Adolescência e contemporaneidade - Alfredo Jereusalinsky (Comentários)

September 15, 2009 por Arthur Loureiro   Comentários (0)

Segundo Jerusalinsky, a adolescência é um “estado de espírito de transição da infância para a fase adulta, independente da cultura que estivermos inseridos, caracterizada pela dor causada pelas mudanças e transições sejam físicas, psicológicas ou sociais. Durante a infância, nos deparamos com uma certa visão de regra e lei ad hoc onde alguns atos estão certos ou errados dependendo do contexto, visão muitas vezes complicada de ser interpretada judicialmente e que causa certos transtornos na passagem da infância para a adolescência.

Vivemos em tempos onde os valores parecem deturpados, alguns objetos de desejo e consumo parecem ter maior importância que nossas próprias vidas. Objetos tornam-se objetivos, metas. Nossas vidas tornam-se cada vez mais públicas e a sexualidade cada vez mais banal. Ao mesmo tempo, o ser humano sente-se cada vez mais só. Jerusalinsky responsabiliza esse sentimento de solidão coletivo na busca pelo “objeto-objetivo”. As pessoas se preocupam tanto em mudar seus objetivos para a obtenção deste objeto, tido como a solução de nossos problemas (seja ele qualquer coisa como um carro, um apartamento, um celular, um computador e até drogas…), que deixam de lado suas relações sociais e acabam por sentirem-se sozinhas.

É caracteristica também do nosso tempo aceitar nosso destino como algo aletório, seja bom ou ruim. Deste ponto de vista, a pessoa se isenta de qualquer responsabilidade pelas consequências do que com elas acontece, ou seja, “se temos sorte, nos damos bem, caso contrário, não é nossa culpa”. Jogados neste mar de aleatoriedade, as pessoas podem se eximir de qualquer sabedoria relacionada a laços sociais e acabam ficando a deriva de uma solidão inconscientemente consentida.

Todos estes fatores levam os jovens a desvalorizarem as relações, sejam amorosas ou familiares, e o fazem ir em busca deste objeto-objetivo que lhes darão “satisfação garantida”. Em alguns casos, este objeto são drogas. Atraidos por elas, por sentirem-se traídos pelas relações interpessoais, estes jovens colocam-nas no patamar de um objetivo de vida pois sabem que nunca vão se sentir traídos pelas drogas.

Freud Além da Alma - Comentários

June 5, 2009 por Arthur Loureiro   Comentários (0)

Em Freud - Além da Alma (EUA, 1962, 140min) é relatado o inicio da criação e desenvolvimento da psicanálise por Freud e Breuer (com Breuer, ainda não era Psicanálise). Inicialmente interessado no estudo de pacientes com o diagnóstico de histeria e sendo reprimido por Meynert em relação a sua vontade de estudar estes casos, Freud parte para Paris para assistir a uma apresentação e fazer estudos de Dr. Charcot sobre pacientes de histeria.

Durante uma apresentação, Charcot hipnotiza dois pacientes com casos diferentes de paralisia, aparentemente, sem trauma. Uma vez hipnotizados, Dr. Charcot os faz acreditar que já não possuem mais suas respectivas enfermidades e ambos voltam a comportar-se normalmente, porém, sob o efeito da hipnose. Neste momento, Freud pensa no conceito de um inconsciente da mente. Nossos atos não são somente controlados por nossos pensamentos e consciência e sim, também, por desejos inconscientes ligados a uma memória não acessível enquanto acordados.

De volta a Viena, Freud relata em uma conferência o que havia visto para outros médicos. Todos, menos Breuer, desdenham de Freud por ele acreditar em Charcot. Breuer havia, de certa forma, acreditado em Freud, pois estava tratando uma paciente e utilizando o método da hipnose para faze-la dormir sem a utilização de drogas, acabou tendo um diálogo que ao acordar a paciente não lembrava. Ele também partilhava da idéia de um inconsciente. Após ser ridicularizado por um médico que, creio eu, era o diretor do hospital onde trabalhava (setor de Neuropatologia), Freud recebe a proposta de seguir adiante as pesquisas sobre hipnose e o inconsciente com a parceria e ajuda de Dr. Breuer. A partir deste momento, Freud passa a acompanhar Breuer com seus pacientes e a atender os seus próprios pacientes.

