A Violência na Escola-
De Psicologia da Educação
Aspectos Psicológicos
Vivemos numa sociedade em que cada vez mais a banalização da violência se faz mais presente, e ela acaba chegando às escolas. Porém, a violência sempre esteve presente na humanidade. “Para Freud, a violência é inerente ao ser humano e é necessária, como instinto agressivo, de morte (Thanatos), que em equilíbrio com o instinto de vida (Eros) assegura a preservação do indivíduo e da espécie.” (Belloni, 2009) Assim, a ideia da morte em equilíbrio com a vida faria com que a violência estaria presente mas sob controle. Mas na contemporaneidade cada vez mais a violência estaria fora de controle, atingindo particularmente aos jovens e chegando também às escolas. Por que estaria ocorrendo esse processo?
A doutora em educação da UFSC, Maria Luiza Belloni, aponta em seu artigo Infância, máquinas e violência que na sociedade televisiva há uma estetização da violência que acabaria por influenciar os jovens:
“a violência tem também sua dimensão estética. Embelezada e edulcorada, estetizada, repetida sem cessar, ela se tornou uma das fórmulas de maior sucesso da televisão e do cinema, presente em qualquer produto, do drama romântico ao desenho animado para os bem pequenos, mil vezes recriada nas publicidades. A repetição infinda de cenas estereotipadas (brigas corporais, perseguições em carros em alta velocidade, cenas de tortura, tiroteios com armas cada vez mais performáticas etc.), utilizando efeitos de imagem e som padronizados, tende a criar, em escala planetária, não só um conjunto mínimo de símbolos e valores comuns no imaginário dos jovens, como a influenciar seu gosto, seus padrões estéticos”. (Belloni, 2004)
Desta forma, os jovens seriam levados a seguir um padrão estético onde a violência seria endeusada, e representaria no imaginário uma sensação de prazer e poder, não importando o efeito a outrem. Isso, corroborado por um mundo que cultua o individualismo e a meritocracia, faz com que o padrão visto pela TV de premiação do fazer mal ou tirar vantagens do outro seja repetido ou imitado por parcelas da sociedade, particularmente aquelas em que o horizonte e a expectativa de futuro seja incerta e a educação já não mais desperte um caminho de melhora social.
Ao mesmo tempo, na prática escolar, há uma violência também reproduzida na relação de poder entre professor/aluno e também de imposição cultural da escola para o meio em que está localizada:
“Nesse diagrama, há um espaço social marcado por um desencontro entre a instituição escolar e as particularidades culturais das populações pobres das grandes cidades. Saliente-se, ainda, que a relação da escola com as particularidades culturais dos grupos que compõem o espaço social local em que ela se localiza é marcada por uma violência simbólica do saber escolar, exercida, muitas vezes, por hábitos sociais, pelos professores e funcionários da instituição: uma relação de poder que impõe um conjunto de valores ao conjunto da população envolvida.” (Santos, 2001)
Para o pesquisador da UFRGS, a violência está vinculada à situação sócio econômica das periferias das grandes cidades, justamente por que é ali em que a ausência do Estado e das expectativas se fazem mais frequentes. José Vicente Tavares dos Santos pesquisou a violência nas escolas em três formas: a violência contra o patrimônio, contra as pessoas e por incivilidade. É no caso contra o patrimônio em que o extravasar está mais presente:
“Em outras palavras, muitas das formas de violência contra o patrimônio realizam-se, freqüentemente, sem que ocorra o furto de bens, mas somente sua dilapidação. Esses atos de violência poderiam ser percebidos como reação social contra a escola? Sabemos que os jovens no Brasil atual representam uma geração vitimizada, sem esperanças em relação às promessas de futuro. (...) Em síntese, identificamos o recurso à violência como forma de obter ganho material ou simbólico; e de resolução de conflitos, em disputas interpessoais. (…) Tal fragmentação de laços sociais se exerce pela formação de espaços sociais com predominância de populações pobres e miseráveis, para as quais a violência sistemática pode fazer parte de um modo de ganhar a vida e de viver socialmente, e para as quais a escola parece relutar em alcançar um relacionamento capaz de incorporar demandas diferenciadas e distintas da matriz disciplinar oficial da instituição escolar.” (Santos, 2001)
Mas diante deste problema o que pode ser feito? Há diversas formas de combate à violência na escola e utilizar a repressão de forma isolada parece não ser o mais eficiente na diminuição dos casos. Ao contrário, ela ajuda a criar um sentimento de vitimização das pessoas, introjetando nelas um sentimento de repulsa ou de criminalização institucional contra elas, fazendo com que a violência seja retroalimentada. É o que aponta a pesquisa de Luiz Alberto Gonçalves e Marilia Sposito. Os dois doutores pesquisaram casos em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre e constataram que ações vinculadas com repressão e conscientização são mais eficientes, principalmente quando se incorpora a escola ao cotidiano da vizinhança em que ela está situada.
