Psicologia do Esporte e a Criança

De Psicologia da Educação

Tabela de conteúdo

A criança escolhe seu esporte?

Será que se pode dizer que a criança escolhe seu próprio esporte? Para que isso fosse verdadeiro, deveria ser oportunizada a ela a informação e a pratica de diferentes esportes. Depois dessa vivência ela poderia optar pela que viesse mais ao encontro suas aptidões e necessidades psicofísicas. (Becker Jr. , 1992). Será que isso ocorre na realidade?

Na introdução da criança no esporte, o pai parece ser a figura mais importante na família. Os componentes desta, de outro lado parecem ser os modelos para a criança participar do esporte, do que seus colegas e a própria escola. O modo como os pais introduzem a criança na atividade esportiva é que não é citado pelos autores. Green e Chalip (1998) referem que alguns impõe fortemente a participação de sua criança nos programas. Segundo Becker Jr. alguns pais matriculam seu filho numa escola esportiva sem consultá-lo, apenas informando o horário em que devera participar da mesma. O critério para a escolha da atividade, muitas vezes, é que naquele horário que os pais tem afazeres profissionais ou sociais, que os impediriam de ficar cuidando da criança. Assim, em vários casos, as escolinhas passam a ser depósitos de crianças.

Como enfrenta a criança uma situação semelhante? Será que ela tem tamanho, habilidade e motivação para o esporte que está sendo obrigada a praticar? Muitas vezes, essa situação de conflito pode ser a causa de transtornos que são enfrentados pelo professor de educação física que atua na escolinha (nem sempre pessoas formadas são responsáveis por elas) e, é claro, pela própria criança. A diferença em tamanho e a falta de habilidade poderão determinar estímulos negativos (rejeições) por parte de seus colegas, gerando redução de auto-estima e de motivação para persistir na atividade.

Segundo Pierce & Stratton 63% de crianças e adolescentes desportistas consideram jogar mal ou cometer erros, como as piores situações de estresse no esporte.Terá a criança estrutura de ego para agüentar tal pressão? Há pais que sempre aspiraram praticar determinados esportes e projetam estes sentimentos em seus filhos, induzindo-os a realizar os seus sonhos. Outros que foram campeões municipais em determinada modalidade, esperam que seu filho alcance na mesma, níveis mais autos no mínimo um campeonato estadual.Essas cobranças podem levar varias crianças a atingir níveis extraordinários de rendimento, pelas suas qualidades psicofísicas mas, ao atingir tais marcas, algumas delas podem mostrar desmotivação, tristeza e depressão que contribuem para um abandono precoce das atividades esportivas.. Além de serem diferentes qualitativamente dos adultos, elas tem expectativas e necessidades distintas a respeito do esporte.Varias pesquisas que ouviram as crianças sobre seus motivos para envolver-se nos programas esportivos,apontaram os seguintes objetivos:

  • Ter alegria
  • Aperfeiçoar suas habilidades e aprender novas
  • Estar com amigos e conseguir novas amizades
  • Sentir emoções
  • Adquirir forma física

Assim, é de grande utilidade, que os treinadores e pais oportunizem estes objetivos às crianças através dos programas esportivos. Muitas vezes estes estão completamente dissociados das metas pessoais do treinador e pais.

Outro fator que interfere na escolha de um esporte por parte da criança é a ordem do nascimento. Os filhos primogênitos parecem escolher (?) os esportes menos perigosos que os outros filhos. Na verdade eles não escolhem, pois parece haver certa proteção dos pais, que só permitem a participação do primogênito em esportes de menor risco. Num levantamento entre atletas olímpicos, verificou-se que a maioria deles são segundos ou terceiros filhos.

Competição esportiva para crianças

A cada temporada que se inicia, um número enorme de crianças aparece para aprender algum esporte e, talvez, chegar a ser um atleta de alto nível. Elas são submetidas à uma autêntica peneira, que vai eliminando a grande maioria para conseguir-se um grupo de qualidade. Isso só não acontece em escolinhas esportivas particulares, cujo interesse é o de manter um número máximo de crianças (e a taxa que o pai da criança paga) a qualquer preço. A preocupação dos que trabalham nas escolinhas, tem sido a de aperfeiçoar cada vez mais, a metodologia de avaliação das crianças, sem levar em conta o sentimento que cada uma elas vivencia no processo.

