Escola e sociedade
De Psicologia da Educação
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
ESCOLA E SOCIEDADE: A VIOLÊNCIA NA ESCOLA E PROJETOS DE COMBATE A ESSA REALIDADE
INTRODUÇÃO
A temática de análise proposta, “Escola e Sociedade”, pela amplitude que possui, requer uma abordagem mais delimitada, para que se possa assim chegar a um estudo mais aprofundado, possibilitando operacionalizar o conhecimento adquirido de acordo com a realidade vivenciada em nossos cotidianos como futuros professores.
Sendo assim, o trabalho que vos apresentamos parte da análise da violência escolar, seja dentro da escola ou apenas envolvendo aqueles que fazem parte dela. Em princípio, esta será uma análise despretensiosa, uma vez que todos têm contato, seja por meio da mídia ou da própria experiência, com a atual configuração social que possibilita a ocorrência da violência vinculada à vida ou ao ambiente escolar. Então, com intuído de servir como base incentivadora e motivo propulsor; usamos a questão da recorrência da violência para o estudo dos projetos extracurriculares existentes em algumas escolas.
Dentre as abordagens que trazemos, fazemos uma breve análise de contribuições teóricas para a reestruturação da escola, bem como a conformação da chamada Educação Cidadã na cidade de Porto Alegre. O intuído é ampliar a noção sobre as possibilidades de estruturação da escola no que se refere ao seu papel não só como instituição de ensino formadora de conhecimento, mas também sua responsabilidade social sobre a formação cidadã do aluno.
Desenvolvendo a temática que propomos - a análise da violência na vida e no ambiente escolar - trazemos aqui, como exemplo de projeto que pode agir como redutor dessa violência, informações sobre o projeto “Escola Aberta”, “Projeto Arrastão”, e alguns exemplos práticos sobre o funcionamento desses projetos em escolas que fazem uso dele.
1. VIOLÊNCIA ESCOLAR
Se tratando de analisar a Escola e sua relação com a sociedade, percebe-se um fator que contribui para que esta seja uma boa ou má relação, a violência.
A presença da violência escolar e suas formas de expressão são muito bem trabalhadas e analisadas por José Vicente Tavares, em seu livro “A Violência na Escola”. Dentre as análises feitas, José Vicente trás uma reflexão sobre a sociedade contemporânea e o uso da violência, no Brasil, como forma de expressão da desigualdade das relações de poder. Para melhor embasar a análise que estamos propondo, trago o conceito de violência (encontrado também no livro de José Vicente), construído por Marilena Chauí:
Violência (...) um conjunto de mecanismos visíveis e invisíveis que vem do alto para baixo da sociedade, unificando-a verticalmente e espalhando-se pelo interior das relações sociais numa existência horizontal que vai da família à escola, dos locais de trabalho às instituições públicas, retornando ao aparelho do Estado.
Um passo para que se possa chegar a um nível de conhecimento mais verídico acerca da violência na escola é desnaturalizar a violência em si e debate-la. Foi o que propôs o Projeto Violência e Escola: “Violência Contra e na Escola Municipal em Porto Alegre”, (convênio SMED/UFRGS); ocorrido no ano de 1996. José Vicente trás a importância da ação coletiva para o combate da violência na Escola. Essa ação poderia estar vinculada à promoção de debates, palestras, etc.
Existe uma correlação entre violência escolar e exclusão social, pois a violência é determinada socialmente. A violência parte da dificuldade em reconhecer o outro – pessoa, classe, gênero ou raça – gerada pelo excesso de poder, fazendo com que se use força, coerção, etc.
Com base em estudos podemos delimitar alguns tipos específicos de violência:
1) A Violência contra o Patrimônio – atos de depredação em geral; furtos (menos recorrentes); etc. Esses atos, chamados pela mídia muitas vezes de vandalismo, merecem uma interpretação mais profunda. No caso do aluno que invade o espaço escolar no fim de semana para depredar o patrimônio, José Vicente Tavares sugere que acima de tudo há uma vontade maior, que é de estar no espaço escolar.
2) Violência contra a Pessoa – lesão corporal; roubo, furto e trafico de drogas. Esse é um tipo de violência que cada vez mais se manifesta no ambiente escolar.
José Vicente Tavares explica esse fenômeno cada vez mais recorrente, que é a violência escolar, pela seguinte ótica:
O espaço escolar parece como ponto de condensação e de explosão da crise econômica, social e política.
