INCLUSÃO SOCIAL
De Psicologia da Educação
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO I – TURMA B
INCLUSÃO SOCIAL?
O PAPEL DA ESCOLA COMO MEIO DE INCLUSÃO SOCIAL
Porto Alegre, 2007
INTRODUÇÃO
O trabalho que será desenvolvido trata da educação e da inclusão social de pessoas com deficiência. Apesar do tema do trabalho ser bastante amplo, o grupo pretende abordar de uma maneira geral o assunto, relacionando a inclusão social com a educação, a fim de discutir se a educação pode ou não servir como um meio de inclusão na sociedade para as pessoas que possuem algum tipo de deficiência. E também, trazer um pouco da realidade do que acontece nas escolas, como o esporte/educação física pode ou não ser um instrumento para inclusão social dos alunos com deficiência. A partir de então, surge a necessidade de definir o que é deficiência.
O termo deficiência é conceituado pelo decreto n° 3298 (Estatuto das Pessoas com Deficiência) como toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano. É considerada pessoa portadora de deficiência a que se enquadra nas seguintes categorias:
Deficiência física – alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física;
Deficiência auditiva – perda parcial ou total das possibilidades auditivas sonoras;
Deficiência visual – acuidade visual igual ou menor que 20/200 no melhor olho, após a melhor correção, ou campo visual inferior a 20° (tabela de Snellen), ou ocorrência simultânea de ambas as situações;
Deficiência mental – funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas (comunicação, cuidado pessoal, habilidades sócias...);
Deficiência múltipla – associação de duas ou mais deficiências.
Segundo estimativas da ONU, no Brasil, aproximadamente 10% da população é constituída de pessoas que possuem algum tipo de deficiência, isto é, cerca de 16 milhões de pessoas que, em virtude de sua deficiência, têm dificultada ou impedida, total ou parcialmente, a realização de suas atividades particulares ou sociais. Considerando que para cada uma dessas pessoas existem três outras (parentes, amigos, profissionais da área da saúde, fornecedores de equipamentos auxiliares) diretamente envolvidas, verifica-se que de uma forma ou de outra praticamente um terço da população brasileira é afetado pelas questões que dizem respeito às pessoas com deficiência.
1. RELAÇÕES DA SOCIEDADE BRASILEIRA COM PORTADORES DE DEFICIÊNCIA
As relações da sociedade brasileira com o segmento populacional constituído de cidadãos portadores de deficiência foram se modificando, no decorrer da História, sob a influência de fatores político-econômicos, geralmente avalizados pelo conhecimento científico disponível a cada época (Aranha, 2000).
A pessoa portadora de deficiência, em nosso país, no período colonial, era relegada à responsabilidade exclusiva da família, a qual, na ausência de políticas públicas voltadas para atender esse segmento populacional, ficava à mercê de suas crenças e possibilidades pessoais, sociais, econômicas, religiosas e culturais. De maneira geral, crenças no sobrenatural e a ignorância técnico-científica determinavam, na população, a prevalência de uma leitura metafísica carregada de mitos, preconceitos e fatalismos, o que fazia do trato da deficiência uma tarefa difícil, dolorosa e frustrante.
O primeiro paradigma formal de relação da sociedade brasileira com seus constituintes portadores de deficiência deu-se pelo Paradigma da Institucionalização, que se caracterizava pela retirada das pessoas com deficiência de suas comunidades de origem e por sua manutenção em instituições residenciais segregadas. A primeira instituição foi criada em 1854, por D. Pedro II, no Rio de Janeiro.
Portanto, constata-se que a pessoa portadora de deficiência, desnecessária para o sistema de produção então vigente no país, ameaçadora para a Saúde Pública, ônus para a família e para a comunidade, só restava a segregação social, mascarada sob um conjunto de argumentos científicos, religiosos e assistenciais. Essa situação perdurou, no Brasil, até o fim da década de 60.
A chegada e o fortalecimento do capitalismo, no mundo ocidental, encaminharam uma mudança de paradigma. Apontando que a experiência da institucionalização se testemunhava instrumento de construção de alienação pessoal, de despersonalização, e de conseqüente exclusão da pessoa portadora de deficiência da vida em sociedade, a que sempre teve direito enquanto cidadão.
