Dificuldades de Aprendizagem 2
De Psicologia da Educação
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE EDUCAÇÃO – DISCIPLINA DE PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO II
TURMA: E
INCLUSÃO COMO PREVENÇÃO
Definir Dificuldade de Aprendizagem não é tarefa das mais simples. Muitas são as causas que concorrem para seu aparecimento e outras tantas são as formas como se manifestam. No entanto, algumas características são normalmente encontradas nas crianças ou jovens com este diagnóstico: dificuldade de raciocínio ou lentidão, dificuldade de simbolização, atraso no desenvolvimento cognitivo em comparação a crianças da mesma faixa etária, dificuldade de socialização, entre outros. E o que aparece mais evidentemente em decorrência destes fatores é o que denominamos de fracasso escolar.
A criança em idade escolar sabe que precisa ter sucesso nos estudos. Isso é exigido por seus pais, familiares, colegas, professores, pela sociedade como um todo. O sucesso opõe-se ao fracasso, e este implica num juízo de valor, num julgamento que deve corresponder a um ideal. Esse ideal normalmente é ditado por valores familiares que são transmitidos de geração em geração. Há famílias de engenheiros, em que se espera do filho mais velho que também o seja. Há famílias de advogados, de médicos ou de negociantes, onde o destino da criança já está selado nem bem ela nasceu e até antes (ver o “O filho sonhado e o filho real” de Luciana Pacheco Marques). Pode-se observar aqui o papel dos mitos familiares que tentam a construção de uma realidade irreal desejada para a continuação da história familiar.
Quando se atende um sujeito cuja “queixa” é a Dificuldade de Aprendizagem, em geral um dos filhos, atende-se uma família também, faz-se necessário, então, construir um espaço de escuta respeitosa, onde se possa observar o processo de um plano mais amplo. Ao procurarmos entender a família como um todo, estaremos valorizando o aspecto de Globalidade do sistema, que difere do somatório das partes (teoria Geral dos Sistemas) e o aspecto de Reciprocidade, onde cada membro influencia e é influenciado pelo comportamento dos outros. Desta forma, poderemos nos aproximar daquelas questões familiares que interferem de maneira contundente no desenvolvimento da criança ou do jovem.
Existem fatores sociais que também são determinantes na manutenção dos problemas de aprendizagem, e entre eles o ambiente escolar é um dos principais componentes desses fatores. Quanto ao ambiente escolar, é necessário verificar a motivação e a capacitação da equipe de educadores, a qualidade da relação professor-aluno-família, a proposta pedagógica, e o grau de exigência da escola, a cultura da escola e a da família, que, muitas vezes, está preocupada com a competitividade e põe de lado a criatividade de seus alunos.
A maioria das crianças necessita de intervenção psicopedagógica e/ou fonoaudiológica e continua participando das aulas convencionais oferecidas pela escola. Porém, existem casos em que o grau do transtorno exige que a criança passe por programas educativos individuais e intensivos. Independentemente do caso, é importante que a criança continue a assistir e a participar das atividades escolares normais. Cabe ao profissional que acompanha a criança ou adolescente realizar contatos com a escola a fim de estabelecer uma maior qualidade do processo de aprendizagem, através da inter-relação dos aspectos exigidos pela escola e do que a criança é capaz de oferecer para suprir tais necessidades.
Além de um melhor enquadramento da proposta educacional, outras variáveis que implicam nos Transtornos de Aprendizagem deverão passar por um processo terapêutico. Assim, é necessário que, ao se fazer uma avaliação de um quadro de Transtorno de Aprendizagem, o profissional esteja atento para identificar se existem fatores psicológicos que contribuem para a manutenção do problema. Caso esta variável esteja presente, o psicólogo é o profissional indicado para tratar dos problemas emocionais vinculados ao tipo de Transtorno.
O tratamento farmacológico, associado ao atendimento psicopedagógico deve ser dirigido por um psiquiatra ou neurologista, sendo indicado, por exemplo, em casos nos quais as capacidades de atenção e concentração da criança encontram-se debilitadas.
O problema é que muitas das pessoas que têm problemas de aprendizagem acabam não sendo notadas ou ficam tão na linha da média de aprovação que acabam sendo encaradas como alguém passando por uma fase, e aí esquecem de considerar e dar importância quando essa fase se estende além do esperado, por seis anos, por exemplo, o problema se agrava e se cria a exclusão. Muitas vezes essas pessoas não têm com quem contar, ou recursos para procurar outro profissional, a não ser o professor.
Não pretendemos aqui que o professor faça o papel de terapeuta, médico ou aproximados, mas que tenha a sensibilidade de notar no seu aluno os indícios de que algo não vai bem e poder considerar isso a fim de evitar uma futura exclusão. Vejamos alguns casos em diversas áreas:
* Educação física
“João tem 11 anos e se recusa a usar roupas apropriadas para esporte e que favoreçam o equilíbrio da temperatura corporal no verão, também se recusa a fazer exercícios coletivos. Com o passar do tempo os outros professores notam que ele se isola da maioria dos colegas e fica por vários momentos disperso em aula, com o pensamento longe, perdendo assim partes da matéria, e correndo o risco de rodar, por que não aceita ajuda dos colegas e não se manifesta para o professor. O que fazer com João?”
