Educação Inclusiva +
De Psicologia da Educação
A Educação inclusiva de qualidade se baseia no direito de todos os estudantes a receber uma educação de qualidade que satisfaça suas necessidades básicas de aprendizagem e enriqueça suas vidas. A educação inclusiva de qualidade procura desenvolver todo o potencial de cada pessoa, tendo como objetivo final erradicar todas as modalidades de discriminação e fomentar a coesão social.
O princípio da educação inclusiva foi adotado na Conferência Mundial sobre as Necessidades Educativas Especiais: acesso e qualidade (Declaração de Salamanca, Espanha, 1994), reafirmada no Fórum Mundial de Educação (Declaração sobre Educação para Todos, Dacar, Senegal, 2000) e apoiada pelas Regras Básicas das Nações Unidas em Igualdade de Oportunidades para Pessoas Portadoras de Deficiências. Focalizando a promoção dos valores universalmente compartilhados e a diversidade culturalmente sensível dos contextos e métodos educacionais, a UNESCO está trabalhando para promover educação de qualidade como um direito fundamental para todos tratando sobre uma grande variedade de temas, dos quais inclui o respeito pela diversidade cultural e lingüística.
Baseado nos princípios estabelecidos na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural, adotada pela Conferência Geral da UNESCO, em sua 31ª. Sessão, em 2 de novembro de 2001, a Organização se compromete em apoiar os Estados Membros que desejam encorajar a diversidade lingüística e o respeito pela língua materna em todos os níveis educacionais; e quando possível, promover por meio da educação a conscientização do valor positivo da diversidade cultural e fazer total uso de métodos culturalmente apropriados de comunicação e transmissão de conhecimento. A busca atual pela educação de qualidade está inextricavelmente ligada aos processos e impactos da globalização.
Educação Especial
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais ( BRASIL, 1998) a educação especial no Brasil deve ser definida como algo mais amplo, indo além de simples atendimentos especializados. Deve abranger uma modalidade de educação escolar, da mesma forma voltada para a formação geral do indivíduo, visando o desenvolvimento da cidadania. Esta modalidade de ensino, segundo esta proposta, deve ser vista como indissociável do sistema educacional brasileiro, voltando-se a atender e a respeitar a diferença entre os alunos exigindo diferenciações nos atos pedagógicos, de forma que as necessidades educacionais de todos possam ser contempladas. Nesta análise, embora a educação especial exija ações diferenciadas, não deve ser realizada de forma isolada, mas como parte interativa da educação geral.
Para VYGOTSKY (1997) a educação especial pode acentuar o isolamento social dos indivíduos com deficiência e tirar o contato destes com sua realidade.
Educação Especial Inclusiva
Muito se fala em Educação Especial Inclusiva, mas nem sempre temos uma noção carreta a seu respeito. Julgamos bastante apropriado o seguinte conceito de Educação Especial: "Conjunto de medidas e recursos (humanos e materiais) que a administração educativa coloca à disposição dos alunos com necessidades educativas especiais: pessoas com algum tipo de défice, carência, disfunção ou incapacidade física, psíquica ou sensorial, que lhes impeça um adequado desenvolvimento e adaptação" (Ezequiel Ander-Egg, 1997).
A Educação Especial engloba uma imensa diversidade de necessidades educativas especiais, assim como uma equipe multidisciplinar, composta pelos mais diversos profissionais e especialistas.
Seu objetivo principal é promover uma melhor qualidade de vida àqueles que, por algum motivo, necessitam de um atendimento mais adequado à sua realidade física, mental, sensorial e social. Seus destinatários são todas as pessoas que precisam de métodos, recursos e procedimentos especiais durante o seu processo de ensino-aprendizagem.
A Educação Especial deve ser vista no contexto da Educação Geral, ou seja, o portador de necessidades especiais deve ser atendido no mesmo ambiente que o não-portador. A esta tendência contemporânea chamamos de Educação Inclusiva, uma vez que o portador de necessidades especiais é inserido em classes regulares de ensino, sendo tão digno e merecedor da educação como qualquer outra pessoa.
