Gênero e Educação

De Psicologia da Educação

Tabela de conteúdo

INTRODUÇÃO

Vivemos em uma sociedade complexa em que a desigualdade tenta se legitimar pelas diferenças entre os indivíduos, usando-as como prerrogativa para discriminação e segregação destes. A desigualdade se mantém por determinados mecanismos de criação e manutenção de certas convenções/leis que regem as relações humanas, que respondem em favor de um grupo beneficiado (a desigualdade se instala em mérito de “alguém” e em detrimento de “outro”, em nome da felicidade de um “grupo”), de modo a interiorizar determinada conduta de forma que não se torne questionável a partir do momento que faça parte da cultura dos indivíduos.

A partir disso, tem-se padronizações/expectativas que se espera que os indivíduos correspondam positivamente, como, por exemplo, o fato dos meninos serem estimulados com brinquedos/brincadeiras, filmes e desenhos animados (e esses são apenas alguns exemplos) que envolvam ação e aventura (força, virilidade), enquanto que as meninas são estimuladas com esses mesmos elementos, porém caracterizados de modo a enfatizar a delicadeza e as artes (habilidades domésticas).

O objetivo do trabalho é problematizar especificamente a assimilação das diferenças de sexo como constitutivas de segregação, tendo a educação (institucional e não-institucional) como foco de nosso trabalho devido à importância desta na formação do indivíduo como ser social e, portanto, cultural.


Conceitualização

O que é ser homem? O que é ser mulher? De uma forma ou de outra, as diferenças entre homens e mulheres são conhecidas por nós desde cedo: homens e mulheres distinguem-se pelos peitos, os órgãos reprodutores e genitais, a voz, a distribuição do cabelo, a altura, o peso e a força. As mulheres têm dois cromossomos X X e os homens outros dois: X Y. O pai é quem vai condicionar o sexo do bebê, devido ao fato de só o homem possuir o cromossomo Y para ser transmitido. Sobre essas diferenças biológicas são construídas uma grande variedade de diferenças culturais.

O sexo diz respeito a essas diferenças biológicas e fisiológicas entre homens e mulheres, já citadas. Falar de gênero é falar das características atribuídas a cada sexo pela sociedade e sua cultura. A noção de gênero é uma construção social e histórica, enquanto o sexo é um atributo biológico. A diferença de sexo é “dada”, a diferença de gênero, construída.

O termo gênero começou a ser utilizado por teóricas(os) e estudiosas(os) de mulheres e do feminismo, no final da década de 70. No final da década de 60 uma onda revolucionária se espalhava por quase todo o mundo com os movimentos estudantis, essa foi uma das influências do ressurgimento do movimento feminista, que com grande força contestava os papéis e comportamentos sexuais.

A noção de gênero sendo uma construção social e histórica pode diferir de sociedade para sociedade. A antropóloga americana Margareth Mead destaca o peso da cultura na determinação dos papéis sexuais e das condutas e comportamentos de homens e mulheres. Foi quem fez um dos primeiros estudos de gênero baseado no seu trabalho de campo em Papua – Nova Guiné, sublinha bem como o gênero é construído de maneira diferente em diferentes culturas:

ARAPESH - Os homens e as mulheres atuavam como tradicionalmente os norte-americanos esperavam que se comportassem as suas mulheres: de forma suave, maternal e sensível.

MUNDUGUMOR - Os homens e as mulheres atuavam como os norte-americanos queriam que se comportassem os homens: agressivamente.

TCHAMBULI - Os homens tchambuli eram “felizes”, enrolavam o cabelo, iam às compras, etc. As mulheres tchambuli eram enérgicas, organizadoras e davam menor importância ao aspecto pessoal do que o faziam os homens.

Desse modo, podemos dizer que as relações homem-mulher são de ordem cultural, não estáticas, podendo ser transformadas. E a educação desempenha um importante papel nesse sentido.

