Cola na Escola: Breves reflexões sobre a problemática
De Psicologia da Educação
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Introdução
No dicionário de língua portuguesa colar significa copiar fraudulentamente. Sinônimo de pesca, a cola é a consulta a uma fonte não-autorizada numa avaliação.
Entretanto, para além do significado na língua portuguesa o fato é que a cola na escola é algo que fez e faz parte da vida escolar. Por ter se tornado um fato social inquestionável, este tema levou educadores e analistas a formular diferentes abordagens sobre suas causas, possíveis consequências e soluções.
Encontramos diferentes maneiras de ver o fenômeno. Algumas entendem a cola como um meio que cristaliza e reproduz a corrupção, se configurando assim como um sério problema a ser combatido. Já outras interpretam a pesca como um recurso de liberdade de aprendizado que evita a exclusão de alunos com baixo rendimento. Assim, a cola seria uma estratégia de defesa dos educandos ao modelo de ensino tradicional, centrado no poder autocrático do professor e no formato de avaliação que privilegia não a verificação do desempenho integral do aluno, mas apenas um momento do processo.
Por ser um tema amplo e motivo de muita controvérsia, este pequeno ensaio busca se debruçar de forma exploratória sobre as possíveis causas e conseqüências da cola na escola, buscando problematizar o tema com a questão: a cola na escola é algo a se combater?
As possíveis causas da cola: algumas reflexões
Não há como negar que a cola está enraizada na vida escolar. Desde as primeiras etapas, o educando se depara com o ato. Vicente Martins em um de seus artigos, procura sistematizar em etapas a consolidação do processo:
“Os alunos na educação infantil enxergam a cola como uma forma de mostrar aos familiares e mestres o rápido desenvolvimento cognitivo. (...) No segundo momento, os alunos no ensino fundamental exercitam a cola como afirmação de maturidade, de afirmação pessoal: “Eu pesco, eu passo”. Já não tão diferente do que ocorrerá com os alunos no ensino médio que se habituam a colar e quarta, e, finalmente, os alunos na educação superior aperfeiçoam a cola.”
Interessante notar que em nenhum momento o aluno hesitaria em colar, seja por motivos morais ou pedagógicos. Aliás, a cola seria por vezes motivo de orgulho numa cultura dos “espertos”, onde todos querem transgredir normas. No Brasil, por exemplo, como bem revelou Sérgio Buarque de Holanda no seu livro Raízes do Brasil , a cultura foi formada nos moldes de um prolongamento da cultura portuguesa na qual se desenvolveu ao longo da história um sobrevalor relativo ao aspecto da personalidade, ao valor próprio do humano, da autonomia e do livre arbítrio. Este aspecto acabou levando ao povo a idéia de falta de hierarquia, de reconhecimento pelas estruturas institucionais e de leis. Nesse sentido, a população brasileira teria agregado um gosto especial pela transgressão de regras que não fossem suas. O famoso “jeitinho brasileiro”, seria assim, uma tendência a adequação da lei universal à lei doméstica. Ou seja, as regras só são assumidas quando configuradas por ele mesmo ou, no máximo, pelo seio de sua família.
Como disse Vicente Martins, a cola é uma dessas oportunidades de transgredir normas e regras. Para isso ocorrer, entretanto, é preciso que elas existam e nosso modelo de ensino e avaliação propicia esse ímpeto. Corroborando a tese de Martins, ainda que sem fazer um teste de hipóteses, acreditamos que o modelo de ensino tradicional ou “bancário”, como salientou Paulo Freyre, seja uma das principais causas do fenômeno da cola na escola. Segundo Freyre, o educador bancário é aquele que transmite o conhecimento exatamente como ele pensa, constituindo narrações ou ainda dissertações. Existe, assim, um sujeito (o educador) e um paciente, objeto ouvinte e vazio (o educando). Esta narração em geral é abstrata, alheia à realidade dos alunos e, muitas vezes, até da do próprio narrador.
