Dificuldades de aprendizagem

De Psicologia da Educação

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DEPARTAMENTO DE ESTUDOS BÁSICOS

DISCIPLINA DE PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO I - A


Pesquisa na escola: como pais, professores e alunos vêem a dificuldade de aprendizagem.



Introdução ao tema

É muito vasto o conceito do processo de aquisição de conhecimento, uma vez que a aprendizagem não é um objeto visível, ao alcance dos olhos para ser observado e então descrito, é algo abstrato, talvez uma das coisas mais abstratas que há. Idéia que se reforça se levarmos em conta que é um fenômeno totalmente individual, único, que não pode ser repassado – aí mora um grande paradoxo – como uma fórmula mágica. O conhecimento, esse sim, pode ser transmitido de alguém que o possui para outro que o deseja ter. Mas a forma como cada um irá assimilar essas informações, irá ser concebida em cada mente. Devido à essa multiplicidade gigantesca de possibilidades de assimilação – mais ou menos seis bilhões em todo o mundo – e a incoerente uniformização do processo de ensino institucionalizado, surgem alunos que não conseguem se adaptar ao sistema, desenvolvendo dificuldades não só de aprendizagem, mas também – e por conseguinte – de relacionamento interpessoal. Os motivos para essa não adaptação são muitos: estão presentes desde o âmbito físico (limitações físicas) até o campo psicológico, permeando as questões sócio-econômicas, além dos problemas apresentados pela própria escola. Esta pesquisa irá se deter em uma pequena investigação de como a questão da aprendizagem é vista pelos três vértices que compõem o triângulo escolar: alunos, família e escola, representada aqui pelos professores.


Desenvolvimento da pesquisa


1. Método

A pesquisa envolveu pais, professores e alunos do Ensino Médio de escolas públicas e privadas das cidades de São Leopoldo e Gravataí. Optamos por nos deter ao Ensino Médio em nossas entrevistas uma vez que as idealizadoras deste trabalho serão professoras de Química, disciplina que tem maior importância nesta etapa de ensino. Os professores escolhidos são, em quase sua totalidade, da área das Exatas (Química, Matemática e Física), pois entendemos que as dificuldades surgidas nessas disciplinas podem se parecer e serem mais significativas entre os alunos. Em números, visitamos 2 escolas e entrevistamos 4 professores, 4 alunos e 2 pais. Abaixo estaremos detalhando o perfil de cada um deles.

Professores:

Professor A Formação: Matemática-Licenciatura Tempo que leciona: 23 anos Escola: privada 1

Professor B Formação: Física-Licenciatura Tempo que leciona: 31 anos Escola: pública 2

Professor C Formação: Química Industrial e Licenciatura plena Tempo que leciona: 3 meses Escola: privada 3

Professor D * Formação: Letras português-literatura Tempo que leciona: 1 ano Escola: pública

O professor D saiu um pouco do nosso perfil de entrevistados, afinal é professor de letras do ensino fundamental. Porém achamos importante sua contribuição principalmente na tentativa de solucionar o problema da aprendizagem de um aluno.


Alunos:

Aluno A Idade: 15 anos Série: 2o ano do E. M. Escola: privada

Aluno B Idade: 17 anos Série: 3o ano do E. M. Escola: pública

Aluno C Idade: 18 Série: 3o ano do E. M. Escola: privada

Aluno D Idade: 16 anos Série: 2o ano do E. M. Escola: privada


Pais:

Mãe A Idade: 52 anos Atividade: dona de casa

Mãe B Idade: 47 anos Atividade: técnica em enfermagem


2. Resultados e Discussão


O que dizem os entrevistados sobre:


- Conceitue Dificuldade de Aprendizagem

A grande maioria dos entrevistados não definiu claramente dificuldade de aprendizagem. Muitos apontaram causas e conseqüências ao invés de conceituá-la. Já havíamos notado, em nossa pesquisa bibliográfica, que até mesmo estudiosos deste tema buscam, com dificuldade, essa definição. Por isso não podemos reprovar aqueles que não conseguiram responder à nossa pergunta e muito menos desconsiderar seus comentários, que contribuíram bastante para a pergunta seguinte e para conclusão do trabalho. Abaixo reproduziremos algumas falas:

“É quando ninguém coopera na sala de aula...” – aluno A

“Começa pela falta de interesse e estímulo” – aluno C

“Uns alunos acham que tem e não tem. Pensam que não sabem nada da matéria e preciso convencer eles que eles sabem... esse problema está crescendo e não faz muito tempo.” – professora A

“É tentar pelo menos prestar atenção na aula e não conseguir aprender, até que ela seja explicada mais uma vez, sempre.” – aluno B

“É não ter facilidade para entender o que está sendo exposto...” – mãe B

“ ...diz respeito àquele aluno que, de alguma forma, não consegue acompanhar o andamento da aula de maneira satisfatória.” – professor C

“É um obstáculo encontrado pelo aluno e que o impede de processar determinado tipo de conhecimento.” – professor D


- Quais as causas que podem ter?

Nesta questão surgiu uma série de falas inusitadas, até bem diferentes das encontradas por nós nas bibliografias consultadas, mas que não deixaram de ser pertinentes. Observamos que há uma nova causa para a não aprendizagem, uma razão bem atual, e que discutiremos mais a seguir.

