A Relação Professor - Aluno
De Psicologia da Educação
Tabela de conteúdo |
Introdução
Neste presente trabalho, procuraremos entender um pouco melhor essa famosa relação entre ‘professor-aluno’. O porquê de tantas queixas, tantos procedimentos mal sucedidos, tanto desinteresse, tanta má vontade? Se é que existe uma culpa nessa relação, em que parte ela se encontra: no aluno ou no professor?
Primeiramente, abordaremos uma das tantas teorias possíveis de serem encontradas acerca do assunto: a Teoria da Dialogicidade, de Paulo Freire. Após, apresentaremos nossas pesquisas de campo, nas quais entrevistamos alunos e professores para, ao menos, tentarmos visualizar como essa relação se dá, na prática.
Teoria da Dialogicidade como Problematizador
Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido , propõe a dialogicidade como essência de uma educação para a libertação. E, para embasar teoricamente o nosso trabalho, escolhemos essa teoria como forma de problematizar os aspectos levantados em nossa pesquisa de campo. Não indicamos, no entanto, a teoria como forma final da proposta educativa, mas sim, como um modelo mais comparativo do que propriamente conceitual, onde se estabelecem pressupostos visando uma relação professor – aluno de maneira mais abrangente e construtiva.
Para melhor entendermos a teoria da dialogicidade empregada por Freire, é necessário primeiramente apresentar a sua concepção de ‘Educação Bancária’, onde o autor analisa o modelo educativo no qual o professor atua como agente central em detrimento dos alunos que exercem uma função de objeto passivo nessa disposição. No modelo bancário, a educação se dá de forma vertical, ou seja, o professor despeja conhecimento e informação aos alunos que, por sua vez, se detêm em memorizar o máximo de informações possíveis e reproduzi-las de maneira mais fiel ao que lhe foi repassado. O professor, portanto, é aquele que sabe o conteúdo, sabe de que forma deve repassá-lo e de que forma avaliar se os alunos estão realmente assimilando e aprendendo da maneira que ele considerar mais propícia.
Segundo Freire, nesse ambiente educacional, o melhor professor é aquele que possui maior nível de conhecimento e, portanto, é capaz de reproduzi-lo em maior quantidade, e o melhor aluno, em contraponto, é aquele que mais passivamente e ‘respeitosamente’ recebe o conhecimento e se esforça no intuito de reproduzi-lo de maneira mais leal possível ao modo que lhe foi apresentado o conhecimento.
Essa educação é vista pelo autor como forma de manutenção do mundo vigente, ou seja, o aluno aprende a mesma coisa e do mesmo modo que um dia o professor aprendeu e deve ‘pensar’ da mesma maneira que todos os demais ao seu redor ‘pensam’, o conhecimento se coloca como uma via de mão única, e o mundo e as coisas devem ser como são pela ordem natural do mundo.
Em contraproposta a esse modelo educativo, Freire sugere a teoria da dialogicidade, onde coloca a educação como forma problematizadora do mundo atual, visando a autonomia e libertação do educando, ou seja, buscando formar seres críticos e não mais passivos e conformados.
O diálogo atua nessa proposta como o mediador de toda essa transformação educativa. É através dele que o professor altera toda a concepção bancária de educação. Por meio do diálogo, o professor pode se inserir de maneira mais concreta no universo do educando, a partir disso não apenas educa de maneira mais eficiente e produtiva, como também aprende com os alunos, quebrando com a disposição hierárquica percebida em sala de aula.
Conforme Freire, a busca gira em torno de construir uma educação conjunta onde o educador, ao mesmo tempo em que educa ou trabalha o conteúdo a ser repassado, aprende com o universo do educando e se torna assim um educador-educando, pois também aprende nesse processo. Já o educando, ao mesmo tempo em que é educado, troca a sua percepção de mundo com o professor, se tornando com isso um educando-educador.
