O Adolescente na Escola
De Psicologia da Educação
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
Faculdade De Educação-FACED
Disciplina: Psicologia da Educação I
Como falar com adolescentes
O grande foco das discussões atuais nas escolas, na mídia e em outros meios é o adolescente. Muitos tentam orientar sobre como lidar com eles, mas são poucos os que obtêm sucesso. Uma das melhores técnicas é ser direto, claro, objetivo e honesto ao falar com os adolescentes. Usar de meios que são úteis com crianças, mas que são ineficazes com eles só faz com que estes fiquem desconfiados dos adultos e se afastem, fechando-se em si mesmos e em seus grupos e repetindo aquela famosa frase: “Ninguém me entende.”
O adolescente, assim como todo o ser humano, existe para ser respeitado, compreendido e amado por seus semelhantes. Estes são os princípios nos quais devemos balizar nossas ações dirigidas aos adolescentes. A compreensão de que as concepções dele estão vinculadas a uma fase peculiar e de extrema importância para a sua constituição física, mental, emocional e espiritual, são primordiais para o cumprimento da obrigação maior que cabe a adultos e professores: educá-los.
Exercer poder sobre o adolescente não significa tolher seu comportamento natural. O aluno não é um ser passivo que nada tem a oferecer de interessante para a construção do conhecimento. Precisamos afetar o comportamento do adolescente no sentido de despertar-lhe para seus próprios potenciais de aprendizado. Desta forma ele tornar-se-á receptivo aos ensinamentos do professor, e sentirá segurança em afirmar suas opiniões.Lembremos do conceito de poder elaborado por Foucault¹. Este autor considera o poder como uma relação de afeto. O emissor do ato comunicativo tem maiores chances de afetar o receptor, se tiver bons argumentos. E a comunicação deve ser considerada uma troca entre seres potencialmente capazes de expressar poder. Precisamos ensinar os adolescentes a usarem esse poder que também possuem. E construir diálogos de protagonistas. O poder comunicativo do aluno também é importante na construção do processo de aprendizagem.
Quando o aluno é respeitado como protagonista dentro da sala de aula, tão importante no processo de aprendizado quanto o professor, ele sente seus órgãos sensoriais (sentidos) e a cognição (percepção, memória,interpretação, pensamento , crítica e criação) aptos para uso no processo de aprendizagem. Construir um novo modelo de relação com o adolescente. Principalmente no sentido de apresentar alternativas que permitam ao adolescente desenvolver sua capacidade criativa. Sua capacidade de protagonizar a cena escolar. De ser também sujeito, e não somente um espectador que vai a aula ouvir o professor e sujeitar-se as suas representações de sabedoria.
Expressamos simpatia ao conceito apresentado por Rudá Riccdi, no qual defende a construção do protagonismo do adolescente na escola. Os laboratórios, os espaços esportivos, os espaços de iniciação políticas e as oficinas de Artes, não só garantem uma boa experiência escolar, como são excelentes ferramentas de exploração das potencialidades do adolescente. Ricci cita Antônio Carlos Gomes da Costa,outro estudioso do tema, para expressar sua opinião: “Ou seja, o protagonismo pressupõe, para o autor, a criação de espaços e de mecanismos de escuta e participação. Para isso, é preciso conceber os adolescentes como fontes e não simplesmente como receptores ou porta-vozes daquilo que os adultos dizem ou fazem com relação aos adolescentes.”
Porém, nos alertemos: somente as estruturas, não vão garantir o “suor” ao adolescente. A simples existência de espaços físicos não são garantias de que o protagonismo adolescente estará sendo respeitado. A principal regra para a construção de protagonismo dentro da escola passa pelo amadurecimento conjunto da sua comunidade. Professores que tenham acúmulo teórico do processo desencadeado com a chegada da criança à adolescência, é fundamental para implantarmos o novo modelo de educação . A identificação da família de que a moratória é um período de sensibilidade do seu ente, também é necessária para obter êxito nessa empreitada. Para tanto, também cabe a academia reconhecer este modelo de escola. Uma escola que compreenda esta fase da vida humana, que seja capaz de oferecer um espaço de atuação destacada ao estudante, otimizando sua enorme capacidade criativa, e garantindo sua permanência na comunidade escolar.