Nesse tipo de processo de aprendizagem, não somos instigados a pensar, indagar, interagir ou mesmo intervir nos conceitos. Simplesmente estamos subjugados a acatar as afirmações e temos como dever armazenar informações como arquivos. O educador é o agente (narrador) e os educandos os objetos, que devem ser “cheios” com a narrativa abstrata do mesmo. Esta narração conduz o os alunos, por isso, à memorização mecânica do conteúdo e este tipo de educação se torna um ato de depositar. Segundo Freyre (1981:66)
Eis aí a concepção bancária da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receber os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam.
Como percebe-se neste tipo de educação não há margem para a criatividade, invenção, os alunos são os que nada sabem e os professores os agentes da educação. Segundo Freyre, a educação bancária se processa da seguinte maneira:
1-O educador é o que educa, os educandos, os que são educados;
2-O educador é o que sabe, os educandos, os que não sabem;
3-O educador é o que pensa, os educandos, os pensados
4-O educador é o que diz a palavra, os educandos são os que escutam docilmente;
5-O educador é o que disciplina, os educandos os disciplinados;
6-O educador é o que escolhe o conteúdo programático, os educandos se acomodam a ele;
7-O educador possui a autoridade do saber, junto com a autoridade funcional, os educandos devem adaptar-se às determinações daquele
8-O educador é o que avalia, o educando é o que é avaliado.
Este tipo de educação, como bem conceitua Paulo Freyre, minimiza o papel do aluno como agente da educação e cristaliza um tipo de educação centralizado no poder autocrático do professor, que possui todas as ferramentas do saber e do poder.
Esse sistema vai ao encontro do molde de avaliação objetiva atual, que acaba sendo um poderoso instrumento de poder em sala de aula e que leva os alunos a estratégias de defesa e resistência - como a cola. Para além da questão da resistência, o fato de que as provas deste tipo de ensino e avaliação tradicional privilegiam a memorização em detrimento da reflexão dos tópicos facilita e incentiva os alunos a adotarem este tipo de estratégia. Eles sabem que serão avaliados antes pelo armazenamento dos conteúdos que por sua compreensão. Entendem, assim, que “quem não cola não sai da escola” – máxima amplamente difundida e, como vemos, adotada.
De certa forma, a Lei de Diretrizes e Bases da educação brasileira (LDB) de 1996 procurou reverter um pouco esse desequilíbrio de valoração da educação e da avaliação através do seguinte trecho do Artigo 24:
V - a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais;
A prova deveria ser uma verificação, ou seja, a avaliação já deveria ter sido feita previamente. Acontece que a prova já é um ícone do nosso sistema educacional. Com ela, os pais têm um critério que não lhes demanda muito esforço nem tempo para cobrar os filhos e a escola tem uma evidência da sua decisão de aprovar estes últimos ou não. Assim, a responsabilidade do aluno é, na maioria das vezes, sem maiores questionamentos, avaliada a partir da prova. Falha detectada: em geral, o professor não foi e instruído para elaborar avaliações, o que o leva a entender que deve seguir a tradição, estabelecendo uma inércia no método.
E o que seria a tal prova tradicional citada acima? Em geral, provas objetivas, que facilitam a correção no caro recorrente de turmas hiperlotadas, e que possibilitam a autocracia do professor. Perguntas novas geram revolta nos alunos, afinal de contas o professor não teria ensinado aquilo – aquilo equivalendo ao par pergunta-resposta. E tudo culmina em uma prova onde é possível colar.
Apesar do dispositivo legal da Lei de Diretrizes e Bases que vimos acima ser um primeiro passo para minimizar os efeitos da cola escolar, sabe-se que acabar com a cola não é algo simples. E como saber se é algo desejável?
Mas, para além dessa problematização o que se sabe é que a cola é mais um dos indicadores do paulatino esgotamento do nosso sistema de ensino, fato que aos poucos vem tomando o centro de discussões políticas que buscam formular as correções necessárias.
