Educação sexual

De Psicologia da Educação

Um debate de relevância discutível se faz presente em parte da literatura sobre Educação Sexual nos últimos anos: a substituição do termo “educação”, por “orientação” sexual. A argumentação corre no sentido de que a educação é um processo amplo e a longo prazo, além de complexo demais para que se espere realmente educar as crianças e adolescentes no campo da sexualidade. O termo orientação estaria carregado de um significado mais pragmático, palpável e compatível com o ambiente de sala de aula. O certo é que há um consenso, na literatura pedagógica, de que a sexualidade não pode ser ignorada em ambiente escolar, visto que se faz presente de forma clara, seja na erotização estética dos alunos, detectável desde as séries iniciais, seja no próprio comportamento sexual explicito dos adolescentes.

Por construir-se como tabu sociocultural nas sociedades ocidentais, e também por tocar em complexos e instigantes campos da vida social das pessoas, vemos a discussão sobre educação sexual surgir sempre a partir de dois problemas principais: as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e a gravidez indesejada ou precoce. Mencionamos o sexo enquanto tabu porque a educação sexual poderia surgir, por exemplo, em razão dos prazeres vinculados à vida sexual ou simplesmente do interesse dos alunos neste tema. Mas não. Como opinam alguns educadores, a temática sexual na escola é trazida a tona já sob um estigma de morte, relacionada ou com doenças, algumas fatais, ou com a gravidez prematura, que significa, a vista tradicional, um desastre pessoal na vida das (os) adolescentes.

Observemos como, mesmo em artigos pedagógicos que se pode considerar críticos, a visão tradicional sobre a necessidade da educação sexual se perpetua. O trecho abaixo abre o artigo Educação Sexual Nossa de Cada Dia, de Rosely Sayão:

“Hoje, a maioria dos adultos que têm, por algum motivo pessoal ou profissional, contato com crianças e adolescentes, não consegue deixar de sentir-se pelo menos um pouco responsável pela sua educação sexual. Não sem razão: desde que a AIDS surgiu para ficar, a grande arma que se tem em mãos é a prevenção. Mesmo agora que uma nova combinação de drogas parece estar trazendo mais esperança de sobrevida com qualidade para muitos portadores do HIV que já a tinham perdido, a prevenção continua sendo a única alternativa para evitar os sofrimentos que a contaminação provoca. Contribui ainda para esse sentimento de responsabilidade o fato comprovado do aumento da gravidez precoce e indesejada entre adolescentes”.

Aqui podemos ler uma introdução semelhante, retirada do trabalho A Educação Preventiva em Sexualidade na Adolescência, por Maria Helena Brandão Viela Gherpelli:

“A presença da AIDS e o aumento da gravidez n adolescência são fatos constatados e que reforçam a hipótese de que a desinformação, a repressão, o silêncio, o medo e outros sentimentos negativos parecem limitar as escolhas do adolescente, ante a vida sexual e reprodutiva, criando situações de difícil atuação para pais e profissionais que lidam com jovens (...) A gravidez na adolescência e a AIDS são os grandes inimigos da vida sexual dos jovens, por suas conseqüências na saúde e no desenvolvimento pessoal e econômico. Para combate-los, nada como conhecer muito bem suas características, como agem e de quais recursos dispomos para entrar neste combate.”.

A autora Rosely Sayão coloca que depois dos pais, os professores das escolas de ensino fundamental e médio devem ser vistos como as pessoas responsáveis pela educação sexual das crianças e adolescentes. É uma responsabilidade grande colocada nestes profissionais, mas que encontra respaldo uma vez que os professores estão em contato diário com os alunos, muitas vezes testemunhando seus desenvolvimentos pessoais, além de serem uma fonte de informação “oficial” para estes jovens. A autora reforça sua opinião lembrando que, nos dias de hoje, é comum os pais trabalharem o dia todo, deixando os filhos, as vezes, sob os cuidados exclusivos da televisão.

Mas para cumprir essa missão, os professores necessitam estar preparados. E, sobre isto, Sayão não ignora que a realidade dos profissionais de educação nem sempre é a ideal. Segundo ela, o professor devem “aplicar a formação que recebeu para ser multiplicador de preciosas informações e atitudes que irão contribuir com a vida prática de seus alunos”. Mas muitas vezes, ao invés disso, o que se percebe no professor é a carência: “Carência de informações, carência de formação especializada, carência de conhecimentos na maneira de abordar o assunto com crianças e jovens em cada etapa específica do desenvolvimento”.

Vilela Guerpelli coloca que os professores devem ter supervisão e suporte técnico, que consistiriam em avaliações freqüentes do trabalho realizado, com reuniões, no mínimo mensais entre os professores, especificamente pra tratar do desenvolvimento da orientação sexual. Este quadro ideal é, provavelmente, bastante raro nas escolas brasileiras.

