a religião e a ordem social. Além do que já prestou de benefício até o momento, contribuição se bem que pequena, haveria o que ainda pode prestar aos historiadores da civilização, aos estudiosos da psicologia religiosa, filólogos, etc. . O próprio desenvolvimento da psicanálise[p.16] pelos psicanalistas didatas não poderia prescindir no contato direto com o paciente analisando do qual dependem necessariamente, para as suas próprias atividades futuras. O todo científico, pesquisa e trabalho, exige liberdade de movimentos e não suporta restrições mesquinhas. "O mais importante de tudo, porém, possibilidades de desenvolvimento interior da própria psicanálise, não podem ser afetadas por regulamentações e proibições"pag. 286).
Por estas últimas palavras termina Freud a monografia propriamente dita de seu diálogo com o "interlocutor imparcial".

Reiteração

O pós-escrito, ulterior de um ano, aclara e conforta os mesmos pontos-de-vista.
A psicanálise não é nenhuma especialização da medicina. Não vejo como possa alguém eriçar-se contra isto. A psicanálise é parte da Psicologia, mas não da psicologia médica, no velho sentido, ou da psicologia dos processos patológicos, senão, simplesmente, psicologia. Não o todo da psicologia, por certo. Ms
subestrutura, ou mesmo, quem sabe, seu próprio fundamento. Ninguém se deixe enganar pelas suas possibilidades de aplicação efetiva a objetivos médicos. A eletricidade e os raios X também encontraram aplicação na medicina mas, não obstante isto, a ciência de ambos é a física. Os argumentos históricos nada podam mudar neste domínio. Toda a teoria da eletricidade teve seu ponto-de-partida na observação do preparo de um nervo-músculo
ninguém pensaria, hoje, em afirmá-la como sendo parte da fisiologia" (ib. pag. 289).
As cautelas necessárias ao bem do cliente, nos casos dúbios
que se faz necessário o diagnóstico diferencial, foram por Freud não só advertidas mas também sempre tomadas. Entretanto,
número de casos em que essa dúvida absolutamente não ocorre,
que o médico não é absolutamente necessário, é incomparavelmente maior. Estes casos podem ser, cientificamente desinteressantes mas têm, na vida, papel suficientemente importante para justificar a atividade dos analistas leigos, que são perfeitamente competentes para lidar com eles. E aduz um exemplo. Certo colega médico manifestara absoluta repulsa à idéia de ser tratado por alguém não-médico. Tempos depois, Freud pôde dizer-lhe: "Já trabalhamos, agora, há mais de três meses. A que ponto de nossa análise tive eu ocasião de fazer uso de meu conhecimento médico?
outro admitiu que não tinha havido ocasião alguma" (ib. 292).
Não deixa de ser importante que, olvidando querelas de outrora, Freud menciona as psicoterapias de orientação diferente da dele. "Nossos oponentes adlerianos, psicólogos individuais, esforçam-se[p.17] em produzir resultados similares em pessoas que se tornaram instáveis e ineficientes. Evocam-lhes o interesse pela comunidade social, depois de ter projetado um Pouco de luz sobre apenas um ângulo de sua vida psíquica e sobre a parte que representavam, em seus mal-estares, impulsos egoístas e de desconfiança". Esses "procedimentos que derivam sua virtude do fato de se terem baseado na análise, têm seu lugar na psicoterapia" (ib. 292).
Não menos importante e, muito provavelmente, uma das causas de que, ainda de quando em vez, se objete contra o exercício da psicanálise por não-médicos, é a seguinte verdade:
"Em psicanálise existiu, desde o começo, íntima união entre cura e pesquisa, O conhecimento carreou o sucesso. Não se podia tratar sem aprender algo de novo. Não se adquiria novo esclarecimento sem vivenciar sua ação benfeitora. Nosso processo analítico é o único no qu& essa conjunção preciosa é assegurada. Só ao levarmos adia'nte nossa pastoral analítica aprofundamos nossa dilucular compreensão da vida psíquica humana. Esta perspectiva de incremento científico foi o mais nobre, mais radioso caráter do trabalho analítico. Deveríamos sacrifcá-lo, de qualquer modo, por considerações de ordem prática?" (ib. 293,94).
Esta faceta' de pastoral simplesmente humana, fundamentada na sondagem penetrante da alma humana, até alcançar certa base científica, Freud insiste em proteger. Tem bem presente o fato de que foram orientadores espirituais e pedagogos, como Oskar Pfister e Hugh Helmuth (mais tarde tornar-se-á famoso Aichhorn), os primeiros a intuir o valor dos achados psicanalíticos e a' empregálos beneficamente em seus pupilos.
Nem por isto se entendam mal as contestações aos médicos,
"Tem sido feita contra mim a dfesa dos médicos, como se eu os tivesse declarado, de modo geral, ineptos ao exercício da análise e como se fora dada a senha de que o reforço médico devesse ser repelido. Ora, nada disto há em minhas intenções. A aparência disso talvez tenha resultado de que eu, em minha exposição, vasada em momento polêmico, tive de explicar ser o analista médico, despreparado, ainda mais perigoso que o leigo. - . Confesso que, enquanto não 'existirem escolas como as que desejamos para o preparo de analistas, são as pessoas de anterior formação médica o melhor material para o analista futuro. Temos, entretanto, a exigir que sua educação prístina não substitua a formação verdadeira, que superem a unilateralidade fomentada pela instrução da escola médica, e que resistam à tentação de flertar coni a endocrinologia e o sistema nervoso autônomo quando for questão de apreender os fatos psicológicos em hipóteses psicológicas de de trabalho" (ib. 294).
Somente os analistas médicos têm capacidade indispensável para manejar os problemas respeitantes à concatenação entre os fenômenos psíquicos e suas bases químicas, anatômicas e orgânicas.[p.18]

