Drogas na Escola
De Psicologia da Educação
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
ESCOLA DE ENFERMAGEM
Disciplina: Psicologia da Educação
DROGAS NO CONTEXTO ESCOLAR
Porto Alegre, maio de 2007
INTRODUÇÃO
A escola tem um papel fundamental no desenvolvimento sadio do adolescente e do adulto, contribui para a formação global do jovem e da sociedade.
A prevenção ao uso de drogas é uma atitude a ser adquirida desde a infância e promovida durante toda a vida. Assim, o papel da escola na prevenção é educar crianças e jovens a buscar e desenvolver sua identidade e subjetividade, promover e integrar a educação intelectual e emocional, incentivar a cidadania e a responsabilidade social, bem como garantir que eles incorporem hábitos saudáveis no cotidiano.
Educadores de ensino fundamental e médio são, cada vez mais, cobrados pelos pais de alunos, direção da escola e pela opinião publica para abordarem a questão das drogas em sala de aula, e para saberem lidar de modo efetivo com alunos que necessitam atenção especial nessa questão. Tarefa essa que é extremamente difícil, visto que eles não recebem formação para saber atuar em situação tão especifica.
Parte da ansiedade do educador sobre o que fazer na sala de aula e na escola como um todo, quando o assunto é droga, vem do fato de que esse tópico não fazer parte de sua formação profissional, é um conteúdo completamente ignorado na maioria dos cursos que habilitam educadores.
ABORDAGENS
Descrevemos aqui dois tipos de abordagens, classificadas como: “guerra às drogas” e “redução de danos”.
A guerra às drogas traduz a maneira como a sociedade tem, predominantemente, reagido ao processo histórico do uso de drogas. Trata-se de uma concepção que tem desconsiderado os diferentes significados que o uso de droga vem adquirindo desde a antiguidade: religioso, cultural, contracultural, entre outros. Esta alicerssado em pressupostos – de natureza idealista – de que é possível existir uma sociedade livre de drogas. Contém uma ideologia baseada em uma visão preconceituosa, repressora e moralista.
Os pressupostos da abordagem redução de danos estão vinculados ao entendimento de que a utilização de drogas é uma realidade comprovada historicamente em todas as sociedades e as medidas tomadas pela guerra às drogas, para prevenir o uso de drogas têm, na verdade, aumentado os danos associados. Esta concepção é formuladas em bases britânicas, que registravam que a manutenção de usuários por meio do emprego de opiáceos é o tratamento mais adequado para determinados usuários. Reconhecia-se que indivíduos dependentes, para os quais a interrupção total da droga seria impossível ou muito difícil, seria muito menos prejudicial pelas conseqüências adversas do seu consumo, se pudessem ser supervisionados no seu uso de drogas, recebendo-as por prescrições médicas e preservando suas possibilidades de exercer suas atividades. Essa abordagem abrange qualquer tipo de avanço no sentido de minimizar os prejuízos que possam vir do uso de drogas e, portanto não visto somente a abstinência como única meta aceitável.
Dentro do contexto escolar a abordagem de guerra às drogas tem produzido diferentes modelos de intervenção que reproduzem a mesma ideologia. Textos e manuais de treinamento de professores utilizados em programas escolares defendem que se estimule o aumento da responsabilidade individual e o desenvolvimento da autodisciplina por meio de estratégias behavioristas que promovam comportamentos adequados pela repetição e pelo condicionamento. Os discursos são notadamente autoritários, desistimulam a crítica por parte dos jovens, além de imprimir um “clima de pânico” e amedrontamento entre eles.
Para os jovens fica muito difícil acreditar nessas mensagens, pois ao experimentarem drogas ou voltarem-se para seus pares usuários, encontram relatos incompatíveis com tais informações e tem, eles mesmos, experiências diferentes.
Os métodos, nesta concepção, são punitivos e controladores, partem de formulas massificadoras, universalistas – aplicáveis em qualquer situação – que abstraem os indivíduos de sua singularidade e não levam em consideração seus valores ou inserção social. Dessa forma, não tem em conta a necessidade de pensar em realidade de cada escola, de cada espaço geossocial que faz o entorno da instituição educacional.