A recomendação aos professores é de proporcionar informações objetivas, utilizando em maior ou menor grau a sua formação específica, inclusive ultrapassando-a, quando for o caso. A orientação a ser dada deve explorar e questionar o máximo de possibilidades e aspectos da sexualidade, sem, porem, apontar uma direção como sendo o caminho certo. A complexidade se da pelo fato de que essa orientação ocorre num contexto por vezes imprevisível. Sayão coloca, por exemplo, que “não é raro, aliás nada raro, quando o assunto é tratado, intencionalmente ou não, em grupo, que o clima da classe fique explosivo. Gracejos, risos, piadas, total instabilidade de humor, atividade física intensa (o chamado fogo no rabo), enfim, tudo aquilo que pode ser considerado, em qualquer outra circunstância, como indisciplina”.

A autora coloca, também como um desafio, o fato de que a educação sexual não tem espaço suficiente na universidade, ou seja no currículo das licenciaturas. Em tom de protesto, a autora questiona: “Afinal, quando será que a Universidade em especial e as escolas em geral vão se lembrar de que existe uma realidade externa a elas e que é lá que os futuros profissionais vão atuar? E sobre a sexualidade dos alunos, então? Quem é que se lembra ou ousa falar sobre isso com os futuros professores?”

Muitos concordam que é nas aulas de biologia que se forma o ambiente adequado para a temática sexual vir à tona. Não é difícil imaginar o por que. Os alunos apreendem, nas aulas de biologia, noções básicas sobre a anatomia do corpo, incluindo seus membros e diferentes partes, e aprendem também os diferentes sistemas e aparelhos do corpo humano, tal como o chamado aparelho reprodutivo, e neste momento irão colocar a atenção, oficialmente, tanto nos órgãos genitais quanto no fenômeno da gravidez. Sayão fala sobre este tema:

“Essas aulas funcionam como iscas que fisgam as dúvidas dos jovens. E mesmo tendo de repetir uma, duas ou outras tantas vezes, é muito importante que o professor permita ao aluno o uso desse espaço. Tão importante quanto isso é o professor procurar tentar, também, humanizar as informações que transmite quando responde aos seus alunos. Mas o que significa isso? Significa resistir à tentação de, simplesmente, repetir o que já disse da mesma forma como foi dito; significa o professor baixar a guarda e tentar sair do lugar que ocupa, que é o de quem sabe; significa usar uma linguagem diferente da que está acostumado a usar quando dá suas aulas; significa não ficar ansioso em ter de responder; significa, e isso é o mais importante, saber ouvir e perguntar. Sim, perguntar e perguntar, pois antes de tudo o aluno precisa conseguir localizar suas dúvidas e suas curiosidades para, depois disso, conseguir formular sua questão. Auxiliar o adolescente a fazer a pergunta certa ou a encontrar o meio de conseguir obter as informações mais adequadas para que possa refletir, questionar, contestar: esse é o melhor caminho a ser trilhado pelos professores, e não só os de Biologia, quando o que está em questão é a sexualidade”.

A autora reconhece que o professor tem com os alunos uma relação vertical, considerando esta hierarquia inclusive indispensável para a aprendizagem, mas recomenda que esta posição não signifique a rispidez ou a ironia, nos momentos que a temática sexual vir a tona em sala de aula. As conseqüências de tais reações, para os alunos, podem ser bastante negativas, uma vez que o assunto mexe diretamente com a intimidade dos jovens, que podem se sentir expostos perante a turma, dependendo das reações do professor. O caminho sugerido para os professores é controlar ao máximo seus próprios preconceitos e, nas palavras da autora:

“O primeiro passo é reconhecer que a vida sexual é complexa e que não existe um caminho que possa ser considerado correto ou normal. O papel do professor como agente da educação sexual é importante, mas tem limites. Por isso o professor não deve desesperar-se quando não consegue interferir em um processo já instalado. Admitir esse limite talvez seja justamente a condição que irá permitir a possibilidade de algum trabalho efetivo. Ninguém vai conseguir livrar-se de todos os seus preconceitos a respeito da sexualidade; mas é possível aprender a suspendê-los quando nos relacionamos com as pessoas fora do âmbito da vida pessoal e íntima. E é esse o princípio mais importante a nortear as relações dos mestres com seus alunos”.

Biografia

'SAYÃO', Rosely. A educação nossa de cada dia. In Série Idéias n. 28, São Paulo: FDE, 1997. 'Gherpelli', Maria Helena Brandão Vilela. A educação preventiva em sexualidade na adolescência. In Série Idéias n. 29, São Paulo: FDE, 1996.

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