"Mas não deve esquecer-se que isto não é o todo da psicanálise e que, de outra parte, não podemos jamais prescindir da coopeperação de pessoas formadas em ciências humanas (Geisteswissenschaften). Por motivos práticos, em nossas publicações, habituamonos a distinguir a "análise médica" da "análise aplicada". Não é O correto.Na verdade, a linha divisória se situa entre análise científica
suas aplicações no ca'mpo médico e não-médico" (ib. 294,95).
Este acréscimo de 1927 era particularmente endereçado aos "colegas americanos". "Dificilmente poderá ser considerado mau uso da psicanálise, com fins polêmicos, se expressar minha opinião
que sua resistência provém, exclusivamente, de fatores práticos". Os abusos em nome da psicanálise, - e o descrédito resultante - não se corrigem pela proibição da análise profana. "Ela (a proibição) tem o valor aproximado de uma tentativa de recalcamento" (ib. 295,6), Se não se pode impedir a ação dos analistas leigos,
a campanha contra eles não é apoiada pelo público, não seria mais adequado reconhecer devidamente o fato de sua existência e dar-lhes oportunidades de formação,.. .?" (ib. 296).
À margem das ocorrências na' América do Norte, Ereud se queixava a Ferenczi: "O desenvolvimento interno da psicanálise está, em toda a parte, procedendo contrariamente às minhas intenções, tomando distância da análise profana e se tornando especialidade puramente médica. Vejo isto como fatal ao porvir da análise". Jones, que é quem cita esta carta de Fei'enczi, de 22 de abril de 1928 (3, 319), não se contém e corrige ao rodapé: "Isto, com absoluta certeza, não era verdade na Ingleterra onde constantemente recrutávamos analistas leigos". A controvérsia, naquela época, assim como hoje, era tema de congressos e trocas de opiniões mais ou menos azedas. Freud é peremptório: "Não tenho o desejo de arredar-me o mínimo na questão dos leigos e não há meios que me façam transpor o abismo" em carta a Aichhorn, abril de 1929 (3, pág. 320). No mesmo ano, ainda, a Ferenczi, Freud designa a oposiço à análise dos leigos como "a derradeira' máscara da resistência contra a psicanálise, e a mais perigosa de todas" (3, pag. 320). A situação mudou no decorrer do ano. Jones lhe comunicava, em outubro, que os analistas leigos estavam trabalhando, oficialmente capacitados, na clínica de Londres. Em. dezembro, Frankwood Williams também endereçava-lhe a notícia de que a "New York Society" tinha alterado seus estatutos de modo que, agora, admitia a possibilidade de ter membros leigos" (3, 321).
Jones, sempre fiel, jamais engoliu a suspeita de Freud acerca dele, Jones, de que pudesse ter sido adverso à opinião fundamentada do mestre. Nas épocas mais acesas da divergência, o grupo londrino de psicanalistas contava cerca de quarenta por cento de não-médicos. Entre estes, havia uma pessoa particularmente cara:
Melanie Klein, por vezes, alvo dos bons ofícios de Jones, perante[p.19] Freud, defendendo-a por algumas tendências "desviacionistas" aos olhos do patriarca. E Jones tomava qualquer suspicácia de deslize no seu devotamento pessoal e científico a Freud, como inadmissível:
"Nos anos avançados da década de 30, corria largamente nos Estados Unidos a notícia - que, de maneira muito estranha, se dizia provir de analistas europeus estabelecidos na América - constando que Freud tinha! mudado radicalmente seus pontos de vista expressos de modo tão definido na brochura sobre a análise leiga. Sua opinião, agora, seria a de que a prática da psicanálise, em todos os países, devesse ser estritamente confinada aos membros de profissão médica. Eis a! resposta à pergunta feita sobre alguma possível verdade do boato:


Julho 5, 1938.
Caro Sr. Schnier:

Não posso imaginar como se teria originado a parva atoarda de ter eu mudado meus pontos-de-vista quanto ao problema da análise dos leigos. O fato é que nunca repudiei tais pontos-de-vista, e insisto neles ainda mais persistentemente do que antes, em face da tendência americana' de transformar a psicanálise em mera empregada doméstica da psiquiatria.
Seu, sinceramente, Sigm. Freud O." (3,323)

