Bullying -

De Psicologia da Educação

O que é Bullying?


Definição do termo:


Bullying é um termo que vem do inglês e como não existe uma tradução na língua portuguesa capaz de expressar as várias situações de Bullying, relacionamos algumas ações que traduzem esse termo: -Agredir; -divulgar apelidos; -gozar; -sacanear; -amedrontar; -dominar; -humilhar; -roubar; -assediar; -empurrar; -ignorar; -quebrar pertences; -aterrorizar; -encarnar; -isolar; -zoar, -bater; -excluir do grupo; -intimidar; -ofender; -chutar; -fazer sofrer; -perseguir; -discriminar; -ferir; -entre outros


A palavra bullying, deriva do verbo inglês bully, que significa "usar a superioridade física para intimidar alguém". Como adjetivo, bully refere-se a "valentão" ou "tirano".


Definição do ato e visão geral:


Bullying é como se caracterizam todas as formas de atitudes agressivas intencionais e recorrentes praticadas, sem uma motivação evidente, por crianças e adolescentes. Esse tipo de comportamento causa nas pessoas que são seu alvo, humilhação, dor e angústia. O Bullying afeta estudantes, pais e professores no mundo inteiro. Segundo a Abrapia (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Criança e ao Adolescente) não está restrito ao tipo de instituição: primária ou secundária, pública ou privada, rural ou urbana. Com a internet, o Bullying ganha espaço também nas comunidades virtuais aumentando ainda mais o transtorno das vítimas, já que no ambiente virtual os autores da agressão podem manter suas identidades no anonimato. A prática do Bullying é mais comum entre os meninos. Entre as meninas envolve principalmente ações de exclusão e difamação.

São vários os motivos que impulsionam o aumento das condutas de bullying em todo o mundo, entre eles estão o estímulo à competitividade e ao individualismo. Isso acontece principalmente em decorrência da pressão exercida pela família e pela escola na obtenção de resultados. Outros motivos são a banalização da violência, o desrespeito e a desvalorização do ser humano, evidenciados em diversos contextos, especialmente os veiculados pela mídia e, sobretudo, a deficiência ou ausência de modelos educativos baseados em valores humanos. Não há orientação para o respeito às diferenças, a tolerância, a solidariedade, os sentimentos de empatia ou à compaixão.

Pesquisas demonstraram que o pico entre os agressores situa-se na casa dos treze anos, enquanto que as vítimas possuem, em média, onze anos.


Pesquisas sobre bullying:


As pesquisas sobre bullying são recentes e ganharam destaque a partir dos anos 1990, principalmente com Olweus, 1993; Smith & Sharp, 1994; Ross, 1996; Rigby,1996.

A adoção universal do termo bullying foi decorrente da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em mais de 20 países.


Vítima e agressor: características gerais


A vítima de bullying tende a ser aparentemente mais frágil do que o agressor, além disso, suas características (tanto físicas quanto psicológicas) a diferenciam da grande maioria dos alunos, tornando-a facilmente identificável.

Dessa forma, características como pertencer a grupos religiosos, ser novo na escola, possuir necessidades especiais, mostrar interesses que diferem da grande maioria, tirar boas notas, ser superprotegido pelos pais, são fatores que determinam a escolha dos alunos que serão alvo de bullying.

Além disso, as vítimas, na maioria das vezes, são extremamente tímidas, possuem poucos amigos e baixa auto-estima, que é agravada pela indiferença dos adultos para com os seus problemas. As vítimas não possuem status para reagir às agressões e, algumas vezes, acham-se merecedoras de tais atos. Por serem muito inseguras, as vítimas não pedem ajuda a colegas, amigos ou professores. Com o passar do tempo, acabam tendo baixo rendimento escolar e medo de frequentar a escola.

Tanto as vítimas quanto os agressores parecem não se sentir bem no ambiente escolar, contudo são as vítimas que se sentem pior. Os agressores não se sentem bem em relação à aprendizagem e aos professores e, normalmente, apresentam um comportamento hiperativo, possuem déficit de atenção e têm personalidades autoritárias. Normalmente os agressores provêm de famílias desestruturadas, cujos pais exercem pouca supervisão sobre eles.

