CAPÍTULO III
O que é e para que serve um "test".
Á estalonagem
O que ha de máu nos exames, como elles são habitualmente feitos, é que se trata de provas em que tudo varia. Varia o professor, que ora adopta um criterio, ora outro e ora está attento, ora desattento, ora de bom, ora de máu humor. Varia a prova, que, em uns dias, é de certa natureza, em outros de natureza iuteirarnente opposta; e tudo isso com difficuldades muito differentes, de tal modo que a prova para distincção de um dia seria a prova para simplesmente de outro. Não ha nada fixo. E' uma medição, que se enuncia sempre pelo mesmo numero de metros, mas sem attender a que o "metro" empregado, ás vezes, é maior e outras menor, já por que elle esticou ou encolheu sem o professor dar por isso, já porque o professor procedeu áquellas operações conscientemente. A mesma prova no mesmo dia é julgada diversamente por varios professores e é julgada diversamente pelo mesmo professor em dias diversos.
De mais, é lento para se dar nota.
O test pedagogico, estalonado, é sempre o mesmo, representa sempre a mesma difficuldade, é sempre julgado do mesmo modo por qualquer professor. A uniformidade de julgamento chega a tal ponto, que ella póde em muitos casos ser confiada a qualquer alumno ou a funccionarios administrativos.
Para isso basta entregar-lhes um cartão com as respostas certas e elles têm apenas de verificar si as dos alumnos conferem ou não com o que nelle está
Os Estados Unidos estendem-se na America do Norte, de léste a oéste, do Atlantico ao Pacifico. Os mesmos tests servem nos seus 48 Estados e recebem as mesmas notas de todos os professores, de um a outro extremo do paiz.
E' que, de facto, nada ha mais simples. Tão simples que á primeira apresentação a cousa parece insignificante.
Praticamente o test é um exame escripto, reduzido aos seus mais summarios termos, cujas respostas têm de ser dadas de tal maneira que não possam ser julgadas sinão de um modo.
Vale a pena, só como exemplo, apresentar aqui um test possivel, organisado para a Chorographia do Brazil. Notem que se trata de um exemplo theorico, grosseiramente imitado de tests inglezes e americanos e não estalonado. Mais tarde, se estudará a questão de perto, respondendo ás objecções que certamente o exemplo seguinte suscitará muito justamente.
Figurem que, para prova escripta de Chorographia do Brazil, sahia o seguinte ponto: "Capitaes do Brazil". Ponto elementarissimo. Um bom alumno responderá a isso por escripto em dez a quinze minutos. Ha possibilidade de divergirem as notas? Ha. Um professor attenderá á calligraphia, outro á orthographia, outro á ordem da enumeração. Póde-se de facto, com razão, attender a tudo isso. Mas o enunciado não alludia a taes circumstancias e ninguem sabe, quando dá uma prova a julgar a qualquer professor, si este vai se occupar com algum desses pontos de vista.
Figurem, porém, um test exactamente sobre esse assumpto.INSTRUCÇÕES -Diante de cada nome de cidade lia os nomes de quatro Estados. Sublinhar só o nome do Estado de que a cidade é a capital.
E assim por diante para os 20 Estados. Não ha uma lettra a escrever: todo o trabalho consiste em pôr um simples traço por baixo do nome do Estado a que pertence a Capital.
A regra é que, para tests desse genero, se marque um prazo certo, muito rapido. Um test como o que acaba de ser visto, não poderia exigir mais de minuto e meio. A um signal, todos os alumnos deviam virar a folha de papel em que o test estivesse escripto e começar a sublinhar os nomes dos Estados a que cada capital correspondesse. Quando, segundo por segundo, mathematicamente, se tivessem escoado os 90 segundos, outro signal "Alto!" - e immediatamente todos os alumnos deviam parar.
Em geral o tempo que se dá é insufficiente para a maioria dos alumnos. Mas é isso mesmo que se quer. E' isso que permitte distinguir os alumnos entre optimos, bons, soffrivejs e máus.
Figurem outo exemplo, ainda em Chorographia do Brazil. Dá-se como ponto; "Imagine uma viagem de norte ao sul do Brazil, vindo em uma embarcação, que póde navegar tanto em rios como no mar."