O Paradigma de Serviços teve por objetivo principal ajudar pessoas com deficiência a obter uma existência tão próxima ao normal possível, a elas disponibilizando padrões e condições de vida cotidiana próxima às normas e padrões da sociedade. Passou-se a considerar que a pessoa diferente tem o direito à convivência social com as demais pessoas, mas que para exercê-lo, teria primeiramente que se modificar, que se ajustar, no sentido de vir a parecer e funcionar do modo mais semelhante possível ao dos demais membros da sociedade.
O fato de um cidadão apresentar limitações funcionais severas, ou estar incluído em uma minoria, não lhe poderia ser impeditivo de conviver com seus semelhantes, em ambiente regular. Nesse contexto delineou-se o terceiro paradigma, denominado Paradigma de Suportes, fundamentado no princípio da diversidade e no conceito de inclusão social.
Aranha (2000) define inclusão social como um processo bi-direcional, de construção coletiva, que implica em ajuste mútuo, onde cabe à pessoa portadora de deficiência a manifestação com relação a suas necessidades, e à sociedade, a implementação dos ajustes e providências necessária que a ela possibilitem o acesso imediato e definitivo à convivência no espaço comum, não segregado.
2. REGULAMENTAÇÃO E LEGISLAÇÃO
Segundo Guarinello et al. (2006), o início da inclusão no Brasil teve influência de dois eventos educacionais. O primeiro evento, a Conferência Mundial de Educação para Todos, ocorreu na Tailândia em 1990. Durante esse encontro discutiu-se a necessidade do desenvolvimento de uma política educacional de qualidade, a qual possibilitasse o atendimento efetivo a um maior número de crianças na escola. Além disso, nesse evento, destacou-se a importância de serviços que atendessem aos alunos, tanto aqueles considerados normais, quanto aqueles com necessidades especiais.
O segundo evento, a Conferência de Salamanca, ocorreu em 1994, na Espanha. Foi durante esse evento que o conceito de escola inclusiva passou a ser discutido de forma mais sistemática. Seu principal objetivo era o desenvolvimento de um trabalho pedagógico de qualidade, centrado no aluno, oferecendo a oportunidade de aprendizagem a todos. De acordo com a Declaração de Salamanca, estabelecida durante a conferência, qualquer aluno que apresentasse dificuldades em sua escolarização seria considerado com necessidades educativas especiais, cabendo a escola adequar-se às especificidades de cada aluno.
Com relação à inclusão de alunos com necessidades especiais, a legislação contida na Constituição Federativa do Brasil de 1988, artigo 208, define que o atendimento aos deficientes deve ser dado, preferencialmente, na rede regular de ensino. Além disso, a Lei de diretrizes e Bases (LDB) de 1996 também prevê que a educação seja a mais integrada possível, propondo a inclusão dos alunos com necessidades especiais na rede regular de ensino. Apesar de as leis do sistema educacional brasileiro garantirem a inclusão de alunos com necessidades especiais na rede regular de ensino, atualmente, estima-se que de cerca de seis milhões de crianças e jovens com necessidades educacionais especiais, não chega a quatrocentos mil o número de matriculados, considerando o ensino especial e o ensino regular. Portanto, a maior parte desses alunos ainda está fora de qualquer tipo de escola. A autora comenta que esse quadro indica que uma exclusão generalizada dos sujeitos com necessidades educacionais especiais ainda faz parte da realidade brasileira.
A legislação vigente prevê que sejam consideradas as situações singulares, os perfis dos estudantes, as faixas etárias, assegurando-se o atendimento de sujeitos com necessidades educacionais especiais, a fim de que tenham oportunidade de realizar com maior autonomia seus projetos, afirmando sua identidade cultural e promovendo o desenvolvimento social. Na perspectiva da inclusão, esses aspectos se configuram em termos de acesso gratuito ao ensino fundamental, e ao ensino médio.
Com relação ao desporto o decreto n° 3298 prevê o incentivo a prática desportiva formal e não-formal como direito de cada um e o lazer como forma de promoção social; o estímulo aos meios que facilitem o exercício de atividades desportivas entre a pessoa portadora de deficiência e suas entidades representativas; promoção da inclusão de atividades desportivas para a pessoa portadora de deficiência na prática da educação física ministrada nas instituições de ensino públicas e privadas.
3. EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA PARA A INCLUSÃO SOCIAL
As escolas devem ser preparadas para receber a pessoa com deficiência, tanto no que se refere ao ambiente físico, através da remoção das barreiras ambientais, como no que se refere às atitudes de todos os envolvidos. Tudo deve ser feito no sentido de que a convivência seja a mais natural possível, simplesmente é importante que o corpo docente e os funcionários tenham acesso a uma orientação específica que permita uma solução adequada e criativa para as dificuldades diferenciadas dos portadores de deficiência, enquanto elas surgirem.
As escolas devem oferecer em sua organização:
Atividades em classe comum – com professores capacitados para o atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos. E com o apoio de professor de Educação Especial e, se for o caso, do intérprete de LIBRAS/Língua Portuguesa, em concordância com o projeto pedagógico da instituição;
Serviços de apoio especializado, completado também em salas de recursos, em turno diverso, em classes hospitalares, no atendimento domiciliar, ou outros espaços definidos pelo sistema de ensino.
Ao professor da sala de aula comum é imprescindível, além da capacitação e de apoio, que ele esteja preparado para receber o “novo aluno”, para que a inclusão não seja somente física, mas que haja uma aprendizagem significativa para todos os alunos. A educação da pessoa com deficiência deve ser compreendida em uma dimensão bem ampla, ou seja, não só educativa, mas também sócio-cultural, com o objetivo de desenvolver suas potencialidades, sem destacar suas dificuldades, porém respeitando-as, aprimorando sua participação na sociedade.
A convivência na escola, como primeira oportunidade socializante oferecida às crianças em geral, adquire extrema importância quando se trata de crianças com deficiência e sua integração na sociedade. A escola revela-se uma boa oportunidade para que a criança com deficiência aprenda a lidar com suas limitações de forma sadia e natural.
A capacitação efetiva de docentes para atuar nessa perspectiva inclusiva, que vise o desenvolvimento do sujeito autônomo, tem como finalidade levar esses profissionais a uma constante reflexão sobre sua prática pedagógica, onde a avaliação e re-avaliação, bem como os questionamentos, são permanentes, a fim de que possam rever esta prática e compartilhar experiências e novas idéias com seus colegas, pondo fim na prática individualista da formação e do exercício profissional.
Os educadores devem estar dispostos às mudanças e estar constantemente revisando seus conceitos, ideologias e valores, para atuar como elemento facilitador no processo de conscientização da construção de sua cidadania. Esse processo de construção deve partir da sua prática e dos conhecimentos prévios que esta prática possibilita. Os professores devem ser “colocados em um contexto de aprendizagem e aprender a fazer fazendo: errando, acertando, tendo problemas a resolver, discutindo, construindo hipóteses, observando, revendo, argumentando, tomando decisões, pesquisando”.
Nessa perspectiva de transformação e atualização, não basta só o professor buscar alterar suas práticas, mas a escola, o contexto onde este professor esta inserido deve sofrer alterações. Os professores não podem mudar sem uma transformação nas instituições em que trabalham, nem as escolas podem fazer mudanças sem o empenho, especial, dos professores. Deve haver uma articulação entre a escola, seus projetos e seus professores, pois um depende do outro. O investimento que a escola faz em seu professor, converte-se para o futuro da própria instituição.
A teoria é muito bonita, no entanto, muitas vezes não acontece na prática, como mostra um artigo publicado na edição do dia 30 de outubro de 2007, n.º 15403, na Zero Hora.
4. INCLUSÃO ESCOLAR: UMA GRANDE MENTIRA
Tenho trigêmeos de quase cinco anos de idade que têm paralisia cerebral. Bom, eles estão numa pequena escola e, como todas as mães, comecei a pensar no futuro, ou seja, qual a escola em que eles poderiam dar continuidade aos seus estudos. Para um melhor entendimento da questão explico: meus filhos nasceram prematuros, tiveram uma infecção aos 30 dias de vida durante a internação na unidade de terapia intensiva e, ao longo do primeiro ano de vida, tiveram o referido diagnóstico. Fomos atrás de tudo (fisioterapia, equoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional...) para que houvesse a tão sonhada reabilitação. Hoje, eles são crianças maravilhosas, falam tudo, são inteligentes, brincam muito, mas não caminham. Pensam, mas não caminham!!!
