O INTERESSE DO ESTUDANTE

De Psicologia da Educação

CONTRIBUIÇÕES A PARTIR DA PSICANÁLISE, PSICOLOGIA E PEDAGOGIA


INTRODUÇÃO


O presente trabalho trata da relação professor/aluno e mais especificamente da questão do interesse. O interesse aqui será tratado tanto como uma construção, tal como trabalhar pedagogicamente a fim despertar no educando a vontade de saber, quanto como a forma pela qual o interesse já estabelecido pelo estudante pode orientar o desempenho do professor e da aula.

Em qualquer uma das formas o papel do professor é determinante. Por esse motivo, pretendemos abordar o tema em questão de pontos de vista diferentes, mas não necessariamente excludentes. Trataremos das abordagens de Freud, Paulo Freire e Piaget, com bases em pesquisa e experiências apreendidas da realidade com o objetivo de expor algumas considerações que possam contribuir para nosso desenvolvimento enquanto futuros professores, isto é, agentes da ação e da transformação.


FREUD E A EDUCAÇÃO – Mariana Kupfer


Muitas são as teorias que têm por base a linha de pensamento freudiano, nos mais variados campos de investigação da psicologia, e a educação não fica de fora, como demonstra o texto de Mariana Kupfer - Freud e a Educação.


A autora parte do clássico da psicanálise para identificar os comportamentos típicos dentro de sala de aula, e da criança em toda a sua fase de aprendizado.


Duas questões-chave são apresentadas: a primeira sendo a da curiosidade sistemática como um comportamento característico da primeira-fase do desenvolvimento cognitivo da criança; a segunda como sendo a da transferência na relação professor-aluno.


Segundo a autora, o porquê fundamental seria causado pelo processo de auto-descobrimento sexual incompleto. O determinismo sexual explicaria o porquê de tantos porquês. Para Kupfer, a criança em dado momento percebe-se. E mais: percebe-se diferente das outras crianças. Deseja entender a razão, o sentido da sexualidade que acaba de sentir pelas primeiras vezes.


No entanto, nossa educação familiar tradicional aborda a problema de forma simbólica, criando fábulas e dando explicações simplórias a esta dúvida primeira da existência humana, segundo Freud e Kupfer. Consequentemente, uma vez que o questionamento não é desvendado, pois de tempos em tempos as explicações devem ser refeitas para saciar a inteligência que se desenvolve, este porquê fundamental, não respondido, acaba por ser canalizado para todos os demais campos de ação cognitiva da criança, gerando uma curiosidade insaciável, até a chegada da puberdade.


A partir deste momento, onde caem as explicações simbólicas do mundo e os adolescentes começam a enxergar o mundo real, surge a questão da transferência, também trazida no ensaio da autora. Trata-se de um reflexo do Complexo de Édipo. O aluno, por uma relação de afetividade, transfere para o professor aquele encantamento que os pais, desconstruídos, já não possuem mais. O contrário também é verdadeiro, sendo que o interesse do aluno em sala de aula pode ser movido também por relações afetivas. No entanto, além de “diagnosticar” estes possíveis fenômenos comportamentais, o professor pode e deve lançar mão de aparatos pedagógicos novos, afim de trazer os alunos para dentro das propostas por ele trazidas para a sala de aula.


A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO - Paulo Freire


Trata-se de um livro que têm por objetivo demonstrar as bases de uma pedagogia nova, libertária, a qual ressalta o autor, deve ser colocada em prática com o povo e não somente para o povo, mudando, humanizando não somente o povo, mas aqueles que desumanizam. O homem necessita descobrir a si mesmo, precisa humanizar-se. Isto se faz após a constatação de sua condição de ser inconcluso em um movimento histórico e que necessita humanizar-se.


Humanização e desumanização são duas possibilidades históricas, mas a apenas a primeira consiste em uma vocação dos homens. A humanização é nada mais do que a possibilidade de tomar consciência de sua própria existência enquanto homem, e como ser consciente, atuar na transformação da realidade. E dentro de sala de aula, é participar de um processo conjunto de aprendizagem. É o professor como elemento de ligação dos alunos e os temas mais atuais, que demandam discussão e conscientização.


