Gravidez na adolescência

De Psicologia da Educação

Entende-se por gravidez na adolescência aquela que ocorre durante os dois primeiros anos ginecológicos da mulher (a idade ginecológica zero é a idade da menarca) e ou quando a adolescente mantém total dependência social e econômica da família (Romero,Maddaleno, Silber, & Munist,1991).

No Brasil, “... a Maternidade na adolescência é um tema que vem suscitando não só o interesse entre estudiosos da demografia, da saúde pública e das ciências sociais, como também o debate público. Os estudos demográficos têm demonstrado que em nosso país, nos últimos vinte anos, houve um aumento da taxa específica de fecundidade e uma elevação relativa de nascimentos em mulheres de'15 a 19 anos', em contraste com a tendência revelada em outros grupos etários, fato este também observado em alguns países da América Latina, e que reforça o argumento da gravidez na adolescência como '"problema social"'. No campo da saúde, as questões debatidas relativas a essa temática enfatizam os riscos para a saúde das mães e das crianças provenientes de gestação em mulheres muito jovens. O enfoque de "risco" é ressaltado e associado a um imaginário contemporâneo que concebe a adolescência como um período de instabilidade, caracterizado por crises. Também é comum aludir o comportamento juvenil a atitudes '"descompromissadas"' e a um estilo de vida efêmero, o que contribui para uma construção negativa dessa fase da vida...” (Acácia Batista Dias & Estela M.L.Aquino, 2006).

As razões pelas quais as adolescentes engravidam cada vez mais e em idade mais precoce, são múltiplas: vai desde a irregularidade inicial, tanto da ovulação quanto do timing dos ciclos menstruais até a suposição de não engravidarem visto que se consideram jovens demais. Ao mesmo tempo, a irregularidade torna pouco eficaz qualquer método contraceptivo.

Segundo Romero e cols.(1991) e Neinstein e cols.(1991), entre os motivos mencionados pelas adolescentes sobre a falta do uso de métodos contraceptivos, está a pouca informação a respeito da contracepção e da reprodução, bem como sobre o uso adequado dos métodos anticoncepcionais. Há também em muitos casos a dificuldade de diálogo com o parceiro sexual sobre a gravidez. De acordo com Bee (1996), o momento de maior risco de gravidez é aproximadamente o primeiro ano depois do inicio da atividade sexual, período durante o qual é menos provável que as adolescentes busquem informações contraceptivas.

Em geral, adolescentes provenientes de famílias disfuncionais, pobres, de pouca escolarização e cujas mães tiveram precocemente seu primeiro filho, correm um risco maior de engravidar. Ainda, famílias com história de violência, abuso de drogas e doença crônica de um dos pais podem predispor as adolescentes a uma relação sexual prematura. Aquelas meninas que possuem baixa auto-estima, baixo rendimento escolar e falta de perspectivas profissionais também constituem um grupo de risco (Neinstein e cols.,1991; Romero e cols.,1991).

A gravidez na adolescência, desejada ou não, provoca um conjunto de impasses comunicativos no âmbito social, familiar e pessoal. No âmbito social, lamentam-se as falhas dos programas de educação sexual que, aparentemente, não mostram de modo claro e eficiente como iniciar e usufruir com segurança a experiência da sexualidade.

No âmbito familiar, a gravidez na adolescência parece indicar dificuldades nas relações entre pais e filhas e nas condições contextuais para o desenvolvimento psicológico da filha.

No âmbito individual, a jovem gestante se questiona '"por que isso aconteceu justamente comigo?" e "que será agora de minha vida?"'. Em outras palavras, a gravidez na adolescência traz sérios problemas para programas de saúde pública, para projetos educacionais, para a vida familiar, e para o desenvolvimento pessoal, social e profissional da jovem gestante como vem sendo reconhecido pela literatura (Steinberg, 1996). O problema exige da saúde pública programas de orientação, preparação e acompanhamento durante a gravidez e o parto, e também cuidados pediátricos e psicológicos. Da família, requer uma redefinição de crenças, atitudes e valores, e novos arranjos de espaço físico (mais uma cama), de tempo (cuidados com a criança) e de finanças (aumento das despesas). Da jovem implica em dificuldades com a escola ou com atividades profissionais. Sendo a gravidez desejada ou não, os planos pessoais serão revistos e as jovens terão que se defrontar com as dificuldades inerentes à nova realidade.

