Bullying e seu Papel frente a Escola

De Psicologia da Educação

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Introdução

Com a tarefa de estudar algum tema relacionado à educação que queiramos estudar, concordamos que, como a violência está muito presente vida escolar, é importante esta temática, pois, ao estarmos nos inserindo neste universo, como vamos lidar com essa violência na escola? Frente a um tema tão difícil devido à situação da escola como um espelho da realidade, estaremos enfrentando um problema que é difícil de definir e de delimitar, graças ao grande espectro que a violência possui.

Por isso, a partir do tema escolhido para este trabalho – no caso, a violência na vida escolar – e da consciência de que se trata de uma questão muito mais ampla e presente em todos os setores da sociedade, a prática do bullying foi o exemplo escolhido para ilustrar como se dá essa relação de forças nos microcosmos escolar. Estaremos analisando esta prática, analisando o que vem a ser o bullying e quais são as suas relações com o mundo extra-escolar – ou seja, o macrocosmo social.

Além desse ponto, analisaremos também os envolvidos nesta prática, seus determinados tipos de ação, assim como seus correspondentes na escola para nos proporcionar uma maior familiaridade com o tema. E, por fim, vamos analisar as medidas preventivas deste grave problema, problematizando todo o seu universo e considerando o que podemos contribuir, como professores, nesta grave questão.

Bullying

Para começar, é necessário conceituar esta palavra, porque o que é bullying? Não é fácil conceituar, afinal não existe uma palavra na língua portuguesa que particularizem esta prática. Ele pode ser considerado como provocação e vitimação (CARVALHOS; L. L. et all, 2002, pg 571). No entanto, na escola, ela se manifesta de outras diversas formas: colocar apelidos, fazer sofrer, agredir, ofender, discriminar, bater, zoar, excluir, chutar, gozar, empurrar, sacanear, humilhar, roubar, entre muitas outras práticas.

O bullying demonstra uma relação de forças desiguais na quais diferentes formas de violência (tanto física como psicológica) podem ser exercidas como forma de intimidação para um único e determinado fim (para a ascensão social, por exemplo). Em algumas ocasiões, conforme o setor social e instituição em que ocorre, a intimidação se dá por parte de quem detém um status superior e, conseqüentemente, um poder maior em suas mãos – como, por exemplo, em uma empresa na qual o chefe / supervisor tem certos “poderes” que seu subordinados, dentro daquele ambiente, não possuem.

Mas como e por quais motivos ocorre o bullying? Bem, como já demonstrou Freud, muitas das primeiras relações sociais, vivenciadas pela criança – no âmbito familiar – e dos traumas afastados da consciência da mesma, acabam refletindo em outras situações vivenciadas posteriormente. Desta maneira, pode-se supor que a relação de forças entre intimidados e intimidadores reproduza exatamente a situação em que o filho sente-se intimidado pela figura paterna, vendo-se obrigado a evitar e a desviar sentimentos socialmente indesejáveis. Contudo, num caso em que estão em jogo dois jovens, há de se considerar as duas partes envolvidas, ao invés de se enfatizar o problema apenas de uma das partes: a do intimidado - como a de um “coitadinho”, indefeso, incapaz de sociabilizar-se – ou a do intimidador – como a de um delinqüente, agressivo, com o qual se deve ter uma série de cuidados especiais antes de manter um contato social mais direto.

Assim, evitando pré-julgamentos e reconhecendo a seriedade do bullying na vida escolar, damos um primeiro passo para a identificação e para a prevenção desses casos – já que muitas vezes são confundidos com brincadeiras ou parte de uma tradição institucional, tal como os polêmicos “trotes” aplicados nos calouros acadêmicos. É importante ressaltar que o que difere o bullying da simples agressão ou intimação é a repetição do comportamento agressivo frente à vítima (MARTINS, 2005). Muitas ações dessa violência ocorrem nos locais de trabalho, na vizinhança, na política e em estâncias militares, caracterizando o assédio moral, o assédio sexual e o abuso de poder. Há também o bullying virtual, ou o cyberbullying, na qual a vítima é assediada em chats e em sites de comunicação, como o My Space, como foi o caso da adolescente Megan, que acabou cometendo suicídio após abuso e pânico virtual (http://www.observatoriodainfancia.com.br/article.php3?id_article=296).

Além disso, há dois tipos clássicos de bullying, cada qual com as suas características e seus perigos: o tipo direto e o tipo indireto (http://www.bullying.com.br). O tipo direto é o mais comum e o mais visível, sendo a característica agressão física, os chutes, os socos, entre muitos outros hábitos. No entanto, o mais perigoso é o segundo, o bullying indireto, considerado como uma agressão social. Caracterizado por impor a vítima um isolamento social, esta prática conta com diversas técnicas, como o espalhar comentários, apelidos depreciativos, excluir e recusar em se socializar com a vítima, intimidá-la, intimidar outras pessoas que desejam socializar com a vítima, criticar o modo de ser da pessoa, seja através do vestuários, da etnia, da religião, de incapacidades, entre outros exemplos.