A concepção bancária da educação


“Quanto mais analisamos as relações educador-educandos, na escola, em qualquer de seus níveis (ou fora dela), parece que mais podemos nos convencer de que estas relações apresentam um caráter especial e marcante – o de serem relações essencialmente narrativas e dissertadoras. (...) Por isso, uma das características desta educação dissertadora é a sonoridade da palavra e não a sua força transformadora”. Quatro vezes quatro: dezesseis. A capital do Pará: Belém. E etc, etc, etc.


A educação convencional é marcada por um processo passivo de depósito do conhecimento por parte do professor sobre o aluno. Ao invés de comunicar-se com os alunos, o professor faz depósitos, daí a expressão bancária. Os alunos limitam-se a arquivar conhecimento. Na verdade, o que é arquivado é a possibilidade de humanização, de ser mais como homem. Assim, a ignorância torna-se um atributo: “O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processos de busca”. Desta forma:


  • O educador e o que educa, os educandos são educados;
  • O educador pensa, os educandos são pensados;
  • O educador é o sujeito do processo, os educandos são o objeto.


A educação bancária se dá na dicotomia educador-educando, descarta o companheirismo. Assim, os educadores presos a este modelo não percebem que “entre permanecer porque desaparece, numa espécie de morrer para viver, e desaparecer pela e na imposição de sua presença, o educador bancário escolhe a segunda hipótese. Não pode entender que permanecer é buscar ser, com os outros. É conviver, simpatizar. Nunca sobrepor-se, nem sequer justapor-se aos educandos (...)”.


Dialogicidade


A palavra é a essência da práxis libertadora, problematizadora. Palavra e ação se confundem nesta concepção. A existência humana não pode ser muda, tampouco pode nutrir-se de falsas palavras. Existir é pronunciar o mundo. O mundo pronunciado volta aos sujeitos que o pronunciaram, exigindo um novo pronunciar, de maneira que a ação sem reflexão se converte em mero ativismo, e a palavra sem ação, em mero ”bla-bla-bla”.


O diálogo é o caminho pelo qual o homem ganha significação enquanto homem. Não é diálogo a pronuncia que pretende se impor. O diálogo tem como base o amor. É um ato de valentia e não pode ser piegas. Como ato de liberdade, deve acarretar em novas liberdades.


O pensar que norteia este diálogo do educador e do político não existe sem uma realidade referente, bem como o pensar do povo. Logo, para que haja êxito, é necessário que estes conheçam as estruturas e a realidade deste povo. Assim é inaugurada a práxis da libertação, ou seja, a decodificação de um universo temático, onde são definidos os temas geradores.


Enquanto na prática bancária da educação, o educador deposita no educando o conteúdo programático da educação; na prática problematizadora, dialógica por excelência, este conteúdo, se organiza e se constitui na visão do mundo dos educandos, na qual se encontram seus temas geradores, atrelados as situações-limite que devem ser superadas. Por isso, o conteúdo sempre se renova.


Investigação dos temas geradores


A investigação do tema gerador, que se encontra contido no universo temático mínimo, se realizada por meio de uma metodologia conscientizadora, além de possibilitar sua apreensão, possibilita as massas uma forma crítica de pensarem seu mundo. Em todas as etapas da descodificação estarão os homens colocando sua visão fatalista das situações-limite em que vivem sua percepção estática da realidade. E nesta forma de pensar o mundo, se encontram envolvidos seus temas geradores. Mas, é bem verdade que um mesmo fato pode provocar um tema gerador em um contexto, que noutro não é relevante.


É preciso nos conscientizar de que as aspirações, os motivos, as finalidades que se encontram implícitas nos temas geradores, são atributos humanos. Por isto, não estão aí, num certo espaço, como coisas estáticas, mas estão sendo. São históricos assim como os homens. Não podem ser captados fora deles. Captá-los e entendê-los é entender os homens que encarnam uma realidade. Como porque não é possível entendê-los fora dos homens, é preciso que estes também os entendam. Desse modo, a investigação temática se faz, assim, um esforço comum de consciência da realidade e de autoconsciência, que a inscreve como ponto de partida do processo educativo, ou da ação cultural do caráter libertador.


Quando da investigação dos temas, ocorrem grandes descobertas: “Ao terem a percepção de como antes percebiam, percebem diferentemente a realidade, e ampliando o horizonte de seu perceber, mais facilmente vão surpreendendo, na sua visão de fundo, as relações dialéticas entre uma e outra dimensão da realidade. A descodificação abarca a situação anterior, efetuando um confronto entre o que pensavam da realidade com o que estão pensando agora”.