O nosso trabalho abordará a educação especial para cegos. Segundo MAZZOTTA (1996), a educação especial no Brasil pode ser subdividida em dois períodos distintos: primeiro de 1854 a 1856, com iniciativas e particulares e segundo de 1857 em diante, com iniciativas oficiais e de âmbito nacional. O primeiro período inicia-se em 12 de setembro de 1854, quando o imperador D. Pedro II fundou, na cidade do Rio de Janeiro, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, posteriormente modificado para Instituto Benjamin Constant (IBC). Hoje em dia é pioneiro na América Latina na educação de cegos. Além de capacitar profissionais, orientar colégios e instituições, o IBC oferece ensino fundamental, consultas e cirurgias oftalmológicas gratuitas ao público, produz materiais didáticos especializados, impressos em braille e publicações científicas.
FONTES (2002) destaca que o segundo período inicia-se em 1957, quando o Governo Federal passa a criar campanhas voltadas especificamente para pessoas com deficiência. Foram criadas a Campanha para Educação dos Surdos Brasileiro em 1957 e a Campanha Nacional de Educação dos Cegos em 1960.
Deficiência Visual
“A visão é um meio importante de integração entre o individuo e o meio ambiente, já que os conhecimentos, em grande parte, são adquiridos por seu intermédio”.(MS, 1990).
A redução ou privação da visão tem reflexos na vida pessoal e funcional da pessoa atingida por essa limitação. A deficiência visual limita, mas não impede a pessoa de levar uma vida normal.
Diferentes são as causas que levam à cegueira e, embora sejam de suma importância para o processo ensino-aprendizagem, não fazem parte do tema em pauta. O referido processo exige do professor conhecimentos sobre a deficiência visual e sobre os comprometimentos impostos pela limitação visual para que possa fazer uma intervenção adequada. Para fins médicos e educacionais a Organização Mundial da Saúde -OMS sugere a classificação da deficiência visual em dois grandes grupos, a saber:
• Pessoas com cegueira • Pessoas com baixa visão
. A deficiência visual pode ser congênita ou adquirida. Com relação à cegueira congênita Lowenfeld (1973), Ochaitá (1995) referem que a falta de visão acarreta efeitos diretos no desenvolvimento e aprendizagem. Esses efeitos são intrínsecos e podem se manifestar da seguinte forma
Efeitos Primários – decorrentes do problema orgânico em si e envolve:
- Alcance e variedade de experiências
- Formação de conceitos (que vem a se formar através do tato ativo-intencional e do tato passivo-não intencional = sistema haptico)
- Orientação e mobilidade (é o efeito mais severo e envolve a locomoção, orientação espacial e a movimentação).
- Interação com o ambiente (diz respeito à relação/e controle do ambiente)
- Acesso à informação
Efeitos Secundários- inter-relação Eu//Outro, Eu//mundo.
Princípios que devem nortear a educação das crianças cegas:
- Individualização - Concretividade - Experiência unificada - Estímulo adicional - Auto- atividade – evita os anopcismos (maneirismos)
Bebês com cegueira congênita devem ser atendidos em programas de Intervenção Precoce a fim de que sejam minimizados os efeitos da incapacidade visual.
Com relação às crianças cegas em idade escolar, devem ser levadas em consideração as Diretrizes Nacionais para a E.E. na Educação Básica em seu capítulo2, item4. 1 ,letra d, que entre outras orientações propõe:
Comunicação (Sistema Braille, materiais especiais, livros). A V D (Atividades da Vida Diária) Locomoção (Orientação e Mobilidade)
Caso a criança cega não receba ajuda para as suas descobertas e aprendizagem, além dos efeitos diretos que são intrínsecos à deficiência, poderá sofrer os efeitos indiretos provenientes do meio em que vive.
