A Relação Professor-Aluno
De Psicologia da Educação
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Faculdade de Educação
PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO I - A (EDU01011)
A Relação Professor-Aluno
Educar requer necessariamente o outro como o agente que interage na sociedade e na qualidade da relação que se estabelece com o outro. Partindo da suposição que a relação pedagógica esta implícita na relação humana, a educação desenvolve-se muito mais por aquilo que somos do que por aquilo que falamos ou expressamos sobre tal relação. O que remete para a idéia de que o conhecimento sobre nós mesmos, educadores, e o parâmetro da qualidade e da profundidade da educação colocada em prática.
É na transferência dinâmica do ensino que se desenvolve a relação pedagógica. Desta forma, a reação pedagógica esta implícita na relação humana, de onde esta relação se desenvolve muito mais em razão de um “ser” do que um “fazer”. Esta análise dinâmica, estabelecida no processo de ensino, deve e pode ser considerada como uma relação transferencial que emana emoções e transfere desejos num movimento de pulsões no universo do inconsciente, compreendendo sentimentos de amor e de ódio que muitas vezes sobressaem como um movimento de resistência à aprendizagem.
Não há receitas, não há formas corretas e unificadoras para levar nossos alunos a se motivarem e se envolverem com a sua aprendizagem. Por que não há receitas? Porque o “ofício de educador é complexo” (Perrenoud) e não há como simplificar, descomplicar o que é complexo. O que se pode fazer é munir-se de recursos, de competências, que o professor vai construindo com embasamento teórico, mas também na sua prática que o deixe melhor preparado para enfrentar essa complexidade. Quando se fala em embasamento teórico, fala-se da necessidade do professor aprofundar-se um pouco mais nas diversas teorias que explicam o processo de desenvolvimento psicológico, cognitvo e emocional de seu aprendiz, assim como conhecer as principais teorias, visões e correntes pedagógicas e psicológicas. Paralelamente à aquisição desse embasamento, o professor precisa ter uma prática reflexiva, por mais que isso lhe custe fazer no auge da urgência e dificuldade com que ele se depara a cada dia em sala de aula. Refletindo sobre sua prática individual e coletivamente, ele vai construindo competências para conseguir melhores resultados e sentir-se menos estressado e insatisfeito com seu ofício.
Alguns pontos para refletir sobre a relação entre professores e alunos
Tentar entender a atitude do adolescente também do referencial dele e não apenas do seu referencial como adulto.
Evitar oferecer “munição para ele atirar” – o aluno se fortalece no grupo e se sentirá incentivado a desafiar.
Negociar conjuntamente regras e contratos, deixando claro e explícito o papel de cada um. Negociando divide-se poder e responsabilidade.
Tentar conhecer as representações e conhecimentos que os alunos têm a respeito de um assunto que se vai trabalhar em classe.
Perceber que as causas da indisciplina têm várias origens, inclusive a própria estruturação do cotidiano escolar, que provoca a indisciplina, isto é, procurar pensar de forma “sistêmica”
Trocar experiências, socializar vivências, inventar, improvisar, ser criativo.
Refletir sobre seus objetivos pessoais e profissionais. Onde o professor quer chegar e que caminho deseja seguir.
Aceitar a complexidade e a natureza do trabalho de professor, não negar os sentimentos de medo, angústia, impotência, desânimo, o tédio e a rotina porque negá-los não nos fará capazes de superá-los.
Pensar que se o aluno estiver envolvido em um projeto, ele investirá esforços para aprender. Procurar então, trabalhar com situações-problemas tiradas da prática social dos alunos.
Aceitar que você não se precisa saber sempre como agir de maneira correta e com rapidez. Muitas vezes, não entendemos uma situação. Procurar tomar distanciamento para compreender melhor.
Através do aluno, o professor é colocado diante de si próprio, sendo relevante lembrar que quando se desvaloriza o aluno, isto acontece porque este não é visto em si mesmo, mas através da representação da infância daquele que o vê. A psicanálise pretende compreender o comportamento dos elementos da relação educativa e investir o significado das suas ações, pois relação educativa não se encontra ao nível do visível, da comunicação interpessoal, mas, sobretudo ao nível dos afetos, dos nossos “fantasmas” e, por isso, do inconsciente.