Da prata da casa

Em São Paulo, em julho de 1954, houve o 1° Congresso Latino-Americano de Saúde Mental (13). Uma das mesas redondas provocou interesse de tal monta que outras foram sustadas porque o debate do tema atraía a quase totalidade dos presentes: o problema do exercício da psicanálise. A defesa do monopólio da psicanálise, reservada aos médicos, cabia ao Prof. Flamínio Fávero, professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina' de São Paulo, em colaboração com o psiquiatra não psicanalista Tarcísio Leonce Pinheiro Cintra. Não cuidava de outras coisa a' não ser, na época, apresentar a legislação nacional, ao pé da letra, pará concluir, irremissivelmente, que analistas experimentados, mas não médicos, por melhor que lhes fosse a' categoria, seriam curandeiros e charlatães. O número de psiquiatras, - sem nenhuma categorização psicanalítica ou ordem diferente mas psicoterapêutica, - era maior. Discussões acaloradas dividiram o plenário em duas alas. Uma, a defender a exclusividade médica. Outra, exigindo a qualificação adequada para o exercício da psicanálise, mesmo por quem[p.20] não fosse médico. Mário Yahn redigiu extensa moção cujos tópicos finais figuraram nas atas do congresso. Foram, posteriormente, aceitos pelo professor Flamínio Fávero para serem divulgados com a finalidade de se recolherem opiniões acerca da' pendência de tanto vulto. São pensamentos contidos naquela moção: a discussão havida, na mesa redonda não podia levar a conclusões satisfatórias sem reflexão mais detida. O assunto é complexo e mais denso se torna em face dos progressos relativos ao conhecimento da natureza humana, sua integração física, psíquica e social. Esses progressos estão intimamente relacionados com o aparecimento da' psicanálise. Esta abrange um aspecto teórico e outro prático. Ninguém é proibido de conhecê-la' teoricamente. Aplicá-la, entretanto, é tarefa não fácil que exige disposições pessoais e preparação científica. Pessoas não formadas em medicina, em número relevante, dotadas de aptidão indiscutível, preparara'm-se a praticá-la e, mais tarde, seus trabalhos contribuíram decididamente pa'ra o progresso psicanalítico, de maneira igual ou superior àquela' realizada por médicos. Apreciável número de médicos tinha recorrido à formação psicanalítica na sociedade existente em São Paulo. Na mesma época, o prof. Maurício de Medeiros, citado, deixava aberta a questão de se a eficiência da psicanálise requeria formação médica, ou não sofria prejuízo quando também exercida por não diplomados em medicina mas providos de formação adequada. A questão se apresentava nos termos seguintes: a interrupção do exercício da prática psicanalítica', por não-médicos traria prejuízos para o progresso dos conhecimentos psicanalíticos em nosso meio e, conseqüentemente, prejuízos vultosos à proteção e à recuperação da saúde, tanto física como psíquica', de populações cujo bem-estar a lei visa garantir. Afrânio Peixoto é citado: "Sacerdotes, que eram os médicos nos primórdios da humanidade, com dupla auréola de respeito, inspirado pela gratidão e o temor, foram se despindo dos paramentos e das atitudes hieráticas, confundindo-se e se anulando na coletividade amorfa, na qual apenas o mérito pessoal de talento, de critério, de honestidade se distingue perduravelmente. São os médicos, ainda' hoje, uma classe privilegiada pelo Estado que, em troca de exigências de idoneidade técnica que os obriga, nos seus institutos de ensino, lhes confere o monopólio da doença e da saúde do próximo, perseguindo os infratores pelo exercício ilegal da medicina. A ignorância das massas ainda o exige assim, acessíveis que são ao engano, à fraude, ao charlatanismo. Esta providência tende a cessar com a instrução difundida, que deve dar ao povo a consciência' de si mesmo. Não precisará mais que o Estado lhe prepare e lhe designe os indivíduos supostos aptos a cuidar da sua saúde: sabera escolhê-los livremente. Nesse dia, sem privilégios, a profissão médica contará consigo mesma para a concorrência pela vida. A liberdade profissional será um conquista[p.21] próxima do progresso humano. Devem os médicos, pelo estudo da natureza e a cultura da vontade, ir preparando o seu lugar amanhã. Restarão direitos e deveres comuns: ficará principalmente a responsabilidade médica que os privilégios atuais atenuam, talvez demasiadamente" (Medicina. Legal, quarta edição, 1923, pags. 385, 86). Afrânio Peixoto foi particularmente citado nesta moção, porque recebera elogios, até internacionais de Lombroso, Locar e outros, como nacionais, de Nina Rodrigues, pela sua luta no sentido da modificação de regulamentos de leis para que se colocasse a atvidade prática, em perícias médicas, mais de acordo com o desenvolvimento da ciência e mais consentâneas ao grau de cultura de nosso país, em seu tempo.
O texto da moção, acompanhado de esclarecimentos, foi divulgado pela Resenha Clínico-Científica, de agosto de 1955 (13). Certos argumentos expostos são os de Freud nos séis primeiros capítulos de sua "Psicanálise dos Leigos". Acrescemrse os de Edward Glover em "As Indicações para a Psicanálise" (14). Há outras observações dignas de nota. O psicanalista não é concorrente do médico, de modo geral. O trabalho se restringe a pequeno número de pacientes para o qual a maioria dos médicos não está habilitada a tratar. Além disso, a ação prática da psicanálise não se limita ao tratamento de neuroses. Estende-se a outros setores da medicina e se extravasa além dela, sobretudo para a educação e para outros problemas da vida considerada normal. Educadores e psicólogos devidamente exercitados em psicanálise são cada vez mais necessários, em maior número. Seria absurdo criar normas demasiadamente estreitas que teriam como conseqüência única perturbar a liberdade de escolha das melhores soluções para problemas eminentemente pesso&is como os estados nervosos de qualquer tipo.
As conclusões são explícitas. O trabalho psicanalítico não é médico. estritamente psicológico. A psicanálise torna conscientes forças afetivas inconscientes que perturbavam o equilíbrio psíquico do paciente. Assim, contribui para melhora deste, para sua segurança afetiva maior e sua maturidade emocional. Conseqüentemente, certas manifestações psicológicas que se apresentavam como sintomas de causas emocionais, desaparecem. A possível melhora do paciente é conseqüência disto. Destarte, a ação terapêutica da psicanálise é secundária. Decorre do trabalho psicológico. Não é indispensável o conhecimento prévio de medicina ao psicanalista. As aptidões inatas são as de maior utilidade. Encarece-se o sentido da cultura geral. Quanto mais culto, mais vantagens pode oferecer o psicanlista aos seus clientes. Não se subestima a formação módica. Mas seria exagero sua obrigação quando a prática muito pouco iria utilizá-la. Se, paira ser psicanalista, não é imprescindível o estudo da medicina, de outro lado, o médico, pelo simples fato[p.22] de o ser, não pode ser considerado psicanalista ou psicoterapeuta na verdadeira expressão do termo. Reconhecendo - se o exercício da psicanálise como ativdade psicológica, não há razão alguma para que ele seja posto fora da lei quando executado por pessoas capacitadas, não-médicas. Excluindo o aspecto legal, - a legislação acerca da psicologia ainda era inexistente (1955) - considerando só o aspecto de eficiência e de benefício para a população, muto mais prejudicial é a prática psicoterapêutica psicanalítica por médicos não devidamente preparados do que por leigos especializados para esse fim. Neste particular, é considerado gra'e atraso as faculdades de medicina não terem ainda incluído em seu currículo a cátedra de psicologia clínica e psicanálise. recomendável a cooperação do médico para que se exclua a etiologia orgânica, esta, evidentemente, intratável pela psicoterapia.