Foi atendendo a um destes pacientes que Freud se depara pela primeira vez com a vontade de abandonar seus estudos sobre o inconsciente: um jovem filho de um general, hipnotizado por Freud, começa a relatar o motivo de ter atacado o próprio pai, quando Freud se depara com o rapaz demonstrando desejos sexuais pela mãe. É uma cena realmente chocante e, como todos nós faríamos no lugar, o personagem Freud acorda o rapaz sem deixa-lo lembrar de nada e sai da casa o mais rápido possível. Pode-se notar que a visão da cena do rapaz mexe profundamente com algum sentimento obscuro dentro de Sigmund, pois este passa se sentir um pouco enfermo.

Já certo de sua desistência do estudo, Freud é chamado por seu antigo mestre Maynert, que havia desdenhado de suas pesquisas e descobertas, pois este estava a beira da morte. Ele chama Freud para dizer-lhe que no fundo sabia que seus estudos possuíam embasamento e que ele próprio sofria de histeria. Esta conversa faz com que Sigmund volte a sua pesquisa.

Freud e CecillyNeste momento quero falar sobre a paciente (personagem) principal do filme, Cecilly. Inicialmente tratada pelo Dr. Breuer, Cecilly tinha dificuldades em ver, caminhar, tomar água e outras coisas que não sei pois não foram relatadas no filme. Através de hipnose, sempre conversando com a paciente enquanto inconsciente, Dr. Breuer consegue resolver o problema em relação a água mas aparentemente é dificil de resolver o problema relacionado à visão de Cecilly. Freud pede então para conversar com a paciente hipnotizada, pois para Breuer ela havia contado uma história sobre a morte de seu pai que Freud achou incoerente. Questionando sobre a veracidade de sua história, ele consegue descobrir a verdade e a desperta. Cecilly recupera a visão porém fica extremamente irritada com Freud.

Breuer começa a ter problemas com sua esposa em relação a Cecilly. Nesse momento do filme, podemos perceber que ela aparenta querer uma relação além da médico-paciente com o doutor Breuer. Freud então assume a paciente. Cecilly demonstra cada vez mais e mais sintomas (inclusive uma falsa gravidez imaginária) e todos parecem decorrentes do fim de sua relação (mesmo que imaginária) com o Dr. Breuer. Quando Cecilly começa a demonstrar os mesmos sentimentos por Freud, ele desenvolve uma teoria de que ele e Breuer eram na verdade projeções do verdadeiro amor da paciente por alguém. Impossibilitado de hipnotiza-la, Freud tenta um caminho alternativo para o inconsciente através de atos falhos e da interpretação dos sonhos de Cecilly, método que se mostra muito eficaz. Assim nasce a psicanálise.

Freud começa a desenvolver a sua teoria a respeito da sexualidade infantil, teoria esta que causa repulsa em Breuer, e consegue prová-la em todos os casos, inclusive o de Cecilly e o seu próprio caso. Cecilly era apaixonada por seu pai quando criança e odiava sua mãe, todos os outros homens aos quais ela viria se apaixonar, eram projeções de seu pai sobre outras pessoas. Já em seus próprio caso, Freud , apaixonado por sua mãe, tinha raiva inconsciente de seus pai pois este o separava de seu objeto de amor.

Ao final do filme, Freud tenta (e ele realmente só tenta) expor o resultado de suas pesquisas e sua teoria a respeito da sexualidade infantil na Sociedade de Medicina porém nem mesmo Dr. Breuer o apoiou.

Achei o filme extremamente interessante, por mais longo que seja, me prendeu a atenção do inicio ao fim. Interessante de ver como se dá o desenvolvimento das teorias de Freud e conhecer um pouco o decorrer dos fatos que levou a criação desta ciência chamada Psicanálise. É uma ótima introdução à história da psicanálise. Vejam!

O filme está disponível em DVD e VHS na biblioteca da Faculdade de Educação. É uma gravação de exibição na TV. O filme não foi lançado comercialmente no Brasil e portanto não está disponível em locadoras. Há uma cópia em formato de Internet em http://www.archive.org/details/Pfilosofia-freud383-4 (com arquivo de 600 MB).