Dentro do pensamento psicanalítico citaremos alguns tópicos a respeito dessa relação do professor com o aluno:
>> A criança só vai investir em gostar de alguma coisa se alguém investiu na possibilidade dela querer alguma coisa, dela a desejar.
>> Para uma adolescente, o sucesso é o meio de adquirir poder que pode ser uma vingança sobre um dos pais; outro adolescente provoca o professor para colocar à prova a si mesmo e ao docente, bem como para libertar as suas tensões.
>> A relação educativa está afetada pelo significado que os pais dão à escola e aos estudos dos filhos: atores invisíveis, eles projetam sobre os filhos as suas renúncias anteriores, bem como as suas aspirações iludidas.
>> “... É difícil dizer se o que teve mais influência sobre nós e teve importância maior foi nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres... para muitos, os caminhos das ciências passavam apenas através de nossos professores.” (Freud, Volume XIII: 286).
>> “Somente alguém que possa sondar as mentes da criança será capaz de educá-la e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças, porque não mais entendemos a nossa própria infância.” (Freud, 1996/1913: 124)
>> “... para que uma criança aprenda, é necessário que ela tenha o desejo de aprender... nada nem ninguém pode obrigar alguém a desejar.” (Cordié, 1996: 23)
>> “... a idéia de transferência mostra que aquele professor em especial foi investido pelo desejo daquele aluno.” ( Kupfer, 1992: 92)
>> “… a criança nem sempre faz a separação entre um julgamento de valor e o amor que alguém lhe dedica. Ser um mau aluno equivale para ela ser um mau filho.” (Cordié, 1996: 24).
Violência Psicológica: Um estudo do fenômeno na relação professor-aluno
O discurso atual dos educadores valoriza, cada vez mais, o exercício contínuo da reflexão do professor sobre as conseqüências de suas ações na prática escolar, contudo, percebe-se que o professor ainda não consegue identificar na cultura escolar algumas fontes de violência, inclusive aquelas geradas pela sua própria prática enquanto professor. Portanto, a intenção básica é revelar que, na dinâmica das relações interpessoais do professor-aluno, dentro da instituição escolar, ocorre uma forma de violência que não deixa marcas explícitas, identificáveis, – a violência que se revela através das palavras, dos gestos e que pode ser denominada Violência Psicológica.
Certamente remeter a otimização da educação ao plano exclusivo das relações interpessoais é uma concepção ao mesmo tempo ingênua e reducionista. No entanto, não podem os professores, enquanto pessoas que estão na função de educadores, eximir-se das implicações de seus ATOS no processo ensino-aprendizagem, nas relações humanas e na intervenção direta sobre a constituição da personalidade das crianças e adolescentes.
Apesar do impacto da Violência Psicológica sobre os alunos – a curto e/ou a longo prazo, as referências bibliográficas sobre a questão são raras e genéricas, notadamente por ser um conceito difícil no tocante a seu reconhecimento. A revisão bibliográfica demonstra que os atos violentos estão sujeitos a um grande sistema de relações interpessoais, nas quais as emoções, os sentimentos, os aspectos cognitivos estão presentes no âmbito educativo; na verdade, o problema começa quando se aborda o conflito através do exercício da autoridade, do castigo, das humilhações, provocando um clima de tensão dentro da sala de aula, o qual o professor não sabe resolver, pois o núcleo desta questão está submerso em um currículo oculto de relações interpessoais.
Prática da Pesquisa
O questionário foi estruturado em três blocos - sobre o aluno – questões sobre o tipo de escola, período, gênero, idade, possível repetência, série, etnia, situação ocupacional da família; - sobre o perfil do “pior” professor – perguntas sobre o gênero, idade, disciplina e série que ensinava na época e tipo de escola, bem como o tempo em que o sujeito foi aluno desse professor e a idade do mesmo; - sobre a vida do aluno com esse professor – itens buscando identificar as ações dos professores consideradas como violentas, a freqüência respectiva e os sentimentos que os sujeitos experimentavam diante das ações dos professores.- Os itens enfocam, especificamente, ações como: gritar, chamar de algum tipo de palavrão, apelidar, chamar atenção frente à classe, profetizar o insucesso futuro do aluno como adulto, falar mal da família, comparar com outras crianças, mandar para fora da sala, rasgar o caderno. Este último bloco termina com um espaço destinado a um desenho livre representando o professor descrito pelo aluno no instrumento. O questionário envolveu questões fechadas e abertas.
