Aprendizagem
De Psicologia da Educação
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Introdução
Na chamada educação formal as teorias psicológicas de aprendizagem são numerosas e variadas, mas convergem na concepção básica de que os processos de aprendizagem desempenham um papel central no desenvolvimento do ser humano. Não há consenso sobre o conceito de aprendizagem! Não obstante, alguns estudiosos sistematizam certos preceitos para “nortear” o trabalho do professor sem contudo estabelecer definições absolutas, abaixo segue um esquema que Gagné desenvolveu para exemplificar o processo mais comum em que se dá a aprendizagem, que segundo ele ocorre em oito etapas ou eventos:
I) Motivação (ou expectativa);
II) Apreensão (percepção do material e distinção deste de outros estímulos que competem por sua atenção);
III) Aquisição (o sujeito codifica o conhecimento);
IV) Retenção (o sujeito armazena o conhecimento na memória de curto e longo prazo);
V) Rememoração (recuperação do material);
VI) Generalização (o material é transferido para novas situações, o que permite que o sujeito desenvolva estratégias para lidar com elas);
VII) Desempenho (essas estratégias são postas em prática);
VIII) Feedback (o sujeito obtém conhecimento dos resultados).
Esses eventos são tanto de ordem interna, quanto externa e segundo Gagné, quando houver uma “falha”na aprendizagem ela ocorrerá em um desses oito níveis e cabe ao professor averiguar em qual deles está ocorrendo.
A histórica tensão entre natureza e experiência no entendimento do aprender
As distintas concepções de aprendizagem da psicologia contemporânea foram antecedidas e influenciadas por diferentes formas de conceber o modo como um ser humano adquire conhecimento sobre si mesmo e seu entorno. É possível distinguir historicamente três fases definidoras e relevantes para o desenvolvimento de conceitos contemporâneos de aprendizagem da psicologia. Primeiramente, destaca-se a influência do filósofo empirista inglês John Locke (1632-1704). Locke, um dos ideólogos do liberalismo clássico, defendia a inexistência de um conhecimento a priori, ou seja, o indivíduo nasceria “em branco”, nas palavras de Locke: uma “tábula rasa”. Nessa concepção, todo e qualquer saber adquirido é proveniente da experiência, resultado do contato com o exterior: este é o princípio do empirismo. Logo, a natureza, o que é inato, possui papel desprezível no ato de aprender. A experiência, por sua vez, é o determinante.
No século XIX, as idéias do naturalista Charles Darwin (1809-1882) influenciaram o entendimento dos homens no sentido oposto: a natureza passou a ser determinante. Sua obra “Sobre a origem das espécies por meio de seleção natural” (1859), lançou as bases das investigações científicas contemporâneas de seres vivos e foi de encontro à teoria criacionista defendida pela Igreja Católica. O evolucionismo foi transposto para o entendimento dos homens e sociedades, somando-se às teorias de Malthus e Spencer. Dessa forma, tornou-se possível legitimar – falaciosamente – que certos indivíduos, oriundos de certas “raças”, possuiriam mais capacidade de aprender e desenvolver-se socialmente do que outros. Essas idéias foram empregadas para legitimar a dominação imperial européia sobre outros povos.
Em terceiro lugar, o Behaviorismo de inícios do século XX – já nos marcos da psicologia constituída como disciplina autônoma – deslocou novamente a tensão no entendimento do aprender para a experiência. A influência dos estudos de Ivan Pavlov (1849-1936), responsável pelo desenvolvimento do “condicionamento clássico” – através da associação de uma resposta do organismo a um estímulo exterior prévio – possibilitou que estudos posteriores pensassem a psicologia como forma de prever e controlar o comportamento dos indivíduos. A experiência, nesta concepção, tornou-se determinante para realizar mudanças no comportamento do indivíduo.