O diálogo parece também difícil com outro adulto próximo, como fala Harrison (1995). Primeiro, é difícil para o jovem estar no controle dos seus pensamentos, quando os sentimentos encontram-se em contradição. Segundo, o adolescente não consegue conversar com o adulto sobre comportamentos sexuais, pois a sexualidade também é uma experiência confusa para o adulto. Além disso, o próprio comportamento sexual adulto não oferece um modelo de controle para os jovens. Está comprometida então a condição de alteridade. Exige-se um controle do adolescente que o próprio adulto, muitas vezes, não possui. Perde-se também a condição de similaridade, onde estará o modelo? Acontece que o modelo de comportamento sexual expresso pelos pais é também uma expressão de suas dificuldades sobre a própria sexualidade.

Tabela de conteúdo

O “exemplo de Moçambique”

Por motivos culturais históricos e tradicionais, as adolescentes moçambicanas, são privadas de muitas coisas, a maior parte delas, não vive essa fase de adolescente...

O incentivo ao uso da camisinha tem como alvo também a diminuição da gravidez precoce. “Existem muitas adolescentes que engravidam cedo. O trabalho também passa pela conscientização dessas meninas”, explica Lina Joel Tivane, 20 anos.

“Tenho um amigo de 14, cuja mulher, de 13, já está grávida do segundo filho. Com 12 anos ela ficou barriguda pela primeira vez”.

Estima-se existirem em Moçambique cerca de 99 mil crianças menores de 15 anos vivendo com HIV ou SIDA, e que 8.9 por cento das raparigas dos 15 aos 19 anos e 2.9 por cento dos rapazes da mesma faixa etária sejam soropositivos.

TETE, 11 Agosto 2008 (PlusNews) - Elsa Ngazo, 18 anos, deixa às pressas a sala da Escola Secundária Francisco Manhanga para cuidar dos afazeres domésticos na casa duma família que a hospedou.

Agora na oitava classe, Ngazo fugiu de sua casa em Manje, distrito de Chiuta, no interior da província central de Tete, com apenas 15 anos. Os seus pais queriam obrigá-la a casar com um homem de 57 anos, escolhido por eles. Ela queria continuar os estudos.

“Fui torturada quando recusei o casamento, até parei no hospital”, conta. “Quando tive a chance de escapar dos olhos dos meus pais, num quartinho onde estive presa, fugi. Andei até chegar à sede do distrito, onde encontrei a senhora que me está a hospedar.”

Mas nem todas as raparigas têm a mesma sorte de Ngazo.

Segundo a directora provincial de educação e cultura de Tete, Leonor Moiana, há meninas que, por recusarem o casamento, são submetidas a castigos corporais e são amarradas durante dias, privadas de comer, até mudarem de idéia.

A lei moçambicana não endossa a prática. O actual Código Civil permite o casamento às raparigas apenas a partir dos 18 anos e aos rapazes a partir dos 20. Por causa disso, não há registos oficiais sobre o número de casamentos precoces realizados no país.

Mão-de-obra

Apesar de proibido por lei, o casamento precoce sempre esteve culturalmente presente no cotidiano de várias etnias maioritárias de Tete: Nhungwe (no leste e centro) e Nfula (no sul e no norte).

Porém, a crise económica, que se arrasta desde o término do conflito armado no país, é considerada um dos principais factores para o aumento da prática.

“Com a explosão demográfica, não há emprego”, explica Calisto Lazaro, líder comunitário do bairro Canongola, em Tete. “Quem não sabe ler e tem seis filhas, vai dá-las em casamento para se sustentar às custas delas. Mulher também é mão-de-obra.”

Por isso, muitos pais dão a rapariga em casamento para receber o dote – que inclui dinheiro, favores e animais – dado pela família do futuro genro. Há casos em que a união é acertada com o pretendente antes de a menina nascer.

Já um homem que procura uma adolescente para casar geralmente quer mais mãos para ajudar na lavoura.

Problemas de saúde

Além do trauma, para muitas o casamento precoce também traz problemas de saúde, incluindo o risco de HIV.

“Temos registo de meninas que, depois do casamento com homens mais velhos, começaram a adoecer e até foi-lhes diagnosticado o vírus da SIDA”, diz Luísa Cumba, médica generalista e directora provincial de Saúde de Tete. “Há também casos de meninas que morreram durante o parto.”