A compreensão das relações entre as práticas da violência passam, necessariamente, pela construção da complexidade das relações sociais que estão presentes no espaço social da escola, pois são exatamente as combinações entre relações de classe e as relações entre grupos culturais que permitem uma abordagem explicativa das práticas de violência na escola.
Apesar de vermos muitas escolas investirem no uso de alarmes e câmaras como solução para combater a violência, não se pode isentar a necessidade de projetos de conscientização e valorização da escola envolvendo pais, alunos e comunidade em geral. Como exemplo podemos citar o Estado de São Paulo, onde 77% das escolas Estaduais seguem a ideologia de que os projetos de inclusão na escola são de maior importância que a contratação de vigias ou o uso de sistemas de segurança no que se refere ao combate à violência. O Deputado Estadual Hamilton Pereira (PT), autor da Lei 10.312, que institui o Programa Interdisciplinar e de Participação Comunitária para o Combate à Violência nas Escolas, tem defendido que os projetos pedagógicos das Escolas apresentam-se ineficientes. Hamilton Pereira aponta para a necessidade de se criar e aplicar um projeto pedagógico que possibilite a participação ativa da comunidade na escola, integrando atividades multidisciplinares com envolvimento de profissionais habilitados, que possam colaborar nas áreas da psicologia, assistência social, terapia ocupacional, orientação contra o uso de drogas etc.
2. CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS E ESCOLA CIDADÃ
Para melhor entender como funcionam os projetos pedagógicos na cidade de Porto Alegre, trago para análise um artigo de Bernd Fichtner, Catedrático e diretor do Conselho de Pedagogia da Universidade de Siegen, Alemanha, cujo título é “A Escola Cidadã na Perspectiva Vygotskiana”; e pode ser encontrado no livro “Utopia e Democracia na Educação Cidadã”, organizado por José Clóvis de Azevedo, Pablo Gentili, Andréa Krug e Cátia Simon. Em primeiro é importante elucidar os pressupostos dos estudos de Lev Vygotsky, nascido em 17 de novembro de 1896, Orsha, e morto em 11 de junho de 1934, Moscou. Ele foi um psicólogo, pensador importante, foi pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais (e condições de vida). Uma das chaves para compreender a abordagem proposta por Vygotsky é o conceito de atividade, trabalhado por Bernd Fichtner em seu artigo, que trás a seguinte definição:
Atividade não é só o que os homens fazem, porém, muito mais, eles existem através da sua atividade. Atividade é a unidade fundamental do processo da sua própria vida... ....É na atividade que se origina o que se denomina de sujeito e objeto desse processo.
Essas são definições importantes para se compreender como funciona a prática da Escola Cidadã em Porto Alegre. Os pressupostos da Escola Cidadã são promoção de práticas inovadoras, compatíveis com os avanços da ciência, da tecnologia e do senso democrático. Esse é um projeto que surgiu quando a Administração Popular assumiu a Prefeitura de Porto Alegre. A Escola Cidadã, proposta então, parte da premissa do direito a uma educação pública de qualidade, ampliando o número de vagas, criando espaços de construção do saber, de cultura, de vivencias de direitos sociais, de análise crítica e de avaliação das informações a que os educandos estão submetidos. Esse projeto teve início no ano de 1994.
Bernd Fichtner cita três escolas municipais de Porto Alegre, Neuza Brizola, Ana Iris e Monte Cristo, em que, como ele define, as portas estão abertas, no sentido de estabelecer um diálogo com a comunidade na qual esta inserida, permitindo novas formas de acesso social ao conhecimento e de aplicação desse conhecimento na comunidade, uma vez que os alunos possuem um maior contato com a realidade em função dessa relação estreita entre a escola e comunidade.
Abaixo segue o modelo de atividade que Fichtner cria para ilustrar esse processo nas escolas de Porto Alegre:
A conclusão a que chegamos, com base na ilustração acima, e orientados pela análise de Fichtner, é que a escola se transforma, dentro da própria escola cidadã em um instrumento coletivo. Essa conformação apresenta uma quebra total com as formas tradicionais de escola. A abertura da escola muda a sua forma de estrutura e organização. Abre-se, assim, um espaço para auto-reflexão: a demanda da comunidade exige que a escola se insira numa problemática real que a leva a questionar todos os seus passos e objetivos. Refletindo sobre quais seriam as melhores formas de atingir não somente os objetivos tradicionais da escola, mas a relação que deve existir entre eles e os indivíduos que formam a sociedade na qual a escola realiza a sua função.