Por fim, cabe ressaltar que o entendimento atual da psicologia é marcado por uma posição de interação entre a experiência e a natureza. É impossível desprezar os conhecimentos trazidos pela genética, que denotam a singularidade natural de cada indivíduo, por outro lado, os estudos também respaldam a idéia de que os seres humanos típicos, independentes de etnia, têm capacidades idênticas ou similares. Como exemplo, é possível destacar a aprendizagem da fala. Crianças que vivem em um meio onde são estimuladas a desenvolver a fala, adquirem esta habilidade mais rapidamente do que crianças que vivem em um ambiente onde são pouco estimuladas, entretanto, isso não significa que as últimas sejam menos capazes “naturalmente”, ou seja, trata-se de uma questão de ritmo e não de capacidade. De forma análoga é o ensino de jovens e adultos: quando motivados e estimulados com conteúdos que relacionam-se com seu cotidiano, ou seja, com suas experiências prévias, é possível obter um aumento no ritmo de aprendizagem e, dessa forma, potencializa-se a capacidade de aprender inerente a todos nós.
Alfabetização de Adultos – Projeto “O prazer de ler e escrever de verdade”
Este projeto foi coordenado pela Profa. Esther Grossi na periferia de Porto Alegre, objetivando alfabetizar 1000 mulheres adultas. Dentre as conclusões do projeto, pode-se destacar:
Alfabetizar adultos não é fácil.
• É preciso clareza, objetividade e transparência;
• Da população brasileira adulta atual, 19 milhões são analfabetos absolutos e 37 milhões são analfabetos funcionais;
• São necessários grandes investimentos;
Alfabetizar adultos é tarefa para titulados.
• Não bastam voluntários bem intencionados;
• Tarefa facilitada com as crianças em famílias com acesso a leitura;
• Tarefa dificultada com os adultos sem acesso a leitura.
Alfabetizar em pouco tempo é condição necessária.
• Em torno de 3 meses é o tempo sugerido;
• A frustração é a maior causa de evasão de alunos;
• Estabilidade de manter a turma sem evasão é importante;
• Defender a permanência de todos os alunos é importante para o sucesso do grupo.
Alfabetização imersa num contexto cultural
• Relacionar a vida cotidiana dos alunos com as palavras que serão ensinadas;
• Aproximar as situações cotidianas com os tópicos apresentados em aula;
• Dinâmicas diferentes como ir ao cinema, ao teatro, ver obras de arte, ir ao futebol, e espetáculos musicais provoca os alunos a refletir e motivam a criatividade. “Ler o mundo junto com as letras”.
Por que 1000 mulheres?
• Alfabetizar poucos adultos é uma tarefa relativamente fácil e vários programas deste tipo estão em andamento;
• O objetivo do MEC era a alfabetização de um numero significativo de adultos para o oferecimento de orçamento compatível;
• O acompanhamento era feito próximo dos locais onde moravam os adultos alunos, o que certamente facilitou no sucesso do programa.
Acompanhamento semanal do planejamento dos professores
• Cada aluno era acompanhado “de perto” pelos professores, o que fornecia um feed back para o planejamento;
• Todos os sábados os professores trabalhavam em pequenos grupos para a troca de experiências.
Vinte alunos não se alfabetizaram em 3 meses
• No universo de 1000 alunos, apenas 20 não se alfabetizaram em 3 meses;
• Foram necessários mais 2 meses para esses 20 alunos poderem se alfabetizar;
• Sugere-se que os motivos estejam ligados principalmente aos problemas sociais vividos pelos alunos;
• A conclusão é de que todos são capazes de se alfabetizar com o devido acompanhamento.
Aprendizagem - A teoria dos estágios em Piaget
Piaget se propôs, em seus trabalhos, a explicar como funcionava o aprendizado das crianças, em um sistema onde relacionou tanto a questão da natureza biológica, que era um ponto de vista bem difundido em sua época, como a relevância da experiência no processo de aprendizagem. Piaget via, de certa maneira, as crianças como cientistas. A partir de experiências na vida, elas constroem teorias da realidade, chamadas esquemas.Quando essa teoria não consegue mais explicar o mundo, ela é modificada, mantendo elementos anteriores a assimilando novos,que chamamos acomodação.