E da roupa a lavar

Em 1955, Werner Kemper, que viera para o Brasil com Kattrin Kemper para exercerem a função de psicanalistas didatas foi preso por denúncia de zeloso esculápio que o incriminou de exercício ilegal da medicina, por não ter revalidado seu título médico no Brasil. O ilustre mestre psicanalista foi imediatamente libertado, pessoalmente, pelo minstro Mário Pinotti, da Saúde, por ter sido a detenção manifestamente descabida. Anos depois, veio a regulamentação profissional do psicólogo. O projeto de lei, não se sabe sob influência de quem, limitava a profissão nova considérando-a "para-médica", O legislador seguiu caminho diferente. Não subordinou a psicologia a qualquer outro ramo de exercício científico. A lei promulgada não se referiu explicitamente à psicanálise ou psicoterapia. Mas deu ao psicólogo a atribução legal de "resolver problemas de ajustamento". Isto foi considerado, em congressos psiquiátricos, como incluir,co implicitamente as atribuições de psicoteraçeuta. Passada a prim&ra surpresa, começou tenaz e ininterrupta campanha, principalmente de determinados setores de psiquiatras profissionais contra a disposição legislativa. De quatro ou cinco anos a esta data, freqüentemente o tema é incluído em debates de interesse do setor psiquiátrico da medicina, em congressos ou discussões restritas, onde os médicos são sempre, obviamente, a maioria. Uma das denominações habituais é a de "usurpação" das prerrogativas do médico. Embora, de outro lado, seja invariavelmente reconhecido - não tão facilmente pelos profissionais da medicina - que os cursos de psicologia incluem. em seus currículos estudos muito mais extensos que habilitem à psicoterapia, do que os currículos médicos normais. No que se refere à formação psicanalítica dada por várias sociedades, todas elas particulares, mas de comprovada seriedade científica e profissional,[p.23] o assunto não é posto em questão. A psicanálise, como tal, não é regida por nenhum dispositivo egal específico. Mas ficaria, automaticamente, aos olhos de quem. não reconhece a capacidade dos não-médicos, incluída a fortiori na proibição do psicólogo que, ao menos este, tem o abono do texto de lei. Os fatos não mudaram. Não mudou, tampouco, a mentalidade vigente no tempo de Freud por ocasião de sua defesa da psicanálise dos leigos. As exclusividades adquiridas através do tempo, tornaram-se hábito de pensamento. Pascal já apontava que "o coração tem razões que a razão desconhece". Em todos os países e em todas as idades.
Em 1953, uma psicanalista francesa, não-médica, foi levada a juízo também sob acusação de exercício ilegal da medicina. Foi- lhe dado ganho de causa, declarando-se que não ere do interesse público, pelo menos até o momento, por contrário ao bem comum, nem havia argumento científico aceitável para vetar ao não-médico aquela forma de psicoterapia. Ora, é certo que, já na época, havia proporcionalmente m.ais psicanalistas e psicoterapeutas na França do que certamente no Brasil ainda hoje. Como não é menos certo ter sido a questão liquidada, para aquele país, sob o prisma legal (15). A debelação jurídica de uma contenda entretanto, não significa supressão de discussões subseqüentes ao nível de tese. Ë, mesmo, bom que assim o seja. O encontro de idéias é proveitoso a quem não o toma como confrontação de beligerantes. O aprimoramento da estudos e profissões tem muito a ganhar com isso.
Quatro anos depois da citada ocorrência forense, E. Amado Levy Valensi sente-se na obrigação de dizer: "A existência de psicoterapeuta não-médico deveria suscitar reações cooperativas mais fecundas - e mesmo mais prudentes - que a atitude de oposição sistemática. Sobre dez erros políticos, notava então Bergson, há nove que consistem em crer verdadeiro o que não mais o é, desconhecendo a curva do real em função de argúcias teóricas às quais a gente se apega em desprezo da experiência".
"Seria mais honesto reconhecer, como Freud - e isto não teria razão de ser senão em virtude de nomes ilustres de psicoterapeutas não-médicos, tanto no estrangeiro quanto na França' - Anna Freud, Melanie Klein, Charles Baudoin, Robert Desville que a ação dos não-médicos é possível e que toda a atitude perseguidora e negativista privaria' a ciência de eu concurso sem preservar o público dos charlatães. Os abusos são mais fáceis de prevenir reconhecendo a legitimidade do fato que negando-o totalmente" (16).
inegável que ninguém defende abusos ou erros profissionais. Os erros, muitas vezes, talvez com mais facilidade sejam reconhecíveis. O abuso é fortemente delimitado por um padrão sócio-cultural ou demarcado por uma norma disciplinar que pode, ela própria, ser abusiva. As imperfeições na execução profissional se corrigem pelo aprimoramento dos profissionais e não pelo truncamento[p.24] ou eliminação das profissões. Muito particularmente quando, em proveito próprio, pretende cortar-se o terreno alheio ou expulsar o ocupante condômino. Valensi fala de "reações cooperativas mais fecundas". Cooperar não significa subordinar. No próprio campo médico, a prudência profissional adquirida' no estudo e no exercício, sem desdouro nem perda de mútuo respeito, sem subordinação legal de um a outro, induz à chamada de especialista', de outro profissional capaz, nos casos de dúvida pessoal justificada, e em bem do paciente. O opsicoterapeuta' não-médico, bem formado - e é para isto que se deve cooperar, e não para sua supressão - tem capacidade para' a mesma atitude.
Mas é possível que as sociedades humanas, que ainda apenas engatinham no cam.inho do desenvolvimento, se dêem a luxos que os países amadurecidos em ciência, técnica e bem-estar não se permitem. Para citar apenas mais um exemplo, além da França, a Sociedade Psicanalítica Alemã (DPG) (em comunicação pessoal feita por seu presidente) tem cerca de sete psicanalistas não-médicos para cada médico psicanalista afiliado. E, entre os não-médicos, há não-psicólogos, chegados de outros cursos universitários (por exemplo: engenharia, assistência social) que lhes serviu de base base cultural à formação e conseqüente prática terapêutica. È curioso, talvez sintomático, que os não-médicos devotados à psicanálise, não objetam aos médicos o exercício daquela, respeitada a formação analítica. A recíproca não tem ocorrido na igual medida. O mesmo vale pa'ra as demais correntes psicoterapêuticas comprovadamente eficazes.
"Não basta ao homem ter razão, é preciso que ele tenha razão contra alguém. Sem o exercício social de sua convicção racional, a razão profunda não está longe de ser apenas uma forma de rancor" (19 pag.245). Em qualquer círculo da operatividade humana, há os que ilustram a profissão para a qual vivem e que exercem. E há os que se lustram na' profissão escolhida, mercê do prestígio extrínseco que esta lhes brinda. Indiscutivelmente, as faixas profissionais vetustas fruem de consideração já sedimentada às vezes mítica. Mas o prestígio de classe profissional, o qual é mais do que apenas sócio-político, não se incrementa pelo tolhimento à abertura de novas trilhas. Pois o interesse humano é maior que o interesse de classe. A não ser que, para falar só da psicanálise, a impossível ortodoxia meta-psicológica seja substituida por outra, não menos danosa e inadmissível, ortodoxia médica.

