Bullying*

De Psicologia da Educação

Tabela de conteúdo

Introdução

O fenômeno do bulliyng vem sendo estudado há muito pouco tempo nas escolas brasileiras embora exista nos ambientes escolares e fora deles já faz bastante tempo.

Caracterizado por agressões físicas ou verbais bem como ameaças, só serão considerados bulling se forem feitos de maneira sistematicamente repetidas e se surtirem efeito de intimidação. Basicamente, o agressor tenta intimidar a(s) sua(s) vitima(s) por meio de atos violentos, difamações, humilhações, outros.

O fenômeno se expande e agrega recursos tecnológicos para uma maior abrangência, extrapolando assim o ambiente escolar e ganhando maior visibilidade, uma dos principais objetivos dos agressores. Com a utilização desses recursos, vítimas que antes sofriam somente em ambientes definidos como a escola, por exemplo, agora sofrem com difamações e insultos que são divulgados de maneira virtual, tornando a agressão mais abrangente.

O Bullying

O ato do bulliyng se caracteriza principalmente por ser realizado de maneira repetida e sistemática. Não é uma briga entre alunos onde um se incompatibiliza com o outro por qualquer motivo, é um ato de agressão com contornos de extrema crueldade onde o agressor tenta intimidar a sua vítima e consolidar o seu poder diante do grupo, fazendo os seus atos publicamente para, além de intimidar a vítima direta, fazê-lo também aos espectadores e aos seus seguidores.

As causas dessa violência podem ser inúmeras. Segundo Lopes (2005), incluem fatores econômicos e sociais, culturais, fatores relacionados ao temperamento do indivíduo, às influencias familiares, de colegas, da escola e da comunidade.

O bulliyng pode ser de três grandes tipos: direto-físico, que inclui agressões físicas, roubar ou estragar objetos dos colegas, forçar comportamentos sexuais, obrigar a realização de atividades servis, ou a ameaça desses itens; direto-verbal, que inclui insultar, apelidar, “tirar sarro”, fazer comentários racistas ou que digam respeito a qualquer diferença no outro; e indiretos que incluem a exclusão sistemática de uma pessoa, fazer fofocas e boatos, ameaçar da exclusão do grupo com objetivo de obter algum favorecimento, ou, de forma geral, manipular a vida social do colega. (MARTINS, 2005).

Lopes (2005) acena com uma nova modalidade de bulliyng que se usa da tecnologia (Celulares, internet, etc) para difamar, ofender ou divulgar atos violentos para pessoas de uma determinada comunidade. É o Cyberbulliyng.

Existem vários atores envolvidos nesse tipo de agressão; as vítimas, os agressores e os espectadores ou testemunhas.

As vítimas são de natureza variada, sendo escolhidas pelo agressor sempre na certeza de ele estar em uma situação de supremacia, ou seja, as vítimas sempre serão mais fracas, pertencentes a minorias étnicas, de classe sócio-econômica inferior a do agressor, fora dos padrões de beleza da cultura dominante ou pertencente a um credo diferente do considerado “normal”. As vítimas podem se tornar agressores se houver alguma tendência à violência em suas personalidades, tomando atitudes agressivas como uma forma de vingança aos abusos recebidos em outras épocas.

Os agressores são em sua maioria pessoas com um determinado nível de liderança e que lançam mão disso para intimidar colegas com menor penetração social no meio para conseguir perpetuar o seu domínio do grupo ou obter vantagens materiais sobre as vítimas.

As testemunhas são toda e qualquer pessoa que estiver assistindo a agressão por mero acaso ou por vontade própria (seguidores do agressor ou amigos da vítima) e que invariavelmente sofrem consequências dessa observação.

As Sequelas

Somos levados a crer que só as vítimas da violência é que sofrerão as consequências desse ato. Tendemos a pensar de maneira maniqueísta achando que somente há “mocinhos e bandidos” envolvidos no fenômeno.

Segundo Lopes (2005) vítimas, autores e testemunhas de bulliyng tem inúmeras sequelas dessa forma de violência. Quadros depressivos, síndrome de pânico, ansiedade, são comuns nos relatos de estudantes que sofrem ou que testemunham atos de bulliyng. Alvos, autores e testemunhas enfrentam consequências físicas e emocionais de curto e longo prazo as quais podem causar dificuldades acadêmicas, sociais, emocionais e legais. (LOPES, 2005)

Aos olhos do professor, a agressão pode não parecer tão explícita assim. A maneira cruel como as crianças agem é prejudicial para a auto-estima de cada indivíduo, para o senso de justiça dos agressores e para o senso de cidadania dos agredidos comprometendo o projeto de uma sociedade justa, pois a violência nas escolas pode acarretar danos irreversíveis aos futuros cidadãos. (OLIVEIRA & VOTRE, 2005).

O profissional de educação deve estar atento aos alunos agressivos ou violentos, zombadores e maldosos pois em alguns casos o que poderia ser interpretado como uma brincadeira própria da idade pode ser fonte de grande sofrimento e constrangimento a colegas mais tímidos, calados ou mais fracos, normalmente mais novos, com prejuízo sócio-educacional e emocional. (FANTE, 2005).