Freire explicita esse pensamento quando defende que: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo. ”. E é através da proposta dialógica que toda a educação deve ser trabalhada, desde a criação do conteúdo programático (currículo, temas a serem abordados), até as práticas de sala de aula que devem inserir o aprendizado de modo que o aluno em seu cotidiano fora do ambiente escolar se depare com situações que o remetam ao conhecimento abordado em sala.
O objetivo fundador dessa concepção é a idéia de transformação do mundo (revolução), onde a educação passa a ser construída em conjunto por todos aqueles que participam dela (professor, aluno, família, sociedade), visando, claramente, uma problematização e maior questionamento do mundo, aprendendo na sua práxis cotidiana e retomando as suas transformações de homem em si na sua relação homem-mundo: “O homem como um ser inconcluso, consciente da sua inconclusão, e seu permanente movimento de busca do ser mais ”.
A Visão do Professor
Levantamento dos Questionários
Perguntas que foram feitas:
1- O que é um bom aluno para você?
2- O que você mais valoriza num aluno?
3- O que representa para você a avaliação escolar?
4- Você valoriza a participação em aula?
5- Você gosta de lecionar? Por quê?
6- Aponte alguns dos principais problemas que você enfrenta na relação com seus alunos.
Respostas adquiridas:
UM BOM ALUNO
- É estudioso, vai além do que é ensinado em aula;
- Participa ativamente das aulas, fazendo considerações e perguntas;
- Realiza com empenho as atividades extra classe;
- Não se traduz apenas por bons resultados: caracteriza-se mais pelo empenho, pelo comportamento e pelo respeito ao trabalho;
- É permanentemente interessado;
- É assíduo, disciplinado;
- É aquele que, independente da capacidade de apredizagem, quer aprender, é curioso e humilde;
- Valoriza os professores e colegas.
O QUE É MAIS VALORIZADO NO ALUNO
- Domínio do conteúdo, juntamente com o interesse;
- Humildade;
- Dedicação e força de vontade;
- Engajamento nas atividades propostas e participação positiva no contexto da sala de aula;
- Esforço, perseverança, atitude afável, respeito.
A AVALIAÇÃO
- Uma mentira: no final das contas, o que as ‘organizações escolares’ querem é simplesmente a aprovação;
- O resultado de todo um processo de aprendizagem, que serve tanto para o professor como para o aluno;
- Uma forma de verificar o conhecimento do aluno no sentido prático;
- Momento de correção de rumo, tanto para o professor quanto para o aluno;
- Amostra parcial do conhecimento do aluno;
- Um método a ser substituído.
PARTICIPAÇÃO EM AULA
- Importantíssima;
- Relevante, mas difícil de mensurá-la em números;
- Representa uma considerável parcela da avaliação final;
- Fundamental para que o processo de ensino-aprendizado se desenvolva de maneira eficaz (quando essa participação está em sintonia positiva com as atividades propostas).
GOSTO PELO ENSINO
- Apesar do apreço pela atividade, algumas situações adversas contribuem para uma gradual decepção pela mesma;
- Ser capaz de ver a diferença que o conhecimento pode fazer na vida de uma pessoa e acompanhar o desenvolvimento de alguém sabendo e, de alguma forma, o professor muito contribuiu para isso.
- Sentir que se pode estar sempre inovando, aprendendo, ajudando e crescendo junto com os alunos.
- Ajudar as pessoas a terem mais conhecimentos e atingirem seus objetivos é, sem dúvida alguma, um propósito muito nobre.
PROBLEMAS NA RELAÇÃO COM OS ALUNOS
- Falta de interesse e curiosidade;
- Falta de esteio familiar;
- Falta de hábitos de leitura e estudo;
- Falta de respeito e limites;
- Pouca vontade de enfrentar desafios;
- Pouco comprometimento;
- Não vêem um propósito claro de alguns conhecimentos aplicados na sua realidade imediata;
- Uso de dispositivos tecnológicos de ponta, que dão livre acesso à internet e outros tipos de entretenimento na hora da aula;
- Contentam-se com o mínimo;
- Os valores do aluno estão distantes daqueles propostos pela escola;
- Idéia de que o professor deva ser um ‘concorrente da mídia’.