Desta forma, os temas que foram captados dentro de uma totalidade, jamais serão tratados esquematicamente, pois desse modo, perderiam sua riqueza, esvaziando-se de sua força. É vital a interdisciplinaridade. “O tema do desenvolvimento, por exemplo, ainda que situado no domínio da economia, não lhe é exclusivo. Receberia assim, o enfoque da sociologia, da antropologia, como da psicologia social, interessadas na questão do câmbio cultural, na mudança de atitudes, nos valores, que interessam, igualmente, a uma filosofia do desenvolvimento”.


Por fim, a importância da introdução dos temas-dobradiça (expressão curiosa sugerida por Freire, a qual designa temáticas que servem de base ou efetuam a conexão entre os temas sugeridos, ou geradores): de necessidade comprovada, corresponde inclusive à dialogicidade da educação. Se a educação é dialógica, isto significa o direito que também têm os educadores-educandos de participar dela, incluindo os temas não sugeridos, ou seja a importâncias do projeto de ensino.


Em suma, a investigação dos temas geradores é uma grande ferramenta do professor para captar o interesse dos alunos através de um projeto de aprendizagem, que abarque os interesses de cada um, e as novas demandas de ensino da sociedade, como as questões da cidadania, da educação ambiental, violência urbana etc.


ALGUMAS EXPERIÊNCIAS


Como cativar o interesse dos alunos? A tal pergunta respondemos sem delongas: escutando o que dizem, considerando o que pensam, não os tratando como uma tabula rasa onde devemos colocar informação e conhecimento, e sim, considerando-os como pessoas pensantes e já possuidoras de seu próprio conhecimento de vida e conhecimentos acadêmicos prévios.


Falaremos agora de algumas iniciativas que põem o aluno em contato com sua realidade e seu ambiente e os fazem mais participativos e conscientes.


Segundo Léa Fagundes, professora gaúcha pioneira no uso da informática em sala de aula, quase 60 anos de magistério, a informática pode ser a mediadora e construtora de novos espaços de aprendizagem. Léa almeja uma educação mais próxima do dia a dia dos alunos e de como torná-los agentes de mudança e não somente receptores passivos. Trabalha há muitos anos com inclusão digital, aprendizagem através das novas tecnologias. É coordenadora dos Projetos Amora e EducaDi/CNPq em Porto Alegre (este último, com dimensão nacional). Através destes projetos, busca respostas para questões como “Escolas públicas que atendem às populações carentes e discriminadas de uma grande cidade podem encontrar novos e poderosos recursos para melhorar seu atendimento aos alunos com o uso das tecnologias digitais? Como reestruturar seus espaços, a distribuição dos tempos, a grade curricular para facilitar a prática de novas concepções de ensino?”


Segundo Léa, “o professor deve tornar-se um construtor de inovações. Para isto, as tecnologias digitais estão operando nos processos de aprendizagem e na reinvenção da escola.” O ideal de Léa é aplicar a proposta dos Projetos de Aprendizagem, com a utilização da tecnologia informática.


“O salto necessário se constitui em passar de uma visão empirista de treino e prática – controle e manipulação das mudanças de comportamento do aprendiz –, que tem orientado a prática pedagógica, para uma visão construtivista de solução de problemas – favorecimento da interatividade, da autonomia em formular questões, em buscar informações contextualizadas, da comprovação experimental e da análise crítica”.


Aqui em Porto Alegre, ocorrem projetos de construção digital do processo de aprendizagem. A apostila “Aprendizes do futuro: as inovações começaram” presta contas a respeito do projeto EducaDi/CNPq realizado em Porto Alegre. A seguir um trecho que explicita o que é aprendizagem por projetos e como o aprendiz se relaciona com o método:


“Quando falamos em ‘aprendizagem por projetos’ estamos necessariamente nos referindo à formulação de questões pelo autor do projeto, pelo sujeito que vai construir conhecimento. Partimos do princípio de que o aluno nunca é uma tábula rasa, isto é, partimos do princípio de que ele já pensava antes. E é a partir de seu conhecimento prévio, que o aprendiz vai se movimentar, interagir com o desconhecido, ou com novas situações, para se apropriar do conhecimento específico – seja nas ciências, nas artes, na cultura tradicional ou na cultura em transformação. Um projeto para aprender vai ser gerado pelos conflitos, pelas perturbações nesse sistema de significações, que constituem o conhecimento particular do aprendiz. Como poderemos ter acesso a esses sistemas? O próprio aluno não tem consciência dele! Por isso, a escolha das variáveis que vão ser testadas na busca de solução de qualquer problema, precisa ser sustentada por um levantamento de questões feitas pelo próprio estudante. Num projeto de aprendizagem, de quem são as dúvidas que vão gerar o projeto? Quem está interessado em buscar respostas? Deve ser o próprio estudante, enquanto está em atividade num determinado contexto, em seu ambiente de vida, ou numa situação enriquecida por desafios.”