Depois de resolvermos transformar as estruturas e a proposta pedagógica da educação, devemos colocar em prática os novos ideais. E como fazer isso? Através do diálogo.Antigamente professores agiam despoticamente com seus alunos. Nesse modelo antigo de educar, bastava o professor olhar para o aluno para que este se calasse diante da reprimenda. Mas esse modelo retrógrado de adestramento não “cola” mais. Tal modelo subtrai o que há de mais importante no ser humano: a subjetividade. Sem dúvida é o meio mais cômodo para o adulto “educar” o adolescente. Mas o interesse desse método é unilateral: defende a visão do adulto. Subestimar a capacidade de compreensão do adolescente faz com que eles assumam uma postura de confrontação e afronta, utilizando-se principalmente do cinismo para demonstrarem capacidade de entendimento.
Negar o uso da liberdade aos adolescentes abre portas para que estes transgridam as regras em busca da realização de seus desejos. Uma adolescência “normal” pressupõe um período de rebeldia e contestação, principalmente causado pela desidealização não só dos pais, mas do mundo em geral. O adolescente passa por muitas mudanças neste período de sua vida, gerando muitas dúvidas e incertezas e o comportamento dos adultos de menosprezar o que se passa com o jovem só causa mais reações de revolta. Á medida em que são negadas ou ignoradas as necessidades e práticas dos adolescentes, cresce a indignação destes.
Como agir então? Vestimos uma “roupagem” de adolescente, para com eles nos parecer-mos esteticamente. E desse modo vamos falar com eles de peito aberto, como se fôssemos seus pares? Não! Não podemos ir para o outro extremo.
A fala de um adulto, quando dirigida a um adolescente, tem de estar revestida de tolerância. É preciso exercer um diálogo franco, entre sujeitos iguais, ambos racionais, cujas únicas diferenças são os níveis de maturidade e responsabilidade. Não é possível, para o professor principalmente, escolher o que irá ensinar e até onde abordará um assunto; é preciso ensinar o que é necessário. Mesmo porque, com o fácil acesso a informações, o adolescente pode não saber em que acreditar, ou pior, pode acreditar em tudo o que vê e lê. É melhor, por conseqüência, que o assunto em questão seja exposto da maneira mais clara e franca possível. Querer que o aluno entenda uma explicação, ou responda uma pergunta de forma padronizada é um erro. A maneira do aluno responder pode causar uma falsa impressão. Como adultos, temos de saber que adolescentes expressa seus sentimento e idéias de um jeito estranho ao nosso. Dar um soco no amigo, por exemplo, significa dizer “eu gosto de ti”. Portanto, aceitar as manifestações estranhas do adolescente também é importante nessa relação.
O caminho para a vida adulta passa por essa fase e o adolescente só se tornará um adulto responsável se for depositada nele autonomia suficiente para que erre e acerte por si mesmo, aproveitando que sua responsabilidade ainda não é completa e que ele ainda pode contar com a ajuda dos pais e pessoas próximas caso algo não dê certo. Impedir que o adolescente tenha essa autonomia o impede de crescer e assumir suas próprias decisões e responsabilidades.
A educação de um aluno adolescente não ocorre se o professor não amá-lo verdadeiramente. Parece bizarro isso? É a falta de espiritualidade que nos leva a pensar assim. Escolhemos ser educadores no Brasil não causa do salário. Queremos realmente transformas este país, e acreditamos que podemos romper com a “mesmice” institucionalizada. É através de nossas ações que conseguiremos transformar o país, mesmo com todas as barreiras que existem para nos impedir. O resultado de nossas ações se concretiza no âmbito da vida de nossos alunos. Amar um aluno significa querer estimulá-lo a acreditar em si. Acreditar que tem poder de transformar a realidade através de sua voz. E o professor precisa encontrar este potencial no aluno, indiferente da classe social que pertença, ou do desenvolvimento intelectual que tenha atingido.