Análise
Após tal levantamento de dados, pudemos ter mais clara a idéia de como os professores vêem o processo de aprendizagem e a relação com seus alunos.
Ao que diz respeito ao conceito de ‘bom aluno’ e o que nele é mais valorizado, muitos de nossos entrevistados convergem a características como respeito, interesse, participação efetiva. O bom desempenho talvez seja visto como uma conseqüência disso, e não mais como prioridade. Um bom aluno se caracteriza pela consciência de que o maior beneficiado pelo processo de aprendizagem é ele mesmo, denotando uma visão mais ampla do contexto em que está inserido, valorizando professores e colegas e aproveitando todo o conhecimento que esteja a seu alcance, mesmo que não veja uma aplicação prática desse conteúdo no momento. Assim não são apenas os bons alunos, mas os bons futuros profissionais.
Em relação à avaliação escolar, há opiniões bastante divergentes. Alguns professores inferiram que, devido à necessidade de aprovação dos alunos por organizações escolares, sejam elas públicas ou privadas, a avaliação já não é capaz de efetivamente cumprir seu papel de legitimador do conhecimento. Se bem que, atualmente, falar de algo que seja um ‘legitimador de conhecimento’ é totalmente inviável, ficando muito aquém do que a avaliação possa, de fato, significar. E mesmo pensando que a avaliação é “um método a ser substituído”, ficaria a pergunta: substituído pelo quê?
Alguns outros professores frisaram a importância da mesma, não apenas como uma ferramenta para o aluno, mas também para o próprio professor que tem, na avaliação, a oportunidade de diagnosticar se seu próprio trabalho está de acordo com os objetivos de qualidade de ensino traçados por ele e pela instituição para a qual trabalha. Mesmo assim, uma avaliação pelos métodos tradicionais é incapaz de avaliar outros aspectos subjetivos presentes na vida e no trabalho do aluno. Ao trabalharmos com humanos, nada pode ser rigidamente mensurado; será sempre assim.
Ao que tange a participação em aula, todos a consideram de grande valia para que o professor possa ter uma idéia do interesse, do pensamento e da relação de cada aluno com determinado assunto e, assim, ser capaz de tornar as suas aulas cada vez mais atrativas. A questão chave disso tudo é tentar agregar um valor a essa participação, pois há muitos alunos tímidos que podem estar em total sintonia com o assunto, assim como há alunos cuja “aparente” participação decorre de um acompanhamento inadequado da aula.
Quando da pergunta: “Você gosta de lecionar?”, todos responderam que sim, pelo fato de estarem, ao mesmo tempo, ajudando, aprendendo e se envolvendo com um universo tão rico de percepções, realidades e gostos. Como todos nós sabemos, há uma série de dificuldades que são enfrentadas pelos professores, podendo gerar certo desânimo na prática de ensino. Mesmo assim, os motivos em prol de uma causa tão nobre parecem ganhar relevo num contexto, por vezes, tão mal valorizado.
Os problemas na relação com os alunos são inúmeros. Os mais citados são: falta de interesse, respeito e dedicação. Muitas vezes, o aluno não vê relação direta alguma com o que aprende em sala de aula e o que vive lá fora, fazendo com que esse processo perca sua razão maior de ser, a qual seria formar cidadãos com uma visão de mundo amplificada e conhecedores de realidades e conceitos universais. A presença ativa da internet na vida dos alunos também acarreta num maior desinteresse da parte deles na escola, simplesmente por ser um jeito mais fácil de acumular conhecimentos que lhes são mais relevantes.