PROCEDIMENTO
Pediu-se a cada sujeito que pensasse somente no seu(sua) “pior professor(a)” desde o dia em que havia entrado no universo escolar e respondesse as questões relativas ao perfil e ATOS desse(a) professor(a), bem como os próprios sentimentos face aos mesmos.
CARACTERIZAÇÃO DO CAMPO DE PESQUISA
A pesquisa realizou-se em Guaratinguetá, Estado de São Paulo/Brasil. O Município de Guaratinguetá está situado no Vale do Paraíba, entre as serras de Quebra Cangalha e da Mantiqueira, no nordeste do Estado de São Paulo. Dista 178 Km de São Paulo e 254 Km do Rio de Janeiro.
Os sujeitos da pesquisa: Amostra do estudo Optou-se por estudar alunos matriculados, na 8ª série das escolas da Rede Pública e Particular no município de Guaratinguetá, São Paulo, Brasil, no ano de 2001.
Analisando separadamente as sub-amostras de cada Rede de Ensino constatamos que: - Na Rede Pública a prevalência foi de 416 sujeitos ( 296 do gênero feminino e 120 do gênero masculino) 94% conforme.- Na Rede Particular a prevalência foi de 72 sujeitos ( 48 do gênero feminino e 24 do gênero masculino) 96% conforme. - Os dados mostram que o fenômeno da Violência Psicológica atinge indiscriminadamente meninos e meninas de ambas as Redes Particular e Pública do Ensino Fundamental – Séries Iniciais – no município de Guaratinguetá.- Nas duas Redes de Ensino por ordem de maior freqüência aparecem os ATOS de gritar, humilhar e comparar depreciando.
As características do “pior professor” como a faixa etária e a disciplina lecionada na série, época, que os sujeitos conviveram com este professor.- Os desenhos produzidos pelos sujeitos e representativos do “pior professor”. Como demonstram os dados estatísticos, o perfil dessa Violência foi revelado a partir das respostas dos sujeitos que nomearam e registraram seus SENTIMENTOS de vergonha, humilhação e raiva. do rebaixamento, inferioridade (...)”. Foram ainda quantificados significativamente os seguintes ATOS do “pior professor: chamar atenção na frente da classe; dizer que o aluno não será “nada ou ninguém na vida”; falar mal da família do aluno; comparar os alunos; mandar para fora da sala de aula; rasgar o caderno do aluno; apelidos de ordem física e ordem moral
A faixa etária do professor considerando toda a amostra, a maioria dos alunos avalia os piores professores com a idade de 36 anos ou mais. Verifica-se que este julgamento da Violência Psicológica vai crescendo com a idade dos professores. Foi atribuída a idade de menos de 20 anos a apenas 2,0% dos professores, 30,6% possuíam mais de 40 anos, este fenômeno ocorre tanto na Rede de Ensino Pública (menos de 20 anos – 1,9% ; mais de 36 anos – 54,1%) e na Rede Particular(menos de 20 anos - 2,2 % ; mais de 36 anos – 75,5%). Um dado importante vem da Rede Particular, na qual 55,5% dos professores têm acima de 40 anos, caracterizando-se como mais velhos que na Rede Pública, e sendo que as mulheres professoras são as que mais gritam. Este dado confirma a teoria de Huberman In: Nóvoa, 1992), ao demonstrar as fases de transição e crises na carreira docente, demonstrando que a partir dos 40 anos há uma tendência para o desinvestimento na carreira do profissional -professor, desencadeando o que o autor denomina de “síndrome de respostas de sentimentos negativos, como irritabilidade e ansiedade. A fase da carreira considerada mais estressante foi a do 21° ao 30° ano, conforme atestam 60% dos professores (...) pode-se supor que as professoras tenham uma tendência a considerar a faixa de tempo do magistério em que se encontram atualmente como mais estressante; é possível que, em retrospecto, as professoras lembrem-se dos primeiros anos de magistério como não estressantes (...) Além disso um número significativo de professores na faixa de 21° a 30° anos de magistério adota a jornada integral de trabalho para garantir uma aposentadoria melhor.