“Não se pode desconsiderar, entretanto, que o clima de medo, fortemente intensificado pela mídia, acaba deixando os docentes impossibilitados de realizar atividades efetivas de redução da violência. (…) Mas esse clima evoca a necessidade de uma cuidadosa investigação sobre a imagem que o mundo adulto escolar constrói sobre crianças e jovens que freqüentam a escola pública radicada nos bairros periféricos. Estigmatizados pela condição social de pobreza e, muitas vezes, pela origem étnica – os negros ou descendentes– essas crianças e esses jovens têm sido vistos cada vez mais sob a ótica do medo e, assim, tratados como virtuais criminosos e delinqüentes.” (Gonçalves & Sposito, 2002)
Para os dois pesquisadores, o combate à violência deve partir destas premissas: “diálogo (a palavra tomando o lugar da violência); reconhecimento do conflito que deverá ser trabalhado pela negociação; criação na escola de um ambiente cooperativo e solidário; e compreensão das mensagens contidas nas incivilidades e em atos violentos.” Desta forma, abrindo os portões da escola, recorrendo ao diálogo podemos contribuir para minorar os casos de violência ou pelo menos torná-los mais singulares.
O conflito escolar
Baseado no trabalho “Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação” de Álvaro Chrispino – Doutor de educação, UFRJ.
Os conflitos, resumidamente, surgem das divergências de opiniões ou interesses. Não há exatamente uma noção de certo ou de errado, mas uma defesa de uma posição e, em muitas das vezes, dificuldade de comunicação.
Uma das maiores dificuldades que temos de lidar com os conflitos é a de identificá-los nas pequenas divergências do dia-a-dia, tanto na vida, quanto na escola, o que acaba nos levando a percebê-los apenas quando os conflitos produzem manifestações violentas. E quando essas manifestações ocorrem, agimos para coibi-las, sem buscar as suas causas, o que não leva a uma solução definitiva do conflito, possibilitando sua reincidência.
Quanto maior a diversidade de alunos dentro da escola, maior será a diversidade de opiniões e consequentemente, maiores serão as possibilidades de conflitos. Essa é a causa básica da violência escolar para Álvaro Chrispino:
“Antes, em passado remoto, a escola era procurada por um tipo padrão de aluno, com expectativas padrões, com passados semelhantes, com sonhos e limites aproximados. Os grupos eram formados por estudantes de perfis muito próximos. Com a massificação, trouxemos para o mesmo espaço alunos com diferentes vivências, com diferentes expectativas, com diferentes sonhos, com diferentes valores, com diferentes culturas e com diferentes hábitos [...], mas a escola permaneceu a mesma! Parece óbvio que este conjunto de diferenças é causador de conflitos que, quando não trabalhados, provocam uma manifestação violenta. Eis, na nossa avaliação, a causa primordial da violência escolar.”
Classificação dos conflitos:
Álvaro Chrispino apresenta várias classificações gerais dos conflitos por 3 autores: Moore (1998), Deutsch (apud MARTINEZ ZAMPA, 2004) e Redorta (2004).
Abaixo está a reprodução da mais completa na opinião do autor e sintetizada pelo mesmo, a de Redorta:
Conflitos escolares que ocorrem com mais freqüência:
Entre docentes, por:
* falta de comunicação,
* interesses pessoais,
* questões de poder,
* conflitos anteriores,
* valores diferentes,
* busca de "pontuação" (posição de destaque),
* conceito anual entre docentes
* não-indicação para cargos de ascensão hierárquica
* divergência em posições políticas ou ideológicas.
Entre alunos e docentes, por:
* não entender o que explicam,
* notas arbitrárias,
* divergência sobre critério de avaliação,
* avaliação inadequada (na visão do aluno),
* descriminação,
* falta de material didático,
* não serem ouvidos (tanto alunos quanto docentes),
* desinteresse pela matéria de estudo.
Entre alunos, por:
* mal entendidos,
* brigas,
* rivalidade entre grupos,
* descriminação,
* bullying,
* uso de espaços e bens,
* namoro,
* assédio sexual,
* perda ou dano de bens escolares,
* eleições (de variadas espécies),
* viagens e festas.