Acredita-se que crianças e adolescentes praticantes de bullying têm grande probabilidade de tornarem-se adultos com problemas de relacionamento, de adotarem comportamentos violentos e, até mesmo, atitudes criminosas.


Formas de Bullying


Bullying direto:Prática reincidente e insistente de violência deliberada e direta sobre outrem. Tipo mais recorrente entre homens e envolve situações de interação física real.

Bullying indireto ou bullying social: Mais comum entre mulheres, caracteriza-se pela pela exclusão social da vitima. Assume modos como: críticas às características (étnicas, de gênero, de tipo físico...) da vítima, fofocas, exclusão da vítima de espaços de sociabilidade, etc.


Cyberbullying


Prática de humilhar, ameaçar, dar apelidos maldosos pela internet. Criar perfis falsos e espalhar mentiras e difamações pela rede.

Os que praticam o cyberbullying se aproveitam da falsa sensação de anonimato para criar mentiras que se espalham com uma velocidade cada vez mais impressionante.

Com o acesso cada vez maior a computadores e a rede, o cyberbullying tem sido uma prática comum e corriqueira, e de mais dificuldade de se diagnosticar do que o bullying tradicional.

Esta modalidade tem sido apontada como das mais nocivas por assumir um carater integral na vida da vítima. A violência que antes se restringia aos muros da escola, agora, através do email e das redes virtuais, acompanha a vítima até seus espaços domésticos.


Exemplos de cyberbullying:


- Criar comunidades para humilhar alguém;

- Criar sites pessoais ou perfis falsos denegrindo a imagem da pessoa;

- Fotomontagens;

- Filmar ou fotografar agressões/situações constrangedoras e postar na internet;

- Ameaçar/intimidar por e-mail, MSN e afins.


Prevenção:


- Não autorizar estranhos no seu Orkut, MSN e afins;

- Não disponibilizar muitas fotos na internet;

- Remover o sistema de comentários em blogs e fotologs;

- Bloquear a maioria das informações de seu perfil, deixando acessível somente para seus amigos.


Casos de grande repercussão:


a) Adolescente de Richardson se suicida em frente aos colegas de classe. Jeremy Wade Delle tinha 16 anos e estudava em uma escola de Richardson, tinha sido recém transferido de uma escola de Dallas. Era considerado pelos colegas um menino quieto e introspectivo e por esse motivo era alvo de chacotas e de estranhamento. No dia 8/01/1991 Jeremy chegou atrasado a aula de inglês, e a professora, conforme procedimento padrão, pediu que ele pedisse um bilhete de autorização na diretoria. Ele voltou um tempo depois e disse: “era isso que eu queria buscar”. Sacou uma arma e antes dos colegas terem qualquer reação deu um tiro na própria boca e morreu na hora. O suicídio de Jeremy inspirou a musica homônima da banda Pearl Jam. Foi o primeiro caso de bullying com grande repercussão na imprensa, e a partir dele psicólogos começaram a realizar pesquisa sobre comportamento violento nas escolas.

b) Jovem abre fogo contra escola alemã, mata ao menos 15 pessoas e morre durante fuga. Tim Kretschmar, 17 anos havia saído a um ano da Escola Albertville. No dia 11/03/2009 entrou na sua ex escola vestido com um uniforme militar preto e começou a atirar, sem nenhum alvo fixo, atirando gratuitamente em quem passava. Matou 11 alunos e 3 professores, fugiu em um carro roubado e foi parado por policiais em um estacionamento próximo a escola. Na fuga, ainda matou mais 4 pessoas. A versão oficial diz que Tim se matou quando os policiais estavam se aproximando para prende-lo. Em outra versão, ele foi assassinado pelos policiais. Os Kretschmar, além de ricos eram considerados uma família exemplar, e o ato de Tim chocou a comunidade, que não acreditava que um menino vindo de uma família tão boa pudesse ser capaz de tamanha violência. No início, os motivos que levaram Tim a cometer essa tragédia eram desconhecidos. Porém, foram realizadas buscas na casa além de entrevistas com pessoas que o conheciam. Tim foi descrito pelos ex colegas e professores como um jovem calado, triste, mas aparentemente normal. Nas coisas de Tim, foram encontrados relatos sobre sua solidão, e o ódio que mantinha da ex escola, onde dizia que era excluido e descriminado.