O paradigma de trabalho de Léa Fagundes é o construtivista, que significa que “o homem não nasce inteligente, mas também não é passivo sob a influência do meio, isto é, ele responde aos estímulos externos agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais elaborada.” . Seu método de trabalho é por Projetos de Aprendizagem, como já mencionado acima. A seguir, um dos projetos desenvolvidos em uma das escolas participantes do EducaDi/CNPq:


PROJETO TAPETE


“Imagine uma sala de aula bem comum. Como ela é? O que há nela? Bem, uma sala de aula, na maioria das escolas que conhecemos, é um espaço físico que possui pelo menos um quadro-negro (que às vezes é verde), muitas carteiras e cadeiras! Ainda poderíamos acrescentar uma prateleira e um armário para colocarmos livros e outros materiais! Mas... será que não está faltando nada? Imaginem uma TV com vídeo, computador ligado à Internet, quadroverde, quadro-mural, carteiras escolares e cadeiras... Porém tudo desorganizado! Pois, foi assim que as crianças deste projeto encontraram sua sala de aula, no primeiro dia de aula!” Além disto, sua professora indagou: “Onde vamos colocar esses móveis? A reação foi imediata: ‘Como assim? A gente pode escolher?!?’ As crianças começaram a imaginar a localização das carteiras, cadeiras, armário, computador e TV (...). Vamos contar como foi a escolha do “cantinho da leitura”. O que é esse cantinho? É o nome dado pelos alunos para o lugar onde ficava o armário com os livros, pastas de trabalho, disquetes e outros materiais deles. E assim foi, até que tomaram uma decisão: o cantinho da leitura deveria ter, além do armário, um tapete, cheio de almofadas para eles poderem se esparramar, como diziam, nos momentos de leitura e descanso!”


“Entusiasmados, foram ver em qual local da sala caberia um tapete. Ao estipularem o local, tiveram também de usar noções de matemática, como perímetro do tapete, medida dos lados e superfície do tapete. Para trabalhar com tais conceitos, utilizaram um software que propicia a elaboração de plantas e perspectivas virtuais. Descobriram que, para assimilar a noção de superfície, deveriam aprender como se calcula e o que é a área de uma superfície.” Assim, trabalharam com noções de matemática, além de usar a tecnologia da informática, entendendo que a informática pode ser uma útil ferramenta de aprendizagem. Este processo todo é participativo e inovador, construtor do conhecimento.


PROJETO AMORA


O projeto Amora foi desenvolvido pela parceria do LEC (laboratório de estudos cognitivos da UFRGS) com o Colégio de Aplicação da UFRGS. O Projeto são atividades desenvolvidas a partir de interrogações dos próprios alunos, em função de situações desafiadoras para si mesmos. Os alunos do Projeto Amora, organizados em pequenos grupos em função de assuntos ou temáticas comuns, desenvolvem seus projetos em parceria com outros colegas e um professor orientador. Os projetos são web sites que respondem a um tema escolhido pelos alunos. Por exemplo: um tema de interesse de vários grupos foi a adolescência. Desta forma, colhemos como resultado vários sites, cada um com seu jeito, sobre o tema adolescência. È um projeto que foi posto em prática como campo de teste para o surgimentos do EducaDi.


ESCOLA INSPIRADA NA VIDA DO BAIRRO


Outro trabalho no sentido de lidar com fatos reais e trazer a realidade do aluno para dentro da sala de aula foi este realizado em um colégio em Angra dos Reis , que adotou a sistemática dos temas geradores para planejar como seriam as aulas ao longo do ano. No início do ano, as professoras saem pela redondeza, questionando qual são os interesses, problemas, necessidades do momento. Com esta informação em mãos, planejam as aulas do ano letivo: “A cada ano, o planejamento das aulas acompanha as mudanças no dia-a-dia da comunidade. Em 1996, o tema gerador foi o posto de saúde, na época pequeno demais para atender ao bairro. ‘Direta ou indiretamente, a escola ajudou os moradores do bairro a batalhar pelo que estavam precisando’, comenta a diretora, Catarina Conceição de Jesus. Os professores debateram com os alunos a importância da higiene e dos cuidados com o lixo. No final do ano, já funcionava um posto de saúde maior, com plantão dia e noite.”