Esse assunto é bastante amplo e sempre vai render opiniões das mais diversas, tanto da parte do professor, como do aluno. Nesse momento, procuramos olhar a situação pelo prisma dos professores, que compõem um quadro bastante diverso. Dos 8 oito professores entrevistados, temos a situação de escolas públicas e privadas, da capital e do interior do estado, contemplando matérias das ciências exatas e humanas. É bom ressaltar que nossa pesquisa foi baseada qualitativamente, e não quantitativamente. Tentar mensurar essa relação nunca foi nosso propósito, mas, sim, diagnosticar algumas questões presentes no dia a dia e, ao analisar ambos os lados, elaborar uma idéia de planejamento de aulas que possa contemplar os objetivos de cada um. Será só em conjunto que poderemos tornar essa relação tão mal falada em uma construção mútua de uma sociedade melhor.
A Visão do Aluno
Levantamento dos Questionários
Perguntas que foram feitas:
1- O que é um bom professor para você?
2- O que você mais valoriza num professor?
3- O que representa para você a avaliação escolar?
4- Você valoriza a participação em aula?
5- Você gosta de estudar? Por quê?
6- Aponte alguns dos principais problemas que você enfrenta na relação com seus professores.
Respostas adquiridas:
UM BOM PROFESSOR
- Dá o conteúdo, despertando curiosidade e interesse
- Gosta muito de ensinar
- Propõe atividades diferentes
- Preza não apenas o ato de dar a matéria, mas o entendimento dela por parte do aluno
- Faz de um pequeno assunto grande polêmica (desperta discussão)
- Consegue transmitir seu conhecimento com uma metodologia atraente, aliado a uma postura ética e acessível
- Tem autoridade e é capaz de controlar uma turma bagunceira
- Ensina bem, no mínimo, o básico dos conteúdos
- É divertido, inteligente e ajuda os alunos
- Não precisa ser muito exigente e tradicional
O QUE É MAIS VALORIZADO NO PROFESSOR
- Conhecimento
- Empenho
- Disposição
- Capacidade de fazer-se entender
- Professor que responde às dúvidas e ajuda o tempo todo
- Professor que não se detém apenas na matéria cobrada no Vestibular
- A maneira que ele transmite o conhecimento
- Força de vontade e insistência em dar bem suas aulas, sem desistir ou mostrar-se irritado ao se deparar com uma turma difícil
A AVALIAÇÃO
- Modo de acesso às nossas dúvidas, para poder nos ajudar
- Importante para o aluno saber o que precisa estudar mais
- Muitas vezes são motivos de competição entre os alunos
- Muitas vezes não reflete 100% o nosso conhecimento
- É uma tentativa de classificar o grau de conhecimento do aluno
- Com ela temos uma idéia do que foi aprendido e no que foi prestado mais atenção
PARTICIPAÇÃO EM AULA
- Indispensável para o aprendizado
- Chance de perguntar, ser corrigido e debater
- Ajuda a todos
- É em sala de aula que acontece a troca de idéias, discussões, que possibilitam a ampliação de nossos conceitos e conhecimentos, além de proporcionar outros pontos de vista sobre um mesmo assunto
- Ajuda o professor a ver que já tenho um conhecimento e um interesse no assunto
- Eu participo apenas quando entendo do assunto e me interesso, acrescentando novos conhecimentos na discussão de um determinado assunto
GOSTO PELO ESTUDO
- Faz do aluno alguém menos alienado
- Faz do aluno uma pessoa melhor a cada dia
- O conhecimento ajuda a diminuir preconceitos e julgamentos errados
- É gratificante receber elogios quando há sucesso por um bom estudo
- Não gosto muito de estudar, pois freqüentemente encontro dificuldades. Quando consigo saná-las, aí me animo a ir mais a fundo
- Depende muito do assunto abordado, seu propósito e a metodologia do estudo para eu gostar de estudá-lo. Na maioria das vezes gosto de estudar
- Sim, mas não muito. Apenas o essencial para ir bem nas provas
- Gosto de estudar apenas alguns assuntos, assim como história e computação. Gosto das matérias que têm a ver com a minha vida fora da escola, coisas que eu aprendo e posso usar no dia a dia
PROBLEMAS NA RELAÇÃO COM OS PROFESSORES
- Linguagem do professor às vezes é muito formal para explicar a matéria
- Há má vontade por parte deles
- Falta de intimidade na relação com o professor, havendo menos abertura para perguntar
- Dependendo do método usado para dar aula, às vezes dificulta o aprendizado
- Pouca acessibilidade e compreensão da fase da adolescência
- Falta de metodologia atrativa
- Má-educação de alguns professores quando perdem a paciência e falam palavrões. Em decorrência disso, muitas vezes os alunos se sentem intimidados quando querem perguntar suas dúvidas
- Não gosto muito daqueles professores que mostram ter preferência em alguns alunos
Análise
Em relação ao o que seria um bom professor, na visão do aluno, predominaram tópicos que dizem respeito ao fato de o professor, em primeiro lugar, gostar do que faz; despertar o interesse do aluno, sua curiosidade, seu entendimento e a capacidade de sanar suas dúvidas; ter atitudes mais dinâmicas, propondo aulas diferentes, sendo divertido e ao mesmo tempo sabendo controlar uma turma bagunceira.