c) Tragédia: Jovem se mata após boatos na internet Em março de 2007, em Ponta Grossa, no Paraná. Thiago de Arruda, estudante de Educação Física, foi atacado em uma comunidade do Orkut cuja principal missão era fazer fofocas sobre os moradores da cidade. Chamavam Thiago de “homossexual e pedófilo” na internet. Além deser ridicularizado na rede, passou a ser agredido nas ruas de Ponta Grossa. Thiago escreveu na internet( em um site que faz apologia ao suicídio) que, se as agressões continuassem, ele se mataria. Um internauta disse que ele deveria mesmo se matar e ensinou o método: inalação de monóxido de carbono. Thiago foi encontrado morto na garagem de sua casa.

d) Boato online causa morte de menina de 13 anos Megan Méier era uma menina de 13 anos que lutava contra a obesidade e a depressão. Os pais, muito rígidos, pediram que Megan se afastasse de uma colega da escola por não acreditar que esta fosse boa companhia. Um dia, no seu perfil do MYSPACE, viu que um garoto muito bonito chamado Josh Evans queria adiciona-la. Megan, que tinha baixa auto estima ficou muito feliz, e durante algum tempo ficou nas nuvens com o namorado virtual, que sempre a enchia de elogios. No dia 15/10/2006, Josh começou a mandar mensagens ofensivas, dizendo que ela não tratava bem seus amigos e por isso não queria mais ser amigo dela. Megan ficou arrasada, e no outro dia depois da escola correu para o computador para ver se Josh havia deixado outras mensagens. Josh dessa vez havia sido mais cruel, falando que ela era uma vagabunda gorda, que todos sabiam o quanto ela era má e que o mundo seria um lugar melhor sem ela. Megan saiu do computador e se suicidou. Depois de tudo, seus pais mexendo no computador encontraram as mensagens de Josh Evans, e foram atrás da sua conta para descobrir de quem se tratava. O choque foi grande ao descobrirem que Josh na verdade era uma vizinha da família, chamada Lori Drew, de 47 anos, que criou o perfil no myspace em retaliação a Megan por ter se afastado de sua filha. Mãe e filha, com ajuda de uma assistente de 18 anos tinham a intenção de humilhar Megan, pretendiam revelar na frente de todos que o namoradinho virtual de Megan não existia. O caso causou muitas controvérsias, afinal, não existia lei para o chamado cyberbullying. Durante dois anos os pais de Megan lutaram na justiça para que Lori fosse condenada, pois sabia que a menina fazia uso de antidepressivos. Em 2008, em uma decisão histórica, Lori foi condenada por três crimes e pode ficar até três anos presa. A data final para o veredicto de Lori é 2/07/2009. A série Law and order svu fez um episódio (babes – sexto episódio da décima temporada) baseado nesse caso.

f) Garoto de 14 anos se mata por causa de ofensas de colegas. Iago era estudante do ensino fundamental de uma escola na periferia de São Paulo. Devido ao seu jeito delicado e extremamente educado, era chamado de bicha, viado, apanhava dos colegas. O irmão mais novo de Iago, ao vê-lo apanhando foi chamar a professora, que disse que briga de alunos não era problema dela. Cansado dessa situação, Iago se matou, deixou um bilhete de despedida pedidndo desculpas a família, mas dizendo que não agüentava mais aquela situação.

g) Adolescente morre depois de ser espancado em colégio por causa de um corte de cabelo. Samuel tinha 17 anos e sofria constantemente com as provocações dos colegas de escola. Um dia chegou com um novo corte de cabelo, e seus colegas, começaram a dar tapas e socos na sua cabeça, pois tinham faziam essa “brincadeirinha” com todos que cortavam o cabelo. Samuel não gostou de mais essa brincadeira e apanhou ainda mais e mais forte. Os colegas ameaçaram Samuel, dizendo que se ele contasse aos professores ou aos pais eles bateriam ainda mais. O menino continuou indo as aulas, mas 3 dias depois sentiu-se mal e foi levado ao hospital pela mãe. A causa da morte foi registrada como meningoencefalite purulenta e contusão no crânio em decorrência a surra que levou.