Os dados apresentados permitem uma correlação entre o estresse dos professores, as características da violência psicológica descritas pelos sujeitos e o processo descrito por Huberman sobre o Ciclo de Vida dos Professores a partir da 3ª fase, quando se inicia o processo de distanciamento afetivo, culminando com o desinvestimento da profissão. Tais dados vêm evidenciar o reconhecimento da violência psicológica na dinâmica da relação professor-aluno. Os conflitos interpessoais, o mau relacionamento com os colegas, a exaustão emocional, as frustrações com a profissão, desencadeiam manifestações negativas para com as pessoas no trabalho: raiva, irritabilidade, nervosismo, impaciência, ansiedade e sintomas psicossomáticos como dores no corpo.
Apresentação e Análise dos desenhos
O último item do instrumento da pesquisa foi reservado ao sujeito para que desenhasse o professor. Sugeriu-se também que escrevessem uma frase a respeito do desenho. Foram analisados 465 desenhos. O desenho é considerado uma técnica projetiva e é compreendido por psicólogos, educadores e psicanalistas como um instrumento capaz de revelar a maneira como o sujeito, consciente ou inconscientemente, percebe o mundo que o rodeia, percebe a si mesmo ou as outras pessoas significativas de sua vida
Figura humana – atitudes desfavoráveis: professor autoritário, agressivo (a),punitivo(a); professor(a) rangendo os dentes; gestos que demonstram o poder por exemplo, braços erguidos, braços em riste; mãos na cintura, rosto sisudo, olhar de reprovação, régua na mão do professor em posição ameaçadora (36,2%); -
Figuras mitológicas que causam medo: bruxa, demônio com tridente e chifres; monstros (23,8%);-
Figuras humanas ridicularizadas/humor: nariz enorme, corpo desproporcional, gordos, descabelados (14,7%);
Estes dados são apenas parte do estudo realizado. Pode-se encontrar a pesquisa através do endereço citado na bibliografia.
Conclusão
Unidades complexas, como o ser humano ou a sociedade, são multidimensionais, portanto o ser humano é entendido como constituído enquanto ser físico, biológico, psíquico, cultural, racional, afetivo, social, histórico; é uma unidade complexa da natureza humana e que não pode continuar sendo desintegrado na educação por meio de disciplinas que não lhe conferem o significado do status de ser humano, de sua identidade comum a todos os outros seres humanos. Há que se priorizar na relação professor-aluno uma orientação valorativa, normativa e comportamental que privilegia a convivência social e seu contexto: o ethos democrático. Este é o nosso desafio enquanto educadores: construir uma escola que tendo consciência da complexidade humana para que se possa auxiliar os alunos na sua evolução como seres éticos .
Assim podemos entender que o trabalho educativo do professor não pode conter, deforma alguma, em seu bojo, o rancor, a rispidez, o mau humor, o desrespeito, a ofensa, ocinismo, o autoritarismo que humilha e envergonha. Enfim, o professor deve ensinar a condição humana, individual e coletiva.
Esta é uma tarefa da qual devemos disseminar em nossas reflexões sobre as ações que permeiam nossas práticas educativas: a pessoa do professor enquanto profissional do desenvolvimento de “corações e mentes”. Presença, paciência, resgate da espiritualidade, desenvolvimento da consciência ecológica e planetária são valores imprescindíveis à ação educativa; por isso “como educadores, precisamos mergulhar nos vários aspectos da existência humana, que também nos escapam à lógica e à racionalidade.
Isso construi-se a cada dia em sala de aula e cabe a cada um de nós refletir e adotar a melhor maneira para cada grupo de alunos. Não existe uma forma mais correta ou ideal, cada um fará de uma maneira e a escolha dessa prática.
Referências Bibliográficas
http://www.cesdonbosco.com/revista/congreso/36-Sonia%20Ferreira%20Koehler.pdf