Entre pais, docentes e gestores, por:
* agressões ocorridas entre alunos e entre os professores,
* perda de material de trabalho,
* associação de pais e amigos,
* cantina escolar ou similar,
* falta ao serviço pelos professores,
* falta de assistência pedagógica pelos professores,
* critérios de avaliação,
* aprovação e reprovação,
* uso de uniforme escolar,
* não-atendimento a requisitos "burocráticos" e administrativos da gestão.
Combate à violência escolar através da mediação dos conflitos:
A mediação é uma conversa entre os participantes do conflito que ocorre com assistência de uma pessoa imparcial, o mediador. Pretende-se através da mediação encontrar alternativas para se chegar a um acordo. Esse procedimento induz a uma nova postura mais tolerante e mais cooperativa, levando a formas mais espontâneas de resolver as diferenças.
O primeiro e mais importante passo para se dar início ao combate da violência escolar é assumir a existência dos conflitos aprendendo a lidar com essa realidade. Uma postura que negue essa existência terá que lidar com as manifestações violentas dos conflitos, a violência escolar.
As escolas que aprendem a lidar com essa realidade mantém o diálogo permanente e exercitam a explicitação do pensamento, tornando a comunicação mais eficaz. As regras são sempre clara, faladas e discutidas, para que assim os alunos entendam o que se espera deles e o que se pretende fazer.
Álvaro Chrispino apresenta dez itens que devem ser refletidos pela equipe que estiver disposta a implantar um programa de mediações de conflitos. Abaixo a reprodução dos mesmos:
1) Caráter da Mediação de Conflito: obrigatório ou voluntário?
2) Alcance da Mediação de Conflito: Todos os conflitos ou apenas alguns conflitos?
3) Ênfase da Mediação de Conflito: No produto ou no processo?
4) Atores da Mediação de Conflito: todos os membros do universo escolar ou alguns membros do universo escolar?
5) Limites da Mediação de Conflito na Escola: sem limites de série, idade, turno, etc, ou com limites?
6) Relação da Mediação de Conflito com as Regras Disciplinares: sem relação ou com relação?
7) Relação da Mediação de Conflito com a Avaliação: sem relação ou com relação?
8) Identificação dos Mediadores de Conflito: mediação por pares ou outros mediadores?
9) Escolha dos Mediadores de Conflito: ação institucional ou escolha das partes?
10) Critérios para a Seleção dos Mediadores de Conflito: desempenho acadêmico ou "respeitabilidade" entre os pares?
Combate a Violência, Iniciativas Publicas
No Brasil, durante os últimos anos, as políticas públicas de redução da violência em meio escolar tem se originado, sobretudo, na esfera estadual e municipal. Apesar de expressarem iniciativas muitas vezes fragmentadas e descontinuas já existe um considerável acumulo de experiências dessas políticas que demandam estudos sistemáticos para avaliar sua eficácia e proporcionar elementos de formulação de novas orientações. Tomando como exemplo algumas modalidades de iniciativas é possível traçar os elementos principais que orientam o nascimento das políticas públicas voltadas para a superação das condutas violentas que atingem os estabelecimentos escolares. Um estudo realizado sobre condições de trabalho, com professores da rede de ensino público, no qual o tema de violência e segurança nas escolas é abordado, oferece algumas informações bastante elucidativas. A investigação foi realizada com 52 mil professores dos sistema público de ensino, distribuídos em todo o pais, coordenado pelo laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília.
Na referida pesquisa, três tipos de situações foram identificadas como as mais freqüentes: as depredações, furtos ou roubos que atingem o patrimônio, as agressões físicas entre os alunos e as agressões de alunos contra os professores. O estudo mostra que estabelecimentos de ensino com mais de dois mil alunos são os mais suscetíveis às práticas de violência, principalmente os que se encontram nas capitais. Evidenciou-se, também que o fato de os estabelecimentos de ensino terem adotado medidas de segurança ostensiva não alterou, de forma significativa, as ocorrências de roubo e agressão física. No que concerne às agressões a alunos dentro da escola, a pesquisa revelou que o fenômeno varia de intensidade em cada estado da federação. O estudo ainda registra as agressões dirigidas a professores no interior dos estabelecimentos de ensino. Ressalta-se ainda que as práticas de agressão, tanto entre os alunos como contra os professores são mais comuns em estabelecimentos de grande porte e nas capitais.
