Relação Professor-Aluno +
De Psicologia da Educação
Trabalho de campo I
O trabalho de campo consiste numa entrevista realizada no dia 22 de novembro de 2009 em uma instituição da rede pública estadual. Na ocasião, foram entrevistados uma professora de matemática e cinco alunos que estão matriculados no segundo e terceiro anos.
A professora afirma que a relação que mantém com os alunos e as suas aulas é marcada por altos e baixos, afirma que procura ser “mãezona” de seus alunos, se tiver que brincar brinca, se tiver que xingar, xinga. Ela reclama que os pais e as mães dos alunos não estão muito preocupados com os seus filhos, o que faz com que os alunos não enxerguem as coisas erradas que fazem e que muitos deles não tenham respeito, mesmo quando o professor chama atenção para o que o aluno esta fazendo, eles não se preocupam com isso, porque acham que não serão penalizados. As relações e os sentimentos que esses alunos mantinham (ou não mantinham) com os pais, de acordo com Freud, são transferidas inconscientemente para o professor para que o processo de aprendizagem se dê, pelo que chama Freud de transferência. Como no caso não há nenhuma influência positiva dos pais, no sentido de favorecer o respeito à autoridade do professor e atenção à aula, é de se esperar que ao contrário do que Freud imaginava, os professores nada terão para aproveitar dessa transferência, uma vez que assim como os pais eram vistos, os professores serão vistos “à primeira vista” por seus alunos, através das transferências, provavelmente como permissivos e “liberais”, o que não chamará a atenção para a aula, e quando os professores mostrarem uma faceta bem contrária a essa, estarão “bloqueando” o aluno para a sua aula, na medida em que a transferência será perturbada por uma atitude do professor diferente (talvez até muito!) daquela que o aluno “esperava” (transferência é um processo inconsciente). A professora argumenta que a falta de respeito por parte dos alunos independe da classe social (depende da relação com os pais!), alunos advindos de classe baixa ou de classe média faltam com respeito igual. Para as turmas de 5º e 6º série (principalmente 5º) há a necessidade de uma orientação mais efetiva por parte do professor, mas afirma que acaba sendo mãezona nas duas, e que não há distinção entre séries, todas são parecidas.
Outra crítica apontada é a de que hoje em dia a escola vive uma perda de valores, refletindo o que se passa na sociedade, que os alunos não respeitam mais os professores e que a família acaba deixando toda educação para a escola, o que contribui para dificultar a relação entre professores e alunos. Exatamente, pois, de acordo com Freud, deveria ser a educação dada pelos pais, os “laços positivos” por assim dizer construídos entre os pais e as crianças, que permitiriam estas aproveitar o aprendizado através das transferências (sempre lembrando: inconscientes), e dariam ao professor o tal “poder de convencimento”.
Segundo a professora, tem grupinhos nas salas de aula que não se misturam, e fazer espelho de classe é uma boa forma de diminuir a bagunça e a conversa. Ela afirma que a melhor forma de se relacionar com os alunos é ser maleável, sendo autoritário quando necessário (e tem que cumprir o que tu diz que vai fazer, se ameaçar tem que cumprir, do contrário perde o respeito e a autoridade), mas sendo também descontraído, travar uma relação amigável com os alunos, não sendo sempre rígido e impositivo (ela citou o exemplo de alunos que vinham para aula na segunda e contavam as experiências de festa do final de semana, e que ela conversava sobre coisas da vida também com os alunos). Em geral, há uma dificuldade em passar a matéria, e que para que isso aconteça tem que haver troca, ela não pode ser impositiva, tem que ouvir os alunos, dar tempo para eles, descontrair de vez em quando, conversar sobre o mundo (o que ela chamou de conversa franca).
No caso, o trabalho do professor é bastante dificultado pelo relacionamento primitivo dos alunos com seus pais. É necessário que ele tenha todo um jogo de cintura para conseguir “conciliar a transferência” do aluno com a tarefa de transmitir autoridade para dar aula, e embora não seja possível conhecer essa transferência não é preciso, no caso é visível como o aluno responde melhor à aula quando o professor toma uma atitude “mais parecida” com a dos pais, por assim dizer em termos de permissividade.