O objetivo é a abstinência de qualquer uso de droga entre a juventude. Não aceita objetivos e metas intermediarias e provisórias que possam ser alcançadas sem situações nas quais a abstinência total é a de ser conseguida, por isso também ficou conhecida como “tolerância zero”.
Dentro da abordagem de redução de danos, ela dá abertura para abraçar uma educação preventiva que, “desaliene” e “capacite” os indivíduos e grupos. Ao conhecer e analisar criticamente as contradições sociais, os adolescentes podem se apoderar dos elementos necessários para fazer escolhas positivas durante sua trajetória, em vez de voltarem-se contra si mesmos como alvo de sua própria desintegração social.
O movimento de redução de danos representa no campo educacional uma mudança. Essa concepção amplia e modifica tanto os métodos quanto os conteúdos tradicionalmente utilizados na área de prevenção primária educacional.
Os métodos centram-se em analisar os jovens a conviver com a sua existência, como se convive com a existência de outros bens de consumo, de outras formas de prazer, alertá-los para possíveis conseqüências prejudiciais.
À escola caberá a responsabilidade como agência socializadora, de apreender a realidade de seus estudantes, sem perder de vista a análise mais geral dos aspectos referentes às contradições do sistema econômico e da modernidade. Como a realidade de uma escola de periferia e de uma de classe mais alta não é a mesma, não se trata de vincular manuais genéricos com receitas infalíveis de como tratar o uso de drogas nas escolas. É necessário que a escola assuma posição que lhe cabe na socialização do jovem. É preciso conhecer essas realidades especificas.
Essa abordagem também quer desmistificar s idéias preconcebidas de que os adolescentes que tem alguma relação com drogas são todos sem objetivo de vida, agressivos, desregrados, anti-sociais, pois isto constitui em preconceito que alimenta a intolerância e estimula o consumo. A educação para redução de danos pode ter um caráter transformador.
PREVENÇÃO
A prevenção consiste na redução da demanda do consumo de drogas. As ações têm como objetivo fornecer informações e educar os jovens a adotarem hábitos saudáveis em suas vidas. Espera-se que as pessoas diminuam ou parem de consumir drogas.
Repressão consiste na redução da oferta de drogas. Tem como objetivo dificultar o acesso às drogas.
Ambos os conceitos encontram-se presentes no cotidiano escolar, onde ao mesmo tempo que a escola faz campanhas educacionais antitabagistas proíbe a todos de fumarem na instituição.
Prevenção primária: quer evitar ou retardar a experimentação do uso de drogas. Portanto refere-se ao trabalho que é feito junto aos alunos que ainda não experimentaram ou jovens que estão na idade que costumeiramente se inicia o uso;
Prevenção secundária: tem como objetivo atingir as pessoas que já experimentaram e que fazem uso ocasional de drogas, com o intuito de evitar que o uso se torne nocivo com possível evolução para dependência. O encaminhamento para especialistas também pode e muitas vezes é indicado como uma forma preventiva de evitar danos maiores a saúde.
Prevenção terciária: corresponde ao tratamento do uso nocivo ou da dependência. Portanto esse tipo de atenção deve ser feito por um profissional de saúde, cabendo a escola identificar e encaminhar tais casos.
Dentro deste contexto, apresentamos alguns subsídios teóricos e práticos para que e os esforços dos educadores sejam mais alinhados com que as pesquisas científicas e que foram apontados como mais eficazes no campo da prevenção do consumo de drogas na escola.
Palestras:
Há certa unanimidade entre os cientistas que fazem pesquisas sobre prevenção: convidar palestrantes uma ou duas vezes por ano, para falarem na escola, não tem o menor efeito dessas iniciativas em relação às drogas. O principal efeito dessas iniciativas é apaziguar a consciência dos adultos, que pensam que estão fazendo algo positivo.
Abaixo algumas dicas para que as palestras não sejam esforços, dinheiro e tempo completamente perdidos:
Prepare seus alunos primeiro: envolva-os em discussões de grupo para organizar dúvidas e comentários, fazer depoimentos ou analisar artigos de jornais ou revistas. Estimule o pensamento crítico em relação ao assunto nessas discussões. Muitos adolescentes só vão ser sinceros se houver estimulo e sensação de que eles serão aceitos mesmo se tiverem opiniões diferentes.
