Métodos de ensino

De Psicologia da Educação

Tabela de conteúdo

Uma breve introdução

Os métodos de ensino consistem em estabelecimentos de estratégias e procedimentos que visam determinados objetivos. Eles possuem tanto uma dimensão prática quanto teórica, sendo a primeira responsável por conceder um aval de eficácia ao mesmo e a última por articular os elementos técnicos com os fins maiores da educação. Justamente por possuir inúmeras variáveis – tais como objetivos, conteúdos, realidades sócio-culturais, meios de ensino disponíveis, público alvo, entre outras – os métodos de ensino constituem a categoria mais dinâmica do processo de ensino-aprendizagem. Destarte, não podem ser encarados como modelos definitivos e, sim, como propostas a serem moldadas e aperfeiçoadas de acordo com o contexto em que se encontram inseridas.

O Projeto Amora

Tendo isso em vista, fizemos um estudo de caso do Projeto Amora desenvolvido pelo Colégio de Aplicação desta Universidade – que, como já explicitamos anteriormente, não pode ser encarado como uma Bíblia e, sim, como uma proposta interessante a ser pensada e desenvolvida em diferentes conjunturas.

De certa forma, inicialmente, seria proveitoso nos referirmos ao nome do projeto, uma vez que o mesmo constitui uma metáfora sobre a filosofia intrínseca ao trabalho proposto pelos professores do referido colégio. Em contrapartida ao ensino individualizante, a colaboração entre os membros da equipe é representada pela amora, onde seus gomos estão dispostos em união - uma imagem antagônica seria a da uva, cujas partes, apesar da falsa impressão de coesão, estão na verdade separadas.

Tal projeto, em execução desde 1996, visa o desenvolvimento da criatividade e autonomia do aluno bem como uma construção coletiva do conhecimento. Ele está inserido dentro de um plano de reestruturação curricular que contempla tanto as novas características da relação professor-aluno quanto à integração das TIC (tecnologia de informação e comunicação). Utiliza-se ferramentas como o diário digital (blog), onde, por meio deste, os alunos podem registrar diariamente o andamento da pesquisa; concomitantemente com o diário trabalha-se com os mapas conceituais que são formas alternativas de representação a um texto escrito; já o wiki é o local onde se registra as informações finais sobre o projeto, quando o conhecimento sobre o tema está em sua forma mais conclusiva.

Esta proposta envolve alunos de ensino fundamental de quinta e sexta séries, rompendo com uma lógica serial, pois os mesmos são agrupados de acordo com a temática escolhida e não em função da etapa escolar. Trabalha-se, ademais, com a lógica interdisciplinar tendo em vista, segundo os autores do projeto, um melhor aproveitamento das capacidades cognitivas. As diferentes temáticas são escolhidas pelas crianças que, além disso, planejam, executam e avaliam o projeto com a orientação de um professor. Este deve escolher o tema que irá orientar, não precisando necessariamente trabalhar com assuntos de sua área de formação.

Em relação ao desenvolvimento do projeto, cabe assinalar as diferentes fontes utilizadas – tais como consultas a sites, livros disponíveis na biblioteca da escola, professores especialistas no assunto e parentes próximos que sejam especialistas no assunto pesquisado. Além disso, os alunos visitam locais que sejam de interesse para o desenvolvimento da pesquisa. À medida que coletam as informações, apresentam-nas através de mini-seminários ao grupo de trabalho que faz sugestões acerca dos resultados obtidos. Ao final de um período mais ou menos determinado, normalmente três meses, os alunos apresentam os resultados das pesquisas para todos os participantes do Projeto Amora e demais convidados, como pais, alunos de outras séries da escola ou de outras escolas.

Em última análise, tal metodologia caracteriza-se por privilegiar o papel protagônico do aluno no âmbito escolar rompendo com paradigmas obsoletos onde o mesmo era um mero receptor de conhecimentos.