Professores que se inflamam de raiva com o comportamento descontrolado dos adolescentes, ou ficam loucos, ou entram em choque direto com seus alunos. Daí seu poder de afetar a qualidade de aprendizado do aluno cai a “zero”. Gente raivosa age sem pensar, quanto menos sentir. Acaba por vestir-se com o velho “manto” do despotismo. E daí seu descrédito potencializa-se, na medida em que utilize desse poder para afetar o comportamento dos alunos. O poder de afeto fundamentasse na compreensão, no querer o bem do aluno acima de tudo. Daí qualquer “bomba” comportamental que o aluno lance em sala de aula, tolera-se mais facilmente. A dignidade dá ao homem uma força insubstituível, que dinheiro, armas ou títulos não podem proporcionar.
A estética adolescente como potencia comunicativa.
O professor precisa se atentar para uma verdade sobre os adolescentes. Desconhecida, pode causar sofrimentos desnecessários: a estética do adolescente é uma “superfície” que determina um modo comportamental rebelde. E esta estética não se limita as roupas e acessórios corporais que eles usam. O jeito de falar, os gestos corporais, a maneira de caminhar, os ideais defendidos, o que pensam dos pais e dos adultos, entre outros aspectos, constituem-na.
O adolescente gosta de aparecer. É próprio da fase. Na sociedade pós-moderna os adultos também são estimulados a agir como adolescentes. Com isso os adolescentes perdem referenciais para guiarem seus comportamentos. A inserção social é conquistada pelo adolescente através desta “veste” estética. Sente-se assim, sobressalente entre seus pares e os adultos.
Precisamos, como adultos, compreender os adolescentes. Entender que esta “roupagem” funciona como um “escudo” protetor, que substitui a segurança que os adultos deveriam proporcionar-lhe. Uma “indumentária” dotada de poderes mágicos. No entanto, não podemos nos deixar seduzir por essa “indumentária”. Como sabemos que se trata de algo forjado, devemos desestimular essa ilusão pelo descrédito. Em lugar de valorizar a aparência, mostramos a eles nossa vontade de ajudá-los. E nossa condescendência para sermos ajudados por eles. Seres humanos estão em desenvolvimento constante. Os títulos que conquistamos na materialidade, não nos conferem virtudes, que só através da convivência dialógica podemos desenvolver.
Ao conversar-mos com um adolescente, temos duas escolhas: ou conversamos com o ser humano que está por detrás da “aparência”, ou somos seduzidos. No segundo caso seremos absorvidos para o mundo de ilusões construídas por ele. Neste “universo” ilusório, seremos subjugados a meros coadjuvantes, sem nenhum poder de afeto através da comunicação.
Nota:
1- o conceito de poder em Foucault refere-se a relação de afeto que gera transformações ou conflitos entre as partes envolvidas. O executor do poder pode afetar o receptor, caso este receba de bom grado a ação poderosa. Para tal o executor deve possuir o “dom” da comunicação para convencer o outro. Quando o discurso não convence o receptor, o executor pode sofrer a contrapartida, e passar de emissor de uma força que afeta a receptor afetado. A inteligência manda que as pessoas recebam e dêem informações num diálogo, exercendo tanto o papel de emissores como de receptores. Assim constroem um diálogo de protagonistas, donde todos os pontos de vista são respeitados. No entanto, o orgulho e o egoísmo levam alguns a impor o poder através da força bruta, a fim de afetarem a vida dos receptores, mesmo que isto vá contra a vontade destes.
Bibliografia:
DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo, Brasiliense.1998. Pgs. 101-130
VITELLI, Celso. Estação Adolescência: identidades na estética do consumo. Porto Alegre. Dissertação de Mestrado. UFRGS/ FACED.2002.
SOUZA, Ronald. Nossos adolescentes. 2 ed. Porto Alegre. EDUFRGS.1989
RICCI, Rudá. O protagonismo juvenil e a crise das instituições modernas. Artigo.
Sites:
www.tribosparceiros.org.br/modulos/base.php?modulo=rolando&pagina=noticias www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=msc0000000082005000200035&script=sci_arttext
Versão modificada do trabalho:
Veja http://www6.ufrgs.br/psicoeduc/wiki/index.php?title=Como_Falar_com_Adolescentes%3F