Depois da palestra, faça uma discussão em classe em convide-os a escrever um parágrafo de critica do evento, analisando os pontos positivos e negativos. Uma idéia é que eles escrevam sem ter que assinar o nome e que troquem as críticas entra si. Eles poderão ler o que acharam do evento com sinceridade, sem ter medo de ter sua identidade revelada.
O deboche deve ser tratado com neutralidade, mas críticas bem construídas são dignas de respostas. Tente envolver os alunos na procura de respostas.
O professor é modelo de referência para o jovem e, como tal, seria desejável que não bebesse, não fumasse, tivesse alimentação adequada, se exercitasse regularmente, fosse ponderado, justo e bem disposto, mas na prática... bem, na prática todos nós, adultos, batalhamos para ser seres humanos melhores, porém continuamos fumando e comendo muito, comportamentos que são em geral visíveis aos alunos.
O educador pode contribuir para prevenir o abuso de drogas entre os adolescentes de duas formas básicas: incentivando a reflexão e a adoção de medidas na própria escola onde trabalha e atuando diretamente com seus alunos, na sala de aula.
Criando regras claras de convivência:
Muito mais eficaz do que trazer pessoas de fora da escola para falar com os alunos é promover discussões internas para definir regras e o papel dos diferentes agentes da comunidade escolar para tratar a questão do consumo de drogas entre seus alunos.
Esta iniciativa contribui para melhorar a convivência, dá parâmetros claros a pais e alunos, diminui o campo das incertezas numa área tão difícil de tomar decisões.
O modo concreto de se fazer isso pode variar, mas abaixo estão sugeridas algumas questões para ajudar a refletir:
Profissionais da escola podem se reunir, antes de levar a discussão para os alunos, produzindo um consenso mínimo sobre o assunto: Quais são as leis e regras sobre o fumo dentro da escola? Bebida alcoólica nas redondezas da escola é tolerável? E em festas promovidas pela escola? Qual é o procedimento recomendável para o educador que tem evidências de uso de drogas entre seus alunos, ou mesmo de tráfico? Para quem/onde recorrer? Quais serão as medidas tomadas no caso de as regras estabelecidas não serem cumpridas? O que será comunicado aos pais? O que será de responsabilidade da escola?
Colocar esse consenso em um documento escrito, aprovado pelos profissionais da escola, mas ainda em caráter provisório. Isso porque ainda falta envolver pais, alunos e a comunidade próxima à escola nesse processo.
Comunidade próxima aqui significa bares, padarias, pontos de taxi, bancas de jornais, papelarias e residências vizinhas à escola. Essa comunidade que rodeia a escola interage com alunos e pode, potencialmente, vender cigarros e bebidas a seus alunos pelo simples fato de nunca ninguém da escola ter ido lá para trocar idéias e pedir limites nessa prática. A vizinhança também pode ajudar a proteger os alunos, avisando a escola se algum aluno estiver envolvido em uso ou comércio ilegal de drogas, estiver sob o efeito de drogas e em risco.
Pesquisas têm sugerido que há uma tendência da comunidade escolar em ignorar o contato com a vizinhança e deixar de lado aliados importantes na garantia da segurança, da saúde e da proteção de seus alunos.
Serviços de saúde, clubes, associações comunitárias, ONGs, empresas e igrejas também podem ser instituições essenciais nas relações da escola com a comunidade com o objetivo de diminuir os riscos de uso indevido de droga pelos alunos.
Consultar pais: por meio de uma reunião ou pelo correio, dar espaço para dúvidas, discordâncias, modificações que se considerem pertinentes.
Uma vez que os adultos, diretamente envolvidos na vida escolar dos alunos, tenham alcançado um consenso, envolver os alunos nessa questão. Numa atividade em sala de aula ou em reuniões o ideal seria dar espaço para que os jovens conheçam as regras, entendam sua lógica (mesmo que não concordem), saibam as conseqüências de não segui-las e possam sugerir mudanças que serão analisadas para verificar a conveniência e possibilidade de implantação.