O caso é o mesmo que para o ponto anterior. A prova durará talvez de vinte a trinta minutos, havendo que attender aos alumnos, que escrevem de vagar. As divergencias nas notas dos professores serão inevitaveis: calligraphia, orthographia, erros de grammatica - tudo será contado por uns, desprezado por outros.
Agora um test sobre o mesmo assumpto:
O alumno figura que partindo de Manaus e fazendo escala em Belém chegou a Porto Alegre, tendo tocado em todas as capitaes maritimas do Brazil. Em que ordem? Diante de cada çapital, no parenthesis, escrever o numero de ordem que indique como se fez a viagem. Si na lista abaixo ha cidades além de Manaus e Belém, que não são maritimas, fazer dentro do parenthesis uma cruz.
E' um test para o qual se arbitrariam no maximo dois minutos. Nenhuma possibilidade de divergencias. E' absolutamente prohibido durante qualquer prova responder a qualquer pergunta dos alumnos. As explicações a dar não são arbitrarias, á vontade do professor: estão tambem reguladas.
Embora os dois exemplos acima dados, só como exemplos theoricos, tenham numerosos defeitos, elles bastam para mostrar como pelo processo dos tests é possivel examinar quasi todas as materias em alguns minutos, podendo rigorosamente comparar-se numerosos alumnos dentro de uma classe, numerosas classes dentro de uma escola, numerosas escolas dentro de uma cidade, numerosas organisações de taes ou quaes cidades dentro de uma nação inteira.
Basta dizer que se obtem, sem nenhum esforço extraordinario, de qualquer numero de alumnos, respostas a 200 perguntas em 25 minutos (1). Tempo para dar nota a cada prova? 3 minutos. E seja quem fôr, tem fatalmente de dal-a absolutamente igual á das outras pessoas que a examinem.
Com este regimen, e só com este regimen, é possivel a bôa inspecção das escolas.
Actualmente entre nós, os professores - tanto adjunctos como cathedraticos - não sentem talvez como é grande a necessidade de reformar o systema dos exames a que submettem os alumnos, que recebem notas mais ou menos injustas e fantasistas. Quando, porém, a administração pede aos inspectores que classifiquem os professores por ordem de merecimento, estes se queixam sempre, e com toda a razão, de que as classificações são de uma flagrante injustiça. Não notam, entretanto, que a injustiça de que soffrem é exactamente igual á que fazem aos seus alumnos e é uma consequencia della.
Tambem o inspector julga pelas suas sympathias ou antipathias, na maior parte dos casos incon-
___________
(1) Sydney and Luelia Pressey - Introduction to the use of standard tests - pag. 157.
scientes, mas nem por isso ménos reaes. Mas quando, prevenido, querendo reagir contra os seus sentimentos, procure ser de uma inflexivel justiça, não o poderá fazer, porque lhe falta um criterio commum para julgar os seus differentes inspeccionados.
Para que se sinta como o uso dos tests simplifica a inspecção escolar, veja-se o exemplo seguinte.
Um inspector manda fazer em cada escola no principio do anno escolar tests sobre todas as materias do programma. Basta uma hora para tudo isso. Realisadas as provas, o professor faz então a ficha individual de cada alumno, traçando o respectivo graphico (2).
Imaginemos uma classe em que se ensinasse apenas leitura, escripta, arithmetica, geographia, historia e desenho, - sendo que o conjuncto dos estudos estivesse dividido em sete classes. O professor tira para cada alumno uma ficha quadriculada, com a indicação das classes e das disciplinas.
Tomando essa ficha, o que elle primeiro faz é accentuar a linha horizontal correspondente á classe do alumno. Depois, vendo o numero de pontos de cada test, verifica si o alumno, na materia em exame,
______________
(2) Este, exemplo está imitado do que se encontra no livro de SAMUEL BROOKS - Improving schools by standardised tests.O auctor foi nomeado inspector de um districto rural onde os professores não conheciam o uso dos tests. No livro, elle mostra como os habituou a usarem desse processo de medida.
As fichas, que elle dá como exemplo, distinguem pormenorisadamente a rapidez e a comprehensão da leitura, as quatro operações, primeiro tomadas uma por uma e depois reunidas, etc. A leitura de que se trata é a leitura silenciosa, como hoje se ensina correntemente nos Estados Unidos.
