EJA
De Psicologia da Educação
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Indrodução
Muitas pessoas, por variados motivos, principalmente pela necessidade de trabalhar muito cedo, não puderam concluir o ensino fundamental e médio, ou não tiveram acesso a esse ensino na idade apropriada. O sistema de Educação para Jovens e Adultos (EJA) foi criado para proporcionar o desenvolvimento da educação básica para essas pessoas que já não estão mais em idade escolar.
O público que ingressa no EJA procura um curso diferente. A maioria trabalha, tem família, ou outras responsabilidades que os impede de dedicar grande parte de seu tempo aos estudos. Geralmente, o tempo dentro da sala de aula é o único período que têm para estudar. Portanto, a educação de jovens e adultos tem que ser pensada de uma maneira que se adapte às necessidades e limitações desse público. Além disso, as dificuldades impostas para o educador não são somente de sentido metodológico. Apesar de os conteúdos passados serem os mesmo ensinados àqueles que cursam o ensino regular na idade apropriada, as práticas pedagógicas não podem ser as mesmas, pois se trata de um público com uma bagagem cultural e experiência de vida muito maior, e também por agrupar na mesma sala de aula dois perfis bem diferentes, adolescentes e adultos.
Enfim, neste trabalho discutiremos o modo como se pensa, ou deveria ser pensado, o sistema da EJA. Estão apresentadas reflexões sobre as práticas pedagógicas, organização curricular, os desafios da formação docente, políticas públicas e qual o objetivo na formação desse estudante, levando em conta o papel que deve representar na sociedade.
Práticas pedagógicas na EJA e a formação do educador de jovens e adultos.
Desde os primeiros momentos que começou a ser pensada a educação de jovens e adultos no Brasil encaminhava-se para uma visão compensatória na qual o objetivo de alfabetizar não se fazia acompanhar de um reconhecimento da especificidade dos alfabetizandos. Com base na ação do voluntariado, a primeira Campanha Nacional de Educação de Adultos no Brasil não preparava adequadamente professores para trabalhar com essa população.
Conseqüentemente aumentaram as críticas à ausência de formação específica para o professorado, assim como à falta de métodos e conteúdos pensados particularmente para a educação de adultos. Então, no governo de João Goulart foi proposto um Programa Nacional de Alfabetização fundamentado no "Método Paulo Freire", porém a partir do golpe militar de 1964 a proposta foi abandonada.
Os sucessivos programas de alfabetização de adultos propostos posteriormente apresentaram problemas de inadequação das propostas curriculares e metodológicas à faixa etária e ao perfil socioeconômico-cultural dos educandos, e apresentação de propostas únicas para todo o país, desconsiderando as nossas múltiplas especificidades regionais.
Atualmente, são muitos os educadores que buscam incorporar ao trabalho e à reflexão sobre o tema os jovens e adultos que, estando no sistema de ensino regular, são submetidos a propostas e práticas inadequadas tanto aos seus perfis socioeconômico-culturais quanto às suas possibilidades e necessidades reais. A formação dos educadores tem se inserido na problemática mais ampla da instituição da EJA como um campo pedagógico específico que, desse modo, requer a profissionalização de seus agentes.
A idéia da tecitura do conhecimento em rede pressupõe que as informações às quais são submetidos os sujeitos sociais só passam a constituir conhecimento quando se enredam a outras informações já presentes nas redes de saberes de cada um, ganhando, nesse processo, um sentido próprio. Isso significa que dizer algo a alguém não provoca aprendizagem nem conhecimento, a menos que aquilo que foi dito possa entrar em conexão com os interesses, crenças, valores ou saberes daquele que escuta.
Portanto, restringir o entendimento da ação pedagógica aos conteúdos formais de ensino constitui uma mutilação não só dos saberes que se fazem presentes nas escolas/classes, mas dos próprios sujeitos, à medida que fragmenta suas existências em pequenas "unidades analíticas" operacionais incompatíveis com a complexidade humana.