Cratty (1983) diz que " raramente o impacto da luta competitiva nos jovens participantes é neutro, seja em seus corpos ou personalidades. Na verdade, o esporte competitivo compara o desempenho da criança frente a outras ou contra marcas(padrões). Essa comparação pode ser entre grupos de crianças. A criança, faz comparações para ganhar mais informações a respeito de seu nível de capacidade. Neste sentido a criança tem muito mais informações sobre a influência dos seus chutes no futebol e arremessos no basquetebol, contra adversários, do que arremessando uma pelota em distância, sozinha. Por isso, a criança prefere competir com outras do mesmo nível de aptidão, para testar o seu valor. Muitas vezes isso não ocorre, o que pode implicar em traumas mais severos para os que levam desvantagens, em geral os mais jovens e menores (Gelfand & Hartmann, 1978). Escolas com alunos muito pobres, com estatura inferior e habilidade menor várias vezes são massacradas pelo escore e pela humilhação, frente a escolas particulares (com melhores instalações, material e professores) de alunos mais abastados, com maior estatura e habilidade.

É verdade que crianças mais hábeis podem oferecer um modelo para as menos hábeis e melhorar o seu desempenho mas, no momento de competir individual ou coletivamente, deve-se tentar emparelhar as forças. Vencer um adversário demasiadamente fraco não aumenta a auto-estima do vencedor, o perdedor fica humilhado e sua auto-estima é reduzida. Observa-se, assim, a necessidade de colocar atletas e equipes mais parelhas para as competições infantis. Se isso não ocorrer, haverá uma situação de estresse, que pode prejudicar a criança na estruturação de sua personalidade.

O estresse competitivo

O estresse é o resultado quando a criança percebe o desequilíbrio entre o seu nível de aptidão e as exigências do meio ambiente (Thomas et al., 1978). Estas exigências tem origem, geralmente, no treinador e na família. A comunicação inadequada por parte do treinador e de membros da família, será objeto de análise mais adiante. Estas exigências levam a um incremento no nível de ansiedade das crianças, com repercussões sobre as funções do ego como afeto (auto-estima), orientação, senso- percepção e área motora (execução das ações). Um programa de educação física baseado em fortes competições esportivas, pode resultar em estresse que irá prejudicar as crianças (Lintunen, 1985).

Várias vezes isso tem ocorrido porque a competição é muito mais importante para o professor de Educação Física do que para as crianças (Thomas et al., 1978; Becker Jr., 1992). Se examinarmos objetivamente o esporte, poderemos verificar que a competição em si mesmo não é boa nem má, o que realmente importa são as circunstâncias do ambiente onde a criança compete.

Há uma crítica muito forte, quanto as conseqüências das competições esportivas sobre a personalidade da criança. Algumas pesquisas, no entanto, mostram que, em geral, as competições esportiva s determinam níveis médios de estresse. Não podemos entretanto negar que outras atividades não esportivas, dentro da sala de aula, podem criar mais estresse (Thomas et al., 1978).

Alguns autores utilizaram questionários para a avaliação de perturbação emocional determinada pela competição (Skubic, 1965), abordando mudanças nos padrões de alimentação, sono e humor. O inusitado é de que ele encontrou mais relatos de instabilidade amocional, na Pequena Liga de Baseball, entre os vitoriosos. Por outro lado, Scanlan & Passer (1978; 1979) avaliando os níveis de ansiedade de estado antes e após as competições, verificaram que os dos vitoriosos eram menores do que os dos derrotados.

Para verificar objetivamente, o estresse imposto à criança pelo esporte, Hansen (1967) utilizando a telemetria, mediu a freqüência cardíaca dos meninos que jogavam na Pequena Liga de Baseball. Verificou que, antes de rebater a bola que lhe ia ser jogada, cada menino apresentava cerca de 16 6 de batimentos cardíacos, em média, ou seja, 56 a mais que a média dos outros colegas que mostravam cerca de 110 bpm. Estes registros, entretanto, não significam que há prejuízo para as criança s submetidas a pressão deste tipo.

Deve-se registrar que o tipo de esporte, individual ou de equipe, interferem no nível de pressão sofrida pelas crianças. Estudos de campo mostraram que atletas de esporte individual apresentam maior nível de ansiedade do que de esporte de equipe (Griffith, 1972; Simon & Martens,1979). Também, existem ações do esporte que impõem elevada pressão a seu executor. O penalte no futebol e no futebol de salão, o tiro de 7 metros no handebol e o lance-livre no basquetebol, são ações que podem representar tensão máxima, de acordo com a significância da partida e o escore do momento em que o lance será efetuado. Um penalte que será cobrado por uma equipe que vence de 6 x 0, não impõe muita pressão a seu executor a menos que sua equipe seja obrigada a vencer por 7 x 0, para tornar-se campeã ou classificar-se. No tênis, o tie breaker parece ser o momento mais crucial e na natação e atletismo, o momento do tiro de saída para provas curtas, onde cada atleta sabe que não há como recuperar-se de uma má saída (Becker Jr., 1997b).