Marquei entrevistas com orientadoras pedagógicas de algumas escolas particulares de Porto Alegre que me foram referendadas e percebi muitas dificuldades de entendimento da situação, e em alguns olhares, quase o pânico! Por fim, numa determinada escola fui totalmente acolhida, ufa! A orientadora pedagógica foi muito tranqüila e receptiva. Por via das dúvidas, sempre levava fotografias das crianças e reexplicava: "Olha, a Paula já caminha sozinha, mas ainda cai muito. O Gui ainda não tirou as fraldas, engatinha e está começando a andar num andador especial. O Gabriel anda bem de andador...". Tudo tranqüilo, fui orientada a fazer a inscrição e depois a matrícula. Voltei à escola com os meus filhos empolgados, e qual a minha surpresa quando, após olharem (e não conhecerem) os meus rebentos, sou chamada numa sala ao lado e avisada de que talvez não fosse o momento de receber os meus filhos!!! A toda negativa de inserção na escola vinha sempre uma frase de "é claro que recebemos todas as crianças"!? Fui informada de que a presença deles talvez demandasse a presença de uma outra auxiliar, talvez isso dificultasse... blá, blá, blá....
Meu filho Guilherme, nestes dias de primavera, desceu comigo no condomínio com suas órteses e seu andador. Tinha um menino andando de bicicleta que o olhava de cima para baixo, com as sobrancelhas cerradas. O Gui perguntou-me: "Mãe aquele guri está me olhando?", e eu disse: "Sim, filhote, e tu também estás olhando para ele", e ele respondeu: "Ah, mãe, eu achei linda aquela bicicleta amarela dele. Mas por que tu achas que ele está me olhando?" Falei que não sabia e perguntei o que ele achava: "Mãe eu acho que ele viu a minha alegria!!!"... São meus filhos, supervencedores e que voam com o pensamento, mas não caminham...
Inclusão escolar, o que é isto? Somos especialistas em criar leis. Uma lei não abraça uma criança. Podem publicar todos os nossos direitos, de nada adiantará se não houver uma mão que acolha! Ninguém é imune à vida, as dificuldades podem surgir para todos e também podem ser superadas. As oportunidades de aprendermos com as diferenças são desconfortáveis num primeiro momento e eternamente reveladoras. Resta saber em que mundo queremos viver.
Li num livro de Giuseppe Pontiggia um trecho em que os pais de uma criança de três meses recebem o diagnóstico de paralisia cerebral e o médico fala o seguinte: "Essas crianças nascem duas vezes. Têm de aprender a mover-se num mundo que o primeiro nascimento tornou mais difícil. O segundo, depende de vocês. Nascem duas vezes, e o percurso será mais atormentado. Mas, no final, será um renascer para vocês também".
Sigo certa de que existem melhores caminhos e nós os encontraremos. Lamento pelos que perdem de conviver com esses pequenos que aos quatro anos de idade já me ensinaram a renascer tantas vezes!
4.1. PESQUISA DE CAMPO
No entanto, também existem algumas ações que dam certo, e é acertando, errando e tentando que se consegue. Como nos casos relatados por uma professora que possui alunos portadores de deficiência física. Foram realizadas algumas perguntas que foram respondidas através de email, a fim de trazer um pouco da realidade vivida nas escolas.
Entrevista:
1) Sua formação teve conteúdos da área de educação especial? Qual seu ano de formação?
Eu me formei em 1984 aí na UFRGS. Não me lembro de ter conteúdos na área da educação especial.
2) Poderia citar algum momento de maior dificuldade no trabalho com alunos especiais, de que forma encarou esta dificuldade?
Quando trabalhei com surdos a minha maior dificuldade foi entendê-los e aí fui ler, assistir filmes sobre surdez, procurar apoio com os colegas que já lecionavam para eles. O CEFET (primeiro local de trabalho da entrevistada com portadores de deficiência) tinha um material muito bom.
3) Qual o método que você utiliza para conseguir a inclusão?
Como não fui preparada anteriormente ia pela intuição e pela minha observação do que funcionava com eles com a ajuda da minha intérprete. Trabalhei muito com o visual.
4) Cite algumas dificuldades rotineiras?
Minha maior dificuldade era não me comunicar diretamente com eles em Libras. Depender da intérprete dificulta muito o meu relacionamento com eles. Às vezes percebia que alguma coisa não estava bem, não podia chegar e perguntar diretamente. Eles são muito sensíveis e muito perceptíveis. Também percebiam quando eu não estava bem, no olhar tínhamos essa percepção.