A perspectiva de gênero também está ligada diretamente à sexualidade. Quando a criança nasce, sua família orienta o caminho que deve percorrer até tornar-se adulta. Esse “caminho” é dotado de valores os quais são predominantes em determinada época e/ou sociedade. Em cada período histórico e em cada cultura, algumas expressões do masculino e do feminino são dominantes e servem como referência ou modelo, e quem não segue esse “modelo” são tomados como desviantes.


História: Mulheres na Sala de Aula

Quando se proclama a Independência, vem a necessidade de construir uma imagem que afastasse seu caráter colonial. O discurso sobre a importância do papel da educação na modernização é bastante presente, o século XIX estava chegando e grande parte da população continuava analfabeta.

No final do século XVIII as escolas eram predominantemente para meninos, mas também havia para meninas. Professoras eram destinadas para as meninas e professores para os meninos. O conteúdo era diferenciado para os sexos, meninos aprendiam noções de geometria, meninas, bordado e costura. A primeira lei de instrução pública o ensino das pedagogias determinou salários iguais, mas devido os diferentes currículos, representaria uma diferenciação salarial.

A educação também é influenciada pelas divisões de classe, etnia e raça, pois determinavam e, determinam a transformação de crianças em mulheres e homens. Cabe aqui ressaltar que as divisões de classe sempre foram determinantes de como a criança e o professor seriam tratados na sociedade. Porém, acredito que a distinção de gênero vai além das classes sociais, assim como uma menina das camadas populares é descriminada, violentada, oprimida, aquela mulher de maior aquisição também sofrerá desses problemas, porém se apresentaram com formas diferentes.

As meninas das camadas populares além de envolvidas nas tarefas domésticas, trabalhavam na roça e cuidavam dos irmãos. As filhas de grupos sociais privilegiados, além das habilidades com a agulha e de mando das criadas deveriam ser capazes de representar socialmente o marido. As atividades da Igreja eram suas únicas formas de lazer. A partir disso, por muito tempo, a educação para a mulher teria como objetivo “o lar”, ser uma boa esposa, administrar a casa e educar os filhos.

Com o processo de industrialização e urbanização as mulheres foram “tomando conta” do magistério, alguns acusaram as mulheres de despreparadas para educar as crianças, mas outras vozes vieram para argumentar na defesa dizendo que a educação seria a extensão da maternidade, que cada aluno seria visto como filho ou filha “espiritual”. Os homens então eram dedicados a outras ocupações muitas vezes referente ao comércio (mais rendosas) e o magistério encorporava-se com características “tipicamente femininas” (minuciosidade, afetividade, doação...) o que futuramente dificultaria a discussão de questões ligadas a salário. Ainda hoje ouvimos a expressão “política não é lugar de mulher”, “mulher na política só pra anotar recados”.

A crescente freqüência das mulheres trazia o problema da sexualidade dos meninos com as professoras, por isso diversas “regras” eram impostas, como cuidados com a vestimenta, e cuidados corporais, além de só poder moças solteiras exercer a profissão, com salários baixos visto que o sustento da família cabia o homem, e a verdadeira carreira da mulher era o casamento e a maternidade. Aí encontramos uma contradição, se a maioria eram mulheres solteiras ou viúvas, não tinham homens para que as sustentassem.

As mulheres iam formando o espaço físico. O cotidiano no interior das escolas normais era como de qualquer instituição escolar, planejado e controlado.Continuidades e descontinuidades marcaram a produção docente. O currículo masculino vinha se modificando com o desenrolar da modernização, já o feminino continuava sem modificações.

A escola adquiria o caráter da casa idealizada, afastada das desarmonias do mundo exterior. Hoje vemos isso impossível, visto que globalização já toma conta de todas as instituições.

Ainda que as mulheres fossem maioria, quem ficava com cargos “maiores” ainda eram os homens, pois as mulheres eram ditas de que tinham menos firmeza nas decisões.