h) Massacre: dois alunos de um colégio no Estado do Colorado mataram 12 alunos e um professor Eric Harris e Dylan Klebold de classe média, para a familia eram jovens aparentemente normais. Para os colegas de escola, meninos quietos, estranhos, diferentes e alvo de chacota de alguns colegas, por andarem sempre de preto e preferirem ficarem em frente ao computador a participar de algum esporte. No dia 20 de abril de 1999, entraram armados no Instituto Columbine e mataram 12 alunos, um professor e se mataram depois. Muito foi especulado sobre os jovens de comportamento estranho. Foi dito que eram participantes de uma gangue chamada “máfia da capa preta”, porém, essa informação foi descartada. O que se acredita é que a personalidade com tendências doentias, junto com as provocações e o isolamento dos colegas acabaram por estourar a bomba interna dos dois, que planejaram junto a execução do atentado. Os meninos deixaram uma nota, encontrada perto dos corpos: "Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir". No diario de Eric Harris, foi encontrado todo o planejamento do massacre, além de declarações de ódio como essa: Odeio todos por me excluirem de tantas coisas, e será melhor terem medo de mim", "Ódio! Estou cheio de ódio e gosto disso. A natureza humana é a morte",

i) Ataque de estudante em universidade da Virgínia mata 32 pessoas O Massacre de Virginia Tech foi um assassinato em massa que ocorreu em 16/04/2007 no Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia. Morreram 33 pessoas, incluindo o atirador, e 21 pessoas ficaram feridas. Cho Seung-Hui era um estudante sul-coreano, estava legalmente nos Estados Unidos desde1992. O possível motivo para a barbárie era o preconceito provocado pelos colegas por ele ser oriental e bastante fechado. Solitário, ele não falava muito, mas escrevia textos bizarros que preocupavam seus professores e provocavam sarcasmo entre os colegas. "Vocês me obrigaram a fazer isso", afirmou o assassino numa longa carta encontrada em seu quarto na universidade, na qual ele explica seu gesto criticando os "riquinhos", os "enganadores" e a "libertinagem”.

Mídia

Bully Beatdown(2009) Reality show da MTV americana: A idéia da série é de pegar brigoes que abusam o pessoal mais fraco e desafia-los a entrar num ring com um lutador por 2 assaltos. As vitimas de bullyingmandam videos dizendo seu caso. O apresentador vai na cidade dele, desafia o valentão pra lutar contra um lutador de verdade. Se o valentão aceitar o desafio, e ganhar a luta ganha 10 mil dólares. Se perder a luta, a vítima do bullying é que ganha a bolada.

Caminho das Índias(2009) Novela da Rede Globo de Televisão: A novela de Glória Peres tem retratado em horário nobre o drama das vitimas de bullying. Na trama, o jovem indiano Indra, é maltratado por uma turma de colegas, liderados pelo bad boy Zeca. Indra é humilhado por ser indiano, por ter um nome que termina com a letra A, por ser gentil e educado. Mesmo ficando revoltado com as agressões, Indra sabe que não adianta reclamar para os professores, pois estes, quando reclamam para os pais de Zeca, são insultados e ameaçados pela posição social da família do garoto. Zeca apronta todos os tipos de bandidagem e vandalismo, e todos os seus atos são acobertados pelo seu pai. Essa é a situação até agora, segundo sites especializados, Glória Peres pretende castigar o jovem Zeca, para dar exemplo a todos as vitimas dessa triste prática.

Everybody Hates Chris(2005-2009): Chris Rock, célebre ator e comediante da televisão, narra histórias, vivências engraçadas e desventuras de sua adolescência durante a década de 1980, a começar pela luta que teve de travar para encontrar seu espaço num colégio frequentado por brancos, onde sofria todo o tipo de preconceito.