Nas informações oferecidas pelos alunos, os problemas maiores são as discussões, agressões físicas, uso de drogas e ameaças. No entanto, de acordo com a pesquisa, os alunos de estratos sociais superiores registram com maior intensidade os problemas apontados do que aqueles provenientes dos setores mais empobrecidos. Já para os educadores os problemas maiores são as agressões verbais, depredações, ameaças e intimidações. Os profissionais da rede pública apontam com maior freqüência os episódios de violência do que seus colegas do ensino particular.
Passemos, a seguir, ao exame de algumas das iniciativas com vistas a reduzir a violência escolar, empreendidas pelo Poder Público.
Os primeiros resultados dessa parceria podem ser traduzidos no Programa Paz nas Escolas, desenvolvido a partir do ano 2000 em 14 estados brasileiros. A sua execução nos Estados obedece a uma dinâmica própria, de acordo com as prioridades de cada realidade. Dentre as principais atividades, destacam-se: campanhas visando ao desarmamento da população; apoio na formação e treinamento, integrando jovens e policiais no ensino de técnicas de mediação de conflitos; e ações de capacitação de educadores e policiais em direitos humanos e ética.
Em conjunto com o Ministério da Educação e com as Secretarias estaduais de Educação, o Programa Paz nas Escolas capacitou 5.656 professores para a implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs, com especial ênfase nos temas transversais Ética e Cidadania.
Por meio de convênio com organizações não governamentais especializadas, realizaram-se palestras e cursos de formação em direitos humanos para 2914 policiais que atuam na segurança das escolas. Em alguns casos, registra-se a efetiva participação das Secretarias de Segurança Pública dos estados. Como estimulo ao protagonismo juvenil, o programa desenvolveu, ainda, ações de apoio a criação de grêmios estudantis, para tratar de questões de interesse dos jovens, especialmente daquelas relativas à violência nas escolas.
Projeto Escola que Protege
O Projeto Escola que Protege é uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Continuidade, financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Foi estabelecido pela Resolução de n. 37 do Ministério da Educação: orientações para a apresentação, a seleção e o apoio financeiro a projetos de instituições públicas de educação superior e da Rede Federal de Ensino Profissional e Tecnológico (com educação superior) para a formação continuada de profissionais da educação da rede pública de educação básica voltados para o enfrentamento, no contexto escolar, das diferentes formas de violências contra crianças e adolescentes. Nessa perspectiva, o Escola que Protege é uma estratégia política pública de educação voltada à formação continuada de professores e de elaboração de materiais didáticos e paradidáticos. Estas duas estratégias visam ao enfrentamento das mais variadas formas de violência contra crianças e adolescentes, reforçando assim a garantia dos direitos dessa população.
O projeto vem sendo implementado em vários municípios do país desde 2004, e já beneficiou mais de 20.000 profissionais da educação em todo o território nacional. Os projetos foram e são desenvolvidos por Instituições de Educação Superior (IES) com o auxílio das secretarias de educação e outras tais como secretarias de saúde, secretarias de assistência social, além dos conselhos tutelares, entre outros órgãos. Na perspectiva desse projeto, os profissionais da educação são fundamentais no enfrentamento da violência, visto que a escola é um espaço privilegiado para identificação de situações de violência, já que este é um contexto no qual a população infanto-juvenil permanece por um tempo significativo. A proposta tem como objetivo geral instrumentalizar profissionais da área da educação em geral e da rede de proteção infanto-juvenil para o enfrentamento de situações de violação de direitos de crianças e adolescentes e para o desenvolvimento de estratégias para mediação/resolução de conflitos. Os objetivos específicos são:
1. Fornecer conhecimentos sobre direitos de crianças, adolescentes, mulheres e minorias étnicas e sociais: Histórico dos Direitos Humanos, Declaração Universal dos Direitos Humanos, Declaração dos Direitos da Criança, Convenção sobre os Direitos da Criança, Estatuto da Criança e do Adolescente e Doutrina da Proteção Integral, Direitos também implicam Deveres, Lei Maria da Penha, outros marcos legais acerca dos Direitos Humanos;
2. Ministrar conteúdos sobre violência: conceito, formas de violências, aspectos sócio-culturais e psicológicos envolvidos em situação de violência, bullying, abuso e a exploração sexual; leis que tratam da exploração sexual de crianças e adolescentes, ferramentas de modos de denúncia e notificação, organização da rede de proteção, tolerância étnica, religiosa e social.
3. Fornecer conhecimentos sobre os preceitos e técnicas da mediação de conflito no intuito de possibilitar alternativas na resolução de situações de conflito, a fim de prevenir ações violentas. Serão ministrados conteúdos sobre os princípios que regem a mediação de conflitos e suas abordagens práticas.