Mandar uma cópia impressa para cada família, com uma página destacável, que os pais e os alunos devem assinar, e mandar de volta à escola, informando que estão cientes das regras em vigência. Recomendar que o restante do documento seja guardado como referência.
Contatar a vizinhança: por exemplo, se a escola decidiu que não vai aceitar o ato ilegal de vender bebidas alcoólicas para seus alunos menores de dezoito anos, seria bom avisar aos comerciantes locais desse fato, mesmo que seja óbvio que eles deveriam cumprir a lei. É aconselhável divulgar quem é o profissional da escola que vai fazer os contatos. Nesse caso é importante fazer parcerias com os Conselhos Tutelares e com o Ministério Público.
Promovendo um ambiente escolar saudável:
Crianças e adolescentes respondem de modo muito intenso ao ambiente em que vivem. E um dos principais ambientes, nessa época da vida, é a escola.
O educador que luta por uma escola que ofereça oportunidades para seus alunos e funcionários crescerem, participarem, exercerem sua criatividade de modo produtivo (através de expressão artística, por exemplo), aprenderem conteúdos relevantes e usarem sua energia física em atividades enriquecedoras (como esporte) é um educador que contribui para uma escola (e uma sociedade) com menos sofrimento e menos uso indevido de drogas.
Identificar-se e estar satisfeito com a escola que freqüenta constituem fatores de proteção ao uso de drogas entre adolescentes (ou seja, são fatores que, quando presentes, diminuem a probabilidade de que o adolescente vá usar drogas). Para que essa identidade e satisfação tenham chances reais de se manifestar, a escola precisa oferecer um ambiente que dê oportunidades aos alunos de criar laços afetivos e acadêmicos com a escola.
Existem vários programas de prevenção nesse sentido. Eles são os programas mais recomendáveis quando se trata do ensino fundamental, até 5ª série, em geral combinados com uma abordagem aos pais, orientando-os sobre como criar filhos no mundo conturbado de hoje.
Outro componente importante na construção de uma escola saudável é dar espaço para os alunos se expressarem, envolverem-se em novas propostas, compartilharem problemas e procurarem soluções. Uma escola que inclua, congregue, contribui para o desenvolvimento da auto-estima e para a percepção de limites.
Reconhecendo o papel do educador e seus limites:
A não ser que sua escola seja muito diferente da média, a maioria de seus alunos não estão envolvidos com drogas ilegais, não bebe pesadamente e não fuma. Ainda, entre aqueles que se engajam em um ou mais desses comportamentos, somente alguns estão realmente com problemas persistentes, ou correm o risco de apresentar esses problemas em breve.
O quadro abaixo mostra a porcentagem de estudantes que já fizeram uso de cada uma das drogas pelo menos uma vez na vida. Os dados são resultado de uma pesquisa, realizada em 1997, com estudantes de ensino fundamental e médio em dez capitais brasileiras.
DROGAS
PORCENTAGEM DE ALUNOS QUE USARAM
Álcool
51,2%
Tabaco
11%
Solventes
13,8%
Maconha
7,6%
Ansiolíticos (calmantes)
5,8%
Anfetamínicos (estimulantes)
4,4%
Pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID da Universidade Federal de São Paulo
O trabalho do professor deve dirigir-se, prioritariamente, ao primeiro grupo de alunos: a maioria que, tipicamente, não usa drogas (no caso de álcool e tabaco, só experimentou ou usa eventualmente). Esse trabalho, tecnicamente chamado prevenção universal, visa aumentar as chances de que os alunos que não usam drogas continuem não usando ou adiem o início do uso e que, os que estão experimentando álcool e tabaco, parem por aí e não se arrisquem mais, diminuam o consumo ou aprendam a evitar os riscos associados ao uso.
Isso não significa que o professor deva ignorar alunos com problemas com drogas, mas esse não deve ser seu foco principal de trabalho. Esses alunos, muitas vezes, necessitam da abordagem de um profissional especializado e o educador, ao perceber a necessidade, pode fazer encaminhamentos para serviços da área de saúde.