“Podem ocorrer problemas em casa ou dos professores não saberem explicar direito...”– aluno A

“...algumas são os professores que não tem pulso firme com os alunos... os alunos falam o que querem e não tem educação” – mãe A

“...oportunidades infinitas de lazer. Com isso a gente acaba deixando o estudo pra depois.” – aluno C

“As causas podem ser psicológicas ou neurológicas e da maneira como o assunto é exposto pro aluno” – mãe B

“Déficit de atenção...” aluno B

“...eles tem muita atividade e não conseguem acompanhar o colégio junto...” – professor A

“...tinha um aluno que nunca aprendia nada. Depois fomos descobrir que a mãe dele tinha dado ele pra tia criar porque teve outro filho e não podia sustentar os dois.” – professora A

“Ocorre quando o professor não impõe sua autoridade sobre os alunos...” – aluno D

“A aprendizagem não acontece por duas razoes básicas: não existe atenção e concentração quando o professor está falando e quando eles vão exercitar o estudo. Não há estudo. Percebo que o aluno acha suficiente estar na sala de aula e depois ele se desliga do estudo... Há motivo de sobra pra isso acontecer. O mundo que está aí é de muitas possibilidades. Os meios televisivos, de comunicação, distraem as pessoas. É muito mais fácil baixar joguinhos no computador do que ler um livro e se concentrar. Há uma distração generalizada.” – professor B

“...alimentação insuficiente, no caso de alunos carentes, problemas de relacionamento com a família, baixa auto-estima...” – professor C

“...internas, como déficit de atenção ou outro tipo de disritmia, ou externas, como, por exemplo, não ter horário e local adequado para estudar.” – professor D


- Conhece algum caso de dificuldade de aprendizagem? Descreva-o.

Alguns casos foram narrados pelos nossos entrevistados. Novamente aqui ouvimos dos nossos colaboradores dois tipos de dificuldade de aprendizagem: os clássicos, que sempre aconteceram e vão continuar acontecendo, em que os alunos têm problemas familiares, com outros colegas, com os métodos da escola e isso reflete no seu desempenho na escola; e um novo caso, bastante atual, que pôde ser constatado por nós, pesquisadoras, que é o aluno que não sabe estudar e portanto não tem bom rendimento, boas notas.

“Tenho uma colega que tem problema com os pais e com nossos colegas” – aluna A

“...minha filha sempre passou empurrada...” – mãe A

“...eu não consigo prestar atenção na aula e converso demais.” – aluno B

“...tenho um colega com dificuldade e meus professores não sabem lidar com ele.” – aluno D

“...tinha uma aluna que só fazia prova separada do resto da turma. Colocava ela sozinha numa sala pra fazer a prova....até hoje não sei porque ela era tão nervosa.” – professor A

“Sim, devido à separação dos pais e à disputa judicial da guarda da aluna. Tentei reanimar e reestimular a aluna...me preocupei em trazê-la de volta ao convívio dos colegas e só depois recuperar o conteúdo e as avaliações perdidas.” – professor C

“...aluna na sexta série ainda não estava alfabetizada. E com dificuldades tremendas de organização das letras em uma palavra...incentivei-a a buscar no dicionário as palavras que poderiam trazer maiores dúvidas. Conversei com a professora titular da turma, eu era estagiária, e ela me garantiu que ele era burro e um caso perdido, e que eu não deveria perder meu tempo com ele.” – professor D


Considerações finais

Foram entrevistados professores de diversas idades e também diversas experiências docentes. Em todos eles percebemos uma certa incapacidade em definir com certeza, dificuldade de aprendizagem. Este fato demonstra que o assunto é um tanto desconhecido pelos educadores ( e também pelos pais), o que dificulta a resolução do problema do aluno. No que diz respeito às causas, os professores apostam no ambiente familiar inadequado para o desenvolvimento de hábitos de estudo. Os pais, pensam que os professores e a escola não têm exigido o suficiente de seus filhos, deixando-os muito “soltos”. Já os estudantes, em sua maioria, são mais práticos: acham que a dificuldade está na falta de pulso do professor ou no desinteresse deles próprios pelo estudo. Poucos foram os relatos – das três partes envolvidas – que citaram dificuldades neurológicas e/ ou psicológicas e até mesmo, como encontrado nos livros, limitações físicas. Julgamos de grande importância citar que estão aqui relatados apenas fragmentos das conversas que tivemos no decorrer da pesquisa que, para o nosso crescimento como estudantes, foi muito significativa. Dessa forma, conseguimos delinear dois tipos principais de dificuldades de aprendizagem: um tipo clássico, aquele em que os alunos apresentam problemas em casa e psicológicos em decorrer disto. O outro seria uma dificuldade decorrente da falta de interesse dos alunos pela escola, em função da grande oferta de atividades para preencher o tempo contrário ao turno escolar. Estas atividades prejudicam a concentração e diminuem o período de estudo. Por fim, concluímos que o segundo caso diagnosticado de dificuldades de aprendizagem, poderia ser melhor denominado apenas como insucesso escolar, pois o aluno nem mesmo tenta aprender para saber se terá dificuldades ou não. Está aí um tema que é pouco discutido na escola e na esfera acadêmica, o que acarreta na generalização dos problemas envolvendo aprendizagem.

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