Ao estudar o comportamento e o aprendizado das crianças, dividiu a infância em estágios cognitivos.Os estágios são sensório-motor (do nascimento aos 2 anos), pré-operatório (dos 2 aos 7 anos), operatório-concreto (dos 7 aos 11 anos) e operatório-formal (11 anos ou mais). No sensório motor, a criança começa a relacionar um ato com a conseqüência dele, ainda não tem a percepção de que os objetos continuam existindo mesmo quando deixam de estar presentes em nosso campo de visão. Durante o processo, passa a perceber que os objetos continuam existindo, mas se o objeto é sempre guardado em um lugar específico, a criança irá procurá-lo sempre nesse lugar, mesmo que veja que ele foi guardado em outro lugar.
O estágio pré-operatório marca o começo do uso de símbolos, porém seu raciocínio ainda não é totalmente lógico. Tem dificuldades em compreender o ponto de vista dos outros e a conservação de número e da matéria, chama-se isso de egocentrismo.Em experiências, ao ser questionado sobre como será a visão de outra pessoa que está posicionada de um local diferente, a criança ao responder colocará a visão do local de onde ela visualiza como a correta. Também ocorre que alteração da forma da matéria de um objeto faz com que ela pense que a matéria aumentou, não tendo a consciência de que ao aumentar uma dimensão, diminui-se a outra.
No estágio operatório-concreto, já se tem uma idéia formada sobre a conservação e dimensão.Porém ainda não consegue se expressar de maneira abstrata, isso vem com estágio operatório formal, onde contará com todas as possibilidades de um ser humano adulto. Essa divisão etária poderá sofrer alterações, pois a classificação serve mais como parâmetro.
Críticas as teorias de Piaget e alternativas
O psicólogo suíço Jean Piaget criou idéias revolucionárias na educação, porém sua obra contém erros. Começando por ter se aventurado a classificar os estágios de desenvolvimento de uma criança. Críticos de Piaget geralmente discordam disso, alguns consideram que os estágios de Piaget devem ser totalmente ignorados e eles estão longe de existir na realidade, os menos radicais consideram que existem estágios de desenvolvimento cognitivo, mas eles se desenvolvem independentemente. Estes últimos são chamados de neo-piagetianos.
Considerando ambas as correntes ideológicas enxerga-se em comum a relação das experiências com o desenvolvimento cognitivo, ou seja uma criança muito estimulada pode se desenvolver mais rapidamente que uma que é pouco estimulada. Tranqüilamente uma criança muito boa em xadrez pode ganhar de um adulto destreinado. Resumidamente pode se dizer que a única diferença entre uma criança e um adulto é a base de conhecimento que ambos carregam, sendo a do adulto bem maior ele geralmente tem mais facilidade em executar tarefas.
Provavelmente o maior pecado de Piaget foi o de desconsiderar a influencia da sociedade e do ambiente cultural da criança. Crianças que já estão na escola geralmente tem maior facilidade em executar as tarefas piagetianas do que outra criança de mesma idade que não estude. O exemplo mais comum de que isso pode existir é o da fala, uma criança que convive mais com adultos e que é mais estimulada a falar, aquelas coisas bobas que os pais sempre fazem: “Mã-mãe, diz mã-mãe!”; fazem diferença significativa no aprendizado da criança.
Referências
FONTANA, DAVID. Psicologia para professores. 2.ed. São Paulo: Manole, 1991.
SAHAKIAN, WILLIAM S.. Aprendizagem : sistemas, modelos e teorias. 2.ed. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980.
ATKINSON et al. Introdução à psicologia de Hilgard. 13ª ed. Porto Alegre: ArtMed, 2002.
BEHAVIORISMO. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Behaviorismo. Acesso em: 26 mai. 2007.
CHARLES DARWIN. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin. Acesso em: 26 mai. 2007.
GROSSI, ESTHER PILLAR. Ensinando que todos aprendem. In: Revista do GEEMPA. Porto Alegre, RS N. 6 (out. 1998), p. 3-8 : i.
JOHN LOCKE. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Locke. Acesso em: 26 mai. 2007.
RAMOZZI-CHIAROTTINO, ZÉLIA. Piaget : modelo e estrutura. Rio de Janeiro