Socialização Primária e Secundária

A importância de deixar claro esses dois conceitos é que a partir da socialização é que valores e condutas são internalizados. É na socialização que os papeis tornam-se subjetivos e a distinções são feitas, onde o individuo identifica-se, cria uma identidade. Ponto fundamental para a caracterização do feminino e masculino.

O Individuo não nasce membro da sociedade, nasce com a predisposição para a sociabilidade e torna-se membro da sociedade. Na vida de cada individuo existe uma seqüência temporal no decurso da qual é induzido a tomar parte na dialética da sociedade.

O ponto inicial desse processo é a interiorização: a apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento objetivo com exprimindo sentido, isto é, como manifestação de processos subjetivos de outro que assim se torna em termos objetivos significativo para mim.

A interiorização, nesse sentido geral, constitui a base primeiro da compreensão dos nossos semelhantes e segundo da apreensão do mundo como realidade significativa social. O individuo começa a “assumir” o mundo em que vive. Existe então, uma identificação mutua entre “nós”. Não só vivemos no mesmo mundo mas participamos do ser do outro.

Só depois de ter alcançado esse grau de interiorização é que o individuo se torna membro da sociedade. O processo pelo qual se realiza a socialização pode ser definida como a completa e consistente introdução de um individuo no mundo objetivo de uma sociedade ou setor da mesma.

Os outros significativos (normalmente a família) que estabelecem a mediação deste mundo com ele, selecionam aspectos do mundo de acordo com a sua própria localização na estrutura social e também de acordo com a sua biografia. O mundo social é “filtrado” para o individuo através dessa dupla seletividade.

A criança identifica-se com os outros significativos através de uma multiplicidade de modos emocionais. Assume os papéis e atitude dos outros significativos, ou seja, interioriza-os, tornando seus. Através da identificação com os outros significativos a criança torna-se capaz de identificar a si mesma, de adquirir uma identidade.

A socialização primária cria na consciência da criança uma abstração progressiva dos papéis e atitudes de outros específicos para com os papéis e atitudes em geral. Esta abstração dos papéis e atitudes dos outros significativos concretos é chamada de outro generalizado.

Na socialização primária não há o problema de identificação. Não há escolha de outros significativos, temos que nos arranjar com os pais que o destino nos deu, os adultos que estabelecem as regras do jogo. O mundo dos pais é O mundo, aquele que é real. Por essa razão o mundo interiorizado na socialização primária fica muito mais gravado do que os mundos interiorizados nas socializações secundárias. A socialização primária é o primeiro mundo do individuo.

A socialização primária termina quando o conceito do outro generalizado ficou estabelecido na consciência do individuo.

A partir da divisão do trabalho e ao mesmo tempo da distribuição social dos conhecimentos a socialização secundária torna-se necessária. A socialização secundária é a interiorização de “submundos” institucionais, é a aquisição do conhecimento de funções específicas.


Mídia

A análise crítica da mídia é essencial para a compreensão sobre algumas das formas como se disseminam e consolidam as segregações de gênero através de atribuições, caracterizações e orientações de conduta “ideal” a ser repetida por cada indivíduo de acordo com seu gênero. Tomamos aqui como pressuposto, que os meios de comunicação e notícias emergem de fatos concretos, de uma realidade concreta que é social e culturalmente condicionada, pois a comunicação se dá entre pessoas pertencentes a uma rede de relações sociais: “As notícias são, como todo texto, ideologicamente marcadas e formatadas por relações de poder” (SGARBIERI, p.22). Assim, um estudo da representação dos gêneros através dos muitos veículos da mídia revela ideologias pertinentes a essas redes de relação, podendo assim melhor compreender como os indivíduos passam a aceitar certos posicionamentos que lhe são delegados como quase “naturais”, quando na verdade são culturais.