Simplificando a ficha norte-americana eu quiz apenas mostrar como os graphicos, feitos como resultado dos tens, são um instrumento facil de trabalho.está bem classificado, ou si está acima, ou abaixo da classe em que figura. Marca esse facto com um ponto no lugar competente e liga depois tudo por um graphico.
Olhando para esse graphico, o professor vê logo que o alumno, embora na 5ª classe, está muito adiantado em leitura e escripta, pois que, na primeira se acha á altura de um alumno de 6' classe e na outra á altura de um alumno da 7ª classe. Está tambem adiantado em desenho, em que podia ser admittido na 6ª classe. Em compensação, está atrazadissimo em arithmetica, onde só poderia ficar bem na 3 classe. Só está com a instrucção apropriada á 5 classe em geographia e historia.
Com esse cartão diante dos olhos, o professor sabe que lidando com esse alumno deve preoccupar-se principalmente com o ensino de arithmetica. Quando, no meio do anuo lectivo, fizer outro exame por tests, verificará si houve progresso na materia em que o alumno estava fraco.
O inspector, esse, rubrica os cartões de cada escola, cartões em que são prohibidas quaesquer correcções. Manda então que o professor faça o graphico médio de cada classe, o que não tem tambem a menor difficuidade.
A fiscalisação do seu districto torna-se-lhe então facil, porque, si nota que em urna escola ou em grande numero dellas os alumnos de tal ou qual disciplina estão abaixo do nivel em que deveriam estar, indaga do motivo dessa anomalia e dá providencias para que ella cesse.
Por outro lado, comparando as fichas das classes de dois periodos distinctos, vê si os alumnos se estão adiantando normalmente, e, por ahi, com segurança póde aferir os meritos dos professores.
Dir-se-á talvez que para tudo isso não são precisos os tests. São; porque si fosse necessario instituir os exames, com a lentidão habitual dos actuaes, elles não poderiam multiplicar-se, e não seriam mathematicamente iguaes em todas as escolas. De mais, si o inspector suspeita que os graphicos de qualquer professor são fraudulentos, basta que, chegando á classe de que desconfia, passe uma prova de tests, feitos na sua presença e que elle mesmo julgará. Isso lhe tomará menos tempo que qualquer das inuteis visitas que ora faz - e o fraudador será immediatamente apanhado.
Com as fichas de classes dos professores e adjunctos do seu districto, o inspector póde classificar com exactidão mathematica o merito dos seus inspeccionados. Não ha lugar para capricho algum. O caso é medido e pesado com todo o rigor.
Cumpre, porém, vêr mais de perto como se faz um test.
A julgar pelos exemplos acima, trata-se de exames escriptos, de tal modo organisados que cada pergunta só póde ter uma resposta e essa mesma nem precisa ser escripta: basta ser indicada por um signal.
Quando o test não fosse sinão isso, já teria innumeras vantagens. Teria pelo menos a da rigorosa uniformidade e a da inflexivel justiça. Mas o que se quer é ainda mais.
No capitulo anterior, ficou demonstrado que mesmo os melhores professores classificam as questões que formulam, de modo pessoal e differrente.
Não se trata de predilecções por examinandos. Trata-se da propria substancia do exame. O problema de arithmetica que um acha mais facil outro acha mais difficil. Ora, seria injusto attribuir igual nota, ainda que fosse uniforme, a provas por si mesmas desiguaes.
E' para classificar as perguntas dc um modo scientifico, verificando a respectiva difficuldade, que se faz a estalonagem.
A operação nada tem de sublime e complicada. E', porém, minuciosa.
Figurem, por exemplo, centenas ou mesmo milhares de alumnos a quem se deram a resolver varios problemas de arithmetica. Esses alumnos foram escolhidos entre os que os professores consideram como estando no mesmo gráu de adiantamento.
Realisam-se as provas e um certo numero de problemas é resolvido por todos os alumnos sem excepção.
Desde logo se vê, que esses não representam diificuldade alguma para tal gráu de ensino. Por pequena difficuldade que tivessem, como deveriam ter, sempre se achariam alguns alumnos que não os resolveriam.
