Cursinhos

De Psicologia da Educação

Tabela de conteúdo

Introdução

Os cursinhos pré-vestibulares populares são um importante fragmento do todo que é a ferramenta da educação popular, a educação em que o povo é protagonista e interage de forma crítica com a comunidade e com os professores. As experiências educacionais populares são ricas, constituído-se em um amplo e inesgotável campo de pesquisa cientifica acadêmica. Não pretendemos com esse trabalho desenvolver um amplo painel de análise sociológica, psicológica ou política. O que queremos com esse trabalho é lançar o debate sobre o tema educação popular como um todo,e particularmente sobre o caráter dos pré-vestibulares populares. Chamamos atenção que esse debate deve ser desenvolvido de forma mais forte pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no universo das licenciaturas, reproduzindo de forma adaptada o rico debate desenvolvido na pós-graduação em educação.

A realidade educacional de nosso país

Compreendemos que a educação pública, gratuita, democrática e com qualidade é um direito de todo o cidadão do planeta e de todo o brasileiro que deve ser respeitado e executado pelos governantes das diferentes esferas executivas de nosso país.A educação pública é uma conquista do povo organizado que ao longo da história lutou por esses direitos, ao passo que pode apresentar-se como ferramenta de dominação ideológica de classe. A educação do ensino privado mesmo que aparentemente funcione como ferramenta de promoção social carrega em si mesma a contradição de apresentar-se como mais uma mercadoria a venda no grande mercado, onde muitas vezes os alunos são tratados como consumidores dos “saberes cultos” que a escola tenta repassar na maior quantidade possível de conteúdos.

Quando analisamos o ensino superior como um todo, podemos notar uma incrível redução da oferta de vagas nas universidades públicas do país acompanhado de uma crescente oferta de vagas nas universidades privadas. O desmonte da educação superior pública, federal principalmente, teve seu ápice nos dois governos neoliberais do presidente FHC acompanhados é claro por uma vertiginosa expansão do ensino privado “em todas as esquinas desse Brasil”, freqüentemente sem nenhuma qualidade. Para esses senhores mantenedores das novas e também das velhas universidades privadas o que vinha em primeiro lugar era e ainda é o lucro, deixando para o desenvolvimento pedagógico, a pesquisa científica e a extensão um lugar de menor destaque. Com o governo de Lula a oferta de vagas nas instituições públicas aumentou um pouco, muito aquém do necessário é verdade. As universidades particulares do país tiveram suas vagas ociosas “compradas” pelo governo através de programas como o PROUNI, em que essas vagas foram ocupadas por estudantes de baixa renda, provenientes do ensino público ou bolsistas em instituições privadas.

Achamos que esses recursos poderiam ser investidos nas universidades públicas e com isso aumentar drasticamente a oferta de vagas, é triste que o governo prefira salvar as universidades privadas do que investir de forma verdadeira no ensino superior público. Para combater o caráter elitista das universidades públicas é preciso abrir as portas dessas universidades, parar de cortar verbas do MEC e rever mecanismos de acesso cruéis como o vestibular. As cotas são uma conquista importante dos movimentos sociais, porém ainda a muito pelo que lutar.

Educação e Cursos Populares

Antes que se pense em cursos populares, pensa-se em educação popular. A experiência que marcou o início de um projeto mais ambicioso nessa área foi idealizada e aplicada por Paulo Freire. Em 1963, na cidade de Angicos (RN), em apenas 45 dias 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados.

Os cursos populares surgiram para tentar fazer frente à necessidade de acesso ao ensino superior. Os cursinhos populares se constituem em um espaço que visa a dar acesso a um público que, pela sua condição financeira, não têm condições de freqüentar um cursinho privado. Afinal, não são todos que podem pagar o alto custo, dentro da realidade econômica da maioria das famílias brasileiras, por um curso preparatório ao vestibular. Contudo, as exigências atuais de sobrevivência dentro do sistema social abarcam a todos de forma indistinta.

Uma boa definição de um curso pré-vestibular é: “tais cursos são iniciativas educacionais de entidades diversas, de trabalhadores em educação e de grupos comunitários, destinados a uma parcela da população que é colocada em situação de desvantagem pela situação de pobreza que lhe é imposta” (Nascimento, 2006, pg. 1)

Desta forma as experiências alternativas de preparação ao vestibular procuram não apenas trabalhar com os conteúdos pertinentes ao curso vestibular, mas avançar na formação dos indivíduos, apoiadas nas iniciativas e nas idéias de Paulo Freire. Por isso, os cursinhos populares operam tanto com a preparação ao vestibular com a formação política dos indivíduos.


Os cursinhos populares

Os cursinhos populares nascem da contradição, expressa na desobrigação do estado mínimo neoliberal com a educação básica, o que inviabiliza a famigerada concorrência nas vagas do concurso vestibular entre os alunos oriundos das escolas públicas e das escolas particulares. A grande diferença dos cursinhos populares é que eles de modo geral visam ir além do contraponto aos cursinhos particulares, eles são mais do que alternativas a quem não pode pagar os cursinhos privados. Apresentam-se como organismos dinâmicos, mais democráticos e como um verdadeiro laboratório para a formação de professores mais críticos e de uma pedagogia mais transformadora.