O que fazer e o que não fazer para ajudar um aluno que apresenta problemas com drogas:
Caso você tenha um aluno que precise de uma ajuda mais individual, e você esteja disposto a oferecê-la, leia abaixo algumas dicas de como ter uma conversa:
Coloque claramente sua preocupação com o comportamento dele(a), de modo calmo, dando exemplos bem concretos e específicos de episódios que você observou;
Evite fazer julgamentos, sermões; isso só vai colocar o estudante na defensiva e aumentar a culpa;
Enfatize que a situação em que ele se encontra só pode mudar, se ele assumir a responsabilidade de mudá-la; cabe a ele a decisão final, embora possa haver ajuda dos outros;
Ofereça opções de comportamentos alternativos e convide-o a refletir; não exija que ele se comprometa com nada de imediato, a não ser o de refletir sobre o que você falou;
Enfatize que ele(a) é capaz de mudar, que, embora possa parecer difícil, é possível. Começar com pequenos passos pode ser a melhor maneira de conseguir mais.
As experiências mostram que alguns princípios e abordagens surtem mais efeito do que outros.
Apresente informações fundamentadas sobre drogas de maneira isenta e honesta; sem usar exagero ou estratégias de amedrontamento. Os diferentes setores da escola devem ter coerência na forma de abordar as questões.
Inclua informação realista sobre os riscos de se usar drogas, mas mencione também os benefícios de não usá-las
Caso vá explorar os vários motivos pelos quais as pessoas usam drogas, discuta também alternativas, outras atividades que as pessoas poderiam ter escolhido ao invés de usar drogas.
Não faça sermão, tente envolver seus alunos ao máximo, usando as opiniões e visões que eles oferecem.
Não exagere os dados de consumo de drogas na nossa sociedade. A maioria dos nossos jovens é saudável e prefere se abster. Exagero só faz com que os jovens desenvolvam uma visão deformada da realidade, pensando que se eles e seus amigos não usam drogas, é porque estão “por fora”; afinal os jornais, seus pais e professores garantem que o consumo de drogas está, cada vez mais, disseminado.
Não generalize as informações como se todas as drogas fossem iguais, fazendo afirmações do tipo “não use drogas” ou “os problemas que as drogas causam”. É importante saber que, embora seja desejável que os adolescentes retardem o início do consumo, existem usos de algumas drogas ou medicamentos que não trazem prejuízos. Os efeitos são diferentes, o que torna necessário que as informações sejam dadas nomeando as drogas sobre as quais estamos falando.
Melhorando a percepção dos alunos sobre as normas de comportamento entre os jovens: estratégia de prevenção:
Pesquisas indicam que os estudantes de alto risco, atraídos pelo uso de drogas, tendem a ter uma concepção deformada da realidade. Quando convidados a estimar a proporção de jovens como eles que bebem, fumam e usam outras drogas, estes tendem a dar porcentagens bem mais altas do que na verdade as pesquisas indicam.
Estudos também mostram que, quando esses estudantes são convidados a contrastar suas estimativas de consumo com dados reais de uso, provoca-se uma situação de discrepância propiciadora de mudança. Muitos jovens, ao terem sua percepção da realidade “corrigida” reconsideram seu uso de substâncias.
Os programas mais efetivos são aqueles nos quais os jovens têm a oportunidade de exercitar maneiras de lidar com os desafios normais de sua faixa etária, como: vencer a timidez, aprender a se comunicar, como agir diante de agressões, como tomar decisões na vida pessoal e escolar. As pesquisas indicam que esses são os motivos emocionais mais comuns para experimentar drogas, esperando que elas aliviem a tensão que esses desafios provocam.
Algumas estratégias:
Vários trabalhos científicos mostram que ajudar os jovens a lidar com questões de timidez, sensibilidade extrema, frustração, dificuldade de se colocar diante de um grupo, dentro do currículo escolar, entre a segunda e a oitava séries, resulta numa diminuição do uso de drogas entre estudantes, que perdura por, pelo menos, seis anos após o desenvolvimento das atividades.