A maioria dos casos de conflitos existentes em sala de aula é resolvida na própria sala, com o professor, só nos casos mais complicados é que o aluno é mandado para a orientação educacional, pois a demanda é muito grande e o SOE não conseguiria dar conta de todos os casos. A entrevistada finaliza dizendo que sente que é admirada por boa parte dos alunos, que sente carinho: “tem menos gente que me odeia do que gente que gosta de mim, mas sempre vai haver aluno que não gosta da gente”.
Já os alunos afirmam que amam os professores, mas que varia um pouco conforme o caso, tem uns que não gostam. Citam o caso do Profº de geografia, que debocha dos alunos quando eles entregam as provas e o quanto isso dificulta a relação entre eles. Se os pais desses alunos, mesmo permissivos, também forem pais que tratam “bem” os seus filhos no sentido de não os colocarem em situações embaraçosas, é de se esperar que a relação com um professor que faça isso atrapalhe o aproveitamento da aula e a relação em si, pelo mesmo motivo pelo qual os alunos não conseguiam se prender na aula, por não conseguirem fazer a transferências e essa ser perturbada. Como estudam no colégio há muitos anos apontam como um dos motivos para gostarem tanto dos professores o fato de serem alunos deles por muito tempo, o que acabou desenvolvendo uma relação de amizade. É possível que a transferência não seja a única forma de propiciar a aprendizagem? Acredito que do mesmo modo que os sentimento primitivo que as crianças sentem pelos pais vá mudando um pouco à medidada que crescem, talvem esse primeiro olhar sobre o professor, essa “transferência”, possa dar espaço à medida que o tempo passa para uma relação mais verdadeira como professor, o que talvez ajude os alunos à aprenderem melhor, através do vinculo de amizade.
Afirmam que autoridade o professor tem que ter, que isso não incomoda, o que incomoda, na verdade, é o tipo de professor que parece não se preocupar com os alunos, e o professor que é sarcástico, que debocha. É interessante ver como isso vai um pouco de encontro com o que a professora de Matemática dizia inicialmente. Se nos utilizarmos apenas do conceito de transferência para explicar esse gosto dos alunos por professores autoritários poderiam indicar que é esse tipo de relação primitiva que os alunos tinham com os pais, e que não gostarem de professores debochados, demonstra o quanto os pais dessas crianças as “levavam a sério” e tratavam com carinho, por assim dizer, porque devia ser assim que as crianças viam as atitudes dos pais nos anos iniciais, o que é diferente de as deixarem simplesmente soltas por aí, embora seja também um modo de permissividade. Tem uns professores mais calmos e outros mais rígidos, e que eles tendem a gostar mais dos professores que dão menos prova, ou que permitem a consulta mais uma vez a presença da permissividade como principal transferência que a maioria dos alunos parece fazer. Colocam também que gostar ou não do professor depende da matéria, se é uma matéria que não gostam é mais difícil que eles gostem do professor. Isso é interessante, no momento em que Freud afirma que o “gostar ou não” da matéria não depende de seu conteúdo, mas do professor e mais precisamente de como é feita a transferência. Gostam mais dos professores que interagem mais, talvez porque não só na relação dessas crianças com seus pais, mas da maioria das crianças, seja possível ver o quanto os pais interagem com o bebê, algo normal de se ver na sociedade e muito positivo para a construção das relações futuras dessa criança, se como Freud diz, essas relações depende muito da relação primitiva com os pais.
Quanto a questão do respeito, “os alunos respeitam, mas daquele jeito”, confessam que a turma conversa bastante, mas casos graves de falta de respeito e de atrito são raros. Na entrevista com o SOE, os professores ao fazerem transferências negativas para os alunos acabam atrapalhando o seu estudo, pois estes alunos não conseguirão fazer a transferência necessária para que se dê o aprendizado, já que o “receptáculo” da transferência não permite que essa seja feita, pois se encontra já “cheio” de significado. Não que o professor deva abdicar de sua personalidade e opiniões para promover o aprendizado do aluno, mas no sentido de ele conseguir manter seus conflitos e “mazelas” pessoais que poderiam atrapalhar o ensino, fora da sala de aula. Como se sabe esse trabalho é bastante complicado para praticamente toda pessoa, já que a transferência é inconsciente. Mas acredita-se que entender como ele funciona, pelo menos do ponto de vista psicológico, já poderia nos ajudar a reconhecer com o que se estará lidando e se de fato estaremos aptos a exercer o cargo de professor.