Mas o resto dos problemas se distribuiu de modo diverso. Cada um teve a sua porcentagem de soluções exactas e soluções falsas. A escala de porcentagens das soluções certas permittirá fazer a escala de difficuldade e de valor das notas que devem ser dadas a cada um. Assim, admittindo as notas de 1 a 100, como é frequente nos Estados Unidos, o problema que obtivesse sempre, em toda parte, solução certa de todos os alumnos em dado adiantamento, teria a nota inferior - 1. O que tivesse sido resolvido por 80% dos alumnos, mereceria apenas 20 pontos. E, assim por diante, augmentando o valor da nota, á proporção da difficuldade; - não, porém, da difficuldade julgada pelo criterio do examinador, mas da difficuldade provada pela experiencia.
Nesse caso, dir-se-á, o problema que ninguem tivesse respondido deveria merecer a nota 100.
Não é assim. Todos os problemas que não houvessem sido respondidos por mais de 50% dos alumnos teriam provado que eram superiores ao gráu de adiantamento delles. Deviam ser eliminados. Pois si os professores julgavam que a maioria dos alumnos era capaz de achar solução para as difficuldades propostas e a maioria delles provava na pratica que não tinha tal capacidade, a demonstração ficara feita de que as difficuldades eram superiores ao gráu que se queria examinar: não podiam figurar em tests para esse gráu.
Convém ter bem em vista que não se trata de experiencias feitas com dez ou vinte alumnos, mas com muitos e muitos milhares. A estalonagem de um test é tanto melhor quanto maior fôr o numero de alumnos a que elle foi submettido.
Acima nós citamos tests em que cada resposta bôa era contada como um ponto. Mas, como estamos acabando de expôr, nem sempre se procede assim: ha tests em que a cada resposta se attribue um valor differente e a regra é que na série de questões propostas se vá das mais faceis ás mais difficeis.
A explicação que nós estamos dando é schematica. O que se quer é mostrar que nada se inventa arbitrariamente. Um professor não amanhece inspirado, escreve uma série de perguntas, manda imprimil-as e a ellas submette os alumnos, como um test. O professor precisa, primeiro, fazer examinar o valor do seu projectado test por alumnos que estejam no gráu de instrucção a que elle se destina. Isso é que constitue a estalonagem.
Nos Estados Unidos uma tarefa dessa ordem é relativamente facil, porque todas as escolas primarias em todos os Estados estão divididas do mesmo modo. E, assim, quando se trata de estalonar um test, elle é submettido ao exame de centenas de milhares de alumnos.
E' bem de ver que não se precisa repetir o exame para cada problema. Si, por exemplo, se attribuiu um dado valor á somma de cinco parcellas de cinco algarismos, essas parcellas e esses algarismos não precisam ser os mesmos para a difficuldade ser identica. O que não se quer é que a indicação do valor de qualquer pergunta fique ao arbitrio de nenhum professor, embora seja o mais sábio e experimentado. Quem marca a difficuldade das questões são os alumnos no gráu para o qual estas foram estalonadas. Uma vez, porém, feita a estalonagem, tests que copiem rigorosamente a difficuldade dos que foram examinados podem ser multiplicados.
Resumindo, o que se deve dizer é que os tests vieram trazer a noção de medida para as cousas de ensino. E, por outro lado, é rigorosamente exacto que só ha sciencia do que se consegue medir. O que se póde objectar é que o exame, á moda antiga, pemitte tambem uma medição; - mas é tão arbitraria que ninguem confia nos seus resultados.
O test é simples, facil, uniforme, susceptivel de ser repetido em poucos minutos, tantas vezes quantas se torne necessario. Permitte a comparação precisa entre varios alumnos da mesma classe, entre varias classes da mesma escola, entre varias escolas do mesmo districto, entre varios districtos da mesma cidade. O alumnos sabe que escapa aos caprichos, involuntarios ou não, do professor, do mesmo modo que o professor escapa ás classificações injustas do inspector e que o inspector póde resistir a emprenhos e solicitações. Tudo se refere a uma unidade commum de medida.
A politica nos Estados Unidos não é em nada melhor do que entre nós. Os inspectores, lá como aqui, tinham de ceder aos chefes políticos. Foram os tests que lhes deram meios de furtar-se a taes exigencias, porque as informações passaram a ser documentadas, não com palpites e preferencias, mas com algarismos, com a demonstração da capacidade dos professores, reduzida a numeros exactos.
[voltar]