A Adolescência de Contardo Calligaris - Comentários

June 5, 2009 por Arthur Loureiro   Comentários (0)

Neste livro, Calligaris aborda a adolescência como uma moratória em que os jovens modernos passam entre a infância e a fase adulta. Sem serem mais reconhecidos como crianças e ainda não recebendo o devido reconhecimento, aparentemente sem explicação, como adultos, os jovens passam por esse período de espera que não possui um certo ritual que marca o seu início ou fim. Os adolescentes não são mais considerados crianças pois já possuem um certo discernimento para assimilar valores como o destaque pelo sucesso do financeiro/social , sexual/amoroso e seus corpos e mentes já atingiram maturação suficiente para que possam atuar nas atividades que possam lhes trazer tais sucessos, porém lhes é imposta pela sociedade esta moratória. Moratória esta que acaba criando certos efeitos colaterais aos adolescentes pois estes acabam comportando-se de maneira rebelde a este período injusto.
A adolescência é um conceito moderno criado e idealizado aos poucos por adultos (divulgada pela mídia e outros meios de controle do sistema econômico atual) que tem por base também em seus desejos secretos e profundos. A idealização da adolescência, inicialmente criada para tornar a moratória algo "aceitável" para os jovens, tomou um âmbito tão forte que agora influência também os adultos, pois estes aos poucos querem cada vez mais parecer com os jovens. Esta idealização faz com que os jovens sintam que tem uma obrigação de se sentirem felizes, o que pode causar causa uma certa depressão em alguns jovens.
Calligaris propõe cinco tipos diferentes de adolescentes (alguns muito parecidos e espero que ele não ache que são os únicos tipos que existem):
Os adolescentes gregários são jovens reunidos em certos grupos ou comunidades que exigem um "algo em comum". São grupos onde não existiria esta moratória exigida pelos adultos, logo, todos são reconhecidos como iguais. Calligaris comenta sobre uma lei em um dos estados dos EUA que ,em certos lugares, permite que jovens de 16 anos possuam licença para dirigir mas proíbe que os mesmos dirijam o veículo com outros jovens até completarem 18 anos. Segundo essa lei, jovens em bando são potencialmente perigosos pois transgridem para afirmarem-se entre si.
O adolescente delinquente, é aquele que, ao perceber que não conseguiu seu devido reconhecimento no mundo dos adultos, usa da ignorância e violência para tentar ser levado a sério: gritando, quebrando coisas, colocando fogo em casas. Para os adultos é uma situação difícil já que não cabe fazer muita coisa a respeito pois se os ignoram, eles acabam fazendo mais e mais delinquências e sendo mais violentos pois acham que não estão sendo levados a sério e, se reprimirem demais só manifestarão ao adolescente que seus gestos não foram devidamente interpretados e estes, acabaram agindo com mais violência novamente. Por outro lado, Calligaris também trata da delinquência com consequências sexuais. O jovem, não sendo sexualmente aceito como adulto, resolve se impor pela sedução mais violenta para tentar ser aceito sexualmente como igual.
O adolescente toxicômano, é o adolescente dependente de drogas. Os adolescentes de hoje, herdaram o que restou da geração "paz e amor" (e sexo e , principalmente, drogas), vêem isso como um resquício de rebeldia. A droga possuí um certo encanto entre os jovens e também uma promessa de "satisfação garantida" (comentei já algo parecido no texto "Adolescência e Contemporaniedade - Comentários"). Já em relação às drogas legais (tabaco e álcool), os jovens vêem como uma maneira de se aproximarem do modo de vida de muitos adultos, a maioria usuários de ambos. "Os adultos bebem e fumam mas não nos reconhecem como adultos, vamos beber e fumar para mostrar-lhes que também podemos" pode ser o pensamento dos adolescentes quando começam a experimentar essas drogas legais.
Os adolescentes que se enfeiam são os jovens que inventam um certo padrão estético fora do usual que a sociedade impõem. Calligaris explica que esta pode ser uma reação ao possível medo de não ser aceito por sua beleza nos padrões normais, o adolescente deteriora a própria imagem para não correr o risco de ser considerado feio normalmente. Ele se enfeiou e sabe disso.
E por fim, Os adolescentes barulhentos são aqueles da "geração MTV", os adolescentes que transmitem a sua rebeldia através da música, imaginam suas vidas como em filmes ou clipes de suas bandas ou artistas favoritos.
Primeiramente, os adultos idolatram as crianças, por serem criaturas naturalmente felizes e por sentirem certa necessidade em deixá-las plenamente felizes em tempo integral. Vêem nelas uma maneira de se perpetuarem , visto a sociedade individualista à qual vivemos, ao longo dos anos, uma luz de esperança na escuridão que é a vida moderna. Porém, aos poucos o olhar que está sobre as crianças vai se desviando para os jovens, por serem mais maduros e mais próximos dos adultos. Os adultos agora vêem que se conseguirem tornar estes jovens permanentemente felizes , protegidos e despreocupados (como as crianças) seria mais gratificante para eles, visto que seria uma felicidade mais próxima do que eles sonham. Com isso o jovem vai se encaixando nesta adolescência idealizada culturalmente e tornando sua moratória objetivo de inveja de crianças e adultos.