No trabalho midiático, instituem-se discursivamente ideais de corpos e comportamentos, ao dar-se visibilidade a certas características corporais e comportamentais tomadas como perfeitas (aceitas com sucesso pelo todo social) ou ao se mostrar insucesso de outras formas (tomadas como modelos do errado/feio/inaceitável para o todo social) em situações simuladoras da realidade. Assim, tem-se, por exemplo, a grande veiculação de revistas, propagandas dos mais diversos produtos, filmes etc., que exibem constantemente mulheres como “recompensa”, prêmio, sinal de sucesso sexual para aquele que usa determinado aparelho de barbear, compra determinado carro, fuma determinado cigarro, bebe determinada cerveja ou expressa determinada atitude tida como ideal.

A criança está condicionada não só pelas ideologias de seus educadores (tanto institucionais quanto não-institucionais) e os comportamentos que estes refletem, como também pelos sinais e códigos implícitos e explícitos de como a sociedade percebe suas relações através da mídia. Esses sinais perpassam tanto o tratamento que recebem diferenciado de acordo com seu gênero desde a roupa que vestem, até seus brinquedos, livros e desenhos animados. Em se tratando de práticas escolares, o livro didático, sendo também uma forma de mídia, será enfocado mais atentamente no tópico que segue.


O papel do livro didático de ciências para pensar gênero.

Através do artigo “Os papéis de gênero em livros didáticos de ciências” de Eliecília de Fátima Martins podemos levantar questões para serem discutidas, como a formação da identidade de uma criança, influenciada por sua vida escolar. A divisão do mundo do homem e do mundo da mulher, através da problematização do funcionamento de mensagens subliminares nesses livros, que procuram produzir identidades diferentes entre homens e mulheres. A sexualização do espaço doméstico e do mercado de trabalho. São esses alguns aspectos trabalhados no artigo, nos quais podemos nos deter para pensar a questão de gênero em sala de aula.

Em geral os livros didáticos reproduzem uma separação espacial que coloca homens e mulheres em espaços opostos formando uma hierarquia entre eles, de acordo com Eliecília. São, portanto, contribuintes para a reprodução de nossa estrutura social; “manuais” subjetivos de papeis femininos e masculinos. O objeto desse estudo dos papeis sexuais são livros didáticos de 1° e 2° série de Ensino Fundamental, pois é na infância que se dá a construção de conceitos e valores, bem como a questão da sexualidade. Nesse caso, o livro didático pode ser eficaz na transmissão cultural, por isso é um elemento de influência na formação e transformação da identidade dos estudantes. Foram analisadas 44 obras das 24 coleções aprovadas pelo PNLD/2004 (Plano Nacional do Livro Didático).

A sexualidade mesmo que biologicamente faz parte historicamente do currículo da área das ciências. De acordo com a proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) o assunto deve ser tema transversal, passando por todas as disciplinas. Especificamente em ciências deve ser travada a discussão sobre sexualidade e respeito ás diferenças entre as pessoas e os sexos. Mas quais os papéis do gênero considerados próprios para os livros? As mensagens questionam ou reproduzem papeis socialmente aceitos para homens e mulheres?

Foram analisadas três representações, que podem sugerir e dividir papéis e ações dos indivíduos, homens e mulheres. Primeiro o comportamento de meninas e meninos, através da vestimenta, brincadeiras e atividades. Segundo o papel do homem e da mulher no processo produtivo, no trabalho remunerado ou não.

E por último, exemplos significativos de papel de gênero, atribuídos a homens e mulheres dentro do nosso contexto social e cultural.


Comportamento de meninas e comportamento de meninos:

A construção do masculino e feminino é mediada pela cultura, articulada através da linguagem escrita, falada e simbólica (HALL 2002). O papel social pode ser sugerido através da ilustração de roupas e brincadeiras, designação de tarefas e condutas. A partir dessa perspectiva a conclusão da análise dos livros é de que estes tendem a mostrar uma visão estereotipada sobre os papeis aceitos e recomendados para cada gênero. Nos livros analisados 95% das meninas têm cabelos compridos e 95% meninos cabelos curtos. 75% das meninas usam fitas, tiaras, xuquinhas, enquanto que 86 % meninos usam boné.