Nos clubes de futebol sul-americanos, que disputam competições em todas as categorias, desde a s escolinhas até os profissionais, há algumas realidades estressantes para as criança e jovens: a ) tem que ser titular na equipe; b) tem que atuar bem durante o período que integram cada categoria; c) tem que vencer o campeonato. Em outras palavras, o atleta tem que produzir em alto nível sob pena de ser mandado embora. Em realidade, a criança, nestes clubes já enfrenta uma realidade d os atletas profissionais: ou produz ou sai! (Van Yperen, 1998).

Nota-se, de qualquer modo, que, frente à uma mesma realidade competitiva, as crianças reagem de modo diferenciado. Algumas são tremendamente sensíveis às derrotas, sofrendo durante vários dias após um fracasso, ao passo que outras elaboram rapidamente um insucesso. Algumas enfrentam situações limites com naturalidade e outras se desesperam. Estas diferenças parecem estar vinculadas , segundo Cratty (1983) na formação da personalidade da criança no seio da família (a primeira situação competitiva). O modo como os pais, irmãos e amigos, reagem aos primeiros fracassos nas etapas evolutivas da criança, parecem produzir maior ou menor confiança e auto-estima a mesma e, o que, mais tarde, pode refletir na sua conduta nas competições esportivas. A criança com auto-estima baixa é mais sensível às frustrações do que a que possui auto-estima alta (Smith & Smoll, 19 90). É verdade, também que a criança com auto-estima baixa reage melhor às palavras de apoio de seu treinador do que a que tem auto-estima alta (Smith, 1997). Esta descoberta tem implicações pr áticas importantes: podemos melhorar a conduta de apoio dos treinadores que trabalham com criança s, o que redundará num aumento da auto-estima das crianças com transtorno quanto a esse fator.

A influência dos pais nos programas esportivos

Os pais deveriam ajudar os filhos em todas as situações de estresse que eles tivessem no esporte, pois os jovens não tem as ferramentas necessárias para lidarem com esse tipo de situação.Não devem também intervir demais de forma a não dar espaço para a criança aprender a lidar com suas frustrações.

O clima ideal de uma família que tem um filho esportista seria de acolhimento independente do resultado do filho em competições ou de seu desempenho durante os treinamentos. Entretanto, não é isso que ocorre. A linguagem corporal do adulto denota raiva, tristeza e decepção. Por mais que isso não seja dito, a criança sente-se repreendida.

Foi feita uma pesquisa com professores de educação física e o resultado mostrou que 76,6% deles estão insatisfeitos com o tipo de envolvimento dos pais na vida dos filhos esportistas.

Com a presença dos pais durante uma competição, uma criança pode ficar tão abalada psicologicamente que seu rendimento pode cair bruscamente de imediato. Isso se explica porque dos 06 aos 12 anos, elas passam por um período chamado de “Inferioridade x Superioridade”. Nesse período elas precisam da aprovação dos pais para se sentir valorizadas e se isso não ocorre, o desestímulo e a baixa auto-estima aparecem.

Está sendo recomendado a atuação de um psicólogo desportista nas famílias e também nas escolinhas para que ajudem a compreender melhor os jovens.

Sinais de alerta

Os dirigentes do esporte infantil e,principalmente,os treinadores,pais e os profissionais da saúde (médico,psicólogo,fisioterapeuta,nutricionista,terapeuta ocupacional,etc.)devem ficar mais atentos aos sinais de transtornos emocionais crônicos entre os jovens do que aos seus desempenhos(tempos,pontos,distâncias,etc.).Alguns sintomas claros e objetivos podem ser observados pelos profissionais que trabalham com a criança ou adolescente,que podem indicar a ocorrência de um estresse crônico:

a)Melhor desempenho no treinamento do que na competição.

b)Mudanças negativas no desempenho escolar.

c)Humor oscilante(ora alegre e ora triste e isolado).

d)Mudanças nos seus hobbies.

e)Dificuldade para dormir antes das competições.

f)Mudança nos hábitos alimentares.

g)Nível de ansiedade acima do padrão.

h)Tensão psicofísica elevada,antes da competição.

l)Queixas sobre a carga de trabalho do treino e competição.

j)Idéias de abandono do esporte.