A exigência de formação específica para atuar na EJA, trata-se de uma formação em vista de uma relação pedagógica com sujeitos, trabalhadores ou não, com marcadas experiências vitais que não podem ser ignoradas. O descaso com a Educação de Jovens e Adultos pode estar, aos poucos, começando a ser revertido pela ação local dos municípios e seus parceiros.
A infantilização é um dos principais problemas que se apresentam ao trabalho na EJA. A organização dos conteúdos a serem trabalhados e os modos privilegiados de abordagem dos mesmos seguem as propostas desenvolvidas para as crianças do ensino regular.
Alguns profissionais, não preparados para esse tipo de ensino, fazem uso do diminutivo, que relembra permanentemente ao aluno da EJA que aquele lugar que ele ocupa naquela classe configura uma distorção.
Outro problema é a cobrança de dever de casa. Considerando o fato de que a criação da disciplina no estudo, importante como formação geral das crianças, não se aplica a este público e que a própria idéia de fixação de conteúdos pressupõe uma concepção de aprendizagem inadequada aos objetivos da escolarização de jovens e adultos? É fundamental compreendermos o quanto esta lógica prejudica os alunos da EJA, na medida em que reforça, mais do que resolve, os problemas que os obrigaram a deixar a escola, na medida em que a torna incompatível com as necessidades e interesses das suas vidas cotidianas.
Se os conteúdos aparentemente abstratos fossem trabalhados na EJA em relação com sua utilidade concreta, a escola poderia ter, na adesão dos alunos à necessidade de aprendizagem deles, um contributo fundamental para a facilitação dos processos pedagógicos e sanaria mais um problema apresentado.
A formação recebida pelos professores, normalmente por meio de treinamentos e cursos aligeirados, é insuficiente para atender às demandas da Educação de Jovens e Adultos. Nesse sentido, concluem que, para se desenvolver um ensino adequado a esse público, são necessários uma formação inicial específica consistente, assim como um trabalho de formação continuada. Há um desafio crescente para as universidades no sentido de garantir os espaços para discussão da EJA, seja nos cursos de graduação, seja-nos de pós-graduação e extensão.
A lógica que preside a organização da escola e as propostas de trabalho que ela busca pôr em prática trazem embutidos valores, idéias e concepções de mundo bastante diferentes do público que a freqüenta, o que dificulta imensamente ao educando realizar o enredamento daquilo que se diz e se propõe na escola com os saberes que traz de sua vivência.
A lógica que deve presidir a seleção e apresentação dos conteúdos aos alunos é a da Educação de Jovens e Adultos e não a do Ensino Regular. Entende-se por isso uma abordagem dos conteúdos relacionando-os, tanto quanto possível, a situações da vida cotidiana das populações trabalhadoras pouco ou nada escolarizadas, ausentes das escolas regulares ou não Cabe ressaltar a necessidade de uma lógica que os compreenda não como uma finalidade em si, mas como meio para uma interação mais plena e satisfatória do aluno com o mundo físico e social à sua volta, oportunizando a essas populações a valorização dos saberes tecidos nas suas práticas sociais em articulação com saberes formais que possam ser incorporados a esses fazeres/saberes cotidianos, potencializando-os técnica e politicamente.
Entende-se que "a escola deverá incorporar efetivamente os conhecimentos – conteúdos e competências – necessários para que o indivíduo possa desenvolver-se física, afetiva, intelectual e moralmente, a fim de desempenhar-se com autonomia no âmbito político, econômico e social no seu contexto de vida.
Assim sendo, a principal preocupação do trabalho pedagógico, bem como dos processos de avaliação, não deve ser o "saber enciclopédico", mas saberes que contribuam para o desenvolvimento da consciência crítica e para esta capacitação, sem que isso signifique uma opção por qualquer tipo de minimização, como foi e ainda é preconizado por alguns.
Os estudos realizados apontam que não existe relação estreita entre formação inicial na universidade e campo de atuação. Essa situação pode ser, pelo menos parcialmente, explicada pela configuração histórica da EJA no Brasil, fortemente marcada pela concepção de que a educação voltada para aqueles que não se escolarizaram na idade regular é supletiva e, como tal, deve ser rápida e, em muitos casos, aligeirada.