O projeto mais exemplar nesse campo é o Life Skills Training (LST), (Treinamento das Habilidades de Vida) concebido na Cornell University por Gilbert Botvin e colegas. Esse programa convida estudantes e professores a discutir os desafios afetivos e emocionais dentro da sala de aula e tentar criar e exercitar formas de lidar com eles. Propõe três eixos de atividades, cada um focado no desenvolvimento de habilidades sociais distintas:
Auto gerenciamento – ajuda estudantes a analisar sua auto-imagem e os efeitos dela no seu comportamento, determinar objetivos pessoais de vida, monitorar progressos nesse sentido, identificar comportamentos e decisões cotidianas que foram influenciadas por outras pessoas, analisar essas situações e aprender a avaliar as conseqüências de determinados comportamentos antes de adotá-los;
Habilidades sociais gerais – ajuda os estudantes a superar a timidez e a dificuldade de se comunicar, a obter firmeza na comunicação verbal e não verbal, tanto na recusa como na aceitação de convites, assim como trabalhar com o reconhecimento de alternativas viáveis à passividade ou agressividade diante de situações difíceis.
Habilidade de resistir a drogas – ajuda os jovens a reconhecer os mitos e concepções equivocadas, disseminadas socialmente, em relação ao cigarro, álcool, medicamentos e drogas ilícitas, assim como lidar com a pressão dos meios de comunicação de massa e dos amigos para usá-los.
Adolescente tem muito orgulho de ter autonomia e idéias próprias. Assim, embora os dados sejam unânimes em apontar pressão de grupo como um fator importante para o início do uso de drogas, não é aconselhável que este tema seja abordado diretamente. Use estratégias criativas, principalmente dando voz aos alunos que vêem os possíveis benefícios que as drogas podem trazer e preferem escolher outras formas de alcançar esses benefícios (descontração, relaxamento, sentir-se parte da “turma”, ter coragem de paquerar).
Procure adaptar o seu trabalho a seu público alvo: se você é educador na área de esportes, por exemplo, seu trabalho de prevenção vai render mais entre jovens que adoram esportes (e que, em geral, não são muito atraídos por matérias que requerem leitura e estudo). Assim, procure adaptar sua mensagem a seu público, e evite recomendar livros para discussão, ou aulas teóricas sobre o assunto.
Uma forma eficaz de trabalhar é desenvolver um programa específico para participantes de times esportivos da escola.
A idéia é simples e original: desenvolver atividades de promoção à saúde como parte integrante dos treinamentos dos times, com supervisão dos próprios técnicos esportivos e seus ajudantes.
Esse tipo de postura tem sido chave para o sucesso de ações preventivas: para se contrapor a uma cultura grupal de esculpir o corpo com remédios e beber até cair depois do jogo é preciso atuar no próprio palco onde essa sub-cultura é construída - nas quadras, nos treinos.
É necessário escolher adultos apropriados para trabalhar com esses jovens. Para estudantes atletas, que muitas vezes pouco valorizam o currículo formal, pedir para o professor de Ciências trabalhar o problema na sua disciplina seria possivelmente inócuo (senão contraproducente).
Para abordar a questão das drogas e desenvolver ações de prevenção na escola, é necessário ter um planejamento que envolva os diferentes segmentos, incluindo coordenadores, professores, pais, funcionários, estudantes e comunidade.
O trabalho deve ser desenvolvido durante todo o processo escolar, por meio de métodos interativos, e integrado ao currículo e a ações de promoção à saúde individual e coletiva.
REFERÊNCIAS
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Rezende, Manuel Morgado. “Modelo de análise do uso de drogas e de intervenção terapêutica: algumas considerações”. Revista biociência, Taubaté – Vol. 6, janeiro, pág. 49 – 55, 2000.
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Moreira, Fernanda Gonçalves. “Situações Relacionadas ao Uso Indevido de Drogas nas Escolas Públicas da Cidade de São Paulo: uma aproximação do universo escolar”. Tese (Mestrado) – Universidade Federal de São Paulo. Escola Paulista de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria. São Paulo, 2003.
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Livreto informativo sobre DROGAS PSCICOTRÓPICAS. CEBRID. Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina.