Carrie, a estranha (1976 primeira versão – 2002 refilmagem): Carry White é uma jovem que não faz amigos em virtude de morar em quase total isolamento com Margaret, sua mãe e uma pregadora religiosa que se torna cada vez mais ensandecida. Carrie foi menosprezada pelas colegas, pois ao tomar banho achava que estava morrendo, quando na verdade estava tendo sua primeira menstruação. Uma professora fica espantada pela sua falta de informação e Sue Snell, uma das alunas que zombaram dela, fica arrependida e pede a Tommy Ross, seu namorado e um aluno muito popular, para que convide Carrie para um baile no colégio. Mas Chris Hargenson, uma aluna que foi proibida de ir à festa, prepara uma terrível armadilha que deixa Carrie ridicularizada em público. Carrie ganha o titulo de rainha do baile, e na hora de receber a coroa é atingida bor um balde de sangue de porco. Tomada pelo ódio, ela usa seus poderes para se vingar.

Elefante (2003): Um dia aparentemente comum na vida de um grupo de adolescentes, todos estudantes de uma escola secundária de Portland, no estado de Oregon, interior dos Estados Unidos. Enquanto a maior parte está engajada em atividades cotidianas, dois alunos esperam, em casa, a chegada de uma metralhadora semi-automática, com altíssima precisão e poder de fogo. Munidos de um arsenal de outras armas que vinham colecionando, os dois partem para a escola, onde serão protagonistas de uma grande tragédia. Baseado na tragédia de columbine.

Tiros em Columbine(2002): Documentário que investiga a fascinação dos americanos pelas armas de fogo. Michael Moore, diretor e narrador do filme, questiona a origem dessa cultura bélica e busca respostas visitando pequenas cidades dos Estados Unidos, onde a maior parte dos moradores guarda uma arma em casa. Entre essas cidades está Littleton, no Colorado, onde fica o colégio Columbine. Lá os adolescentes Dylan Klebold e Eric Harris pegaram as armas dos pais e mataram 14 estudantes e um professor no refeitório. Michael Moore também faz uma visita ao ator Charlton Heston, presidente da Associação Americana do Rifle.

Prevenção do Bullying na escola: Um breve estudo de caso e as teorias que versam sobre o assunto.

São 13:30 de uma tarde chuvosa na zona leste da capital, e os alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental Padre Balduíno Rambo se preparam para entrar em sala de aula. Apresentam muita agitação e um sem número de pequenos conflitos entre eles, geralmente resolvidos entre os próprios alunos. Nestes pequenos conflitos não faltam impropérios e ofensas pessoais, contudo a vice-diretora do turno da tarde, professora Zaida Carvalho, já bastante acostumada a lidar com sua clientela, consegue apaziguar os ânimos, ainda que temporariamente. Uma vez identificado o bullying nas relações inter-pessoais dentro da escola, questionamos a professora Zaida sobre quais eram as medidas preventivas de que a escola dispunha e oferecia aos alunos, tanto agredidos como agressores, ao qual a vice-diretora nos respondeu que, em primeiro lugar, todo este comportamento violento que as crianças apresentam na escola, na verdade é uma reprodução da violência por eles absorvida nos grupos sociais em que vivem e da violência que atinge a sociedade como um todo, uma vez que a escola pode ser entendida como uma mini-sociedade, onde os alunos vivem e agem, muitas vezes em conformidade com os valores e condutas que aprenderam com as interações dos grupos sociais aos quais eles tem contato. Cada caso deve ser estudado como único, levando em conta o histórico de vida dos alunos envolvidos em bullying, e no caso da escola em questão, por serem oriundas da periferia, muitas dessas crianças já passaram por violência doméstica, abandono dos pais, participação no tráfico de entorpecentes e etc. Uma das atitudes tomadas pela equipe diretiva ao identificar casos de violência na escola é a de colocar frente à frente os alunos envolvidos e buscar a conciliação, com o devido pedido de desculpas pelo agressor. Em alguns casos faz-se necessário chamar os pais dos alunos, para que estes fiquem cientes do comportamento que seus filhos estão tendo na escola. Todos os alunos menores de idade não podem ser removidos do colégio, independentemente de transgredir as regras da escola, então a direção encaminha estes alunos para o Serviço de Orientação Estudantil(S.O.E), e de acordo com a análise feita pela orientadora, a escola procura encaminhar estes alunos para tratamentos psicológicos, geralmente realizados através do NASCA – Núcleo de Assistência à criança e adolescente, contudo nem sempre se consegue o encaminhamento adequado, ou quando se consegue, o tratamento é interrompido de modo abrupto pelos pais dos menores. A escola promove atividades que abordam o tema, e em sala de aula os professores-conselheiros orientam os alunos quanto ao bullying. Em parceria com alunos de graduação da UFRGS, são promovidas oficinas e atividades que abordam temas como cidadania, violência, sexualidade entre outros assuntos de interesse dos alunos. Apesar dos esforços dos professores, o bullying é um problema persistente no seio daquela comunidade escolar, e uma das maiores dificuldades enfrentadas pela escola é justamente a falta de pessoal capacitado para trabalhar juntos aos alunos. Atualmente a escola conta apenas com uma supervisora com apenas 20 horas na escola, e uma orientadora com 20 horas também, tempo insuficiente para atender ás demandas dos alunos. Através desta observação, podemos constatar que avaliar os alunos vai muito além de verificar suas notas nas avaliações, mas engloba, sobretudo, monitorar suas habilidades ou dificuldades nas relações de convívio com os colegas. As escolas devem ser vistas como sistemas dinâmicos e complexos, com todas as suas peculariedades, assim como cada aluno é um indivíduo único, um ser social formado à partir de todas as interações nos diversos grupos sociais de seu convívio, atentando sempre aos aspectos sociais, econômicos e culturais de cada um dos indivíduos envolvidos no âmbito escolar. Em virtude disso, cada escola deverá desenvolver para sua comunidade um planejamento anti-bullying mais adequado para atender as demandas dela proveniente, não havendo de antemão um roteiro definido, contudo existem algumas ações que podem ajudar muito, a minorar a incidência de atos violentos entre os alunos:

  • A abordagem de prevenção dos conflitos associados à violência na escola deverá ser realizada de modo inter-disciplinar .Cada professor, independentemente de sua disciplina deve abordar esta temática em sala de aula;
  • Todo plano de ação deverá ser global e coordenado, envolvendo: pais, alunos, professores e funcionários;
  • Ensinar aos alunos o valor e a importância do respeito mútuo e do diálogo;
  • Ensinar aos alunos que sua liberdade de expressão não pode incluir insultos ao outro, tanto colegas quanto professores e funcionários;
  • Proporcionar atividades que incentivem a cooperação e o diálogo entre os alunos;
  • Estabelecer normas de sala de aula obtidas por consenso, mediante o diálogo, em que todos participem, podendo estender esta medida para toda a escola;
  • Promover encaminhamento adequado, se necessário, para agressores de agredidos, para que ambos possam receber apoio psicológico;
  • Criar projetos de melhoria da convivência dentro da escola, dando-lhe a devida atenção, com o objetivo prevenir a violência dentro do âmbito escolar;


Entrevista com a mãe de um menino que foi agredido na escola:


P: Em que série o seu filho está quantos anos ele tem?

R: Ele ta na 5ª série e tem 11 anos.

P: A escola em que ele estuda é particular ou pública?

R: É um colégio estadual.

P: Que tipo de agressão o seu filho sofreu?

R: Era hora do recreio e ele estava na fila do bar do colégio. Dois colegas dele pediram dinheiro pra ele e ele disse que não tinha, que o que ele tinha dava só pra ele. Então os meninos ameaçaram ele e começaram a beliscar o meu filho e a xingar ele na frente dos outros que estavam na fila.

P: Essa foi a primeira vez que ele sofreu algum tipo de agressão na escola?

R: Sim, foi a primeira vez.

P: Como a senhora descobriu o que havia acontecido?