O aluno quer, portanto, no estabelecimento de sua relação com o professor, maior proximidade, cumplicidade entre as duas partes e – mais do que o ensino – um ensino que desperte o interesse. Demonstra que ele coloca todas as suas expectativas em relação ao andamento da aula no professor, entendendo que ele é que deve instigar o aluno.
O que o aluno mais valoriza no professor, de acordo com as nossas pesquisas, é o seu conhecimento, aliado ao empenho e disposição para dar aula, à atitude de ajudar o aluno respondendo todas as suas dúvidas e, o que foi citado pela maioria dos entrevistados, a capacidade do professor de fazer-se entender. Além disso, podemos dizer que os alunos também mencionaram bastante a capacidade do professor de não se estressar com uma turma bagunceira, mas de saber controlá-la. Aqui, o que acho que chama mais atenção, além da expectativa do aluno em relação ao conhecimento e envolvimento do professor, é o fato de valorizar, acima de tudo, a capacidade do mesmo de transmissão do conhecimento. Esse, compreendemos, é um fato realmente fundamental, e nem sempre os professores pensam na sua relação com o aluno: muitas vezes têm a sua metodologia e não se importam em saber se todas as suas turmas se adaptam a ela. Aqui, o aluno demonstra a necessidade do professor de questionar-se sobre o modo que realiza o seu trabalho, com cada uma de suas turmas, procurando sempre, portanto, fazer-se entender.
Quanto à avaliação escolar, ela também é enxergada como uma maneira do professor de acessar o conhecimento do aluno, para poder ajudá-lo em caso de falhas, logo, é vista, sim, como parte importante do aprendizado. No entanto, os estudantes também relatam nas entrevistas o fato de a avaliação ser muito formal, o que faz do momento da prova um momento de tensão, em que muitos não conseguem reproduzir todo o conhecimento que possuem. É nesse ponto que, apesar do aluno reconhecer a importância do documento avaliativo, surgem divergências entre as duas partes. Esses últimos relatam que nem sempre o professor realmente sabe o quanto o aluno domina daquela matéria, ponto a ser repensado nessa relação.
Quanto à participação em aula, os entrevistados responderam que a consideram muito importante para o aprendizado, especialmente pelo fomento de discussões que possibilitam a ampliação dos pontos de vista sobre diferentes assuntos. Porém, podemos também inferir das entrevistas que muitos alunos só participam quando o assunto os interessa ou quando realmente o dominam, o que nos demonstra a natural inibição em expor-se perante à turma, especialmente no caso dos adolescentes. Além disso, o estudante também enxerga a participação em aula como momento de demonstrar o quanto sabe, preocupando-se muito com as notas (“em termos de números”) do final do período letivo. Além disso, já em outras perguntas deste questionário, foi levantada a questão da falta de proximidade do aluno com muitos de seus professores, o que lhe faz sentir-se menos confortável para perguntar e participar em sala de aula. Nesse sentido, vemos que, ainda que excessivamente possa tornar-se um problema, a proximidade do aluno com o professor parece que ainda é um ponto positivo na relação entre ambos.