Cegueira adquirida -Adolescente Jovem
Com relação às pessoas que são atingidas pela cegueira na adolescência ou na idade adulta, Carrol(1968 ) e Ponchillia(1996) chamam a atenção para as perdas ocasionadas por essa limitação, revelando que elas não podem ser tomadas isoladamente, mas sim analisadas como um todo e à luz da bagagem de vida das pessoas que perderam a visão. Segundo os autores, essas perdas envolvem:
1 – Segurança Psicológica
- Integridade física - Própriocepção, cognição e sentidos remanescentes= processo perceptivo). - Contato com o meio ambiente - Segurança luminosa
2 – Habilidades Básicas
- Mobilidade Independente - Atividades da Vida Diária
3 – Comunicação
- Escrita - Progresso informativo
4 – Apreciação
- Percepção visual do belo - Percepção visual do agradável
5 – Ocupação e Situação Financeira
- Recreação - Carreira, emprego, vocação - Segurança financeira
6 – Personalidade Total
- Independência pessoal - Obscuridade - Auto-estima - Organização total da personalidade
Para esse grupo de pessoas o atendimento nos programas de Reabilitação é o mais indicado, o que não exclui o atendimento escolar com os apoios especializados.
Baixa visão
De acordo com Hyvarinen (apud Gasparetto,2001), a baixa visão na educação é uma entidade complicada, pois o trabalho é altamente personalizado devido às diferenças individuais, diferenças na habilidade de utilizar a visão (isto depende não só da patologia ocular, mas também, da eficácia do uso da visão), e às diferentes formas de intervenção.
Dessa forma a criança com baixa visão poderá apresentar baixo rendimento escolar caso não tenha o suporte adequado às suas necessidades específicas.
Além da orientação aos pais, as crianças ou os adolescentes com deficiência visual deverão contar com atendimento especializado para as suas necessidades.
A escola é um local importante para a aprendizagem intencional, uma vez que exige situações sociais específicas e instrumentos de mediação, mas não é só na escola que se dá à aprendizagem. A língua oral é um exemplo disso, pois é adquirida e aprendida no meio social e intermedia as relações interpessoais (Machado, 2003, Wygotsky, 1994). Assim outros espaços contribuem para todo e qualquer tipo de aprendizagem.
È importante ressaltar que devemos ter presente o que Goffman (1978) sinaliza com muita propriedade: a sociedade estabelece categorias de pessoas a partir das exigências por ela apresentadas, ou seja, aqueles traços que fogem ao estabelecido como normal, caso não sejam atendidos, colocam a pessoa numa situação de desvantagem.
A LDBN/96 é muito enfática ao colocar a E.E. como modalidade de educação escolar que conta com professores especializados para o atendimento ao educando com deficiência, na qualidade de mediadores. Porém, se os professores das classes comuns não forem adequadamente preparados, processo de inclusão corre sérios riscos.
Em pesquisa realizada por Machado(2001) junto a 120 professores da rede regular de ensino, foi constatado que na formação desses profissionais não há disciplina que cuide da educação inclusiva e a fala dos entrevistados denuncia a falta de conhecimento sobre os recursos disponíveis para as pessoas com deficiência visual.
A experiência docente na formação de professores nos tem mostrado que os dados obtidos na pesquisa são reais. Os alunos desconhecem a realidade das crianças com deficiência visual e os recursos educacionais disponíveis para essa população. Observa-se, paralelamente, um certo desconforto frente à proposta inclusiva uma vez que não dominam os saberes pedagógicos especializados e temem o fracasso no atendimento a essas crianças.
A pesquisa traz dados importantes para que repensemos não só a educação como também a questão da inclusão. Há informações de que 10% das pessoas com deficiência estão incluídas na escola, mas, para a inclusão plena é necessário: preparar os professores e profissionais nos cursos de formação e criar escolas piloto que sirvam para efetivar a formação dos educadores.
Segundo Xavier (2001) deve-se pensar a Educação Especial na óptica da diversidade e de suas implicações; na idéia de Unidade da Educação -construção da competência docente para a educação inclusiva, a prática docente( Educação para a comunidade), e na construção de uma comunidade gestora da Educação Especial.
Com a educação especial inclusiva, na nossa análise, para cegos os benefícios para os alunos são: Atitudes positivas, ganhos nas habilidades acadêmicas e sociais, preparação para a vida na comunidade evitando os efeitos prejudiciais da exclusão. Para os professores é o apoio cooperativo e melhoria das habilidades profissionais, participação e capacitação; e para a sociedade o valor social da igualdade, superando a experiência e os padrões do passado. A sociedade de informação internacional e a igualdade (Stainback, 1999).