Por fim, em outro texto estudado, de Maria Rosane Pereira, intitulado de A transferência na relação ensinante, a autora toma emprestado os conceitos de Hanna Arendt afirmando que o dever do educador é transmitir um saber que é a herança da nova geração. A partir dessa função exercida pelo docente funda-se sua autoridade, ou seja, essa representação do professor dá origem a esta autoridade. Além disso, traz a idéia de que a relação ensinante se dá a partir da forma discursiva, e a define como a transferência instituída pela fala. É nesse sentido que Pereira irá afirmar que o nosso lugar é designado pela linguagem a partir dos traços que dela vão se inscrever em nosso inconsciente. O papel do educador nesse processo é notar que ele representa, para as crianças, as instâncias psíquicas que se constroem a partir daquelas inscrições da linguagem.
No momento em que o educador percebe isso, é importante manter as construções imaginárias das crianças, para que seu discurso tenha efeito. Porém, isso não significa transformar a criança em seu eu-ideal, tomada pelos ideais do educador, pois dessa forma a criança acaba desconhecendo seu próprio desejo. Por outro lado, não influenciar o aluno de maneira nenhuma, acaba sendo prejudicial também, uma vez que os desejos se formulam a partir do questionamento em relação dos desejos do outro (nesse caso, o professor).
Maria Rosane Pereira parece prezar por uma relação mais neutra entre o professor e o aluno. Em outras palavras, o educador não deve deixar que os seus juízos de valores influenciem o aluno, mas que eles sirvam como uma comparação para que o discente forme suas próprias opiniões. Acreditamos que seja impossível o docente não influenciar ninguém com suas concepções quando estiver lecionando, pois sempre carregamos nossos julgamentos sobre qualquer objeto que estudamos em qualquer atividade que exercemos, e isso não é diferente no ambiente escolar.
Trabalho de campo II
Como disse a professora de Matemática, entrevistada pelos colegas, somente os casos mais sérios, que aparecem nas salas de aula, são encaminhados ao SOE – Serviço de Orientação Educacional das escolas. Para conhecer um pouco da realidade do SOE, conversamos com uma professora que trabalha numa escola de nível médio, situada nos arredores da cidade, e que tem em torno de 1200 alunos, entre 14 a 18 anos, principalmente. A categoria sócio–econômica dos alunos é variada, mas impera o nível economicamente mais baixo.
Segundo a professora, tudo depende muito da pessoa. A relação professor-aluno tem muito a ver com o professor, com o saber chegar ao aluno. Cada aluno é diferente. Os professores da escola são mais legais do que não. Geralmente são muito bons, preocupados com os alunos. De 50, uns quatro professores apresentam problemas e têm também os relapsos, os que não querem nada com nada. Solicitada a exemplificar uns e outros, a profissional começou narrando o caso de um professor de Física que, no início do ano, pergunta ao aluno de onde ele veio e, ao saber que o aluno veio de escola municipal, já avisa: comigo está ferrado. É um professor que tem muito conhecimento da matéria, sabe explicar, mas não gosta de repetir. Se o aluno fala, se ferra. Atribui seu preconceito com os que vieram do município ao sistema de ciclos que não reprova ninguém, podendo acontecer de chegar aluno ao ensino médio que não sabe escrever.
No entanto, salienta a professora do SOE, felizmente, a maioria dos professores é envolvida. Por exemplo, todos os anos aparecem casos de gravidez entre as adolescentes e é comum que procurem o SOE ou a professora com quem tem mais afinidade para desabafar, como a professora de Educação Física, por exemplo. Por vezes a professora vem me procurar e, se a aluna permite, fazemos a ponte com os pais.
O contato com os pais é sempre procurado pela escola, numa tentativa de caminharem juntos na relação com os alunos - buscam conscientizar os pais sobre a importância de participarem da educação dos filhos, da vida da escola, bem como evitar que se atenham a uma postura agressiva nos casos em que o filho não vai bem nos estudos ou falta às aulas. Há sempre uma tentativa de fomentar o diálogo, buscar a integração.
