Nikolay Steffens Martins

De Psicologia da Educação

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Faculdade de Educação

Seminário: Psicologia da Educação I – A


Grupo: Arte e Sensibilidade


Do Professor à Arte; Do Professor ao Artesanato: Da Arte à Arte.


Por que questionar-se se um professor de artes deve, ou não, ser artista? Por que perguntar-se se arte é, ou não, artesanato? Essas são, sem dúvida, questões fundamentais para quem se dispõe a pensar a definição da arte, e, ainda mais, em sua conexão com questões relacionadas com o ensino. Contudo, a segunda questão não parece muito próxima do ambiente que envolve os questionamentos relacionados ao ensino da arte na educação básica brasileira. Porém, queremos crer que, devido a estrutura conceitual por nós articulada anteriormente,

(Nota de rodapé: Referimo-nos ao texto entregue como avaliação da disciplina de Psicologia da Educação I – A. Tentamos oferecer, nesse momento, uma especial relação do papel da educação artística no ensino básico brasileiro na reeducação da sensibilidade e na refundação do cidadão. Questionarmo-nos a respeito da relação do artesanato à arte é mais uma oportunidade para retomarmos a conexão conceitual que oferecemos; mais um momento para demonstrarmos que não consideramos Arte, somente, os grandes movimentos artísticos, somente, “a grande Arte”. Mas, tudo o que leva o ser humano a tratar com sua sensibilidade, um movimento humano, uma ação humana que não se determina pela reprodução técnica. Evidentemente, que isso nos levará a pensar em uma arte contemporânea e massificada. Procuraremos debruçarmo-nos sobre esse aspecto no decorrer desse texto; semanticamente tentaremos refletir as raízes dos termos manufatura e artesanato para demonstrarmos que este, quando não for resultado de uma produção meramente mecânica e automatizada, é, de fato, Arte.)

é possível oferecer uma resposta para essa questão. No momento em que se discute a educação com objetivo de preparar o Homem para o exercício da cidadania com conhecimentos que o tornem capaz de inserir-se na realidade crítica e criadora, emancipando-se das formas alienantes e domesticadoras que sobre ele se impõem, torna-se imprescindível assegurar o espaço da Arte na formação do Homem. A partir desta conclusão, surge a necessidade de uma proposta de educação estimulante e criativa, para além do pensamento lógico, técnico mecanizado e construção dos fundamentos teóricos e práticos de uma nova proposta educativa. E, queremos crer que o artesanato expressa uma confluência de aspectos determinantes para essa discussão a partir do momento em que permite uma abordagem expressa em três eixos: fazer artístico (produção); leitura da obra de arte (crítica e estética) e história da arte (contextualização). A produção fica evidenciada no intuito produtivo do artista – em seu querer fazer arte e não meramente um instrumento de produção mecânica; o primeiro processo não desveicula-se da crítica estética àquele produtor que pretende o fazer artístico e o processo histórico está presente no resultado da obra, afinal, é evidente que um artesão porto-alegrense, por exemplo, a expor sua arte nas feiras de artesanato não produzirá algo que esteja deslocado de seu contexto social e que ambicione expressar uma repercussão de seu contexto artístico.

Após essa retomada introdutória do horizonte que pretendíamos ter apresentado anteriormente, podemos indicar o trajeto de nosso presente texto. Uma vez que, nossa dificuldade inicial era estimular a reflexão do papel da arte no ensino básico brasileiro, esforçar-nos-emos para trabalharmos com esse tema nos dois momentos abaixo. Contudo, no período inicial estaremos preocupados, exclusivamente, em demonstrar como se colocam as fronteiras da necessidade dos professores de educação artística serem, ou não, artistas. Na seqüência, o interesse fundamental é responder o aspecto da relação entre arte e artesanato demonstrado como isso pode estar presente no ensino básico.


I. O Professor Artista e o Artista Professor.


Ensinar técnicas artísticas como, por exemplo, a pintura pontilhada, em perspectiva, ou uma técnica de interpretação teatral exige que o professor seja um artista? O mero repassar de uma técnica consiste em configurar um cenário propício para a ebulição do sentimento artístico, ou, em sentido inverso, um artista como professor cumpre essa tarefa? Se recordarmos o eixo central sobre o qual gira nosso texto anterior, poderemos afirmar que isso é indiferente desde que o senso da sensibilidade seja desperto. Em nada nos adianta termos um artista como professor se ele limitar-se a repassar técnicas que não estimulem a reflexão sensível – a reeducação da sensibilidade – de seus alunos. Contudo, queremos crer que nesse mesmo momento ele deixa de executar seu papel de artista, julgamos que nesse momento ele abandona o sentido da arte. No trabalho anterior destacamos a fronteira entre a formação de um homem que se prepara para o mercado e da formação de um novo homem cidadão. Ao destacarmos essa diferenciação apelamos para uma diferença semântica entre alguns termos da língua portuguesa, mas principalmente para uma distinção oriunda do vernáculo grego:

(Nota de rodapé: Esse desenvolvimento, apresentamos em uma nota de roda pé (a primeira nota). Mas, por um problema de formatação percebemos que as notas não foram apresentadas. Nelas, estavam contidas, também, as referências bibliográficas. Portanto, procuraremos apresentá-las na seqüência, na medida do possível. A nota referida apresenta o seguinte texto: “Chamamos a atenção para a combinação dos verbos. Quando falamos de indivíduo (e, por conseqüência, mercado) nos utilizaremos do verbo “formar”, procurando destacar um horizonte meramente mecanizado do processo educacional, na verdade, como ficara claro na seqüência, meramente didático. Em contrapartida, ao nos referirmos aos cidadãos fazemos questão de destacarmos a carga do verbo educar, querendo aqui reminecer a raiz e a oposição grega dos verbos paideo (educar – formar o homem/cidadão – similar a expressão verbal alemã que será chave no Idealismo Bildung – formar o homem) em oposição a mero didasko (ensinar).”. Para o contexto desenvolvido nessas respostas, nos interessa, principalmente, essa última distinção entre didasko e paideo.)

a distinção entre o verbo didasko e o verbo paideo. Aquele se refere ao ensinar, como temos a influência no idioma português na raiz didática. Não quer dizer que estejamos educando o jovem, mas, primordialmente, repassando uma técnica de modo didático. Em contrapartida, o este verbo exerce uma influência muito grande na cultura grega através da educação dos homens (O horizonte dessa reflexão é explícito no clássico de Werner Jager, Paidéia.). Quando o artista-professor, enquanto professor, apresenta-se como artista ele está atuando sob a égide da paidéia; está preocupado na reforma sensível de seus alunos; está preocupado em formar um homem mais completo que, ao cabo, resultará em um efeito sobre sua cidadania e não simplesmente sobre um homem que atua mecanicamente no mercado. Parece, muito mais, retomar o sentido do homem na polis; que do indivíduo no mercado.

Enquanto uma ação prática, a reprodução meramente técnica parece perder sua dimensão ética pedagógica e parece restringir-se ao trato mecânico de uma técnica, perdendo sua expressão artística.

(Nota de rodapé: seguindo a orientação da nota de rodapé 2, reproduzimos uma destas presentes no texto original. “Parece-nos que poderíamos, aqui, retomar a problemática da tradução latina do termo tehcne. Em sua expressão na forma grega ele parece congregar tanto o sentido artístico da ação prática, como uma ação pratica, mas que não envolve a iniciativa artística da criação resumindo-se a mera técnica. Quando o termo é transpassado para a tradição latina, a palavra ars parece ignorar essa dimensão.”)

Deve ficar claro que não estamos defendendo uma “estética elitista”, porém nos preocuparemos em deixar isso claro no segundo momento. Nesse momento, acreditamos que se torna mais claro, também, a defesa da exacerbação do sensível, da reforma do cidadão, e não uma defesa de uma Arte excessivamente racional.

(Nota de rodapé: Também apresentamos essa nota no texto original: “Todas as observações que diferenciarem pensar de sensível devem ter no horizonte uma apreciação lato dos termos gregos que dão origem a estética referida por Baumgarten (ver Estética. Hildescheim, Georg Olmis Verlasgsbuchandlung, 1961). Paviani preocupa-se em demonstrar a apreciação que devemos ter a respeito da dimensão sensível e do pensar dos termos. “Um bom dicionário de língua grega poderá dar as diversas formas e significações que o verbo aisthánomai (perceber com os ouvidos, percepção) contrapõe-se a noesis (ação de pensar). Aisthesis, significando ouvir, entre os gregos, passou para os latinos significando sentir. Todavia, parece que entre os gregos o verbo aisthánomai, ainda que metafóricamente, admite a acepção intelectual. Desta maneira, o termo estética, que logrou tanto sucesso, talvez devido ao seu rendimento sonoro, passa a ter uma certa elasticidade de significados. Começa indicando ouvido, depois os sentidos em geral e, finalmente, até o próprio espírito , podendo-se assim designar com o vocábulo estética tanto uma ciência das imagens ou das sensações (estéticas), como também uma filosofia da fenômeno artístico. (PAVIANI, Jayme. Estética e Filosofia da Arte. Porto Alegre: Sulina, 1973. p. 47.).”)