Analisando a formação da Escola Cidadã, também não podemos deixar de fazer referência, mínima que seja, a Paulo Freire. Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, 19 de setembro de 1921, e morreu em São Paulo, 2 de maio de 1997, foi um educador brasileiro. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica, sempre com o conceito básico de que não existe uma educação neutra: segundo a sua visão, toda a educação é, em si, política. Autor de inúmeros livros, Paulo Freire é de importância inquestionável para os estudo da educação, e principalmente do que propomos aqui, a análise dos projetos extracurriculares e seus resultados dentro das escolas.
No momento o que nos faz interessante é analisar como as oficinas e os projetos de inclusão social, criados pelas escolas, contribuem para a redução da violência. Além de relatarem uma melhoria no rendimento escolar dos alunos que participam dos projetos que a escola propõe, os educadores e responsáveis por estes projetos evidenciam sempre a melhoria nas relações com a comunidade, e a crescente mudança de perspectiva dos alunos. Neste ponto podemos inferir que a redução da violência esta diretamente relacionada com a participação dos alunos.
Para melhor embasar nossa hipótese, seguem informações sobre o projeto “Escola Aberta” e o “Projeto Arrastão”, e na seqüência temos relatos sobre como funcionam os projetos extracurriculares em algumas escolas. Os relatos aqui trazidos têm por objetivo servir de exemplo no que se refere à análise do funcionamento dos projetos que envolvem uma participação mais ampla do aluno na escola e, também, da comunidade. Esses projetos, além de serem uma forma de avaliar qual o tipo de relação existente hoje entre escola e sociedade, também agem como proposta de redução da violência escolar, propiciando uma maior inclusão social e dando novas perspectivas ao aluno, ao educador e a sociedade.
3. ESCOLA ABERTA
A Escola Aberta surgiu a partir de uma parceria entre UNESCO e Secretária da Educação no ano de 2004 e tem previsão de duração de 40 meses. Teve como referência a experiência idealizada pela UNESCO no ano 2000: o “Programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz”. A Escola Aberta tem por principal objetivo a implantação de uma cultura de paz possibilitando as crianças, jovens e a comunidade o acesso às escolas, aos sábados e domingos, para envolvê-los em atividades de aprendizado e lazer.
No Rio Grande do Sul no ano de 2005 o projeto envolveu 150 estabelecimentos de ensino da rede pública estadual, distribuídos em 84 municípios em todas as regiões do Estado, movimentaram 130 mil pessoas a cada mês. Atualmente cerca de 90 municípios fazem parte do projeto e visam como principal objetivo a inclusão social.
Nos finais de semana a escola oferece vários tipos de oficinas para a comunidade: artesanato, música, informática entre outros. Essas oficinas são realizadas por pessoas oriundas da comunidade que são denominadas “oficineiros (as)” contam também com o apoio de um coordenador que fica responsável pela administração dos horários das oficinas, bem como, com o espaço físico que será utilizado. As oficinas levam em conta o interesse da comunidade onde são realizadas, procurando talentos locais que se destacam na comunidade, sendo assim, essas pessoas juntamente com a realização das oficinas exercitam sua cidadania.
Uma das preocupações que envolvem o projeto é o envolvimento cada vez maior de jovens em casos de violência (direta ou indiretamente), grande parte desses casos ocorre nos finais de semana, portanto a abertura das escolas nesse período acarreta uma queda significativa na taxa de violência nessas comunidades. Outra questão abordada pelo projeto tem relação com a estrutura pedagógica que é oferecida, essa estrutura permite aos jovens uma maior assimilação do que é ensinado nas aulas, uma vez que se procura sempre agregar elementos que façam parte do seu cotidiano. A Escola Aberta possibilita também a participação da comunidade na escola e não só dos alunos, isso colabora para que a comunidade veja a escola como um espaço que ela também pode ter acesso e dessa forma também ajuda a preservar.