A vestimenta é uma linguagem não verbalizada, um instrumento de controle e exclusão social, mediante ao que é cultural e socialmente aceito (BAUDRILLARD 1996). O vestuário compõe a construção da identidade e é por ela construído. Sendo assim, livros podem estar contribuindo para determinar comportamentos através da diferenciação das roupas de meninos e meninas, mostrando a forma “adequada” como cada gênero deve se vestir.

As brincadeiras e atividades voltadas para os serviços do lar são exercidas em 55% dos casos por meninas, contra 16% dos meninos. Estes aparecem mais em brincadeiras externas, 57% dos casos. As atividades esportivas são em 52% dos casos feitas por meninos e somente em 9% desses por meninas. As travessuras são protagonizadas em 48% dos casos por meninos, contra 7% por meninas. As atividades intelectuais também são exercidas mais por meninos do que por meninas. Estas brincam de bonecas, panelinhas, cuidam dos afazeres domésticos. Já as atividades domésticas dos meninos são: cuidar de planas, animais de estimação.

Esses dados mostram o papel atribuído culturalmente à mulher: amorosa, que deve cuidar da prole, do lar. A boneca é uma representação de maternidade.

Nesse sentido as brincadeiras funcionam como um diferenciador de gênero: menina brinca perto de casa, vigiada, controlada; menino, independente, brinca de pipa monta a cavalo, é levado a explorar caminhos mais distantes da casa, é estimulado à investigação do desconhecido – no futuro irá pra rua em busca do sustento da família. Esses são os valores e a ideologia de uma sociedade, que podem ser identificados no exame das representações nos livros de ensino fundamental e serão possivelmente passados aos educandos. Representar meninos e meninas brincando juntos é uma forma de desconstrução da idéia de brincadeiras diferenciadas para meninos a meninas. O que pode ser identificado na pesquisa, mas que é uma prática ainda tímida.


Trabalho do homem e trabalho da mulher

A apreciação desse aspecto mostra a diferença entre trabalho na esfera pública e trabalho na esfera privada (cuidados com crianças, casa alimentação, saúde e educação). Em todas as atividades da esfera privada a mulher aparece mais vezes que o homem, somente no exercício de outras atividades (não de esfera privada) é que o homem aparece mais vezes que a mulher, especificamente em 91 % dos casos. O que confirma a tese de o exercício da sexualidade feminina estar ligado à reprodução biológica e às atividades não remuneradas, realizadas para a reprodução e manutenção da força de trabalho. De acordo com LOURO (1995) e SCOTT (1991), esse papel tem sido historicamente atribuído às mulheres. Diferentes linhas interpretativas acreditam estar na apropriação da fecundidade feminina pelo sexo masculino a origem da desigualdade entre os gêneros presente em muitas sociedades (BARBIERI 1991).

Enquanto que o homem é representado pescando, lavando e dirigindo o carro a mulher é representada como a típica dona de casa que cuida dos filhos e do marido. Os livros caracterizam claramente a divisão entre trabalhos masculinos e femininos, veiculados a divisão sexual do trabalho. Nota-se também a ideologia do trabalho com um marco definidor da identidade masculina e feminina. O papel produtivo dos homens é exercer atividades em troca de remuneração para prover os recursos do lar. Enquanto que o papel da mulher é a reprodução e execução das atividades do lar. Este posicionamento das obras analisadas está de acordo com os pressupostos teóricos de ROCHA-COUTINHO (1994). As atribuições sócias de cada sexo, veiculadas aos livros, são definidas de maneira que a delicadeza feminina é contraposta à dureza masculina, e ao dar um caráter ativo ao homem, concede à mulher um caráter passivo. Tal antagonismo é claro nos livros didáticos.