A ligação dos cursinhos com os movimentos sociais urbanos, como as associações de Bairro, são importantes enlaces que devem ser cada vez mais desenvolvidas. Porque para que uma organização como um cursinhos consiga sobreviver fora do ambiente educacional tradicional é preciso o comprometimento popular, é preciso que os moradores de tal comunidade sintam o cursinho popular que lá se encontra como seu, que sintam a necessidade da permanência e fortalecimento dessa ferramenta transformadora no local. Um belo exemplo da ligação dos cursinhos populares com os temas mais gerais, com a contribuição dos cursinhos para a formação de um estudante mais critico é a disciplina de “cultura e cidadania”, uma cadeira onde diversos temas podem ser abordados, diversos olhares podem apresentar-se sobre a realidade.

Ao mesmo tempo em que os cursinhos não deveriam existir, pois é obrigação do estado garantir uma educação pública básica de qualidade para todos e o acesso no ensino superior, eles são ricas ferramentas de transformação social, são uma resposta do povo pobre e do setor mais progressista das universidades públicas e privadas contra o caráter elitista e mercadológico com que cada vez mais a educação é tratada. Vida longa aos cursinhos populares, pois enquanto existir contradição, opressão, diferenças absurdas de renda, educação superior para a elite, existirão cursinhos populares.


Causas de falta de motivação nos cursinhos

Vários são os motivos que levam professores e alunos a diminuírem seu interesse pelos cursos pré-vestibulares abertos à comunidade. Por se tratar de um serviço voluntário, pode-se suspeitar que a falta de professores seja o maior problema. Mas isso não é o que acontece. Há interesse por parte de muitos alunos dos cursos de graduação em ter contato com salas de aula antes de começarem a fazer seus estágios; além da vontade de dar sua contribuição à comunidade carente.

Entre os principais problemas enfrentados estão: 1)dificuldade que os alunos têm para acompanhar os conteúdos; 2) baixa freqüência ás aulas; e 3) evasão.
1.Geralmente, os alunos vão às aulas, diferentemente dos cursos particulares, não para revisar o conteúdo e se habituar ás questões do vestibular, mas para tomar conhecimento de tal conteúdo. Este fato dificulta o trabalho do professor, uma vez que tempo requerido para que se possa trabalhar o conteúdo de uma forma adequada é maior do que o disponível;
2.O conhecimento se constrói de tal forma que cada avanço feito depende de conceitos anteriores. Relacionado a isto está outro problema observado nos cursos em questão. O número de alunos que trabalha é grande, por isso muitos deles não comparecem com a devida regularidade às aulas. A falta de freqüência prejudica não apenas os alunos que a perderam, como também colegas e professores;
3.O professor percebe que com o passar dos meses o número de alunos presentes em suas turmas diminui. É comum que o que eram no começo do curso duas turmas distintas se tornem uma só, com um número de alunos ainda pequeno. Os professores sentem que seu trabalho não dará os frutos que dele esperava.

Os cursinhos populares em Porto Alegre

Os cursinhos populares em Porto Alegre tem origens e formas de organização diversas e tiveram nessa década uma grande expansão se comparado a décadas anteriores. Neste capítulo vamos fazer um pequeno relato sobre as origens e formas de organização de cada um dos cursinhos que tivemos acesso, seja pela participação dos componentes do grupo como professores, seja em visitas, por telefone ou em material publicado na internet ou impresso.

Sobre a organização ainda faremos uma relação com a tipologia sugerida por PEREIRA (2007), onde classifica os modelos de gestão dos cursinhos em Porto Alegre entre “modelo comunitário”, ou seja, “baseada em relações recíprocas entre alunos, colaboradores e professores, de tal forma que as partes envolvidas assumam responsabilidades em relação aos processos que envolvem o cotidiano do curso” e o “modelo assistencial ou de parceria público/privado”, onde “a realidade administrativa” é “similar ao verificado nas instituições formais de ensino”, ou seja, decisões tomadas pelo colegiado hierarquicamente responsável para isso, sem a participação direta da comunidade e/ou alunos.

Referências Consultadas

http://epv08.wordpress.com/, consulta em 12/11/2008;
http://www.alternativacidada.cjb.net/, consulta em 12/11/2008;
http://www.resgatepopular.org.br, consulta em 12/11/2008;
http://www.ufrgs.br/ceue/, consulta em 13/11/2008;

MELLO, Marco (Org.). Paulo Freire e a Educação Popular. Porto Alegre: IPPOA ATEMPA, 2008;
PEREIRA, Thiago Ingrassia. Pré-vestibulares Populares em Porto Alegre: Na Fronteira entre o Público e o Privado. Porto Alegre: UFRGS, 2007. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul;

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