Novos métodos de ensino para novas formas de aprendizado

Seguindo esse pensamento, podemos destacar a importância do como, o que e para que serve o âmbito escolar. Dentro de uma proposta preparatória que visa o vestibular, os professores acabam sendo limitados na aplicação de uma forma diferente de ensino e de algo que abrigue atividades que estimulem o pensamento do aluno como no Projeto Amora. Por exemplo, a falta de tempo para ensinar a Geografia, dentro dessa perspectiva, causa problemas para a compreensão da matéria pelos estudantes. O ensinamento é falho e com poucas análises críticas, focando apenas no decorar, isto é, ao invés de compreender a gênese da estrutura morfológica do relevo brasileiro e os motivos teórico-metodológicos dos quais receberam suas nomenclaturas, apenas se foca nos conceitos específicos do que é cada forma da Terra, decorando os nomes e as características. Outro exemplo bastante forte nas discussões sociais é o temeroso aquecimento global, saber o histórico climático do planeta e, ao mesmo tempo, discutir o aquecimento global atual com suas conseqüências sociais, políticas e econômicas, deveria ser abordada de maneira mais criteriosa pelos educadores para que não ficássemos dependendo somente das concepções que são dadas pela mídia. É na escola que devemos aprender qual a nossa função social, ou seja, somente podemos criar um mundo melhor quando o conhecimento for repassado para os estudantes de forma integra.

E assim segue para tudo que é trabalho em sala de aula. Não há tempo para os “porquês” e o “como”, apenas para o “é assim”. Entretanto, esse processo de precariedade que vem passando o ensino brasileiro, de uma forma geral, não exclui práticas alternativas de ensino, que podem muito bem abarcar os pontos necessários para o vestibular.

Pontos interessantes para serem discutidos durante as aulas de geografia são os conceitos de espaço geográfico, território e ambiente. São componentes importantes para o conhecimento, definição e caracterização da geografia que hoje não são tomados pela maioria dos professores ou, pelo menos, desconhecidos pelos alunos integrantes deste grupo. Saber o que os alunos pensam sobre esses conceitos e por que motivos tentando construir e lhes passar de forma simples, mas explicativa suas respectivas definições trazendo para a realidade e inserindo estes temas no contexto contemporâneo para desenvolver o pensamento e crítica dos educandos para que possam compreender melhores fatores decorrentes da atualidade.

O espaço, que é a base indispensável à vida, como sugere Ratzel, tem um poder de determinação e deveria ser tratado e discutido juntamente com o território e ambiente, deixando a entender que não basta, e não é de grande significância, de fato compreender estes separadamente sendo que o Espaço não é anterior nem posterior ao Território, diz-se então que eles co-existem, assim, afirmando que não existe Espaço sem Território e o contrário também é procedente, desta forma, levando-nos a identificar os elos existentes entre Espaço e Território. O espaço existe e é inerentemente comum a todos os seres e todas as coisas, é histórico porque não há história, nem sociedade, ou melhor, história de sociedade que se construa, desenvolva, ou protagonize fora do espaço e, portanto é de certa forma permanente, ou para sempre (mas não estático) pois se dispõe para as diferentes sociedades e diferentes oscilações destas e do seu meio conforme o passar do tempo e, conseqüentemente, sua história. Ratzel ainda descreve que a partir desse espaço natural valorizando-se a posse e o domínio do próprio espaço surgem dois outros conceitos que são o Território e o espaço necessário à vida, chamado de Espaço Vital. O território, então, é a posse da área e o espaço é quanto dela é necessário à vida dos que detêm o território. E relação entre estes conceitos são dados pelo motivo de uma apropriação de uma porção de espaço por um determinado grupo e as suas necessidades territoriais.

É importante trabalhar esses conceitos de forma que os alunos percebam a existência de Produto e Produtor, como colocado por Milton Santos, e que cabe a cada um destes, seu papel partindo como base o fato do homem ser o responsável pela modificação da natureza criando desta forma “a existência de duas naturezas”, sendo que uma seria a natureza-natural e a outra a natureza artificial, modificada pelo homem.

O ambiente que se torna um conceito que engloba ambos. Também chamado de meio, mas não juntamente (ex. meio-ambiente) pois se torna redundante pelo fato das duas palavras expressarem o mesmo sentido/ significado. O ambiente está mais para uma proposta de sintetizar, de englobar espaço e território, não restringindo mas especificando determinada marcação de um lugar utilizado para algum estudo (ou não).