4. Desenvolver estratégias e empoderar profissionais da área de educação e da rede com relação a medidas e ações para mediação e resolução de conflitos.
O curso é voltado a profissionais da educação e da rede de proteção de crianças e adolescentes. Este projeto está organizado da seguinte maneira: são 64 horas presenciais e 16 horas de supervisão de projeto. O curso possui três módulos: Um sobre direitos humanos com foco no direito de crianças/adolescentes e mulheres, o segundo sobre identificação de situações de violência e o terceiro sobre mediação de conflitos. Para obter a certificação, é necessário que o cursista compareça a 75% das aulas e apresente um projeto de intervenção voltado para o espaço escolar.
Centro sobre estudos psicológicos sobre meninos e meninas
O CEP-RUA foi criado em 1994, em resposta à inquietação de um grupo de professores, psicólogos e estudantes de graduação que identificaram a necessidade urgente de integrar os conhecimentos da Psicologia com a realidade de populações em situação de risco social e pessoal. Havia pouca produção na área sobre o tema e havia muita Psicologia que se apresentava como universal e não havia sido analisada em relação a esta população. Com a meta inicial de trabalhar com meninos e meninas em situação de rua e todas as variáveis que envolvem esta realidade, foi criado o CEP-RUA, para produzir conhecimentos e ser um espaço de interlocução com a comunidade que trabalhava com estas crianças e adolescentes.
Objetivos:
As atividades do CEP-RUA visam a integrar a pesquisa e o ensino acadêmico com a prática comunitária:
Desenvolvendo pesquisas sobre crianças, adolescentes e famílias em situação de risco social e pessoal, enfatizando aspectos psicológicos do desenvolvimento e a promoção de saúde; Mantendo uma central de referências e informações atualizadas sobre estudos e projetos sobre crianças, adolescentes e famílias em situação de risco, disponíveis a toda comunidade; oferecendo consultoria e assessoria e subsidiar intervenções em projetos, programas e instituições que trabalham com a população alvo; capacitando estudantes e profissionais para atuação em Psicologia Comunitária; promovendo cursos de capacitação, extensão e especialização, seminários, palestras que integram os resultados das pesquisas com a prática.
Projeto Escola Aberta
Esta é uma iniciativa para modificar o quadro que demonstra o crescimento do número de jovens envolvidos direta ou indiretamente em casos de violência, expostos às mais variadas situações de risco. Está provado que, principalmente, nas comunidades mais carentes, grandes partes dos casos ocorrem aos finais de semana, quando os jovens acabam ficando quase sem opções de lazer na comunidade em que vivem. Por isso, trazemos uma alternativa que vai além de abrir portas. Abre horizontes e barra o caminho da violência entre os nossos jovens. E qual é esta alternativa?
Usar os espaços físicos das escolas estaduais nos finais de semana, oferecendo atividades desportivas, artístico e sócio culturais aos jovens e à comunidade é a proposta que a Secretaria da Educação do Estado do Rio Grande do Sul, juntamente com a UNESCO, apresenta para a sociedade gaúcha. É o Projeto Escola Aberta para a cidadania. Em 2005, 150 estabelecimentos de ensino da rede pública estadual distribuída em 84 municípios em todas as regiões do Estado, movimentaram 130 mil pessoas a cada mês. Neste ano, as Escolas Abertas do Estado que totalizam 110 no interior, e 52 na Região Metropolitana, que integram convênio entre MEC, Secretaria Estadual da Educação (SEC) e UNESCO, estabelecido em setembro de 2005. Atualmente, 91 municípios gaúchos possuem Escolas Abertas que têm como objetivo principal a inclusão social.
Objetivos:
Diminuir os índices de violência, principalmente, nas comunidades mais carentes; fortalecer o papel da escola como pólo irradiador de cultura;
Fortalecer as ações políticas e pedagógicas das escolas e comunidades envolvidas;
Aproximar escola e comunidade;
Envolver os jovens na elaboração e na execução do projeto preparando-os para um melhor exercício da cidadania.