Por melhor intencionados, é comum o SOE esbarrar em limitações. Há, no entanto, muitos casos em que não se consegue ajudar, além de escutar o aluno que nos procura para desabafar. Um deles fez relatos do seu envolvimento com o tráfico de drogas do qual gostaria de se retirar, mas não pode porque seria morto. Há garotas prostitutas como o caso de duas meninas que desapareceram de casa. Conseguimos fazer contato pelo celular (não atendiam quando era número conhecido, mas não conheciam o do SOE e atenderam, conversando) e trazê-las de volta para casa e para a escola, mas não durou e fugiram de novo. Quando a pessoa não quer, não se consegue.
Outra limitação encontrada diz respeito aos professores mais inábeis e patológicos, como o caso do professor de Física, mencionado no início, ou de uma outra professora: Aconteceu há pouco tempo de uma aluna procurar o SOE porque se sentiu ofendida com o tratamento que uma professora lhe dispensou, chamando-a de marginal. Quando a responsável pelo Serviço tentou conversar com a professora, ela ficou braba porque a aluna, que está bem em todas as outra disciplinas, procurou o SOE. Em conseqüência, baixou sua nota, não houve modo de convencê-la. É o caso de uma professora petulante, que se considera poderosa e que não erra.
Para além das intolerâncias pessoais, é comum também às questões sócio-econômicas se imbricarem nos relacionamentos. Descobriu-se que um aluno não estava comparecendo por não ter dinheiro para a passagem. A escola ajudou-o e, ao mesmo tempo, fez um trabalho com os colegas e professores para que ajudassem o menino emprestando material, fornecendo o conteúdo das aulas que faltara. Funcionou, o pessoal aderiu e ele se manteve na escola.
Casos bem sucedidos como esse e outros que acontecem é que levam a professora a continuar trabalhando no SOE, apesar de já estar em condições de se aposentar. Mais do que isso, ela continua, com ajuda de estagiárias, trabalhando em conjunto no sentido de implantar novas interfaces capazes de ampliar, entre outras coisas, o relacionamento professor-aluno, como é o caso de uma série de oficinas que aconteceram durante o semestre, quando um ex-aluno veio ensinar xadrez, ou o intolerante professor de Física surpreendeu os alunos explicando sobre ervas medicinais, enquanto uma atrapalhada professora de Matemática conseguiu entusiasmar a turma ao ensiná-los a fazer sanduíche integral. Possivelmente o ápice foi quando um dos próprios alunos ensinou aos demais a técnica de teatro de improvisação que conhecia, propiciando momentos criativos e divertidos.
Na mesma escola, enfim, coexistem diversas metodologias, desde a da Escola Tradicional, onde o professor representa a autoridade máxima e o aluno não deve questionar suas ordens, nem seus ensinamentos à Escola Nova, para quem o ideal é a valorização da autonomia do aluno e o professor atua mais como um orientador e não como alguém que impõe o que deve ser estudado. De qualquer modo, há que se ter o entusiasmo da professora do SOE para viver o dia-a-dia da escola de modo atuante, contribuindo para que a relação professor-aluno, que já saiu da fase da violência física corriqueira, enverede, de vez, para uma consciência crescente daquilo que Pierre Boudieu classificou como ‘violência simbólica’. A trajetória é longa, os cursos de Pedagogia ainda não abriram o espaço apropriado que um tema tão fundamental exigiria mas as brechas – como este trabalho tentou – vão se fazendo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
http://www6.ufrgs.br/psicoeduc/wiki/index.php?title=Rela%C3%A7%C3%A3o_professor-aluno_
KUPFER, Maria Cristina. Freud e a Educação. O mestre do impossível. São Paulo: Scipione, 1992.
PEREIRA, Maria Rosane. A Transferência na relação ensinante. A palavra como agente no contrato pedagógico. In: http://chasqueweb.ufrgs.br/~slomp/psicanalise/rosane-transferencia-ensino.pdf
TACCA , Maria Carmen Villela Rosa; BRANCO, Angela Uchoa. Processos de significação na relação professor-alunos: uma perspectiva sociocultural construtivista. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413294X2008000100005&lng=pt&nrm=iso