Considerações finais

Os livros analisados podem contribuir para a orientação da identidade sexual das crianças. Porque oferecem símbolos e recursos usados para criar uma cultura comum. Trazem textos sociais voltados para o desenvolvimento da percepção do que é ser mulher e o que é ser homem, sugerindo maneiras de pensar e agir. Sugestões que podem ser processadas e tornar-se intrínsecas aos alunos de acordo com suas experiências pessoais. O estudo sobre os livros didáticos sugere que a identidade feminina está subordinada em favor da dominação masculina, de maneira que estes livros podem contribuir para o controle patriarcal da vida feminina. O que reforça, a partir das relações de gênero, as condições que legitimam as estruturas de poder existentes. Em muitos livros didáticos as mensagens subliminares ainda colocam a menina como coadjuvante e o menino como protagonista. Oferecendo a este a possibilidade de liberdade e de poder e àquela um papel subordinado e secundário.

É preciso demonstrar idéias e valores que não privilegiam o papel do homem frente ao da mulher, mas que tragam condições de igualdade de oportunidades para todos e todas. A identidade de gênero e a identidade de sexo são passíveis de mudanças. O papel dos livros didáticos na representação dos gêneros deve ser de uma perspectiva mais relacional, que mostre um homem menos tradicional e provedor e uma mulher mais participativa no mercado de trabalho, que também tenha uma ação produtiva e política. É importante que se contemple uma multiplicidade de relações entre os gêneros, em vez de um padrão sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Na questão de gênero, o educador deve ultrapassar seu papel de transmissor de informação, deve estar constantemente ser (re)formando, revendo seus conceitos e preconceitos para poder filtrar as visões estereotipadas nos materiais didáticos. Deve estar consciente de sua influência, de seu comportamento e de sua atitude, na formação de seus alunos e alunas.


Entrevistas

Profissão: Professor Instituição (escola): Escola Estadual de Ensino Fundamental

Sabendo que a escola é um dos principais locais que constituem a formação do individuo, como vês os diferentes comportamentos em relação aos gêneros no seu local de trabalho (escola)? Como as crianças se comportam umas em relação às outras (meninos-meninas, meninas-meninos)?

Em geral não há conflitos graves entre meninos e meninas no que se refere a gênero. Porém, percebe-se em vários momentos e situações, atitudes preconceituosas tanto de meninos como de meninas, quando por exemplo, se um menino é mais atencioso e delicado na forma de tratar os outros, é imediatamente rotulado de gay. Também ocorre preconceito em determinadas disputas (brigas). O que cede ou não quer brigar é chamado de “veadinho”. Ocorrem manifestações preconceituosas também com relação à roupa.

Como esses comportamentos influenciam nas tuas atitudes?

É evidente que isto não pode passar “em branco”. O aluno é questionado sobre sua atitude e levado à refletir sobre seu comportamento.

Qual a tua visão sobre a mulher e sobre o homem (papéis)?

Acho que não há papéis pré-determinados para homem ou mulher. Na vida profissional ao menos, as oportunidades deveriam ser as mesmas, salários iguais, tratamentos iguais.

Machismo – Homofobia, qual o seu entendimento a respeito? Você se considera “machista”, “homofóbico(a)”? Qual a sua atitude perante a esse tipo de comportamento no seu local de trabalho (escola)?

Considero nossa sociedade machista, porém não me considero como tal e não toleraria em meu ambiente de trabalho, bem como em qualquer ambiente, um comportamento deste tipo. Somos todos iguais, em direitos e deveres. O que deve regular a vida entre as pessoas é o respeito à liberdade, à individualidade, etc.

Você já sentiu algum tipo de preconceito em seu local de trabalho (escola) ou já viu acontecer? (se possível descreva).

Sim. Pelo fato de usar determinado tipo de roupa (p. Ex.: uma camiseta mais “fashion” ou cor de rosa) foi motivo para as pessoas soltarem piadinhas, insinuando haver me tornado homossexual.