Educação Física Especial
A Educação Física Especial é uma importante ferramenta de inclusão social, assunto que tem sido muito discutido no meio acadêmico. A atividade física sistemática pode servir de importante elo de ligação entre os deficientes e a sociedade, tendo em vista o grande número de pessoas que possuem algum tipo de deficiência e está por algum motivo fora do convívio social, em sua rede de convivência e que não possui nenhum tipo de interação com outros membros de sociedade.
Através do esporte, da dança, do movimento e do relaxamento podemos fazer com que o deficiente passe a interagir com outras pessoas, com deficiência ou não. A Educação Física por ser uma disciplina onde a ludicidade, a liberdade e a individualidade se expressam, torna-se ambiente ideal para aprendizagem tanto das crianças normais, quanto das com necessidades educativas especiais.
Hellison (2003) enfatiza que ao participarem de atividades motoras ou intervenções, as crianças trazem consigo problemas pessoais e sociais que influenciam nas suas atitudes, comportamentos e, principalmente, na sua motivação em engajarem-se nas aulas. Os problemas trazidos pelas crianças interferem na aprendizagem de habilidades motoras e sociais. As crianças precisam aprender, nas práticas físico-esportivas, valores pessoais sociais e habilidades que as auxiliem a percorrer de forma construtiva os problemas sociais que estão presentes em suas vidas. E mais, as habilidades sociais atuam como mediadoras do desenvolvimento de crianças com atraso no desenvolvimento. A realização de interações sociais pode intensificar as possibilidades de um desenvolvimento total.
Hellison (1990) acredita que a atividade física ou programas esportivos são microcosmos da sociedade, sendo assim, crianças aprendem e desenvolvem comportamentos e qualidades pessoais e sociais por meio da atividade motora freqüente, e talvez, o mais importante, podem generalizar essas habilidades para a participação em sociedade. O movimento apresenta uma natureza que envolve aspectos emocionais e de interatividade, o que possibilitaria o desenvolvimento social das crianças participantes de programas com atividade motora (HELLISON, 2003). Buchanan (2001) afirma que neste contexto de aprendizagem a presença de contato mútuo e interações pessoais sociais são inevitáveis. A atividade motora possibilitaria, aos participantes, extravasar alegrias, tristezas, frustrações e obter sensações de prazer e relaxamento. Essas sensações e sentimentos visíveis no comportamento e atitudes dos participantes não ficariam tão evidentes sem a utilização do movimento.
Dificuldades para os cegos: transporte, acessibilidade, condição financeira, medos de se machucarem dentro das aulas; não se sentem bem com muitas pessoas reunidas.
- Acessibilidade, dificuldade para entrar no ônibus, desde a saída de casa já encontra dificuldades para chegar ao local, se encontrar no centro como os outros colegas para vir até aqui também é complicado.
- O tratamento das pessoas tem gente que ensina tudo errado, não conseguem explicar de uma forma que a gente entenda. É muito difícil conseguir se enturmar com outras pessoas.
Maioria dos deficientes não desconsidera a possibilidade de um programa inclusivo, mas prefere aulas exclusivas.
A Escola de Educação Física / ESEF-UFRGS, possui em seu currículo uma disciplina que atende a legislação (resolução 01/2002 do CNE) e oferece embasamento pra o trabalho com a população deficiente.
A integração com várias pessoas da disciplina possibilitou a formação de um grupo de pesquisa e extensão o Viver faz a diferença: Vivências motoras e inclusão social. O projeto tem por objetivo ampliar o repertório motor dos participantes e difundir no meio acadêmico a importância da inclusão e da acessibilidade de pessoas com deficiências, capacitando o profissional da saúde e da educação para atuar na área.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FONTES, R.S. Educação especial – um capítulo à parte na história do direito á educação no Brasil. Ensaio : avaliação da política pública em educação do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, v. 10, n.37, p.503-526, 2002.
____ A proposta da educação inclusiva: contribuições da abordagem Vygostkiana e da experiência alemã. Revista Brasileira da Educação Especial, Piracicaba, v.9, n.2, p.163-180, 2003b.
www.webartigos.com.br
www.mec.gov.br