A fístula é outra condição frequente entre essas raparigas. Com o corpo ainda em desenvolvimento, elas ainda não têm estrutura física para uma gravidez. Em muitos casos, os tecidos da bexiga, reto, vagina e útero se rompem durante o trabalho de parto, causando perfuração e incontinência urinária e fecal.

Lena Acácio, da etnia Nhungwe, hoje com 15 anos, casou-se aos 13 com um homem de 73.

“Eu implorei aos meus pais e repeti tantas vezes que não queria me casar, mas minha mãe seria expulsa de casa pelo pai, então casei”, conta.

Ela ficou grávida de seguida e deu à luz um menino prematuro e mal nutrido – condição comum entre as mães adolescentes e seus bebés. O seu filho passou meses na incubadora do Hospital Provincial de Tete.

Mais educação, menos risco

O abandono escolar é outra consequência do casamento precoce.

“Estamos bastante preocupados com as enxurradas desta prática, porque é uma das que mais força o abandono das raparigas no ensino”, destaca Moiana.

dade, pois se não está no outro e também não está As autoridades de educação estimam que mais de 80 casos de desistência escolar na província de Tete este ano foram decorrentes dessas uniões.

Cerca de 9 mil raparigas deixaram a escola no ano passado em Tete. Em Moçambique, a maior taxa de abandono escolar entre as meninas acontece entre a quinta e a nona classe, entre os 11 e 19 anos.

“Abandonar a escola assegura uma vida de pobreza para essas meninas. Muitas acabam seropositivas, porque as dinâmicas de poder homem-mulher tornam-se ainda mais acentuadas contra elas”, diz Moiana.

O Plano Estratégico Nacional de Combate a Sida (PEN) 2005/2009 observa que raparigas mais escolarizadas casam mais tarde, são mais propensas a fazer um planeamento familiar.

O Plano Estratégico Nacional de Combate a Sida (PEN) 2005/2009 observa que raparigas mais escolarizadas casam mais tarde, são mais propensas a fazer um planeamento familiar, e os seus filhos têm mais chances de sobrevivência.

Dados da direcção provincial de educação mostram que em 2007, 47 alunas entre 13 aos 18 anos ficaram grávidas na província de Tete, mas continuaram a ir à escola. As outras que engravidaram acabaram por abandonar os estudos.

“A educação da rapariga é fundamental, para que a mulher ganhe o poder de negociações e que as suas decisões não sejam influenciadas”, enfatiza Moiana.

Volta à Escola

Algumas iniciativas procuram ajudar essas raparigas a voltarem à escola depois do parto.

A direcção provincial de educação implementou em 2004 uma política que permite que as meninas amamentem durante o horário escolar. Porém, a adesão é difícil: além do estigma, não há quem cuide do bebé enquanto elas assistem às aulas.

Outro projecto procura diminuir o índice de desistência escolar de meninas ao ensiná-las sobre saúde reprodutiva e sexual, incluindo HIV.

“Estamos a formar professores para ensinar ferramentas para a vida e criar espaços seguros nas escolas, onde as raparigas discutam livremente os problemas que estão a enfrentar”, diz Moiana.

Essa iniciativa, a ser implementada nas escolas da província com maior índice de desistência, já apresenta resultados positivos: foi registada uma queda significativa de gravidez na adolescência, maior índice de retenção e conclusão da educação escolar e aumento da auto-estima e autoconfiança entre meninas.

Com o sonho de ser enfermeira, Elsa Ngazo desafia: “Eu gostava de um dia provar aos meus pais que forçar-me a um casamento não era um bom caminho para o meu futuro.”

(PlusNews - 11.08.2008).

A minha opinião: estes exemplos que aqui destaquei, não podem ser vistos como práticas tradicionais ou culturais que acontece em todo País. Essas costumes tradicionais variam de região para região, ou seja, entre Tribos. Com a dispersão da educação, essas práticas tendem a diminuir. Mas sempre vai sempre existir uma resistência a sua extinção. Nós ainda temos que percorrer um longo caminho até que todo mundo perceba, que raparigas e rapazes merecem um tratamento igual tanto na educação como em qualquer esfera social (oportunidades iguais).

Referências Bibliográficas

Batista Dias, Acácia; M.L. Aquino, ArnaEstela; Maternidade e paternidade na adolescência. Cadernos de Saúde Publica, RJ, julho de 2006.

Arnazarray,Mayte ;Machado,Paula Sandrine; B.Gomes,Willian; A experiência de assumir a gestação na adolescência: um estudo fenomenológico. UFRGS, RS, 1998.

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