4. PROJETO ARRASTÃO
Histórico:
O projeto teve início no bairro paulistano do Campo Limpo. Em um barracão, voluntárias ensinavam às mulheres dos bairros vizinhos trabalhos manuais que pudessem estimular a geração de renda. Com a capacitação oferecida, essas mulheres conseguiram trabalho e passaram a necessitar de um espaço para acolher suas crianças durante a jornada de trabalho. A semente plantada gerou o desafio de acolher as crianças das escolas da região enquanto as mães trabalhavam; daí surgiu o Projeto Arrastão, organização social sem fins lucrativos legalmente constituída desde 7 de agosto de 1968. Desde então o trabalho cresceu sempre contando com apoio da comunidade, que em parceria com a organização, realiza diagnósticos das necessidades locais.
Construída a base apoiada nas áreas pedagógica, social e cultural, crescemos com a filosofia que gerou nossa missão, ampliando a capacidade do cidadão de sonhar e firmar-se como um profissional bem sucedido.
Diretoria:
Todo o grupo conta com mais de 100 voluntários que dividem as tarefas nas áreas social, pedagógica e cultural. O Projeto Arrastão tem cinco diretores que comandam as tarefas mais burocráticas da organização.
Vera Marmo Masagão Ribeiro – Diretora Presidente
Maria Rita Tostes da Costa Bueno – Diretora Secretária
Carlos Ciampolini – Diretor Financeiro
Antonio Nelson Naime – Diretor Financeiro
Betina Machado Ferraz – Diretora Administrativa
Programas do Projeto Arrastão:
Programa Educação Infantil:
Uma mistura de brincadeiras, jogos e atividades educativas transformam os primeiros passos no universo do conhecimento em uma prazerosa viagem. Para isso, aulas de recreação, informática, canto e leitura, matemática, música e até culinária, entre outras, buscam resgatar e estimular os alunos. A Educação Infantil atende 325 crianças entre 2 e 6 anos em período integral, alternando atividades na sala de aulas e nas dependências da organização, sempre utilizando o brincar como forma de ensinar sobre o mundo e a sociedade. A Educação Infantil utiliza o método da escola formal.
Programa do Núcleo Sócio-educativo:
Fortalecendo as oportunidades de aprendizado pela convivência social, a ampliação do repertório cultural, aquisição de informações e pelo acesso e uso de tecnologias, o Projeto Arrastão mantêm o Programa Núcleo Sócio Educativo atendendo 240 crianças e adolescentes, com aulas de segunda a sexta-feira, sempre em horário complementar ao escolar. Na grade de atividades, temas como educação ambiental, inclusão digital, artes plásticas, percussão e educação física. Tudo com acompanhamento de um educador referência, que segue os alunos em todas as oficinas, “costurando” os conhecimentos adquiridos e fortalecendo o processo de aprendizado.
Programa Educadores Leitores:
Professores da rede pública de ensino voltam à condição de alunos e descobrem novas formas de ensinar a partir de um aliado muito antigo: o livro. Fruto de uma parceria com a Fundação Itaú Social, o curso Educadores Leitores atendeu em três anos mais de 340 professores, incentivando nestes profissionais a utilização de novas ferramentas nas salas de aula. O curso busca incentivar a prática da leitura e aprimorar as ferramentas e instrumentos para a boa escrita. O objetivo é formar professores capazes de operar mudanças na dinâmica escolar e na aprendizagem dos alunos e, em longo prazo, espera influenciar políticas públicas para a melhoria da educação.
Programa de Formação de Educadores:
As propostas de formação de educadores do Projeto Arrastão buscam conteúdos que mostrem-se significativos e necessários ao bom desempenho do professor em sua sala de aula. Uma das diretrizes do Projeto Arrastão é trabalhar também na educação do educador. Não só pelo trabalho com crianças, adolescentes, jovens e adultos que atendemos. O educador é um personagem essencial neste ciclo. O trabalho com o público externo acaba por atender três diferentes redes municipais, o que possibilita intervenções nas escolas onde são atendidos os jovens e as crianças que participam das atividades.
Obs: O projeto conta com mais projetos nas mais diversas áreas. Porém os mais interessantes no âmbito social dentro do ambiente escolar são os mencionados acima.
Perguntas feitas à organização:
Onde atuam? Os trabalhos são focados na região do Campo Limpo, que compreende os bairros Jardim Maria Sampaio, Jardim Helga, Jardim Ângela, Valo Velho, Capão Redondo, além dos municípios de Taboão da Serra e Embu das Artes, na cidade de São Paulo-SP.