Duas realidades conclusivas

Em memória de Daniel Lagache, falecido em dezembro de 1972, Didier Anzieu publica algumas saudosas recordações no "Bulletin de Psvcholoqie" (18). Médico, psicólogo. psicanalista de renome.[p.25]

professor pioneiro, criador e diretor do laboratório de psicologia social da Sorbona, hábil mestre de orientação interdisciplinar nos estudos, Lagache foi o orientador de Anzieu para a grande tese, depois publicada em livro, "A Auto-Análise" (P.tJ.F.). Dentre os fatos que teceram a vida do eminente homem de idéias e de prática, e cuja obra mais notável incide no terreno da psicanálise, o discípulo narra: "Foi Lagache que me aconselhou a empreender a formação psicanalítica, desaconselhando-me, ao contrário, os estudos médicos. A psicologia, segundo ele, se tornava ciência e profissão autônomas, isto é, suficiente a si mesma. Comunicou-me sua confiança e fez que me empenhasse resolutamente por esse caminho (. . .). O futuro é sempre, em boa parte, aquilo que se faz e porque Lagache foi, a um só tempo o homem de pensamento e de ação, este futuro, ainda muito aleatório em 1950, tornou-se realidade presente para os psicólogos de 1973".
No Conselho Nacional de Pesquisas Científicas, foi membro da Comissão de Psicologia e entrou na contenda pela independência da psicologia com relação à fisiologia. "Aliás, é do apossamento médico que ele a defendia: foi um dos representantes mais resolutos da abertura do exercício da psicanálise aos não-médicos. Sua atuação no processo penal (vide acima) intentado contra Mme. Clark-Williams, em 1952 e 1953, contribuiu para que se obtivesse, de início, a absolvição por ausência de culpa e, mais tarde, em apelação, o julgamento e a jurisprudência que afastou, daí em diante, dos psicólogos psicanalistas regularmente formados, a acusação de exercício ilegal da' medicina" (1h.).
Em outubro de 1972 (17), mais de 400 médicos, engenheiros e biofisicistas participaram, durante 4 dias, de conferências e dscussões acerca' de um tema que não teria despertado o menor interesse, na origem, não fora a pesquisa do médico Henry Puharich, ex-membro do Centro Médico da Universidade de Nova-York. O objeto central era o campôno médium-curandeiro Arigó, do Brasil. Puharich relatou, em primeira mão, o estudo de cerca de mil casos de tratamentos feitos por aquele. Era impossível descobrir- se como chegava o curandeiro aos diagnósticos nem como se realizavam as curas. "Mas", disse Puharich, "nosso belo equipamento moderno provou que as curas eram genuínas, embora feitas em condições bizarras e circunstâncias inacreditáveis. Claramente, temos diante de nós muita' coisa a pesquisar". A maioria dos médicos presentes reconhecia que terapias dessa espécie, habitualmente denominadas de para-psicológicas, e que reuposam, no quanto se pode conhecer até hoje, quase que só na fé do cliente, podem fornecer aos inescrupulosos ilimitadas oportunidades de abuso. E preciso, portanto, sejam exercidas dentro de certas garantias para evitar o cha Entretanto, poucos dos presentes acharam que
nudessem. efetivamente ser regulamentados[p.26] sem, ao mesmo tempo, limitar pesquisas que, concordam os especialistas, é área fértil de estudo. "E evidente", dizia um dos médicos, ao escutar os relatórios de várias técnicas de curas psíquicas, "a coisa funciona em determinadas circunstâncias. Se conseguíssemos aprender a manejá-la, dominando-a, seria benéfica a muitos pacientes".
Foi precisamente este o êxito de Freud sobre alguns fenômenos, estranhos e inexplicávéis no século passado. Dele nasceu o primeiro estudo sistemático e inteligível do inconsciente psíquico e de seus dinamismos normais e patógenos, sob o nome de Psicanálise, como processo de cura psicológica, como método de pesquisa da vida mental e como acervo de novos conhecimentos e hiteses para a descoberta, sempre im.perfeita, do homem. A própria psicanálise, por vitalidade intrínseca, irá necessariamente com Freud além da Freud, porque "há mais coisas no céu e na terra', Horácio, do que já tenha sonhado e nossa filosofia" (Hamlet - ato 1, cena V).