Há que se pressionar o Ministério da Educação para a tomada de iniciativa no que diz respeito à formação desse educador. Constatam-se avanços na concepção de EJA adotada pelo Ministério:
A constituição de um quadro profissional - formado nos cursos de Pedagogia, nas licenciaturas e nas redes de educação formal e não-formal - para atuar junto a um público específico contribuirá para o fortalecimento da área, para a reconfiguração desse campo de trabalho e, certamente, para o melhor atendimento de parcelas significativas da população que foram precocemente excluídas das ações de escolarização.
Reflexões Acerca da Educação de Jovens e Adultos
A educação de jovens e adultos (EJA) pode ser encarada sob duas perspectivas distintas:
- Através do paradigma compensatório, que focaliza a escolaridade não realizada ou interrompida no passado. “A concepção compensatória nutre visões preconceituosas que subestimam os alunos, dificulta que os professores valorizem a cultura popular e reconheçam os conhecimentos adquiridos pelos educandos no convívio social e no trabalho”.
- Através do enfoque de educação continuada, amparada pelos argumentos de que já não se sustenta a idéia de que exista uma idade apropriada para aprender, visto que as pesquisas demonstram que a aprendizagem ocorre em qualquer idade. Além disso, numa sociedade tão dinâmica quanto a nossa, em que as mudanças se dão com uma velocidade muito grande, é exigida uma constante (re)adaptação dos indivíduos; neste sentido, a sociedade nos exige um processo constante de (re)aprendizagem.
(Fonte: Notas sobre a redefinição da identidade e das políticas públicas de educação de jovens e adultos no Brasil).
Em busca de informações referentes à produção de livros didáticos para este público específico, verificamos existir uma publicação chamada “Coleção Cadernos de EJA”, que pode ser consultado no site do MEC, acessando o link “Educação de Jovens e Adultos” e, em seguida, o link “Material Didático”.
No material, encontramos um retrato histórico do EJA:
“Na década de 1940, quando começaram as primeiras iniciativas governamentais para lidar com o analfabetismo entre adultos, entendia-se que o seu fim seria fundamental para o crescimento econômico do país. O analfabetismo era visto como um mal social e o analfabeto como um sujeito incapaz. A década de 1950, por sua vez, viu no adulto analfabeto um eleitor em potencial, uma vez que, nessa época, analfabeto não votava. Era a crença na participação de todos - como eleitores - para o desenvolvimento do país. No começo da década de 1960 a alfabetização juntou-se aos movimentos estudantis e sindicais e a questão do analfabetismo passou a ser vista como conseqüência direta da pobreza e de uma política de manutenção de desigualdades. Foi nesse contexto que as idéias de Paulo Freire ganharam dimensão nacional. Sua proposta inovadora, pregava a necessidade de uma alfabetização voltada para a libertação, para a conscientização dos homens e mulheres como sujeitos capazes de transformar a realidade social. A educação passou a ser entendida como um ato político.” (Caderno 1, p.26)
A coleção compreende vinte e sete cadernos (treze do aluno, treze do professor e um guia metodológico dirigido ao professor). Os cadernos de atividades do professor são compostos de atividades para as diversas áreas do conhecimento e relacionados aos textos do caderno de leitura do aluno. O caderno metodológico possui orientações para os professores de EJA, enfocando a articulação das atividades com o mundo do trabalho, a concepção que norteia a organização dos temas e indicações de uso do material. Os cadernos de leitura dos alunos têm formato de revista, com o intento de serem atraentes para o aluno; usam ilustrações e apresentam grande diversidade de gêneros literários e textuais, num esforço para romper com o paradigma de linearidade dos conteúdos escolares. “Na maior parte dos casos, não há uma seqüência pré-determinada, os componentes curriculares se interpenetram sem fronteiras estanques (Caderno 1, p.15).” Nota-se, claramente, um esforço em direção à interdisciplinaridade, à visão do processo de aprendizagem como algo abrangente, em que as disciplinas se interpenetram e relacionam, fugindo ao tradicional esquema de fragmentação com o qual a escola tradicional trabalha. O Caderno ilustra estas idéias com um exemplo prático:
“Quando o professor de Matemática, por exemplo, coloca um texto de literatura para um aluno ler e, a partir desse texto, introduz os conceitos matemáticos, esse fato por si só é uma evolução em relação a uma perspectiva pedagógica que compartimentaliza as áreas do conhecimento humano. No momento em que isso acontece, inicia-se a quebra de algumas barreiras e o(as) professor(as) de todas as áreas começam a perceber que os conteúdos se relacionam, por ser a realidade uma totalidade coerente (Caderno 1, p.15)”
No Caderno 1, encontramos um relato de uma aluna EJA, Luciane, 34 anos, que abandonou a escola ainda criança, depois de sucessivas reprovações:
“Ela lembra como se sentia numa sala de aula da 4ª série, quando tinha 10 anos: Eu tinha medo de ir à escola, me dava um frio na barriga. Tentava prestar atenção na aula, mas entendia tudo pela metade. Tentei participar das aulas, algumas vezes, mas minhas perguntas sempre causavam risos e a professora nunca falava nada.Tinha vergonha de não saber! (p.16)”
Neste sentido, é interessante observarmos como as questões pedagógicas com que trabalhamos ao falar sobre EJA não necessariamente se restringem ao contexto da educação de jovens e adultos. Respeitadas as devidas especificidades de cada um dos públicos de que tratamos, muitos dos questionamentos em relação ao formato pedagógica da escola EJA podem ser estendidos à escola de maneira geral. Questões referentes à possibilidade de construção de um conhecimento que seja realmente interdisciplinar, que realmente corresponda à realidade, deixando de ser fragmentado são questões que merecem um debate mais cuidadoso.
Público EJA
O público que freqüenta o ensino de jovens e adultos tem suas especificidades: “(...) são adolescentes e jovens pobres que, após realizar uma trajetória escolar descontínua, marcada por insucessos e desistências, retornam à escola em busca de credenciais escolares e de espaços de aprendizagem, sociabilidade e expressão cultural.” (Notas sobre a redefinição da identidade e das políticas públicas de educação de jovens e adultos no Brasil).
Neste sentido, no Caderno 2 está colocado:
“Numa sociedade tão hierarquizada como a brasileira, nossos alunos e alunas, geralmente, desenvolvem as ocupações mais subalternas, nas quais o que mais se tem a fazer é obedecer a uma série de chefes, patrões, gerentes... Treinados a seguir orientações, não é de estranhar que ao chegarem à escola desejem encontrar atividades em que predominem a cópia, a repetição do que disse o(a) professor(a) e outras situações do mesmo tipo. Pensar e tomar decisões é bem diferente e dá muito trabalho, principalmente para quem tem pouco exercício dessa prática. (p.7-8)”
E no Caderno 1:
“(...) a escola que os alunos têm em seu imaginário, aquela que conhecem porque já passaram por ela anos atrás ou porque acompanham o cotidiano de seus filhos, nem sempre é aquela com que se deparam nos primeiros dias de aula. Nesses casos, esperam encontrar o modelo tradicional de escola, ou seja, um lugar onde predominam aulas expositivas, com pontos copiados da lousa, onde o(a) professor(a) é o único detentor do saber e transmite conteúdos que são recebidos passivamente pelo(a) aluno(a). (...) Especialmente, os alunos mais velhos se mostram resistentes à nova concepção de escola que os coloca como sujeitos do processo educativo, que espera deles práticas ativas de aprendizagem. (p.8)”
Depoimento de uma professora do EJA, da disciplina de história, Aryanne, sobre os perfis dos alunos e as dificuldades de se trabalhar com esse público:
“Há impreterivelmente dois perfis distintos e bem definidos, o primeiro se caracteriza pela idade (geralmente acima dos trinta anos) e pelas limitações, pedagógicas (dificuldade de acompanhar algumas propostas e discussões) e também metodológicas (o fato de trabalharem o dia inteiro impossibilita a realização de tarefas fora do espaço de sala de aula). Este primeiro perfil de estudante, geralmente mostra-se interessado, porém pouco disposto a realizar tarefas diferentes, principalmente se estas envolverem maior reflexão e questionamentos que fujam do que está escrito, literalmente, no texto. O segundo perfil de estudante do EJA é menos interessado na aula, porém, quando demonstra este interesse, mostra-se muito mais capaz e flexível a novas tarefas, discussões e questionamentos. Sua faixa etária em geral é de 16 a 20 anos e apesar de alguns destes trabalharem durante o dia, há também aqueles que apenas “migraram” para o EJA por comodidade (vontade de estudar a noite e integrar-se de alguma forma a uma vida social noturna, ou por crer ser a avaliação deste sistema mais branda ou “fácil” como eles costumam dizer).“
Estas pessoas chegam à escola com uma bagagem definida, com um saber adquirido na prática, na vivência real das situações. Neste sentido, é necessário que o professor valorize o conhecimento que seu aluno possui, um conhecimento que não é o formal com o qual a escola está habituada a lidar, mas sim um conhecimento prático, produto das experiências concretas dos indivíduos. É importante que o professor dialogue com seus alunos, saiba de que meio estes indivíduos se originam e que saberes eles possuem e, a partir disto, parta para uma atitude pedagógica que vá de encontro a esse saber que os alunos trazem. “Na sala de aula, o(a) professor(a) sempre ganha quando consegue estabelecer relações entre os novos conhecimentos e os que os alunos já sabiam (p.33).”
Aqui, é possível pensar num paralelo entra o aluno EJA e o aluno que freqüenta a escola tradicional, as crianças e jovens que estão seguindo o curso normal de seus estudos. Costumamos contrapor estes últimos aos primeiros, dizendo que o público que chega procurando o EJA, o faz trazendo uma bagagem intelectual já constituída e idealizando o aluno da escola tradicional como o oposto, um aluno que chega “vazio” de outras experiências. No entanto, talvez seja necessário rever este posicionamento, na medida em que é inegável que as crianças e adolescentes da escola tradicional também chegam à escola com uma bagagem, adquirida em outros espaços de convivência social que não a escola: eles possuem uma família, que bem estruturada ou não, vai dar sua contribuição à formação intelectual do aluno; eles freqüentam “tribos”, grupos de pertencimento (pensamos, aqui, em grupos como por exemplo, os CTGs – Centro de Tradições Gaúchas – , os CLJs – Curso de Liderança Juvenil, ligado à Igreja Católica – ou ainda grupos ligados à cultura “hip hop” ou à cultura “emo”) que possuem seus valores e linguagens próprios, que também vão influenciar a formação intelectual dos indivíduos. Não podemos esquecer da Internet, que abre os horizontes do indivíduo a uma infinidade de conhecimentos possíveis. Assim, fica claro que a escola não possui a hegemonia sobre a formação intelectual do indivíduo; ela faz parte de um contexto maior e tem que dialogar com as outras fontes de influência que atuam sobre o aluno.
Neste sentido, por mais que fica clara a necessidade de guardar as devidas proporções quanto ao tipo de experiências vivenciados por um adulto que retorna à escola e por uma criança ou adolescente que está freqüentando a escola tradicional, é perfeitamente possível aproximá-los no sentido de que ambos não chegam à escola livres de sua carga intelectual, sentimental e psicológica. Ambos estão inseridos em suas realidades específicas e trazem conhecimentos que precisam ser contextualizados.
Programa Brasil Alfabetizado
O programa foi implementado em 2003, na atual gestão do Governo Lula, com o objetivo de erradicar o analfabetismo em todo Brasil. Através dele, estados, municípios, empresas privadas, universidades, ONGs recebem recursos financeiros do Governo Federal, para executarem as seguintes tarefas: formação de alfabetizadores e a alfabetização de jovens e adultos. Mais especificamente, os receptores do erário, devem ceder salas de aula, formar educadores e cadastrar alunos e professores.