Então, mesmo que o professor não seja admirado como um artista tradicional, cremos que ao efetuar esse papel de artista-professor ele concretiza uma tarefa artística. Assim, a resposta que temos a oferecer para a questão de que se é necessário para um professor de educação artística ser um artista deve reobservar a formatação do questionamento: ao executar o projeto de reeducação da sensibilidade através da educação artística devemos nos referir a esse profissional como mero professor? Eis que a resposta é não. Portanto, não devemos nos perguntar se aquele que deseja ser professor de educação artística é, ou não, artista. Mas, na verdade se, ao ser professor ele termina por oferecer-se como artista, concretizando o que chamamos de professor-artista. Não devemos, pois, determinar anteriormente se o professor de educação artista é um artista, mas se ao lidar com a disciplina ele estimula, ele trabalha com a sensibilidade do aluno, se ele reeduca o aluno: nesse momento ele, de uma forma ou de outra, se confirma com um artista. Isso termina por regular um novo paradigma de entendimento da Arte e de seus profissionais que trabalham com ela no ensino básico brasileiro.

Quanto o professor-artista só reproduz a técnica ele não refere a sua parte artística, ele não se confirma como artista, mas somente como professor. Só temos uma reprodução técnica, o que parece similar em uma produção manual, em série de alguns produtos, não confundindo isso com artesanato. Entrementes, pretendemos trabalhar com isso na sessão seguinte.


II. A Arte e o Artesanato.


Em um período no qual a todos os processos foram dominados pela produção industrial, a arte parece ter sido dominada pelo mesmo fenômeno.

(Nota de rodapé: O desenvolvimento da arte na era da cultura industrial foi o foco de uma das principais obras contemporâneas escritas a quatro mãos de Adorno e Horkheimer em seu “A Dialética do Iluminismo”. (ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1997.)

O artesanato pareceria ir na contramão desse fenômeno, parece ser a expressão de uma arte não industrializada; não produzida em larga escala. Parece ser um fenômeno artístico muito mais preso a um determinado contexto sócio-político, mais próximo de uma reflexão natural da arte; distante da arte industrial que teria perdido todo espectro da crítica estética a que nos referimos anteriormente.

Indubitavelmente, o artesanato tem espaço em nossa definição de arte desenvolvida em nosso texto base. É claro que ele expressa a sensibilidade dos artistas; expressa a Arte em suas principais feiras de artesanato. O que não podemos confundir são reproduções meramente mecânicas de técnicas manuais que produzem artefatos. Isso parece desprender-se do sentido da arte que desenvolvemos, pois o sensível é desprezado em prol de uma produção manual em larga escala. Isso parece mais próximo do termo manufatura a artesanato. Eis porque poderia ocorrer um equívoco em uma primeira eliminação do artesanato como arte. Não existe essa distinção. Pois, segundo as engrenagens conceituais que desenvolvemos essa produção não se apresenta como arte, pois não se apresenta como artesanato, pois esse é um subconjunto do grande conjunto das Artes. Logo, essa produção mecanizada a deslocamos à categoria de mero instrumentos manufaturados e não arte decorrente do processo artesanal.


Conclusão


Acreditamos que essas objeções e resposta nos possibilitaram apresentar, de modo mais claro, nossa visão do papel da arte no ensino básico brasileiro e como, nesse contexto se apresenta a relação do professor-artista e como o artesanato pode ser entendido nesse horizonte. O artesanato expressa uma forma de arte, e deve ser diferenciada do que preferimos entender como produções manuais que diferenciam da reeducação da sensibilidade dos cidadãos, não necessariamente no nível escolar. Já no que tange a tarefa do professor esse, ao preocupar-se com a formação dos cidadãos, mais preocupado em apresenta-lhes uma reformulação de sua sensibilidade contrapondo-se ao mero repassar de técnicas, termina por recolocar a questão referente a necessidade do professor de educação do ensino fundamental ser um artista. Procuramos demonstrar que sua preocupação com a sensibilidade de seus alunos expressa seu caráter artístico. Ou seja, não devemos observar de forma tão simples a questão do professor-artista. Procuramos identificar todas essas estruturas no interior da tríade exposta no texto base. Identificando arte não a “grande Arte”, a uma interpretação elitista da arte, mas antes observá-la no interior da tarefa pedagógica do ensino fundamental brasileiro; e em sua tarefa social.

A Arte como um fenômeno responsável pela reeducação da sensibilidade humana. No momento em que se discute a educação com objetivo de preparar o Homem para o exercício da cidadania com conhecimentos que o tornem capaz de inserir-se na realidade crítica e criadora, emancipando-se das formas alienantes e domesticadoras que sobre ele se impõem, torna-se imprescindível assegurar o espaço da Arte na formação do Homem.

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