Óbices ao conhecimento

Em sua "Formação do Espírito Científico", diz Gaston Bachelard: "Voltando-se sobre um passado de erros, encontra-se a' verdade num verdadeiro arrependimento intelectual. Com efeito, conhece-se contra um conhecimento anterior,. . . (. . .) Diante do real, aquilo que se crê saber claramente ofusca aquilo que se deveria saber. Quando se apresenta à cultura científica, o espírito não é jamais jovem. É, na verdade, muito velho porque tem a idade dos preconceitos. Aceder à ciência é, espiritualmente rejuvenescer. E aceitar a mutação brusca que deve contradizer o passado. . . Hábitos intelectuais, outrora úteis e saudáveis, podem, ao correr do tempo, entravar a pesquisa. Nosso espírito, diz justamente Bergson, tem a irresistível tendência a considerar como mais clara a idéia que lhe serve mais freqüentemente. A idéia adquire, assim, clareza intrínseca abusiva. Pelo uso, as idéias se valorizam indevidamente. Um valor em si se opõe à circulação dos valores. É um fator de inércia para o espírito. (. ..) Chega um tempo em que o espírito mais ama aquilo que lhe confirma o saber do que aquilo que o contradiz, no qual ele aprecia mais as respostas que as interrogações Então, o instinto conservador domina, o crescimento espiritua4 se detém" (8).
Quando foi lançado o primeiro Sputnik, lgor Caruso, fundador do Círculo Vienense de Psicologia Profunda e co4undador Círculo Brasileiro de Psicanálise, pronunciou conferência na qual afirmava que, dentro de 10 anos, o homem poria os pés na lua. Levantou-se um professor de física da Universidade de Viena.[p.27] Desculpava ao psicólogo tal afirmação, porque este era leigo em Física. Dentro dos princípios destas era absolutamente impossível a façanha profetizada.
Na verdade, Caruso errou. Foram precisos 9 anos, e não 10, para que a previsão, inteiramente leiga à física universitária, se concretizasse.
A resistência ao novo, baseado em hipóteses científicas mais recentes que tentem explicar aquilo que foi eliminado pela observação e pelos postulados anteriores, é hábito intelectual do homem e não privilégio de um domínio do conhecimento humano. A filosofia mediaval clássica', no albor das universidades européias, combateu Aristóteles porque era versada em Platão. Ao depois, foi difícil para o mundo ocidental desprender-se dos esquemas escolásticos e do mau hábito de querer explicar tudo pelo Estagirita.
As grandes erupções políticas e as trai,sformações geográficas não reformaram no mesmo grau os cacoetes dos intelectuais. No século XVIII, em medicina, "basta que Hipócrates o tenha dito. Quando conhecermos bem Hipócrates, teremos a chave da medicina do século XVII, escreve Darenberg, e é sempre Hipócrates que devemos escutar antes de Galeno,..." (9). Racine, Cyrano de Bergerac, Moliêre, La Bruyère, com Rabelais e outros nos dão visões, até è sátira, do que acontecia na época. Chega-se ao extremo da alfinetada: era preferível morrer de acordo com as práticas da academ:ia do que salvar-se fora delas. É que se impunha o compromisso: "Jura'is observar fielmente os segredos de honra, as práticas, os costumes e os estatutos da faculdade, com todo o vosso poder e, aconteça o que acontecer, não os transgredir nunca (ib. pag.23). Os que defendiam a circulação sanguínea, os circulatores eram condenados por algumas faculdades, que não lhes permitiam sequer o exercício da medicina. Atribuiu-se a morte de Luiz XIV, prematura, apesar da idade, (teria chegado aos 100 anos não fora a medicina da época!.. .) à desavença entre o clínico Fagon e o cirurgião Mareschal. O primeiro fora derrotado pelo outro quando
o Rei Sol decidiu submeter-se, estoicamente, a uma cirurgia de hemorróidas, O fato chegou a provoca'r na corte nobre epidemia hemorroidária, com muitos candidatos ao dignificante escalpelo. O faustoso evento elevou o conceito dos cirurgiões, tidos como médicos de segunda categoria, distantes da elevada filosofia clínica, e dados à prática plebéia de retalharem os mal-cheirosos tumores humanos. Agora, muitos anos depois, a renitente febre do monarca, alarmante para o ëirurgião, não foi reconhecida' pelo clínico da corte, quç administrou purga. As ansiedades do cirurgião foram abafadas pela preferência ao rival. Quando a gangrena de uma perna foi percebida, era tarde.
Mas o seguinte e esclarecido século XIX também não foi muito feliz. Muito custou aos obstetras convencer-se de lavar bem as[p.28] mãos, antes de aproximar-se da parturiente, ao invés de sentir-se acoimados de mãos-sujas. Freud foi chacoteado pelos colegas da Associação Médica' Vienense: como era possível falar-se de histeria masculina quando o homem nem sequer tem 'hysteron', isto é, útero?
Mas também va'le dizer que antigas questões parecem fantasticamente modernas como a tese de um filiatra para tornar-se licenciado em medicina, na Universidade de Paris do Grand Siècie:
"Devem levar-se em conta as fases da lua para o corte dos cabelos?". A impressionante mole filosófica elaborada nas cátedras da
idade Média, com acentuado entrosamento religioso e o apogeu dos sistemas escolásticos, acabaram sendo obstáculo difícil às pesquisas que transcendiam a órbita' teológico-filosófica. Muito especialmente, para as ciências naturais e tudo aquilo que podia vincular-se ao estudo da alma. A tradição, inclusive terminológica, é enorme. Freud habitualmente emprega o adjetivo anímico pana' significar a vida psíquica ou os processos mentais. A medicina pertencia à antropologia. Antropologia era a ciência' do homem, animal racional, espiritual. Neste e nos campos afins, era preciso cautela e paciência. Não se muda facilmente a mentalidade dogmática, qualquer que seja o reino de conhecimento ou indagação. Muito menos o que, na' época, de algum modo, poderia ser ou era ajoujado à revelação teológica. Nem a Renascença abrandara muito as cabeças. A dolorosa abjuração de Galileu, ressoa até hoje: Humildemente, ajoelhado aos pés de vossas paternidade5, abjuro a sentença errônea, ímpia, herética, contrária às Sagradas Escrituras e à Tradição, absurda em filosofia, ofensiva aos piedosos ouvidos, etc.., de que a terra e todos os demais planetas giram ao redor do sol...
A vacina contra a varíola, tão recente, ainda chegou a' ser contestada porque, moralmente, não se pode fazer um mal para que daí advenha um bem. Inocular um corpo estranho que provocasse perturbações, ainda' que transitórias, de saúde era um mal, logo...
A medicina conseguiu liberar-se mais cedo ao jugo da Física, parte da Filosofia'. A Psicologia levou mais tempo. Aliás, ela não interessava grandemente até além da metade do século XIX. Quando os fenômenos psíquicos chainaram a atenção dos estudiosos, os processos de investigação seguiram, naturalmente, os modos de procedimento do tempo. Os fenômenos singulares foram tomados, um a um, dissecados com os meios disponíveis. Os pesquisadores, na maioria, eram médicos. Outros, como Alfred Binet, no início deste século, provinham de outro campo. Binet era jurista, O que mais interessava era a faceta orgânico-fisiológica. A psicologia deixava de ser uma ciência da alma. E os que antigamente a dominavam, passaram a encarar o novo rumo com muita desconfiança. Mercier (Desiré), depois cardeal de Malines (Bélgica),[p.29] procurou restabelecer, em termos novos, a relação entre a filosofia neotomista e a psicologia moderna. Lovaina tornou-se conhecida pelo seu Instituto de Psicologia por ele fundado. Acima de todos os conhecimentos reiniciadores da psicologia, no século XIX, Freud merece destaque ímpar. Seu valor não é somente ter demonstrado e chamado atenção para a importância da vida psíquica inconsciente e seu extraordinário dinamismo. Nem tão pouco o de ter conseguido, através disto, novo acesso terapêutico aos distúrbios mentais, desvinculados da medicina' vigente e da psicologia oficial. Ele foi o primeiro a construir um modelo psicológico para a compreensão da vida psíquica, e a' formular-lhe uma concepção sistemática. Todo o mérito, neste e noutros pontos, é reconhecido pelos profissionais de vulto ainda que adversários ferrenhos, inconciliáveis declarados, como Agostinho Gemelli (10) (*)