O problema do burnout(o jovem abandona o esporte) inicia antes do momento apontado pelos autores que o estudam.Pode iniciar no momento em que a criança entra no esporte.Muitas crianças são coagidas a participar em determinados esportes,sem a possibilidade de opinar acerca disso.São colocadas nas escolinhas de esporte porque seus pais entendem que é ótimo para eles(pais).Nesta escolha,feita pelos pais,são levados em consideração a localização da escola,horário disponível,preço e preferências pessoais.Não levam em consideração as crianças.Deve-se levar em conta,também,no burnout,o papel do treinador dessas escolas,muitos deles não têm uma formação e outros têm uma formação pobre(eventualmente a graduação em Educação Física).Os treinadores com maior formação estão trabalhando com adultos,em alto nível,porque lá é onde recebem um salário melhor.Há muitas queixas sobre as posturas psicopedagógicas dos treinadores que atuam com a criança.

Os profissionais que trabalham com o jovem,notam(se o desejam) o rompimento da rotina comportamental do mesmo,e podem analisar,rapidamente,numa reunião interdisciplinar,as estratégias para auxiliar neste quadro difícil.A dificuldade maior parece ser quando a filosofia do grupo de trabalho é vencer é a única saída.Há muitos profissionais que trabalham sob esta filosofia.Assim,esses profissionais não desejam(inconscientemente) ver sintomas como os que apontamos porque isto implicaria quebra do regime de treinamento para aquele atleta e,também,a mobilização de sentimentos de culpa do profissional,o que não é nem um pouco interessante ao mesmo.Um outro quadro clássico ocorre entre irmãos,onde há elogios(estímulos positivos a um) e não há elogios ao outro(estímulo negativo).Essa motivação será extrínseca,e não intrínseca.

Benefícios e prejuízos do esporte para a criança

A influencia do esporte para as crianças, tem sido objeto de estudo dos pesquisadores da Psicologia do Esporte. Pela importância do tema, a Federação Européia das Associações de Psicologia do Esporte, elaborou seu Manifesto n°2, de 1995, publicado pela International Society of Sport Psychology – ISSP (1996). Para orientarmos os professores de educação física e os pais, como também os psicólogos do esporte, apresentamos aqui os resultados das principais pesquisas realizadas sobre os benefícios e prejuízos que o esporte pode conferir a criança.

Benefícios

a) O esporte pode reduzir a ansiedade ( ISSP, 1992)

b) O esporte pode diminuir a depressão (Fremont, 1987) Há um aumento do suicídio infantil no mundo e o esporte poderia atuar como uma alternativa profilática e psicoterápica (Fremont, 1987). Deve-se esclarecer que este efeito é possível com níveis leves e moderados de depressão. Níveis severos exigem a utilização de medicamentos, às vezes até internação do paciente, e o exercício é utilizado como auxiliar na terapia.

c) O esporte com predominância aeróbica pode aumentar a auto-estima (Plummer & Koth, 1987)

d) A perda de peso e o aumento da agilidade podem aumentar a auto-estima ( Balogun, 1987)

e) O esporte leva ao controle e do estresse e o manejo da ansiedade (De Benedett e, 1990).

f) Atletas parecem ter mais resistência à dor (Egan, 1987)

Prejuízos

a) Quando a carga de treinamento é demasiada pode determinar lesões e depressão. (Round Table, 1987)

b) A derrota pode trazer conseqüências negativas para a criança (Ames, 1978; Wellsted, 1989)

As crianças que tem auto-estima baixa, não aprenderam a estimular-se e tendem a sofrer de autopunição, quando tem rendimentos baixos. Não é suficiente propiciar-lhes experiências com vitoria ou remover situações negativas para aumentar a sua auto-estima. (Ames 1978; Wellsted, 1989)

O esporte pode oportunizar, também, redução na auto-estima, excessiva ansiedade e depressão, além de condutas agressivas. (Ames 1978; Wellsted, 1989)

Pais, diretores e treinadores põem muita pressão sobre a criança para conseguir vitorias a qualquer preço. Suas mensagens verbais e não verbais durante a competição são incrivelmente fortes. (Ames 1978; Wellsted, 1989) Quando a capacidade da criança é inferior à tarefa que lhe impõem, ela reage (Ames 1978; Wellsted, 1989)com depressão, demasiada ativação e pode abandonar o esporte (Becker Jr., 1992; Telöken, 1997).

Referências

Becker Júnior,Benno.Manual da psicologia do esporte & exercício.Porto Alegre : Novaprova, 2000. 399p.

Ferramentas pessoais