Provas, não existem mais. Agora, a avaliação é feita através da participação do aluno durante o semestre. E de quebra, os alunos se interessam mais pelas aulas. Chama à atenção a aula ministrada por uma das professoras, usando como tema motivador a música Asa Branca, pertencente ao folclore nordestino. Com a música, abordou as disciplinas Português, Ciências, Estudos Sociais e matemática. Por exemplo: “Matemática — De um trecho de Asa Branca, como "Hoje ando muitas léguas", Shirley deu novos rumos para a aula. Pediu que as crianças verificassem o significado da palavra "légua" no dicionário. Descobriram que se trata de uma unidade de medida equivalente a 6600 metros. Em seguida, a professora mostrou como se faz a conversão de medidas de metros para centímetros.”


São estas iniciativas, que vêm mudando o dia-a-dia da escola, tornando as aulas mais atraentes e preparando com mais eficácia os alunos para a vida, e não estereotipando papéis através de fórmulas prontas.


O PROFESSOR SIGNIFICATIVO: ADOLESCÊNCIA E MORALIDADE, INTERESSE E AUTONOMIA


O conjunto de valores e normas que regulam o comportamento dos indivíduos em suas interações é sempre uma construção social. A moral é produto da sociedade em sua historicamente. O universo simbólico que é compartilhado pelas pessoas oferece os signos e significados que conformam a moral. Através de um processo dialético de objetivação e subjetivação a moral deve ser entendida como algo ao mesmo tempo exterior e interior ao indivíduo: está na sociedade, mas não paira abstratamente sobre as pessoas coagindo-as. Ela está no indivíduo, mas não se reduz a individualidades. Os valores e normas que orientam o intercâmbio social do sujeito são construídos como subjetividade que se objetiva em relações reais, e realidade objetivas que são interiorizadas pelo indivíduo.


Desta forma, é por meio do desenvolvimento cognitivo do ser humano que se pode compreender os avanços no processo de constituição da moral. No entanto, não podemos afirmar que exista uma única moral (como costumes e preceitos universais), evidentemente. No entanto podemos, podemos verificar que cada sociedade possui conjuntos de valores e idéias que são partilhados por amplos segmentos da sociedade que podem se tornar hegemônicos por meio de representações sociais que se cristalizam no imaginário social e manipulações ideológicas.


Apesar da importância da família, da vizinhança, entre outros espaços de sociabilidade cotidianos, é no âmbito escolar que focamos nossa atenção em termos de constituição moral. Primeiramente, porque se trata de nossa futura profissão, e ela deve ser objeto de reflexo permanente; em segundo lugar, pois acreditarmos que a relação professor-estudante tem grande potencial para a transformação pessoal e social (e, portanto, moral), tanto do educando quanto do educado.


Neste sentido, faz-se necessário versar sobre o papel do professor, como sujeito significante para o estudante. Para que se desperte interesse por parte do estudante (ou se permita que seus interesses façam parte da relação aluno-professor), entendemos que é imprescindível haver relações de afeto e a busca pela constituição de uma moral que tenha por base outros valores e normas de conduta que se oponham àqueles do individualismo, consumismo, mercantilização. Partindo do pressuposto que ninguém nasce “bom” ou “mau”, mas que antes, os valores de uma pessoa são uma construção, compreendemos que as questões da moralidade e da autonomia deve ser vinculadas, perpassada pelo papel do professor como sujeito ativo, ao debate acerca da relação entre emoções, motivação afetiva e interesse.