5) Você acha que realmente inclui? Ou o aluno em certos casos é até excluído?
No CEFET quando eles começaram o curso de surdos inicialmente as turmas eram de ouvintes e de surdos (curso técnico) e não deu certo, pois os surdos não conseguiam acompanhar a turma. Então, eles resolveram criar uma turma especialmente de surdos dentro do CEFET. Foi nessa época que trabalhei lá, eles (surdos) conviviam com os ouvintes e havia uma interação grande entre os alunos. Os ouvintes se interessavam em aprender Libras para se comunicar com os colegas surdos e até paqueras surgiram. Era interessante ver a socialização deles.
Mas na escola que dou aula hoje, é mais socialização. A professora tem uma auxiliar de sala. É muito difícil, pois eles não acompanham a turma. A inclusão na teoria é linda, mas na prática é uma dor de cabeça! As escolas não estão preparadas fisicamente (para cadeirantes, por exemplo) e nem os professores para lidarem ao mesmo tempo com os dois tipos de alunos. Eu ainda acho que a experiência do CEFET é mais produtiva. Não isolá-los, mas darem um atendimento direcionado dentro de uma escola com os outros alunos e isso demanda profissionais especializados, salas adequadas e recursos (que quase sempre são escassos).
O grupo também realizou uma observação de uma aula especial , em uma escola estadual, no dia 22 de outubro de 2007
Características da sala de aula:
Sala separada, com dimensões menores que as comuns, andar térreo, mas é preciso subir 2 degraus para chegar. É direcionada especificamente para alunos com Deficiência Mental Leve (DML).
Em uma parede fica exposto o ABC, com figuras letras e palavras, tudo bem colorido;
Na porta, tem um calendário do ano, tem desenhos expostos dos alunos, bem coloridos;
Em uma parede fica um quadrinho escrito: PARABÉNS, para os aniversariantes.
Mobília:
Espelho em tamanho grande, corpo inteiro, armário de ferro de 4 portas a chave, um outro armário 2 portas ferro a chave, armário tipo arquivo em madeira, um ventilador de teto, lâmpadas florescentes, sala bem iluminada e arejada, cortinas coloridas nas janelas, quadro verde, som que toca vinil, 2 caixas de som grande. Duas mesas redondas para os alunos, capacidade para 4 pessoas cada uma, cadeiras fofas para os alunos e a professora. A professora possui mesa tipo escrivaninha, e cadeira.
Turma:
A classe hoje está composta por 6 crianças, e adolescentes. No dia todos estavam presentes. São 4 meninas, de menor idade, 8-10 anos e 2 meninos, maiores por volta de 16 anos. Todos falam, e andam sozinhos.
A faixa etária vai de 8 a 20 anos na sala.
O horário de aula é das 8hrs da manhã, até as 12 horas.
Os pais vem buscar sempre as crianças e adolescentes, são bem presentes, e conhecem bem a professora. Possuem relação muito próxima.
Descrição da aula:
No quadro verde a professora havia escrito o tema do dia que era sobre a mobília da casa, em letra de forma o quadro era dividido em 4 faixas: 1. Quarto: cama, estante, guarda-roupa, brinquedos; 2. Banheiro: pia, vaso, chuveiro, espelho; 3. Sala: sofá, televisão, abajur, quadro, estante; 4. Cozinha: fogão, geladeira, butijão, panela, vaso. Mas este tema ficou para casa, onde eles levavam um desenho para pintar e escrever sobre a mobília.
Enquanto as crianças fizeram trabalho em seus cadernos sobre o ABC, consistia em figuras tipo “igreja” “casa”, onde a criança precisava escrever a palavra, recortar e colar no caderno em ordem alfabética. As mais novas demonstraram maior dificuldade em realizar essa tarefa, a professora é muito solícita.
Questões com a professora:
Tempo de docência: 18,5 anos, sempre com educação especial e na mesma escola.
É professora concursada do Estado e do Município.
No Estado: carga horária de 20 horas; no Município carga-horária de 40 horas. Ensino Fundamental. Não existe tempo para planejamento. Tudo é realizado no decorrer das aulas. No total são 60 horas de carga-horária.
Formada em Pedagogia Especial. Tem curso de Libras realizado pelo Município. Por vezes consegue cursos de capacitação.