Medidas Anti-Bullying

É dever da escola, como instituição formadora, diagnosticar e intervir em situações de discriminação, violência verbal e física, que se forem repetidas de forma sistemática podem levar à prática de bulliyng. Foi baseado nessa maneira de pensar que o professor Aluízio Pedersen da escola Padre Reus na zona sul de Porto Alegre, resolveu atacar o problema de frente com debates, campanhas, concursos de vídeos e cartazes referentes ao tema fazendo com que a escola venha a se tornar uma referência quando se trata de bulliyng.

Em visita a escola, o grupo se deparou com uma realidade completamente diferente da vivenciada anteriormente por seus membros que já haviam feito alguma forma de observação ou visita a outras escolas públicas. A escola Padre Reus é limpa, não há pichações do lado de fora da escola nem nos corredores internos, segundo o coordenador dos projetos, fruto de muito trabalho de conscientização de que o espaço escolar é de todos e não de uma minoria que quer se impor aos demais através de atos violentos e marcas de gangues nos corredores. A arquitetura da escola não impõe aos alunos uma condição de enquadramento, com corredores não muito amplos mas fáceis de serem percorridos e salas de aula com janelas maiores do que as maiorias das escolas públicas fazendo com que o aluno se beneficie mais de luz solar no local de sua principal atividade de ensino.

Ciceroneados pelo Prof. Aluízio, passeamos pelos corredores admirando os cartazes alusivos à competição de vídeos escolares que será realizada na escola, todos com técnica publicitária, versando sobre homofobia, preconceito racial e, principalmente o bulliyng; com motivos, cores e padrões escolhidos pelos próprios alunos.

No jornal Zero Hora do dia 19 de maio de 2009, observamos a matéria em que são expostos, além do trabalho realizado pela escola Padre Reus, outras medidas como a da escola Rafael Pinto Bandeira que tem o chamado “cantinho do bem-querer”, onde agressores e vítimas são colocados frente a frente para, de maneira civilizada, resolverem os seus problemas. Há também uma medida realizada pelo Colégio Israelita em que são ministradas aulas de cidadania para os alunos de primeira a quarta séries e os professores das demais séries oferecidas pelo colégio têm treinamento específico para lidar com casos de agressão.

A ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção a Criança e a Adolescência) fundou o Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, visando à diminuição da violência com estudantes entre a 5ª e 8ª série do fundamental.

Conclusões

O conceito de bullying não é aceito de maneira hegemônica entre os pesquisadores da área. Para Deborah Christina Antunes e Antônio Álvaro Soares Zuin (2008), o agrupamento de diversos tipos de violências dentro do conceito de bullying é falho e mascara as causas primeiras do fenômeno. Entretanto, este conceito amplamente utilizado pelos intelectuais possui validade no momento em que tipifica as formas de violência e as sistematizas, permitindo uma forma de análise dentro das categorias. Entretanto, é necessário que ao tratar-se do assunto busque-se as raízes do fenômeno, não permitindo a coisificação da violência e suas causas. Não basta saber que o bullying pode ser causado pela violência que o agressor sofre em casa, etc, é preciso que se busque os motivos da agressão sofrida, a forma como ela se manifesta no filho e como a essa violência se relaciona com a sociedade. É necessário o entendimento de que o bullying é formado por uma processo dialético, em que ao mesmo tempo que serve de expressão para violências pessoais, essas mesmas só podem existir como expressão de violências coletivas.

A educação como forma de docilização do indivíduo serve ao sistema. Portanto, não pode o educador trabalhar somente com a cultura da paz, educando a partir da idéia de que não se faz aos outros o que não se quer a si mesmo. A educação deve servir para a formação e libertação do indivíduo, permitindo que este tome as rédeas de sua vida pública e privada. (ADORNO, 1971; 2003)

Referências

ADORNO, T. W. Educação e Emancipação (W. L. Maar, trad.). Rio de Janeiro, RJ. Paz e Terra. (Original Publicado em 1971)

ANTUNES, Deborah Christina. ZUIN, Antônio A. S.; Do Bulliyng ao Preconceito: Os Desafios da Barbárie à Educação. Psicologia & Sociedade, 20 (1) 33 – 42, 2008.

FANTE, Cléo. Fenômeno Bulliyng Como Prevenir a Violência na Escola e Educar Para a Paz. 2.ed. Campinas: Versus. 2005.

LOPES, A. A. Neto. (2005). Bulliyng: Comportamento Agressivo Entre Estudantes. Jornal de Pediatria, 81(5), 164-172.

MARTINS, M. J. D. (2005). O Problema da Violência Escolar: Uma Clarificação e Diferenciação de Vários Conceitos Relacionados. Revista Portuguesa de Educação. 18(1), 93-105.

OLIVEIRA, Flávia Fernandes de. VOTRE, Sebastião Josué. Bulliyng nas Aulas de Educação Física. Revista Movimento, Porto Alegre, v.12, n.02, p.173–197, maio/agosto de 2006.

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