Provocar mudanças nas relações da escola com a sociedade
Políticas no Estado do Rio Grande do Sul
Em 1996, a Secretaria Municipal de Educação celebra convênio com o Programa de Pós-Graduação em Sociologia, do Instituto de Filosofia E Ciência Humanas da Universidade do Rio Grande do Sul, buscando uma ação integrada para realizar pesquisa sobre a violência na rede de escolas e construir ações coletivas para redução do fenômeno. Uma das peculiaridades dessa modalidade de ação reside no estabelecimento de parcerias com a Universidade para a elaboração de diagnostico inicial que deveria subsidiar o conjunto de ações. Segundo os idealizadores do convênio, a própria atividade de pesquisa, conduzida pelas equipes da SMED e da Universidade, estava aliada à tentativa de “converter a violência de um fator particular e interno ao estabelecimento escolar em um fator social e político.
Os resultados desse estudo foram publicados em livro (Tavares, 1999) e indicaram, pelos dados coletados, que as agressões à pessoa perfaziam 59% das ocorrências (agressões, brigas, ameaças a professores, insultos, furtos). O restante estava diretamente ligado a violência contra o patrimônio.
No âmbito do município de Porto Alegre temos como exemplo o Programa Prevenção à Violência nas escolas municipais, do ano 2000, que prevê a criação de Fórum Municipal integrado por representantes de vários organismos: as várias secretarias municipais afetadas aos objetivos do programa, o Ministério Publico, Conselho Tutelar, Conselho Municipal de Educação, Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e associações da sociedade civil como a Ordem dos Advogados do Brasil. Além de reuniões mensais, o fórum promoveu eventos em escolas, participou de reuniões e apoiou projetos desenvolvidos nas unidades escolares sob responsabilidade de coordenadores culturais que têm por tarefa promover a cultura, executando atividades e projetos que decorreriam de interesses coletivos das escolas.
Anexo:
Especialistas pedem políticas públicas contra violência na escola
Em audiência publica na comissão de Educação e Cultura, nesta terça-feira, especialistas concordaram que medidas de repressão não bastam para conter agressões físicas ou psicológicas nas escolas brasileiras. O pesquisador Renato Alves, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), disse que toda a comunidade deve ser convidada a pensar políticas publicas para enfrentar o problema. A construção de uma cultura de paz e de direitos, segundo ele, implica a abertura do dialogo e o respeito às diferenças. Desde 2008, o combate à violência em escolas de 13 cidades brasileiras, passa pelo ensino de uma cultura de paz, adotada em disciplinas especificas ou projetos educacionais mais amplos. O diretor do projeto Paz nas Escolas, João Roberto Araujo, ressaltou que crianças e jovens precisam aprender a lidar com emoções como raiva e ciúme. A premissa é a de que a violência na escola decorre da violência da sociedade. Portanto, devemos ir alem de só pensar na repressão e em ações sociais. “É preciso atuar num terceiro eixo, que é fazer a alfabetização emocional, a educação para as emoções”, argumento.
Um grupo de pesquisadores trabalha na definição de políticas publicas para combater o problema da violência escolar no Distrito Federal. Não se trata apenas da violência “dura”, como roubos, furtos e agressões físicas, mas também da violência simbólica, ou seja, agressões verbais, furtos e agressões físicas, mas também da violência simbólica, ou seja agressões verbais, atitudes hostis a questões de gênero, raça, opção religiosa ou sexual. Os números que expõem a realidade escolar do Distrito Federal são um retrato que pode ser pintado em qualquer outra parte do pais. Realizada pela Rede de Informação Tecnológica Latino- americana (Ritla) a pedido da Secretaria de Educação distrital, a pesquisa feita com dez mil alunos e professores a partir da quinta série do ensino fundamental da rede publica expõe que a maioria já viu algum tipo de violência ou mesmo sofreu discriminação. A coordenadora da pesquisa, Miriam Abramovay, lembra que a violência nas escolas reflete problemas internos da sociedade, como o machismo. Atualmente, há duas vezes mais professoras mulheres do que homens, nos ensino fundamental e médio. “Na medida em que essa profissão foi se tornando mais feminina, ela foi sendo desvalorizada – o que não é uma coisa que acontece só no Brasil”, destaca a socióloga em entrevista à Rede Brasil. Além disso, há questões pré-concebidas sobre trabalhos que cabem aos meninos e que são para meninas. Miriam Abramovay exemplifica com a questão da resistência física, em que se acredita que “as meninas não estão aptas”. Com isso, ate hoje as garotas que jogam futebol são estigmatizadas. “Independentemente de a menina ser lésbica, isso não importa, é uma forma de xingamento, de desrespeito, de olhar a sexualidade como se ela pudesse ser uma só”. Dois em cada três alunos presenciaram preconceito pela questão sexual e mais da metade dos professores confirma o fato.