Os métodos de ensino são mistos, de construtivismo como maior base, uso de jogos, brincadeiras, recursos audiovisuais, contato direto.
Existe um limite de alunos por escola por sala, pois o contato com eles é muito direto e solícito.
Os recursos de materiais são fornecidos pela própria professora, jogos, papéis, lápis de cor, canetinha, apontador, tesouras, colas, lápis, canetas, etc.
Existe uma cota limite para xerox na escola, então muitas vezes a professora paga.
Quando o aluno aprendeu o suficiente, sabe ler e escrever, fazer contas básicas, pode ser inserido nas séries normais do ensino regular.
As maiores dificuldades dos alunos, são o raciocínio lógico, matemático, aquisição da leitura e escrita.
Para que os alunos ingressem nessa sala de aula, precisam ter passado por vários processos burocráticos: primeiro ter cursado a primeira série do ensino fundamental e ter tido dificuldade e reprovação comprovados, depois passam por psicólogo e acompanhamento neurológico, muitas vezes pelo NASCA (atende município e estado), ou também pelos Postos de saúde são acompanhados pelo médico, a SEC precisa autorizar o ingresso do aluno nesse tipo de sala.
O ritmo da turma em geral é lento. Mas cada aluno tem sua peculiaridade e é acompanhado individualmente conforme seu ritmo de progresso.
A professora não acredita na nova lei de inclusão, e diz que é uma maneira de excluir, no sentido de que um aluno especial tem um ritmo próprio que precisa ser respeitado, os demais alunos avançarão e por maior boa vontade do professor aquele aluno especial vai ficar sendo deixado de lado, e aos poucos excluído, e até mesmo perdendo o interesse, e abandonando a escola.
A professora diz que é preciso respeitar o ritmo de aprendizado desses alunos especiais, para que mais tarde possam estar realmente aptos a serem inseridos no sistema.
Estudando na Escola, eles já interagem com os demais alunos, na hora do recreio, nas gincanas, nos projetos que a escola desempenha com os alunos, como por exemplo, o tema atual que é o Meio Ambiente.
A avaliação é feita através do crescimento diário, não tem prova, apenas trabalhos em sala de aula, e em casa. É observado o interesse, a responsabilidade, o desempenho psicológico e cognitivo, através do relacionamento diário, com os trabalhos em aula e em casa onde os pais atuam junto.
Como saber quando seguir adiante? Quando o aluno aprendeu a ler, uma palavra inteira, ou uma frase, escreve por si próprio, quando adquire maior independência.
Por exemplo, na classe tem um rapaz de 16 anos, é o mais independente, e lê algumas palavras, mas ele pode ir e vir de casa sozinha muitas vezes.
Os livros adotados são diversos, de primeiras séries, cartilhas, de jardim de infância, e servem apenas como apoio para o trabalho da professora.
Os alunos são em geral calmos, carinhosos, e obedientes. A maior dificuldade observada foi a de exercer o trabalho com independência e segurança. Eles requerem bastante a atenção da professora, que atende um a um individualmente, algumas alunas até sentavam-se na mesa da professora para ficar mais próximo.
5. EDUCAÇÃO FÍSICA E INCLUSÃO SOCIAL
A prática de atividade física e/ou esportiva por portadores de algum tipo de deficiência, sendo esta visual, auditiva, mental ou física, pode proporcionar dentre todos os benefícios da prática regular de atividade física que são mundialmente conhecidos, a oportunidade de testar seus limites e potencialidades, prevenir as enfermidades secundárias à sua deficiência e promover a integração social do indivíduo.
A realização de atividades físicas, esportivas e de lazer com deficientes, tem que respeitar todas as normas de segurança, evitando acidentes, deve-se estar atento a todos os tipos de movimento a serem realizados, auxiliar o deficiente sempre que necessário, e estimular sempre o desenvolvimento da sua potencialidade.