Quanto ao gosto pelo estudo, houve diferentes respostas. Duas das seis pessoas entrevistadas responderam que realmente gostam de estudar, que consideram o estudo importante para o seu desenvolvimento enquanto pessoa. Já as outras quatro pessoas não demonstraram convicção. Ainda há alunos que não gostam de estudar por sentirem-se desestimulados quando falham; há ainda alguns que gostam de estudar, mas só o essencial para passar nas provas, e aqueles que demonstram vontade de estudar apenas alguns assuntos. Esses últimos já demonstram, ao que parece, uma inclinação de gosto intelectual que pode determinar o futuro profissional e assim se desinteressam pelos demais assuntos. Porém, os alunos que estudam apenas o essencial podem, ainda, não terem apresentado um bom amadurecimento, ou, ademais, podem vir adquirindo pouco estímulo (no sentido de despertar curiosidade) do professor, que deve sempre preocupar-se com esse ponto. Muitos alunos, no estudo para o Vestibular, reclamam da especificidade dos estudos e da falta de aplicação prática para aquilo que estudam, o que só usariam caso fossem trabalhar na área determinada. De fato, isso é comum no nosso sistema de ensino, constitui uma falha do processo de seleção para a universidade pública (mas aqui não entraremos neste âmbito). O fato é que acreditamos que nessa relação do aluno com o seu estudo depende muito da maturidade e compreensão da importância do mesmo por parte do estudante; logo, deve ser função do professor despertar o máximo de curiosidade possível. Quanto àqueles que não gostam de estudar por sentirem-se desestimulados ao falhar, podemos dizer que estaria relacionado, provavelmente, com uma baixa auto estima ou mesmo a natural insegurança adolescente. Nessa relação, o professor parece o responsável para o estímulo ao estudo.
Por fim, quanto aos problemas na relação com os professores, os alunos entrevistados citam a dificuldade de compreensão da fala de alguns professores devido à sua formalidade, reclamam da má vontade de muitos deles, da falta de intimidade na relação que estabelecem com os alunos, do que inferimos que, na opinião geral dos mesmos, poderia facilitar a relação com o professor. Reclamam também da falta de compreensão da fase da adolescência, de falta de uma metodologia atrativa e até falta de educação dos professores ao irritarem-se com a turma. Além disso, citam o professor que tem preferência por alguns alunos, o que incomoda aos outros.
Temos que ter em mente, em primeiro lugar, que a pergunta que fecha essa entrevista é a visão exclusivamente do aluno. Partindo desse pressuposto, podemos dizer que o aluno sente falta na relação com o professor de uma diminuição da formalidade em sala de aula, para que possa entender melhor o conteúdo (numa linguagem mais acessível), possa ter mais chances de perguntar, participar; para que possa haver uma maior compreensão do aluno e da fase pela qual passa durante o Ensino Médio. Além disso, o aluno entende que é devido à fase pela qual está passando que, muitas vezes, o faz ter atitudes inadequadas na visão do professor, mas por não saber compreender o aluno, muitas vezes acabam sendo mal educados, o que os rebaixa perante os alunos. Talvez em decorrência desse fato, os alunos reclamam ainda de uma má vontade por parte de muitos e da preferência de alguns professores por alguns alunos. Acreditamos, a respeito de tudo isso, que o aluno deve repensar na sua contribuição para que a relação com o professor não seja aquela por ele esperada, mas ainda é o professor que possui maior responsabilidade em promover uma melhor relação com seus alunos, já que tem mais idade, experiência, maturidade e toda uma formação que, ao menos em tese, deveria ajudá-lo a resolver tais questões.
Com essas entrevistas procuramos explicitar a visão do aluno em relação ao professor, limitada, é claro, ao nosso pequeno universo de entrevistados (6 alunos, de idades, escolas e alguns de cidades diferentes, todos do Ensino Médio). Com tal análise, procuramos inferir e retirar conclusões a partir dos dados, tentando assim elaborar um perfil da relação aluno-professor vista aos olhos dos alunos: o que eles pensam que há de positivo no professor e o que pode ser melhorado ou até mesmo mudado.