¹Vicente Martins é graduado e pós-graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Mestre em educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor, há dez anos, dos cursos de Letras e Psicopedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, Estado do Ceará.
²Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (Rio de Janeiro, 1936) resgatou as mazelas de nossa formação histórica, política e social, buscando os fundamentos e particularidades dos povos colonizadores (portugueses) que deixaram marcas profundas na formação do Estado-nação brasileiro, e que ainda hoje sobrevive ente nós e caracterizam, se assim pode-se dizer, a psicologia deste povo, um modo de ser. Para mais ver Holanda (1995) Cia das letras.
Problematizações finais
A um olhar desatento a cola pode representar simplesmente uma suposta degradação moral da sociedade, ou mesmo da sua semente, o aluno. Entretanto, para além da superfície, penetrando no problema, vemos que a cola é uma conseqüência do método. Logo, o problema se mostra bem maior do que à primeira vista. É claro que mais confortável seria se continuássemos a apontar como fonte do problema a suposta amoralidade social já que, uma vez que se aceita ser o método de ensino o principal causador do male, é preciso agir de forma a transformar essa realidade. Essa demanda virou tabu não por não se enxergarem soluções no horizonte, mas por se questionarem a viabilidade destas face aos interesses políticos.
Fazemos a defesa de um ensino com uma abordagem que parta da participação do aluno, onde ele tenha espaço como agente do ensino/aprendizagem e não seja tomado apenas um receptáculo vazio. Para tanto, é necessário uma inversão no método tradicional que prima pela memorização, mas que deixa de lado valores imprescindíveis a uma aprendizagem de qualidade – tais como observação, compreensão, criatividade, etc. É preciso que se disponham dessas ferramentas para buscar-se resultados advindos da boa aplicação das mesmas.
No ensino que visa quebrar o ciclo tradicional de ensino e aprendizagem, existe um protagonismo do aluno, que o leva à participação, à evolução, e ao interesse pelo conhecimento. É papel fundamental do professor saber instigar a sede de saber de seus alunos.
Acreditamos que em um ensino com tal formato, a cola seria de uma ocorrência quase nula. Um professor que valorizasse os aspectos supracitados obviamente não faria de uma prova o objeto máximo da sua avaliação, e o método, funcionando adequadamente, produziria alunos de rendimento superior.
Referências
Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981
Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995
http://eduquenet.net/escolaecola.htm
http://www.overmundo.com.br/banco/cola-escolar,
http://www.ita.br/online/2005/itanamidia05/nov2005/vale13nov051.htm
http://www.inclusao.com.br/projeto_textos_44.htm
Anexo
Por Vicente Martins
(...) Apresentamos a seguir um conjunto de direitos imprescrítiveis do colante assumido:
1) O direito de não aceitar as estratégias de coerção e de controle dos professores
2) O direito de não competir na avaliação escolar, ao longo ou ao final do curso, para garantir a promoção de uma série a outra.
3) O direito de legitimar sua liberdade de aprender
4) O direito de não executar os prodígios de memória
5) O direito de colar diante de matéria inadequada à maneira de ver, às experiência e aos objetivos do aprendiz-colante ou do colante-aprendiz.
6) O direito de colar através de conversas colaborativas antes e durante a aplicação de provas, exercícios, tarefas ou outros meios de observação que tem por fim a verificação de desempenho do aprendizagem, em situações de atribuição de notas.
7) O direito de colar para enfrentar a pressão dos professores e dos gestores dos estabelecimentos de ensino
8) O direito de colar para evitar atraso escolar, repetência e evasão escolar
9) O direito de colar para desenvolver a capacidade de aprender, mediante leitura compensatória e compartilhada.
10) O direito de colar por considerar que a escola não é um palco de guerra, mas um processo institucional construtivo de amor, paz, conhecimento e amizade.