* Química
“Jéssica, 13 anos, recusa-se terminantemente a manipular os materiais nas aulas com pequenas práticas organizadas pelo professor. Os colegas reclamam de ter que se sujar sempre enquanto ela se recusa, às vezes, até a ver as experiências com tintas, terra... Os outros professores assinalam que é uma aluna exemplar, mas muito exigente, não se permite errar, mas sai por vezes da sala para lavar as mãos, os materiais como a borracha que sujou ao apagar e quando erra põe a folha inteira fora ao invés de simplesmente usar o corretivo para apagar o escrito à caneta. Conforme o que e quantas coisas vai lavar, e quantas vezes, sai e demora a voltar, perdendo assim partes da matéria, especialmente de química, as quais começa a cabular para não ter contato com os materiais e não busca a biblioteca para se interar do conteúdo pelo estado dos livros. Suas notas antes dos experimentos tão altas começam a baixar e alguns alunos já começam a não convida-las para os trabalhos em grupo por saberem que não vai querer participar a menos que a professora intervenha. Como agir com ela?”
* Português
“Nina que ia bem na aquisição da língua escrita, acompanhando o ritmo da turma, aos 9 anos estaciona no processo e volta a juntar e separar inadequadamente, títulos são tornados uma palavra, linhas inteiras no meio do texto... a professora declara que tem períodos de maior incidência de junção e outros de separação inadequadas, passou para a quarta série por média e com recuperação e com o voto de melhorar até o ano que vem, mas não mostrou melhoras e corre o risco de repetir o ano. Os outros professores dizem que ela vai bem nas atividades exceto nas que é necessário que ela escreva, nestas acaba sempre indo mal, não por não saber o conteúdo, mas por dar muitas voltas e fazer o corretor das tarefas perder a linha de raciocínio, também assinalam que ela mostra muita sonolência durante as aulas. Os colegas a deixam cochilar nas aulas e quando oferecem ajuda ela diz que seus pais não deixam que os colegas vão a sua casa. Como lidar com isso?”
* Matemática
“Ernesto tem 15 anos e acaba de ingressar no ensino médio, reluta em fazer os temas, não apresenta cálculos nas provas, e conversa muito na aula. Nas de matemática não copia todos os exercícios e muda de lugar por vezes durante o período, o que atrapalha o andamento da aula e dispersa o professor. Outros professores dizem que o aluno não traz grandes complicações nas aulas, demonstra raciocínio rápido, bom rendimento em grupo, mas ultimamente tem resistido a expressar-se em voz alta, reduzido sua média e não descreve os porquês das respostas, os colegas afirmam que é um bom colega, mas não entendem como ele chega aos resultados dos cálculos e explica tão bem em particular, mas não o faz quando requisitado pelo professor. Que estará acontecendo com ele?”
* História
“Bárbara está com 12 anos e está na sexta série. Transferida de escola, tendo bons antecedentes, ao final do semestre com as avaliações finais, não consegue relacionar os fatos históricos antes aprendidos e sua importância com os novos, tem dificuldade de perceber as ligações de conseqüência entre eles e, segundo o professor, atesta que o que aconteceu antes não tem a ver com o que tenta aprender agora, não tem importância. Como não consegue estabelecer essas relações tão necessárias, seu desempenho perdeu qualidade e ficou para recuperação. Os colegas dizem que queriam ter sido colegas dela na outra escola, pois teriam entendido melhor a matéria que custaram tanto a entender com sua ajuda. Os outros professores dizem que não tem grande prejuízo com isso nas avaliações, fica na média ou um pouco acima, apenas apresenta leve dificuldade em buscar as operações anteriores ou ligar a conclusão de textos e respostas ao início, mas nada preocupante. O que está acontecendo?”
E poderíamos pensar em diversos outros casos, mas vamos levantar hipóteses para nossos presentes:
- João tem problemas em casa, o pai sofre de alcoolismo e bate na mãe. Ele tenta defende-la, mas acaba sofrendo agressão junto a ela, por isso não se mostra e repele o outro, amplamente;
- Jéssica sempre foi muito cobrada pelos pais e pelos professores anteriores, em casa sempre foi a responsável pela limpeza e cresceu com muitas limitações quanto a experimentação das coisas por “poder se sujar”, transferiu isso diretamente para os estudos, se cobrando ainda mais quando o professor não o faz e rejeitando a possibilidade de contato com materiais anti-higiênicos;
- Nina passa por um período difícil desde o ultimo ano e não tendo com que falar sobre isso e obter explicações passou a sinalizar na escrita: seus pais têm constantes separações e voltas e ela se sente confusa, perdida, assim pode perder o ano;
- Ernesto teve um choque com o ultimo professor que não deixava que realizasse os cálculos de sua maneira mesmo que estivessem corretos, nem explicar aos colegas quando chamado ao quadro, assim internalizou que não sabia mostra o que fez e passou a transmitir isso nas próximas séries e matérias, mais ainda em matemática;
- Bárbara saiu de sua escola anterior advertida de que tudo seria diferente na próxima e levou isso ao pé da letra sem perceber, assim o que é diferente não tem ligação com o anterior, os conhecimentos que uma escola proporcionou não têm ligação com os da diferente, agora tudo é novo e tem que ser reaprendido, ainda que da forma mais difícil e demorada, ainda que seja num não aprender.
Aí o professor vai ter que pensar em seus alunos, pelo menos no que mais se destaca entre os trinta ou cinqüenta que atende e investiga com a ajuda da orientação para saber o que fazer, os casos acima são criados, mas não estão tão distantes dos relatos que temos acompanhado.O problema de aprendizagem está aí pra quem quiser ver, a questão está em querer ver: esse é o desafio. É não propiciar a exclusão, prestando atenção para prevenir.
Isabel Parolin. Professores formadores, a relação entre família escola e aprendizagem. Artmed.
Nádia Bossa. Dificuldades de aprendizagem : o que são? como tratá-las? Psicopedagogia: uma prática,diferentes estilos / org. Edith Rubinstein ... [et al.] São paulo, casa do psicólogo, 1999.