No seu ponto de vista, qual a importância de trabalhar o assunto (gênero) na escola? Este assunto é devidamente contemplado?

Acho importante tratar deste assunto na escola, pois os alunos trazem de casa uma educação machista. É muito forte a presença da idéia de que o homem pode tudo e a mulher deve se resguardar mais, ser “fiel”.

Dê alguma sugestão para a abordagem do assunto (gênero) na escola e da atitude que o professor deve ter a frente de um comportamento preconceituoso.

Acho que o professor tem muitas possibilidades de abordar este assunto em sala de aula: através de jogos, oficinas, etc. O professor não deve permitir qualquer comportamento preconceituoso. Deve estar atento a tudo o que acontece em sua sala de aula e trabalhar este tipo de atitude, no sentido de levar o aluno refletir sobre a mesma. Deveria ser um trabalho permanente no sentido de mudar a cultura machista que ainda existe.

Profissão: Professora Séries Iniciais e Técnica em Assuntos Educacionais Instituição (escola): EMEF

Sabendo que a escola é um dos principais locais que constituem a formação do individuo, como vês os diferentes comportamentos em relação aos gêneros no seu local de trabalho (escola)? Como as crianças se comportam umas em relação às outras (meninos-meninas, meninas-meninos)?

Trabalhei desde a Educação infantil até 3ª série do Ensino Fundamental e é desta prática, deste lugar, que falo. Por essa experiência, pude perceber que os meninos e as meninas da educação infantil, bem como da 1 série do ensino fundamental, brincam juntos, formam grupos sem grandes diferenciações de tratamento quanto ao gênero. Essa diferença de tratamento começa a aparecer na 2 série, quando os próprios alunos organizam as filas de acordo com o gênero, as brincadeiras não são mais tão unificadas, começam as fofocas de meninos e meninas para os adultos. Os meninos não querem mais dar abraços (dizem que isso é coisa de menina). O abraço deles são as lutinhas, onde eu interpreto os “agarramentos” como sendo os abraços que eles necessitam e tem vergonha de dar. Já ouvi até que vôlei é coisa de menina...

Como esses comportamentos influenciam nas tuas atitudes?

Quando começam as atitudes de exclusão/inclusão das brincadeiras, jogos, pelo gênero, as atividades que procuram desenvolver a socialização são reorganizadas. Técnicas de formação heterogênea dos grupos, jogos, brincadeiras, até a disposição física dos alunos na sala são modificados. Além disso, trabalha-se textos que discutam a temática.

Qual a tua visão sobre a mulher e sobre o homem (papéis)?

Com nossa cultura patriarcal homem e mulher ainda exercem papéis culturalmente determinados. A própria é um grande exemplo: a docência dos primeiros anos do ensino fundamental é essencialmente exercida por mulheres, um dos motivos é a questão cultural da relação de cuidado com a criança (o mesmo se dá na enfermagem). E muitos diretores de escola são do gênero masculino (relação da gestão com provedor). O tratamento dos filhos e filhas é diferente, tarefas domésticas, brinquedos, ainda são diferenciadas de acordo com o gênero. Enquanto isso ocorrer não há como ter equilíbrio, e cada um vai assumindo os papéis que lhe são culturalmente determinados. Humberto Maturana, no seu livro “Amar e Brincar, os fundamentos esquecidos do ser humano”, trabalha bem essa questão da família matrística e da família no modelo patriarcal.

Machismo – Homofobia, qual o seu entendimento a respeito? Você se considera “machista”, “homofóbico(a)”? Qual a sua atitude perante a esse tipo de comportamento no seu local de trabalho (escola)?