Da visão machista resulta que as meninas “tem um comportamento tido muitas vezes como masculino na sua forma mais brutal”. Algumas delas começam a levar armas para as escolas e ate a formar pequenos grupos que imitam gangues. Viram agressão física na escola 69% dos alunos e 71% dos professores, percentual parecido ao de roubos e furtos. Um em cada três alunos flagrou o porte de armas brancas, numero similar ao de docentes. As regionais de ensino do Distrito Federal analisam os resultados entregues pela Ritla e estão discutindo políticas publicas para o setor. Alem disso, professores passarão por cursos sobre violência. Miriam Abramovay, a partir da pesquisa atual, sente a necessidade de um levantamento sobre como a violência influencia na aprendizagem. “Nossos jovens precisam de acompanhamento social, não se reconhecem a juventude e a adolescência na nossa sociedade. Isso e um dos grandes dramas da escola, que fala uma linguagem completamente adulta, que não chega aos alunos”.
Projeto torna obrigatório detector de metal em escolas
A Câmara analisa o Projeto de Lei 3585/08, do deputado Waldir Neves (PSDB-MS), que torna obrigatória a instalação de detectores de metais nas escolas da rede pública. Segundo a proposta, isso será obrigatório nas escolas com mais de 500 alunos por turno e nas cidades com mais de 100 mil habitantes. O objetivo é aumentar a segurança e prevenir praticas de violência na escola. De acordo com o deputado, diante dos elevados índices de violência nas escolas "é imperioso e urgente coibir a entrada de armas de qualquer tipo, e para isso é importante dotar todos os centros de ensino de equipamentos modernos.
Waldir Neves complementa que, além de alunos delinqüentes, as grandes instituições de ensino nas maiores cidades se tornaram alvos de pessoas vinculadas ao tráfico de drogas.
Pesquisas de Campo: a realidade do dia-a-dia na escola
Escola Estadual
Direção e orientadoras educacionais têm visões diferentes
Algo que chamou a atenção em nossas visitas à escola, foi a divergência existente entre a direção e as orientadoras educacionais com referência ao tema. Vamos expor abaixo algumas das observações do Professor L. , vice-diretor responsável pelo turno da noite.
- Violência verbal é fato corriqueiro na escola. Violência física não é rara.
- Conflitos na escola evoluem. Alunos tem maior noção dos direitos (criança e adolescente) e desrespeitam os professores, que muitas vezes não ousam responder para não serem “enquadrados” pela legislação.
- Desintegração familiar reflete no comportamento na escola. Já houve casos de pais que, chamados à escola pra a resolução de um conflito, argumentaram, a respeito do próprio filho: “Esse aí só matando!”.
- Não há contestação política por parte dos alunos, como havia há alguns anos; há um teste contínuo dos limites da escola e dos professores na questão disciplinar.
- Alguns alunos já deram depoimentos que pretendem mesmo tornarem-se bandidos. Isso porque suas referências são pais e familiares que atuam na criminalidade.
- Álcool e drogas estão presentes em grande parte das famílias.
- A cidade de Alvorada tem mais de 17 mil famílias abaixo da linha da pobreza e isso torna as crianças muito vulneráveis. Muitos vão à escola só para usufruírem da merenda escolar.
- Citou a ocorrência de caso semelhante ao “Caso Geise”, da UNIBAN. Uma aluna de 14 anos foi à escola com uma microssaia (situação até certo ponto comum, relatou). Na situação descrita, a mãe, chamada para avaliação da conduta da aluna, apareceu com uma saia tão curta quanto a da filha, o que criou uma situação embaraçosa, de difícil resolução.
L. citou algumas iniciativas tomadas para buscar entendimento entre alunos, pais, professores e comunidade:
- Projeto Escola Aberta: a Escola teria sido pioneira no RS, com excelentes resultados. A violência externa e a violência entre os alunos diminuíram.
- A situação de alguns alunos passou a ser acompanhada de forma mais próxima, e os casos resolvidos individualmente.
- Foram criadas atividades para a ocupação dos alunos em turno integral.
Direção e orientadoras educacionais têm visões diferentes
Orientadoras: Profª R. e Profª S.
- Professores, de maneira geral, não querem realmente resolver os problemas dos alunos; pedem logo a expulsão de alunos “problemas” para resolver o “problema da sala” ou “da escola”. Foi relatado o caso de um menino de 12 anos que tinha sérios problemas na escola. Como não havia retorno aos chamados à família, as professoras resolveram ir até a casa do mesmo. Chegando lá depararam-se com uma situação desesperadora: num pequeno casebre sem nenhuma infra-estrutura, o menino vivia com sua avó, cega e sem condições de trabalhar. Ele era o único responsável pelas rotinas da casa e pela comida que os dois iriam se alimentar. Isso as deixou consternadas e, através da prefeitura municipal, encaminharam os dois para a assistência social do município. O menino tem demonstrado sensível diferença de atitudes na escola.