Não somente a psicanálise, mas o todo 'em que é contida,
psicologia,tem passado pelas vicissitudes das coisas novas ao serviço do homem. Novas, ou porque eram anteriormente desconhecidas ou porque novo é o manejo que lhes foi dado. Para Bachelard, o ânimo de invenção, o instinto formativo é muito persistente em certos homens. Mas, não raro, acaba cedendo o lugar para o instinto conservador (8). A isto nem mesmo escapam cérebros bem pensantes, cabeças bem feitas, porque "na adesão apaixonada aos julgamentos do próprio gosto, pode com certeza, dizer-se que uma cabeça bem feita é, infelizmente, uma cabeça fechada. É um produto de escola" (ib. pag. 15). E porque qualquer homem é Saulo, a quem é duro recalcitrar contra o aguilhão (11), também é árduo, sofrido admitir que "de fato, as crises de crescimento do pensamento implicam reforma total do sistema do saber. A cabeça bem feita deve, então, ser refeita" (ib. pag. 14, 15).p[30]

Os processos de inércia e resistência mentais do homem são idênticos no philósophos antigo, no magister medievo tanto quanto no profissional liberal moderno. Sempre, o mais recente luta por sua vida em face ao pré-existente. O conflito de gerações ocorre em todos os planos do humano: Biológico, científico ou social. Inter e intragrupalmente, o novo se ergue contra o velho. A intensidade é tanto maior quanto menor for a comunicação entre ambos.
À semelhança de muitos dos animais superiores, individual
coletivamente, o homem pugna pelo seu território ou comarca existencial da qual depende e que é um prolongamento da própria identidade. Nos diversos planos políticos, chama-se área nacional, patrimonial, colonial ou de influência, com seus respectivos interesses. No âmbito operativo particular, é-lhes análoga a área profissional.
O genocídio do fraco pelo forte não é exceção e facilmente se torna regra. É, pelo menos, tentação constante. O novo luta por uma identidade a adquirir, a' afirmar. O velho combate contra a

-------------

(*) (continuação) conhecido na Europa antes da segunda guerra' mundial, foi o criador dos primeiros testes para aviadores, antes da década de 20. Seus elogios ao trabalho de Freud são múltiplos, o que não impede atitude irredutível quanto ao conteúdo das hipóteses freudianas. O autor destas linhas ouviu Gemelli, numa aula de três mil pessoas, gritar: "Pode um católico fazer a psicanálise? E eu respondo clara e rotundamente não!" É impossível saber até que ponto tenha tido ele influência numa antiga declaração do Santo Ofício de que dificilmente escapava de pecado mortal quem fizesse a psicanálise. Como o tempo e os conhecimentos mudam, outra declaração, recentemente, cita a psicanálise como uma das possibilidades, em certos casos, de sanar a incapacitas coeundi ou impotência masculina perante a mulher.

perda de uma identidade conhecida', que se lhe adere e que tem medo de perder. A profissão é parte da identidade individual. E, a seu turno, se compõe de característica próprias. Por isto, resiste, socialmente, às alterações de sua estrutura com o receio de desfigurar-se. Enquanto projeção social do indivíduo, a' profissão é por este defendida em tudo quanto pudesse, a seus olhos, deformar-se, pois seria diminuição de capacidade, mutilação pessoal.
A especialização conducente a novas definições profissionais pelo desmembramento de antigas, e originada pela ampliação da pesquisa, em campo antes desconhecido ou negligenciado, encontra fatalmente a resistência' do anterior ocupante nominal. Este, na[p.31] maioria das vezes, por simples acomodação, não entra nem deixa entrar (12) os que o quiserem, por mais legítimo que se prove seu interesse. Quanto mais poderosa, secular e tradicional a cepa antiga, tanto mais custa ao novo ramo alcançar a terra, criar raízes e chegar à vida autônoma, O que aconteceu com a medicina cauda'tária da filosofia, sucedeu com outras profissões, mais recentemente a duras penas oficializadas, com seus respectivos currículos universitários. A odontologia batalhou para deixar de ser desvalida extensão médica. Os economistas levaram décadas a terem direitos próprios, numa terra em que o bacharel era verdadeiro coringa social. A arquitetura teve sérios empeços a d?svencilhar-se da engenharia, com a qual mantém áreas comuns. Os sociálogos ainda não chegaram à vez. O trabalho maiêutico para fazer nascer o médico-sanitarista autônomo é arrastado na peleja das oposições. E a psicologia se vê contestada até em direitos originariamente adquiridos. A ciência, como o próprio homem, amadurece internamente pelo tirocínio, mas só se renova pelos estímulos vindos de além-fronteira, em contato com realidades novas, pelo convívio das disciplinas contíguas. O alargamento excessivo de domínio tem o mesmo efeito do gigantismo político, que se torna impenetrável por defesa e se enfraquece pelo empobrecimento interior. Nenhum campo de estudo, e a profissão dele resultante, pode ter como princípio o totalitarismo hermético. Seu crescimento exige divisão e especialização.
Conhecimento científico e limites profissionais não se sobre- põem absolutamente. Só coincidem, em parte. Profissão é delimitação prática, e arte que exercita o domínio do saber, O profissional não é proprietário do terreno em que se move nem o dono da sabedoria pesquisada, de modo a impedir o surgimento necessário de outros profissionais complementares no momento em que a conveniência do desenvolvimento humano o solicitar.
Se a profissão tem certa identidade psicossocia'l atribui, por conseqUência, determinado status ao seu exercitante. Daí o aspecto naturalmente político de todo grupo profissional. E este, porque é humano, tem todas as inseguranças e a instabilidade da juventude, se for novo. Pode ter a madureza e a dependência sadia (Fairbairn) das pessoas e grupos realizados. E pode ter a agressividade intolerante da defesa de posições já superadas, se excessivamente amarrado à tradição e ao prestígio adquir'ido outrora. É claro que, no decurso da história de todas as comunidades humanas, há revezamentos que se sucedem reativamente.