A homofobia é bem intensa nos meninos na escola. Muitas atitudes de alguns são julgadas como “coisa de gay”, tanto pelos meninos quanto pelas meninas. Como já afirmei anteriormente, os meninos começam a ter certas atitudes de “fortão”, brigão, para aparecerem para o grupo como “os caras”, como se isso fosse determinante para se afirmarem homens do sexo masculino. Com os alunos menores é possível fazer algum tipo de trabalho (citados anteriormente), mas com certeza esse tema não é trabalhado profundamente. Acho que atende-se a demanda do momento, faz-se algum trabalho a respeito e fica por isso mesmo.

Você já sentiu algum tipo de preconceito em seu local de trabalho (escola) ou já viu acontecer? (se possível descreva)

Sim, eu tinha um aluno na segunda-série que era chamado de “bichinha”, por ter comportamentos mais femininos. Foi necessário fazer todo um trabalho de sociabilização, de aceitação, pois ele era excluído dos grupos, principalmente pelos meninos. Procurei discutir a questão do respeito, sem entrar muito na questão de gênero, nem de homofobia. Com o tempo, naquele ano, acostumaram-se e o menino passou a fazer parte dos grupos. Venho acompanhando esse aluno na escola e ele sofre cada vez mais o preconceito dos alunos da escola, e até de alguns docentes.

No seu ponto de vista, qual a importância de trabalhar o assunto (gênero) na escola? Este assunto é devidamente contemplado?

É muito importante, mas creio que não seja devidamente contemplado, até por ser uma questão bem complexa e poucos saberem e se encorajarem a explorar mais a fundo o assunto. Outro motivo é que não consta como preocupação nos Projetos Pedagógicos.

Dê alguma sugestão para a abordagem do assunto (gênero) na escola e da atitude que o professor deve ter a frente de um comportamento preconceituoso.

Poderia se começar um trabalho discutindo a estrutura da família, os papéis/tarefas da mãe,pai, irmão/irmã. A escola como um todo não pode fechar os olhos para o preconceito. Deve ser um trabalho em rede, com toda a comunidade escolar, trabalhando com projetos que discutam o tema na sua amplitude. É uma questão de respeito às diferenças, ao diferente, ao multiculturalismo.


Bibliografia

BERGER, P. T., LUCKMANN, T. A construção social da realidade. 12. ed. Petrópolis : Vozes, 1995

LOURO, Guacira (org.) Mulheres na sala de aula. In: Del Priore, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo: UNESP. LOURO, 1999.

MARTINS, Eliecília de Fátima, HOFFMANN, Zara. Os Papéis de Gênero nos Livros Didáticos de Ciências. In: http://www.fae.ufmg.br/ensaio/v9_n1/os-papeis-de-genero-nos-livros-didaticos-de-ciencias-eliecilia-m-e-zara-h.pdf

SGARBIERI, Astrid. Capítulo 1 – Mídia, gênero e poder. In: MAGALHÃES, Izabel, LEAL, Maria C. D, (orgs.). Discurso, gênero e educação. Brasília: Plano Editora: Oficina Editorial do Instituto de Letras da UnB, 2003.

BRAGA, Adriana. Corporeidade Discursiva na Imprensa Feminina: Um estudo de editoriais. In: ROCHA, Marie Jane Soares, CARVALHO, Cristiane Maria Famer. Produzindo Gênero. Porto Alegre: Editora Sulina, 2003.

ALMEIDA, Marlise M. de Matos. Masculinidade: uma discussão conceitual preliminar. In: MURARO, Rose Marie, PUPPIN, Andréa Brandão. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ, 2001.


Links consultados:

http://www.educarede.org.br/educa/index.cfm?pg=oassuntoe.interna&id_tema=8&id_subtema=7

http://74.125.47.132/search?q=cache:_IuOkI8VSncJ:www.miranda.utad.pt/~xerardo/ANTROPOLOGIA%2520CULTURAL/14.%2520ANTROPOLOGIA%2520DO%2520G%25C9NERO.doc+margaret+mead+%2B+g%C3%AAnero&cd=10&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

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