Com base nisso, entra a proposta das saídas de campo como metodologia de ensino. Através dessa atividade, o educando pode vivenciar o que aprendeu, tanto em um museu quanto em uma praia, por exemplo. Podendo abordar eventos históricos da sociedade e, ao mesmo tempo, relacioná-las com questões mais tangíveis a estruturação da sociedade atual.

“Isso demanda esforço, leitura e experiência e implica incorporar referências teórico-metodológicas de tal maneira que se tornem lentes a dirigir o olhar, ferramentas invisíveis a captar sinais, recolher indícios, descrever práticas, atribuir sentido a gestos e palavras, entrelaçando fontes teóricas e materiais empíricos como quem tece uma teia de diferentes matizes.” (DUARTE, 2002.)

Nota-se, portanto, que essa abordagem de ensino requer também muito do lado do educador, que precisa ser preparado para que essa prática funcione; tanto no sentido de que os educandos possam absorver o necessário quanto, no futuro, eles mesmos aperfeiçoaram seus “olhares”, quanto uma leitura prévia de material científico. Vêm as saídas de campo, portanto, reforçar em vários campos a aprendizagem.

Inclusive, essas atividades de campo podem propiciar uma outra abordagem de ensino: a interdisciplinaridade. Mostrar que existe uma conexão entre o conhecimento de uma determinada disciplina com a outra, sem que ocorra a separação de matérias, unificando o conhecimento e dando-lhes a concepção de que são aplicáveis em nossas vidas, torna agradável e mais interessante o aprendizado para o educando. E, enquanto indivíduo, pode estimular coletividade, pois poderia auxiliar com o término da divisão entre somente exatas ou somente humanas.

A Geografia possui apoio na História, na Biologia, na Física, entre outras; a Biologia na Geografia, na Química, assim por diante. Defendemos, portanto, antes de qualquer coisa, uma mudança de paradigmas. Com um diferente propósito para o ensino, onde haja espaço amplo para idéias como o Projeto Amora; onde seja valorizado o pensar e não o memorizar; onde haja espaço para que seja possível enxergar o estudo, seja em museus, seja em laboratórios e salas de aula, seja ao ar livre. Enfim, acreditamos que o ensino, de uma forma geral, necessita de liberdade de expressão.

"A direção do processo interativo emerge do próprio grupo e não está sujeita a convenções predeterminadas, exigindo o esforço de todos no sentido de preencher os princípios de realização de uma ação comunicativa com as suas pretensões de validade, e de buscar uma comunicação simétrica, cada vez mais livre e isenta de coação. Esse esforço tem em seu cerne um princípio ético que se concretiza em um processo comunicativo no qual cada elemento do grupo é considerado um parceiro de diálogo, cujas falas são oferecidas à interpretação dos outros, ao mesmo tempo em que ele abre possibilidades para criticar as próprias interpretações." (GONÇALVES, 1999.)

Bibliografia

DUARTE, Rosália. Pesquisa qualitativa: reflexões sobre o trabalho de campo. Cadernos de Pesquisa, São Paulo nº115 2002 www.scielo.br

CASTROGIOVANNI, A.C. (org.) Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano. Porto Alegre: Mediação, 2000.

CASTRO, Cláudio E. & MARQUES, Ana Rosa – Espaço, um conceito histórico: desdobramentos da evolução do pensamento, da Escola alemã a década de 1950. www.outrostempos.uema.br – Volume nº 2 - 2005

GONÇALVES, Maria A. S. Teoria da ação comunicativa de Habermas: Possibilidades de uma ação educativa de cunho interdisciplinar na escola. Educação & Sociedade, Campinas vol. 20 nº 66 1999 www.scielo.br

STEINBERG, Marília – Espaço, território e ambiente: uma discussão teórica. Rio Branco, AC – 2007

Sites: - http://www.ufmt.br/revista/arquivo/rev16/machado.htm
- http://amora.cap.ufrgs.br/
- http://www.cinted.ufrgs.br/renote/dez2006/artigosrenote/25064.pdf

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