Quantas pessoas atendem? Realizam diariamente 1200 atendimentos para os diversos públicos atendidos pela entidade. Crianças, adolescentes, jovens e adultos que freqüentam o Projeto Arrastão. Indiretamente são cerca de 5 mil atendimentos.
Quais os focos de atuação? Todos os nossos programas e projetos visam a promoção educacional, cultural e o desenvolvimento comunitário.
5. RELATOS DAS ESCOLAS
5.1- Escola Estadual Augusto Meyer - Guaíba
Na escola estadual Augusto Meyer em Guaíba, o projeto Escola Aberta ocorre há quatro anos (não sempre com esse nome uma vez que o projeto “Escola Aberta” iniciou em 2004). No mês de abril participaram cerca de 1100 pessoas, dentre elas, apenas 200 eram alunos da escola ou pais de alunos, o restante eram pessoas de comunidades dos arredores. As crianças da escola alegam que já passam a semana inteira na escola e não querem ir aos finais de semana também, que é o momento que tem para estarem com seus pais e passearem.
A escola se localiza em um bairro que é cercado por outros bairros mais pobres onde não há Escolas Abertas, e a escola Augusto Meyer acaba tornando-se a única alternativa de lazer para essas crianças. Essas crianças são de origem humilde e segundo a coordenadora do projeto é comum ter crianças que passam fome, que vão descalças para a escola, mal vestidas, ou seja, demonstram sua origem humilde.
As oficinas, atualmente, estão mais voltadas para o público mais velho (artesanato em geral) ou para jovens (futsal, capoeira, vídeo) e há poucas alternativas para crianças que acabam optando por jogos de recreação ou brincadeiras no pátio da escola.
A coordenadora do projeto salientou que desde a implantação do Escola Aberta, a depredação da escola diminui e ela atribui isso ao fato das crianças verem a escola de outra maneira, ou seja, como um espaço que é delas também e que elas não vão lá só para estudarem, mas também para se divertirem. Outro aspecto interessante, é o fato de os professores da escola não participarem do projeto, atualmente há somente um professor de educação física que dá oficinas de futsal. Talvez isso explique a pouca participação da comunidade escolar, pois há pouco incentivo dentro da própria escola. O projeto conta com poucos voluntários considerando a grande demanda de participantes, muitas vezes torna-se quase impossível conseguir atender a todos.
5.2 - Escola Gabriel Obino – Porto Alegre
O projeto foi implantado na escola Gabriel Obino, Av. Engenheiro Ludolfo Boehl, 1402, Bairro Glória, no ano de 2005. A iniciativa faz parte do projeto Abrindo Espaços na Cidade que Aprende, projeto Escola Aberta. O projeto escola aberta nessa escola é coordenado pela professora de educação física Sonia Machado. De acordo com ela o projeto tem sido aceito e aderido pelos estudantes da escola de forma bastante satisfatória, já que o projeto prevê a melhoria da qualidade da educação, a inclusão social e a construção de uma cultura de paz, por meio da ampliação das relações entre escola e comunidade. Em geral a comunidade escolar, ou seja, apenas os alunos a princípio, se interessam pelos os projetos que a escola oferece, que atualmente, tem tido várias oficinas como as de música, hip-hop, pintura, teatro, jogos, informática, saúde e muitas outras atividades que colocam os jovens diretamente ligados com atividades cognoscitivas, afastando-os do tempo ocioso e da ligação com atividades ilícitas. Com o tempo e com as histórias contadas pelos alunos que participam dos projetos, atraem outras pessoas da comunidade que se interessam em fazer parte dos projetos e participarem das atividades.
As pessoas da comunidade são bem aceitas para participarem das oficinas e no geral, participam mais das atividades ligadas a esportes, não se interessando muito pelas aulas de teatro, por exemplo. Mas quem mais adere às atividades são os próprios alunos que gostam e apóiam a idéia do projeto. A professora coordenadora do projeto na escola acredita que os alunos ocupando seu tempo na busca do aprendizado e qualificação, passam a se interessar mais pelo estudo e melhoram significativamente suas notas, o desempenho escolar e se interessam ou tem vontade de continuar os estudos, juntamente com as atividades, na busca de uma formação universitária. De acordo com o relato da Sonia, muitos passam a ter o desejo de serem educadores, professores de educação física, teatro, ou suscitam a idéia de trabalharem na intenção de ajudarem futuramente na educação das próximas gerações.