Muitas vezes associado com o preconceito e a intolerância à diferença, o bullying é mais comum do que se imagina, e o que pode ser considerado uma “brincadeirinha” se transforma e ganha toda uma nova dimensão. Praticado por praticamente todos os indivíduos, a maior parte da população já sofreu ou praticou algum ato de bullying.

Conforme Lopes Neto (2005), o bullie, o autor do bullying, normalmente tem, em sua base comportamental, a vontade de dominar ou intimidar e uma tendência à “frieza”, revelada através da incapacidade de ser empático, ou seja, sensível a dor de outras pessoas. Esta atitude pode estar atrelada a diversos fatores que podem ser tanto externo quanto interno ao indivíduo. Problemas familiares como desagregação, pouca afetividade ou excesso de tolerância, negligência por parte dos pais bem como comportamentos violentos dentro da própria família estão entre os fatores externos; enquanto distúrbios comportamentais, hiperatividade, baixa inteligência e dificuldades de atenção estão listadas entre os fatores individuais. Os pequenos “valentões” que não conseguem modificar seus relacionamentos na infância tendem a tornarem-se adultos de comportamento anti-sociais e desviantes.

Os alvos do bullie, normalmente fracos e com pouca auto-estima, freqüentemente se culpam, perdem concentração e, em conseqüência disto, diminuem seu rendimento escolar. Em muitos casos pode haver somatizações que se apresentam através de dores físicas variadas, tais como dores de cabeça, de estômago, musculares. Além disso, podem ocorrer casos de estados psicológicos alterados, como ataques de ansiedade e pesadelos, estados estes que podem alcançar a vida adulta se não forem solucionados em sua origem. Para evitar humilhações os alvos de bullying podem até abandonar a escola e fechar-se em seu mundo particular, evitando a socialização, e, em casos mais extremos, podem até recorrer ao suicídio.

Em relação ao silêncio dos estudantes espectadores de bullying, é importante considerar não apenas o medo de se tornarem os próximos alvos, mas principalmente por não obterem, dos adultos circundantes, atenção suficiente. Sem falar nos casos em que os próprios adultos contribuem para o agravamento do problema dos alvos, quando adotam atitudes agressivas ou permissivas para com o bullying escolar.

“O agressor ataca no trajeto entre casa e instalações escolares e nos banheiros da escola, mas o lugar principal da agressão é dos mais insuspeitos: a sala de aula, isto é, sob os olhos mais ou menos conscientes dos adultos.” (LOPES NETO, A. A., 2005)

Bullying Escolar

Na escola, o bullying assume características peculiares. Sendo a escola um reflexo da sociedade, a violência está muito presente dentro dela, e, portanto, todos os aspectos que interferem com o combate da violência na sociedade se encontram no ambiente escolar. O bullying, neste contexto, aparece como um comportamento agressivo e repetitivo, muitas vezes como um reflexo do relacionamento entre a criança, seus familiares e no mundo no qual ela está inserida.

A escola, por estar inscrita neste âmbito, apresenta um agravante a violência, devido ao publico a que atende, crianças em desenvolvimento, que estão submetidas a diversos estímulos e convivendo com eles. A prática do bullying pode ser catastrófica neste sentido, pois, como, na escola, a criança está abandonada, sem seus pais e protetores, ela busca alianças, amizades em que se basear, e, se não os encontra, ou estes lhe são negados, a criança pode desenvolver doenças psíquicas, como o comportamento anti-social. Isso até pode levar ela a se suicidar, não agüentando a pressão de estar inserida em um ambiente distinto do costumeiro e totalmente sozinha.

Para tanto, é necessária medidas preventivas contra a violência escolar, neste caso, o bullying escolar. Umas das principais medidas a seres tomadas é a compreensão de que a escola, além de local de aprendizado teórico, é o local no qual a socialização deve ser incentivada. As crianças e os adolescentes precisam encontrar acolhimento e segurança por parte dos profissionais envolvidos com as mesmas, para que se sintam seguras para falar e encontrar respostas às suas angústias. Neste momento de suas vidas é da maior importância assegurar projetos que trabalhem temas relacionado ao autoconhecimento dos alunos. Há necessidade de o corpo docente ser mais atento ás interações ocorridas dentro das salas de aula, procurando não considerar as brigas, os deboches, ou todas as interações desrespeitosas apenas como “besteiras” de criança. Tanto os agressores quanto as vítimas de bullying deveriam encontrar nos adultos que os circundam compreensão, respeito e, principalmente, orientação no sentido de buscarem relacionamentos interpessoais gratificantes.

Cada escola está inserida em um contexto único; cada representação social é singular, no qual as causas e os efeitos do bullying serão, da mesma forma, diferentes em cada local. Os estereótipos sócio-culturais precisam ser problematizados, as crianças precisam encontrar maiores oportunidades de expressarem seus sentimentos de forma construtiva, sem serem vitimados pelo preconceito. Os meninos devem deixar de ser vistos como violentos e agressivos por si só, enquanto a visão de que as meninas são menos violentas e mais propensas à sensibilidade também precisa ser reavaliada. Por isso, os professores precisam reavaliar constantemente seus próprios valores e encontrarem um sentido para suas ações que venham ao encontro das reais necessidades dos alunos.