Conclusão
Colocamos, em nossa análise a respeito da visão do aluno, que ele “quer maior proximidade, cumplicidade entre as duas partes e – mais do que o ensino – um ensino que desperte o interesse. Demonstra que ele coloca todas as suas expectativas em relação ao andamento da aula no professor, entendendo que ele é que deve instigar o aluno.” Além disso, valoriza o empenho do professor, sua vontade de ensinar e a sua capacidade de fazer-se entender.
Se colocássemos, porém, lado a lado, desde os primeiros apontamentos, a visão do aluno e a do professor, constataríamos que deveria haver uma perfeita relação entre as duas partes. Assim como o aluno valoriza o professor interessado, o professor valoriza o aluno interessado, disposto, respeitoso e dedicado; aquele que participa em sala de aula e tem consciência de que ele é o maior beneficiado no processo de aprendizagem. Quanto à avaliação escolar, todos concordam que é importante, ainda que haja opiniões divergentes, devido à formalidade e objetividade das provas e trabalhos, enquanto o aprendizado envolve mais questões subjetivas (o mesmo interesse, a participação e a dedicação do aluno, demonstradas não só no papel). Existe aí uma idéia de substituí-la, mas não muito concreta. Ainda assim, tanto alunos como professores concordam sobre a importância da participação em aula, por exemplo, que desperta discussão e amplia conhecimentos, ainda que seja uma questão delicada, por envolver a natural inibição que pode prejudicar certos adolescentes.
Quanto ao gosto pelo ensino, há por parte dos professores uma certa convicção de que gostam de seu trabalho, mas colocam a culpa de muitas vezes sentirem-se cansados devido à não-colaboração dos alunos. Ainda que haja o desânimo, sentem-se lutando por uma causa nobre. E, quanto aos alunos, há aqueles que gostam de estudar e aprender, e há vários deles que nem tanto, por sentirem um distanciamento das matérias com o mundo prático, sendo que o Ensino Médio é muito diversificado em assuntos, e muitos alunos já tem uma tendência de gostarem mais de uma ou de outra área do conhecimento. Assim, muitos se desestimulam (ou se estimulam apenas pelas matérias de que gostam).
O que vemos, até então, parece ser um consenso da relação ideal entre professores e alunos, vista um pouco diferente por cada um dos lados, mas com certa unanimidade. Aí é que nos perguntamos: mas e o que justifica, hoje, as constantes divergências entre alunos e professores, a grande quantidade de má relações ocorrendo, muitas vezes com sérias conseqüências? Acreditamos que podemos ter uma resposta com os dados de nossas entrevistas. O fato é que o aluno imagina um professor interessado, disposto, que saiba dar uma aula interessante e divertida e saiba compreender seus alunos e a fase pela qual estão passando (a adolescência) – colocando toda a responsabilidade de condução dessa relação no professor. O aluno reclama da má vontade do professor, da falta de proximidade com ele, da falta de metodologia para dar aula e da má educação de muitos deles, o que dificulta o aprendizado e o despertar de interesse. O professor, por sua vez, imagina o aluno interessado, disposto e estudioso. No entanto, relata que seus problemas com os alunos são justamente a falta de interesse dos mesmos, falta de disposição, a má educação, a falta de comprometimento, curiosidade, envolvimento com o assunto, com a aula e com o estudo. Ou seja: o problema está aí, à vista de todos, mas cada um afirma que a responsabilidade pela questão é a má postura da outra parte. O que deveria haver, então, é um verdadeiro consenso entre alunos e professores, uma relação mais afável, em que os problemas fossem discutidos e resolvidos, com educação e boa postura provinda das duas partes e um acordo respeitado por ambos. Se alunos e professores não concordarem nunca, uma boa relação entre os dois será impossível. É preciso ter humildade para admitir, cada qual os seus erros, saber corrigi-los e cooperar, sempre, todos.