R: Me ligaram do colégio pedindo “pra mim” ir buscar o meu filho. Quando eu cheguei lá, ele “tava” na sala da direção com uma cara de choro. Eu perguntei o que tinha acontecido e me falaram que ele tinha brigado com uns coleguinhas. Como eu sei que o meu filho não é de briga eu fiquei desconfiada. A diretora não parecia saber muito bem o que tinha acontecido, ela me disse que tinha sido no recreio e que eles (ela e os professores) não viram o que tinha acontecido. Quando eu cheguei em casa eu perguntei pro meu filho o que tinha acontecido e ele me contou a verdade. Disse que ficou com vergonha de contar pra diretora que os colegas dele tinham beliscado ele e só falou que eles tinham discutido. Depois eu vi os hematomas no corpo dele, “tinha” marcas nos braços e no peito do meu filho.

P: A seguir, o que a senhora fez?

R: No outro dia eu fui com o meu filho pra escola e mostrei pra diretora as marcas no corpo dele. Ela ficou muito apavorada e disse que não sabia que isso tinha acontecido. Eu perguntei se ela conhecia os meninos que tinham feito aquilo com o meu filho e ela disse que sim, disse que ia conversar com os pais dos outros meninos.

P: Como a senhora se sentiu depois do que aconteceu com o seu filho?

R: A gente fica com medo, né. A gente pensa que ta mandando o filho da gente pra escola pra estudar e não é isso que acontece. Agora eu fico com medo de acontecer mais alguma coisa com ele e ele não me contar. Todo o dia eu pergunto se ta tudo bem, se não aconteceu nada.

P: A senhora acha que a escola a apoiou quando tudo isso aconteceu?

R: Eu acho que sim. Eles realmente falaram com os pais dos meninos que agrediram meu filho, eu fico feliz por isso porque sei que nem sempre é isso que acontece, né? Acho que eles tinham que colocar pessoas que “cuidassem” do recreio pra que esse tipo de coisa não acontecesse, mas sei que isso é uma coisa muito difícil de fazer, porque são sempre muitas crianças e criança é muito difícil de controlar.

P: A senhora notou alguma mudança no comportamento do seu filho depois do que aconteceu? Sim. Logo depois do que aconteceu ele ficou muito quieto. Em casa ele não conversava mais como antes, parece que ele andava sempre com medo. Na semana seguinte foi um sacrifício convencer ele de ir pra aula, eu dizia que a professora não ia deixar que nada de ruim acontecesse, mas não adiantava. Eu tinha que ir com ele até a sala de aula pra ele ficar mais calmo, sem falar que ele inventava todo o tipo de doença pra não ter que ir pra escola. Muitas vezes eu fiquei com pena e deixei ele ficar em casa, mas sei que não é a coisa certa pra se fazer, né? Mas eu sempre pensei que era só uma fase, que ainda tava tudo muito recente e que logo logo ia passar. E foi mesmo. Com o tempo ele parou de ter tanto medo de ir pra escola. Mas ele ainda anda muito quieto em casa. Antes ele gostava de ir brincar com os amiguinhos que moram perto da nossa casa, agora ele não fica muito tempo na rua e já quer voltar pra casa. Tenho muito medo de ele ficar com problemas de relacionamento, sabe?

P: Que tipo de apoio a senhora acha que a escola deve dar para as crianças que passam por esse tipo de situação?

R: Acho que a escola tem que fazer um trabalho para dar mais confiança pra criança que foi agredida. Mostrar pra ela que ela não está mais correndo nenhum tipo de risco dentro da escola e que a escola é um lugar seguro. Se não, acontece o que aconteceu com o meu filho: a criança fica com medo de voltar pra escola, e com razão, né? A escola deve falar pra criança que foi agredida que quem fez aquilo com ela ta sofrendo as conseqüências, deve dizer que os pais deles foram avisados, pra crainça que foi agredida se sentir mais confiante de que aquilo não vai acontecer de novo, né? E a escola tem que ta sempre cuidando pra que esse tipo de coisa não aconteça, deve ta sempre controlando e prestando atenção no comportamento dos alunos, e isso pode se fazer dentro da sala de aula, onde o número de crianças é menor e é mais fácil de controlar.


Bibliografia:


“Estratégias Educativas para a prevenção da violência” Rosário Ortega, Rosário Del Rey Unesco 2002. Edição Brasileira


Linkografia:


Usamos os artigos do site www.scielo.org, indicados pelo monitor, como fonte de pesquisa.

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