Segundo Piaget, o respeito é um estado afetivo que, não apenas encerra valores do próprio indivíduo que respeita, mas antes é um sentimento (que se dá por meio de uma relação) indivíduo para indivíduo, e é por isso, fundamental para a aquisição moral. Em uma relação de respeito, a tônica deve ser o caráter mútuo do sentimento, pois apenas assim é possível que dois sujeitos se considerem em termos de igualdade, contribuindo, assim, para relações de cooperação (tanto no sentido moral de solidariedade, quanto no sentido de colaboração entre sujeitos inter-dependentes). Relações de afeto e respeito mútuo favorecem a construção de noções de solidariedade e justiça, em contraposição a relações tradicionais nas quais o professor se coloca em um patamar superior e distanciado do estudante. O respeito mútuo se constitui em uma relação na qual se configuram normas interiores ao seu próprio funcionamento, não dependendo de estratégias pré-estabelecidas e autoritárias que desrespeitam a individualidade do estudante e a especificidade da situação de sala de aula. Esse tipo de respeito envolve tanto para professor como para estudante, uma mistura de afeto com medo – mas esse segundo sentimento referente, não à temor por punição, mas a um temor de se decair aos olhos do outro caso se desrespeite regras de cooperação e reciprocidade.


Para Andréa Gallego (2006) , o professor que faz a diferença, proporcionando uma educação moral e de construção da autonomia, é aquele que cria um ambiente sócio-moral marcado pela cooperação, ao passo que enxerga o adolescente como sujeito, potente, criativo, não como objeto a ser instruído de forma bancária. É aquele respeitado e admirado pelos estudantes. Dessa maneira, os sentimentos de amor e temor presentes no sentimento/relação de respeito mútuo em um espaço de cooperação são vinculados dialeticamente como contraditórios e complementares pela admiração. Essa admiração deve ser entendida tanto como produto, quanto produtora de relações que potencializem a construção de uma moral da autonomia.


Entendendo, portanto, a centralidade da admiração para a construção de uma moral da autonomia, Gallego, em sua pesquisa com estudantes do terceiro ano do ensino médio, elenca algumas características observadas nas falas dos professores tidos como significantes e admirados e apontadas pelos estudantes como tais: a) princípios gerais para todos (padrão de relacionamento para com todos, mas falta de reflexividade sobre a própria prática); b) trocas cooperativas (sem padrão pré-estabelecido, mas ensinando de acordo com a relação dentro de um ambiente de cooperação e reflexividade sobre a prática); c) moral do bem (ética em primeiro lugar com regras fixas de relacionamento que, embora, convirjam ao respeito mútuo, não proporcionam reflexão sobre a prática); d) relação de dependência (respeito unilateral, no qual o temor é por perder o afeto, e é desinteressante para o desenvolvimento da moral da autonomia); e) reflexão sobre a prática (busca competência como professora, bem como respeito mútuo, ambiente de cooperação).


Em contraposição, se verificou o que se oporiam à concepção de professor ideal: a) desinteresse no aprendizado do aluno (crença que é responsabilidade do professor dar aula e do aluno aprender, sem compromisso pessoal, sendo no máximo “bonzinho”, “dando nota”); b) não gostar de aproximação pessoal (busca de eficácia sem interesse nas particularidades e relações mais estreitas); c) sem postura ética (não ocupação do lugar devido de autoridade, falando de problemas pessoais, intervindo em conversas e assuntos privados).


Embora existam contradições, ressaltamos acima de tudo que tais questões são de grande relevância para a reflexão sobre a atividade do professor.


Por fim, à luz da teoria e partir desse quadro da pesquisa empírica, Gallego, elabora as características necessárias ao professor ideal, retirando as peculiaridades que influem sobre relações de dependência com conseqüente enfraquecimento da autonomia, práticas docentes que não passam por reflexão e relações de respeito unilateral. A autora, sintetiza tais caracterizações em três grupos:


1.Estabelecer uma relação de amizade, troca afetiva e respeito mútuo com o aluno, onde há espaço para expressão espontânea e livre, em um ambiente de cooperação, em que seja possível discutir questões teóricas e particulares.

2.Ter domínio do conteúdo que vai trabalhar.

3.Saber auxiliar o aluno em sua construção de conhecimentos, sendo eficiente em sua tarefa.


Podemos perceber, de acordo com a teoria piagetiana e a pesquisa em questão, que existe uma relação dinâmica entre admiração, interesse, moral e autonomia. A educação moral que se oriente para a construção da autonomia e valores de justiça, solidariedade e cooperação, baseada no respeito mútuo, potencializa relações que propiciem o despertar do interesse do estudante pelo conteúdo que se desenvolve na relação ensino/aprendizagem, mediante a admiração que ele nutre pelo professor, como sujeito significante.

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