Vantagens da prática de esportes pelos deficientes:
Melhoria e desenvolvimento de autoestima e auto-imagem;
Estímulo à independência e a autonomia;
Associação com outros grupos;
Experiência com suas possibilidades, potencialidades e limitações;
Vivência de situações de sucesso e superação de situações de frustração;
Melhoria das condições organo-funcional (aparelhos circulatório, respiratório, digestivo, reprodutor e excretor);
Melhoria na força e resistência muscular global;
Ganho de velocidade;
Aprimoramento da coordenação motora global e ritmo;
Melhora no equilíbrio estático e dinâmico;
Possibilidade de acesso à prática do esporte como lazer, reabilitação e competição;
Prevenção de deficiências secundárias;
Promover o encorajar o movimento;
Motivação para atividades futuras;
Manutenção e promoção da saúde e condição física;
Desenvolvimento de habilidades motoras e funcionais para melhor realização das atividades de vida diária;
Desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas.
5.1. PESQUISA DE CAMPO
O grupo realizou outra entrevista com um profissional da área da educação física:
1)Você trabalha com educação especial, certo? Quais atividades desenvolve com teus alunos?
Trabalho em Escola Especial- só alunos deficientes (EMEF Prof. Elyseu Paglioli- com Deficientes mentais, Físicos e múltiplos), em Escola Inclusiva- um aluno inclusão (EMEF Pepita de Leão- com Psicose e Autismo), coordeno grupo de pesquisa com Capoeira Especial (surdos, mentais), faço monitoria da EFI Especial na ESEF, faço parte do Grupo Viver Faz a Diferença/ESEF UFRGS.
Nas Escolas dou aula de capoeira, trabalho os movimentos corporais e a musicalidade. Dentro da física, buscando melhora em coordenação, força, flexibilidade, etc.
2)Há apenas alunos deficientes ou há turmas mistas?
Na Escola Especial somente alunos deficientes, na Escola Inclusiva um aluno deficiente na turma (de 15).
3) Quais são as maiores dificuldades que você encontra para ministrar as aulas?
Tento minimizar as dificuldades porque sou favorável a inclusão.
Na Escola Especial, a dificuldade está na parte cognitiva. Respeito ás regras, memória lábil (tenho que relembrar com alguns), abstração.
Na Escola Inclusiva, tive que trabalhar a aceitação com os colegas, de ter um aluno "diferente" na turma. Hoje está tranqüilo.
4) Percebe melhoras ou benefícios que as aulas podem trazer (sociais, físicos, psicológicos, etc...)? Quais?
Observei muitas melhorias, através de relatos dos pais, professores, etc.
Percebo a cada dia o quanto as aulas são importantes para os alunos, o quanto melhoraram, o quanto esperam pelas aulas. Observei melhora tanto nos aspectos motores, quanto sócio-afetivos (respeito, integração, atenção...) .
5)Acha que as atividades físicas servem como meio de inclusão?
Totalmente, eles estão provando isso! Trabalhamos as diferenças através das aulas, de se respeitar, de conviver em harmonia. Sou defensora da inclusão porque sempre vivenciei ela, sempre foi possível, é só querer e se qualificar para isso!
6. CONCLUSÃO
Portanto, conclui-se que a inclusão social dos portadores de deficiência é um direito, e esse foi consquistado recentemente. Existem muitas tentativas e ações que agem nesse sentido, mas, nem sempre as escolas e os professores estão preparados para lidarem com esses alunos. É preciso que as escolas adaptem-se a esse novo público e que as universidades, faculdades preparem os futuros professores para lidar com tal situação.
7. REFERÊNCIAS
1. ARANHA, M. S. F. (2000). O processo de mobilização social na construção de um contexto comunitário inclusivo. In Oliveira, M. L. W. de (org.), Inclusão e Cidadania, Niterói: Nota Bene, p. 32-38.
2. ARANHA, M. S. F. (2000). A inclusão social e municipalização. In: Manzini, E. J. (org.), Educação Especial: Temas Atuais, Marília: UNESP- Marília Publicações, p. 1-9.
3. Estatuto das Pessoas com Deficiência - Decreto n° 3298. Diário Oficial da União, 21 de dezembro de 1999. Extraído de http.//www.entreamigos.com.br/textos/direitos/direitos.htm em 01/11/2007.
4. GUARINELLO, A. C.; BERBERIAN, A. P.; SANTANA, A. P.; MASSI G. e PAULA, M. A Inserção do Aluno Surdo no Ensino Regular: Visão de um Grupo de Professores do Estado do Paraná. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, Set.-Dez. 2006, v.12, n.3, p.317-330
5. LUBIANCA L. N. Inclusão escolar: uma grande mentira. Extraído de http://www.clicrbs.com.br/zerohora em 01/11/2007.