A escola também possui um projeto, Oficina de Leitura e Produção Textual, que é desenvolvido desde o ano de 2001 e tem propiciado o acesso à leitura e o interesse pela literatura e escrita. Desde 2001 já foram publicados pelos alunos que participam do projeto 4 cadernos, 2001, 2002, 2003, 2004 no qual relatam as ações e reflexões escritas por alunos do ciclo B e C da escola. No ano de 2007 foi organizado pelos alunos o 5º caderno da Oficina de Leitura e Produção Textual. O trabalho extracurricular é feito por iniciativa da professora de língua portuguesa e literatura da escola, Cátia que organiza os encontros da seguinte forma:
1o leitura de um livro com continuidade nas aulas seguintes;
2º leitura selecionada previamente pela professora, atendendo o tema em evidência na oficina e/ou indicada por um dos alunos,
3o produção textual a partir das temáticas significativas, considerando as especificidades da poesia e da prosa.
A avaliação será feita pontualmente a cada produção, orientando a reescrita do trabalho. Para fim de organização do livro são considerados os trabalhos produzidos durante a oficina e selecionados pelo seu coletivo. As professoras acreditam que todas essas atividades, o incentivo ao estudo, ao conhecimento, aguçam a curiosidade dos alunos, bem como despertam o interesse da comunidade para a aprendizagem, para a inclusão social, na medida em que os membros dessa comunidade começam a se sentir parte de uma sociedade que pensa, que produz, que exprime suas opiniões e que, portanto tem direitos e deveres como todos as pessoas. Elas acreditam que atividades como essas nas escolas, unem a comunidade, aproximam as pessoas a trabalharem por um futuro melhor e mostram para a sociedade como elas também possuem um papel social importante, na medida em que são capazes de aprenderem, construírem e se organizarem por um espaço, que ofereça mais qualidade de ensino e mais oportunidades, basta apenas dar a essas pessoas, incentivo e mostrar-lhes que também são capazes.
CONCLUSÃO
Com base no que vos apresentamos, percebemos que a reestruturação da escola é fundamental para a redução da violência, dentro e fora do ambiente escolar.
Essa reestruturação parte da necessidade de fazer o ambiente escolar torna-se mais do que uma obrigação em termos de formação do conhecimento. Deve-se considerar que a escola possui uma grande responsabilidade como formadora de cidadãos, e como fator integrante de pais, professores, alunos e comunidade em geral.
Partindo do pressuposto que a escola consiga agir da forma proposta acima, teremos como resultado possível e comprovado, a redução da violência, que atinge grande parte das escolas.
E como fator determinante para que a escola possa atuar numa esfera de inclusão social, minimizando as desigualdades as quais os alunos estão sujeitos na vida em sociedade fora dela, os projetos extracurriculares são de fundamental importância. Os poucos exemplos aqui trazidos mostram como uma escola pode modificar desde o aproveitamento dos alunos, até a convivência harmônica entre comunidade, escola e alunos, a partir de projetos simples, que despertem nos alunos um sentimento maior de pertença em relação ao ambiente escolar, uma vez que, como já dissemos e voltamos a enfatizar: a escola não é somente parte estrutural obrigatória da sociedade, mas sim é uma formadora e construtora de cidadãos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA
Site da secretaria estadual de educação: http://www.educacao.rs.gov.br (07/05/07)
Site da FNDE – Fundação Nacional de desenvolvimento da educação: http://www.fnde.gov.br (07/0507)
SANTOS, Joanna Machado e HERMANNS, Susete Stefani Escola Aberta – Vida e saberes na periferia urbana Editora Mediação - Porto Alegre, 2002.
SANTOS, José Vicente Tavares dos (org.). A palavra e o gesto emparedados: a violência na escola. Porto Alegre: PMPA, SMED, 1999.
SILVA, Luiz Heron da e AZEVEDO, José Clóvis de (org.). Reestruturação curricular. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
FICHTNER, Bernd. A Escola Cidadã na perspectiva Vygotskiana. in: AZEVEDO, José Clóvis de (org). Utopia e democracia na educação cidadã. Porto Alegre: UFRGS, SMED, 2000.
Site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lev_Vygotsky (10/05/07)
Site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire (10/05/07)
Site: http://www.hamiltonpereira.org.br/projetos/cve.html (10/05/07)