- Principal problema dos alunos é a carência de amor, atenção, carinho por parte da família. Famílias negligentes e muitas vezes desestimuladoras do ensino escolar.
A todo momento, as duas professoras tentaram desfazer a imagem criada pelo vice-diretor, alegando que é rara a violência contra os professores e entre os alunos. Mesmo quando há, não é de grande repercussão. Afirmaram desconhecer o “caso da microssaia”. Para as orientadoras, a principal arma dos professores contra a violência escolar, deve ser sua capacidade de conhecer o “lado humano” dos alunos. Enumeraram projetos que vêm contribuindo para a diminuição de atitudes violentas:
- Projeto Remo, no qual alunos com problemas sociais e disciplinares recebem bolsas para treinarem no Grêmio Náutico União (GNU), em Porto Alegre. Ali, aprendem e exercitam o remo. Uma ex-aluna da escola hoje é atleta do GNU. Alunos que já participaram melhoraram seu rendimento escolar.
- Projeto mãos-verdes, que trabalha questões ambientais com os alunos. Alguns deles, nas mesmas condições do projeto anterior, vão “a campo”, conhecer melhor os problemas de áreas como o rio Gravataí, que corta a cidade de Alvorada, o lago Guaíba, o parque Itapuã, entre outros.
- Projeto Recreio Orientado, no qual orientadoras estimulam as crianças a brincarem de forma organizada durante o recreio. Ação dimunuiu brigas e lesões durante o recreio.
- Projeto Pais voluntários, que incentiva pais de alunos e membros da comunidade a contribuírem com trabalho voluntário para reformas e melhorias constantes na Escola. Também atuam na horta da escola, podendo levar hortigranjeiros para casa.
- Brigada presente. Um posto da Brigada Militar permanente na escola, com um soldado e um Sargento.
Finalizaram pregando que “Os Professores não estão preparados para intregar ‘seres humanos reais’!”.
Direção e professores são unânimes em todas as questões
Diretora R. , vice-diretoras J. e M., e Professoras G. e Â.
- Problemas com tráfico de drogas. O tráfico é muito forte na região,e é um dos maiores “concorrentes” da escola.
- A Violência é muito real, muito próxima de todos. É uma das regiões mais violentas da capital.
- Os professores, em várias situações, ficam desencorajados a cobrarem dos alunos, pois podem estar “comprando briga” com algum familiar violento.
- Grande parte das famílias dos estudantes vivem em condições muito precárias.
Na visão global das professoras, a violência na comunidade e a condição familiar influem negativamente no aprendizado das crianças e adolescentes.
Alguns projetos, em parceria com entidades como Associação dos Moradores, Escola de Samba, Instituição Maçônica e Rotary Club foram citados como passos importantes na busca de entendimento com os alunos e com a comunidade:
- Projeto Teatro, Projeto Web Rádio, Projeto Jornal. Todos fazem parte do Projeto Para uma Cultura de Paz. O projeto se propõe a realizar programas de rádio web, jornais escolares, documentários e peças de teatro com os alunos adolescentes numa ação de protagonismo juvenil, em uma tentativa de criar alternativas para as vidas dos jovens, tão sujeitos à ação dos traficantes.
- Parcerias com instituições não-governamentais. Todo o tipo de organização é procurado pela escola, desde entidades populares, como Escola de Samba e Igrejas, até mais elitizadas, como Rotary e Maçonaria.
- Medicina familiar e cestas básicas. Em parceria com a Maçonaria está sendo criado um ambulatória dentro da escola, para atendimentos médicos e odontológicos, inclusive para as famílias dos alunos. Também com a ajuda da Maçonaria e do Rotary, são distribuídas frequentemente cestas básicas, a fim de diminuir um pouco a carência por alimentação.
Diminuição sensível na violência interna
Conforme o relato das professoras, os profissionais estão sendo muito mais respeitados pelos alunos após o incremento dessas iniciativas (principalmente nesta década). A comunidade tem de fato “incorporado” a escola, sentindo-se protagonista no processo do ensino e da educação.
A frase final deixada pelas professoras entrevistadas foi sintomática: “O que esperar de crianças que adolescem entre bombas? Pombas?”
Bibliografia
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