A função da escola em nossos dias tem sido constantemente discutida, no entanto é consenso que não se pode tirar da mesma sua importância no processo de desenvolvimento individual e coletivo. Independente do que esteja sendo ensinado, dos temas propostos, das realidades vividas no cotidiano, a escola é ainda um dos principais locais para se trabalhar a “construção da autonomia, do autoconhecimento do aluno, do lidar com o diferente, da exposição e da contraposição, do divergir, do sintetizar e do resumir”. (ANASTASIOU, 2003)

Visitas às escolas

Visitamos o Instituto Estadual de Educação Isabel de Espanha, a Escola Municipal Anita Garibaldi e a Escola Estadual Walt Disney, todas em Porto Alegre. Com o objetivo de perceber como o bullying se manifesta nas escolas, observamos alunos de seis e nove anos de idade durante os intervalos de aula e realizamos entrevistas com alguns professores para descobrir mais sobre a incidência e a manifestação desta violência nos alunos. Com este método, percebemos que vislumbramos a escola pelo olhar do professor, estando ciente que, muitas vezes, não é visível a ele muitos dos detalhes e práticas comuns, sem que seja explicita e denunciada.

Nos intervalos, e conforme os professores, as crianças apresentam certa organização com o intuito de agredir verbalmente e, algumas vezes, fisicamente outros colegas. Esta organização tem por objetivo coagir, mostrar força e poder, porém esta estrutura é extremamente instável, podendo o líder virar mais uma vítima do bullying, de uma hora para a outra. Portanto, foi possível categorizar o bullying em duas etapas principais ao longo do desenvolvimento: uma dos pequenos, desenvolvendo-se a níveis mais alarmantes, principalmente com o crescimento e a chegada da adolescência; outra, quando o adolescente forma suas tribos mais fixas, utilizando deste grupo como forma de prolongar esta violência.

Foi interessante, para o grupo, a influência do meio social na parte organizacional dos grupos e panelinhas. Percebemos isso claramente quando algumas crianças se autodenominavam como “gangues”. Com isso, conversamos com as professoras e descobrimos que muitos destes alunos moravam em locais muito perigosos, e que possuem o exemplo, de fato, de gangues reconhecidas. Refletindo sobre o assunto, vemos a extensão que a violência extra-escolar se insere no meio escolar, refletindo muitas destas atitudes. E o bullying é mais uma destas práticas, na medida em que estabelece de forma a demonstrar o poder que cada grupo tem sobre os outros.

Conclusões

O bullying é uma prática moderna da violência, está tão ampla que não possui programas de erradicação adequados. A violência está refletida em todos os âmbitos da sociedade, no trânsito, na cidade como um todo, como roubos, assassinatos e seqüestros; e na escola não podia ser diferente. Porém, além das drogas e de tantos outros problemas, a violência está tomando conta de uma forma mais subliminar e de forma muito mais difícil de combater. O que fazer quando uma criança fala mal de outra, imitando exemplos externos? O que fazer quando uma criança faz piadas, dá apelidos aos outros, sendo que seus pais e professores também fazem? Claro que há situações nas quais estas atitudes podem ser aceitas, como entre amigos, em tom de brincadeira. No entanto, a criança não compreende a situação completamente, não percebendo que cada atitude tem uma demanda diferente em locais e com pessoas distintas.

O bullying é uma prática comum na situação escolar, sendo que ainda há muitas escolas que não tomam medidas expressivas contra esta violência por considerá-la “brincadeirinha de criança”, não desenvolvendo programas e projetos eficientes a erradicação desta. Nós, como professores, não devemos nos tronar omissos, nem ter o ideal de que o professor pode mudar o mundo. Pelo contrario, o professor tem que estar consciente de suas limitações, saber quando é importante abandonar a apostila e fazer uma dinâmica de grupo de integração, e estar presente como uma figura consciente e segura a todos os alunos. Há muitas vítimas de bullying que não recorrem ao professores por não perceber que este o ajude a contornar, a melhorar a situação.

Referências

CARVALHOSA, S. F. de; LIMA, L.; MATOS, M. G. de. Bullying – A provocação/vitimação entre pares no contexto escolar português. Análise Psicológica (2002), 4 (XX): 571-585.

LOPES NETO, A.A. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. J. Pediatr. (Rio J.), Nov 2005, vol.81, no.5, p.s164-s172.

MARTINS, M. J. D.. Agressão e vitimação entre adolescentes, em contexto escolar: Um estudo empírico. Análise Psicológica (2005), 4 (XXIII): 401-425

ANASTASIOU, L. G. C.; ALVES, L.P.. Processos de Ensinagem na Universidade: pressupostos para estratégias de trabalho em aula. Joinvile (SC); UNIVILE, 2004.

http://www.bullying.com.br/BPrograma11.htm (20 de novembro de 2008, as 23h15)

http://www.observatoriodainfancia.com.br/rubrique.php3?id_rubrique=19 (20 de novembro de 2008, as 13h20)

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