APÊNDICE

O parecer do médico Arthur Alcântara, do Conselho Nacional de Saúde, "Considerações do Psicólogo como Psicoterapeuta" (12-3-1973), insere opiniões do médico psicanalista Léon Cabernit.[p.32]

Alguns reparos à5 afirmações deste.
1° A asserção de que, nos Estados Unidos, só os médicos têm
permissão de exercer e psicanálise é inverídica, truncada (pág. 9
parecer).
2° De "O médico não deve pleitear honorários: b) por serviços prestados a colegas. . . exceto quando se tratar de prátcas psicoterápicas (a'rt. 30 - Lei n.° 3.268, de 30-9-957) afirmar que "é a única disposição de que a prática psicoterápica é privativa de médicos" (pág. 6), em face à lei que cria a profissão de psic6logo (n.° 4.119), de 27-8-1 962, trata-sede uma inépcia lógica,
um paralogismo que vicia a seriedade do documento. Juridicamente, é um cochilo de hermenêutica (pág. 5 e 6).
3° "Por que, sendo médico, o criador da psicanálise advoga o
exercício por leigos nessa especialidade?"
"A resposta deve ser procurada na hostilidade dos médicos às suas idéias, quando estes lhes foram apresentadas certa noite do ano de 1896 na Sociedade Médica de Viena. Á atitude dos membros dessa sociedade constituiu a mais amarga decepção que Freud sofreu em toda sua carreira. Depois disso é fácil compreender porque Freud, profundamente magoado com seus colegas de profissão, voltou-se para os leigos, que acolheram com simpatia e admiração suas idéias revolucionárias, O seu justo ressentimento explica, também, por que passou a defender o exercício da psicanálise por pessoas estranhas à medicina" (pág. 8).
Nem as iras de um gênio fariam verdadeiro, arrazoado falso.
Desconhecer, entretanto a argumentação de Freud em defesa
exercício da psicanálise pelos não-médicos, não é simples desinformação. Não é ignorância ou seja, a falta de conhecimento devido em sujeito, de per si, capaz. À interpretação rasa da atitude
Freud, pode ser contraposta a retorsão que terá, pelo menos,
mesmo valor: o ressentimento do interpretador por algum psicanalista não-médico também. poderá explicar, eventualmente, porque tenta' diminuí-lo no uso da liberdade, impondo-lhe a camisa- de-força médica.
"Não se justifica mais a existência do analista leigo, isto é, não-médico" (págs. 8-9).
o que, precisamente, deve ser provado. Além. do que foi dito por Freud e outros psicanalistas notáveis, médicos ou não, talvez alude a opinião do próprio Sr. Léon Cabernit, abrindo um círãulo de palestras sobre aspectos fundamenentais da psicanálise,
Rio de Janeiro. Citamos: "Não é absolutamente necessário que psicanalista seja médico, psicólogo ou doutor em filosofia (sublinhamento nosso) para que lhe reconheçam qualidades inatas..
Além de possuir tais qualidades, "somente um técnico conveniente- mente habilitado e treinado será capaz de levar a bom termo esta tarefa" (a prática psicanalítica), (Jornal do Brasil, 24-4-73).[p.33]
Nas condições reais de absoluta deficiência de cursos de especialização, inclusive de ramos da medicina, particularmente em psiquiatria, em todo o território nacional, a atribuição pura e simples,
médico, da' supervisão do trabalho de psicólogos em psicoterapia
exatamente na hipótese de que isto seria feito por estarem os não-médicos despreparados - opera simples transferência' da área
incapacidade, de um grupo a outro, globalmente. do máximo interesse de todos, e do desejo de quantos trabalham, com seriedade e exação, se aperfeiçoe a psicoterapia na prática e progrida cientificawente. Se permitida só ao médico, ou a outrem somente supervisionado por aquele, o diploma de médico se torna arremedo
sacramento: sinal sensível que confere não a graça' divina mas, por virtude legal, a graça das capacidades infusas de exercer e supervisionar qualquer forma de psicoterapia. Não se atribuiram responsabilidade a quem tivesse maior preparo. A capacidade do médico seria presunção jurídica, pouco importando a realidade de fato.
A mal-citado item acerca dos honorários médicos por psicoterapia, acenao consagra dispositivo acerca de um exercício já existente. Alguns médicos especializados defenderam, justificadamente, seus interesses. Não ofusque, isto, o bom senso. Não se deduza exclusividade, O módico usa o bisturi na sua área. É o médico-cirurgião. Também o usa o odontólogo: é o cirurgião-dentista. Medicina Legal pode ser lecionada por médico ou por bacharel nas Faculdades de Direito. Os exemplos análogos se multiplicam no terreno das profissões universitárias. Mas quem se arvora em juiz
causa própria desconhece razões alheias.


BIBLIOGRAFIA

1) Sigmund Freud - Gesammelte Werke (0W) XIV, 183.
2) Standard Edition (SE), XX 183.
3) Ernest Jones - Sigmund Freud, Life and Work - London
1957 - III 309-323 - Lay Analysis.
4) 0. W. XIV 287,8.
5) 0. W. X 449,50.
6) Carta a Eitingon, 19-7-1926, apud E. Jones (3) pág. 314.
7) 0.W.VIX2O9,10.
8) Gaston Bachelard - La Formation de L'Esprit Scientifique, Paris - 1957, pag. (13-15).
9) François Millepierre - A Vida Quotidiana dos Médicos no Tempo de Moliàre - Livros do Brasil, Lisboa, 8/data' - pág. 19.
10) A. Gemelli, 0. Zunini Introduccián a la Psicologia - Barcelona, 1955.[p.34]
11) Atos dos Ap6stolos 26,14
12) 5. Mateus 23,13
13) Mário Yahn - Sobre o E,ercício da Psicanálise - in Resenha Clínico-Científica - Agosto de 1955 - 5. Paulo - págs. 214 220.
14) Journal for Mental Science - págs. 395-401 - apud: Resenha Clínico-Científica citada (13).
15) Revista "Psyché" - Julho, Agosto de 1953, Paris.
16) E. Amado Levy-Valensi - Bulletin de Psychologie XI/2-Oct. 1957.
17) Time - Oct. 16, 1972- pág. 31.
18) Didier Anzicu - Daniel Lagache - Bulletin de Psychologie, XVI 305, 1972-3 - Paris - págs. 535-36.[p.35]

 


[voltar]