Em relação à atuação desse programa no ano corrente, o MEC acreditava que o “Brasil Alfabetizado” ampararia 1,3 milhões de pessoas, mas agora, percebe-se que, além disso, mais 700 mil pessoas serão beneficiadas pelo mesmo. O foco para 2008 era atender os 1900 municípios com taxa de analfabetismo superior a 25%. Ainda que 300 milhões de reais tenham sido gastos no “Brasil Alfabetizado” de 2003 a 2005, a queda no número de analfabetos absolutos se situou em 0,3%, muito abaixo do esperado.
PROEJA
O Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) foi criado em 2005, com a intenção de incluir os alunos da Educação de Jovens e Adultos no Ensino Profissionalizante. É interessante de se perceber que é um dos poucos programas que engloba e interliga duas temáticas diferenciadas: EJA e Ensino Profissionalizante.
Pelo projeto, o MEC obrigou as instituições da rede federal de educação técnica e tecnológica a destinar, em 2006, o correspondente a 10% das vagas oferecidas em 2005 para o ensino médio integrado à educação profissional destinado a jovens acima de 18 anos e adultos que tenham cursado apenas o ensino fundamental.
Conclusão
Indubitavelmente, é ótima a iniciativa que leva a educação a pessoas de faixa etária maior do que aquelas que freqüentam o ensino regular normalmente. Entretanto, é preciso que se faça muito mais do que vem sendo feito nesse sentido. Por exemplo, ainda que a oferta de programas educacionais do EJA nas diferentes esferas governamentais seja algo extremamente positivo, a Educação de Jovens e Adultos clama por uma institucionalização. Com ela, será viável além da formação de educadores que estejam preparados para atender as necessidades educacionais desse grupo de alunos, o desenvolvimento de materiais didáticos apropriados para o perfil do aluno a ser educado e de uma didática que respeite as particularidades de estudantes que, em certo sentido, não podem sofrer o mesmo tratamento que os alunos de escola regular recebem de seus professores, pois isso caracterizaria uma infantilização.
Além disso, de forma geral, é reprovável o trajeto que o ensino púbico brasileiro vem trilhando, já que é notório que a educação é realizada em decorrência da ótica neoliberal e capitalista. Pela primeira, o Estado vem cada vez mais se isentando de seu papel no setor da educação, “empurrando” o mesmo para a iniciativa privada na maior parte das vezes; enquanto, pela segunda, há o desenvolvimento de uma educação tecnicista voltada para a formação de uma mão-de-obra que futuramente se insira no mercado de trabalho, em detrimento ao fomento de um ensino que forneça meios para que os alunos possam se situar e se reconhecer como verdadeiros cidadãos nesse mundo conturbado.
É bem verdade que as pessoas que afirmam que a ação educadora deveria ser neutra politicamente, são hipócritas ou no mínimo utópicas, dado que não existe educação que seja neutra. Assim, todo processo educativo assume um posicionamento político. Destarte, não fizemos aqui a critica pela critica à ótica neoliberal, mas à hegemonia que essa tem arraigada nos centros de conhecimento. Em virtude disso, o saber deve ser analisado por novas “lentes” que não apenas se preocupem em formar futuros trabalhadores, mas que se esmerem em transformar os estudantes em cidadãos atuantes na sociedade, e não em massa de mão de manobra de políticos populistas e demagogos, como é visível a muitos anos, na República Brasileira.
Referências Bibliográficas
O educador de jovens e adultos e sua formação
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A ação de governos locais na educação de jovens e adultos
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Reflexões acerca da organização curricular e das práticas pedagógicas na EJA
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602007000100007&lng=pt&nrm=iso
Políticas públicas para educação de jovens e adultos no Brasil: a permanente (re)construção da subalternidade – considerações sobre os Programas Brasil Alfabetizado e Fazendo Escola
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602007000100004&lng=pt&nrm=iso
Educação popular: desafio à democratização da escola pública
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622007000100002&lng=pt&nrm=iso
Tramando concepções e sentidos para redizer o direito à educação de jovens e adultos
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782006000300012&lng=pt&nrm=iso
Notas sobre a redefinição da identidade e das políticas públicas de educação de jovens e adultos no Brasil
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302005000300018&lng=pt&nrm=iso
A política de educação profissional no Governo Lula: um percurso histórico controvertido
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302005000300017&lng=pt&nrm=iso

