Rogério Lorentz Porciúncula

De Psicologia da Educação

RELATÓRIO DE OBSERVAÇÃO

APLICANDO O JOGO “A TORRE DE HANÓI”:

O presente trabalho objetivou investigar de forma breve, em um contexto psicológico, a relação entre ação e compreensão na solução do problema formulado em situações contidas no Jogo Torre de Hanói, na sua versão virtual (www.ufrgs.br/faced/slomp/hanoi) com base na teoria de Piaget. Participaram como sujeitos 3 escolares de 10, 12 e 13 anos, de duas escolas particulares de Porto Alegre. O problema consistia em passar 2, 3, 4 e 5 discos da coluna A para a coluna C, utilizando-se a coluna B e realizando-se um número mínimo de deslocamentos. Em seguida, foram formuladas questões referentes às estratégias utilizadas pelos sujeitos, na solução do problema. Os resultados mostraram a distância evolutiva que separa a solução prática de uma tarefa de sua compreensão conceitual. Assim, enquanto a maioria dos sujeitos é capaz de obter êxito na maior parte das situações contidas no referido jogo, somente poucos sujeitos mais velhos conseguem explicar os meios utilizados para resolver o problema proposto.


Todas as três crianças obtiveram sucesso na solução do problema contido na situação com dois discos. Com três discos, há ainda tentativas hesitantes, erros e correções, principalmente por parte do sujeito de 10 anos, mas os sucessos tornam-se estáveis. Os progressos alcançados nesse nível são decorrentes de uma melhor diferenciação e subordinação dos meios aos objetivos, o que possibilita uma previsão dos resultados. Assim, as crianças coordenam os deslocamentos sucessivos dos discos entre si, estabelecendo antecipações e retroações. No entanto, essas antecipações ainda não são apoiadas em deduções operatórias e sim nas próprias ações.


Ficou bastante evidente que os sujeitos liberam o disco maior, formando uma torre de “n” discos na coluna intermediária, passando diretamente o disco maior para a coluna de chegada e conduzem o primeiro disco para a coluna de chegada. No entanto, isso não lhes asseguram solucionar o problema contido nas torres com 2, 3, 4 e 5 discos com o número mínimo.


Foram permitidas duas tentativas com os 3 ou mais discos para cada sujeito e em seguida efetuadas algumas perguntas sobre o desenvolvimento de métodos para diminuir o número de movimentos durante o jogo e sobre possíveis raciocínios lógicos e estratégicos desenvolvidos até o momento, e somente então, iniciada a terceira e última tentativa.


Indagados quanto aos movimentos, os sujeitos se referem à necessidade: (a) de liberar o disco maior; (b) de formar torres de “n” discos na coluna intermediária; (c) de passar o disco maior diretamente para a coluna de chegada; (d) de conduzir o primeiro disco para a coluna de chegada (quando o número de discos é ímpar) e para a coluna intermediária (quando o número de discos é par). Demonstrando, portanto, que a prática dos movimentos já lhes permitira desenvolver um raciocínio lógico diminuindo o tempo e o número de movimentos durante o jogo.


A tomada de consciência é um processo de conceituação que reconstrói e depois ultrapassa, no plano da representação. Portanto, a passagem da forma prática do conhecimento (“saber fazer”) para o pensamento (compreender) efetua-se por intermédio da tomada de consciência, que é um processo que possibilita reconstituir, no plano da representação, o que ocorre no plano da ação. Em uma linguagem piagetiana, a tomada de consciência pode ser definida como um processo por meio do qual um esquema de ação é transformado em um conceito. Essa passagem dos esquemas de ação para a conceituação inclui, já no plano da ação, construções e coordenações que se sucederiam segundo uma ordem ao mesmo tempo progressiva e regressiva. Segundo Piaget, tanto no caso da ação quanto no da conceituação, o mecanismo formador é sempre retrospectivo e construtivo, pois, ao mesmo tempo, retira seus elementos de fontes anteriores e cria novas ligações. Inicialmente, o sujeito realiza ações e consegue êxito sem conseguir perceber, no entanto, as razões que o estariam levando a esse sucesso no plano da ação.


Evidenciou-se, portanto, que a prática pode sim levar ao conhecimento de forma bastante alternada variando conforme o sujeito e suas limitações, neste caso em específico, variando bastante conforme idade e nível de desenvolvimento intelectual. Ainda, o jogo “Torre de Hanói” se mostrou bastante eficaz como forma de analisar e discutir a questão da construção de conhecimento ou epistemologia através da forma prática como se pode ver neste breve relatório.


Ficou claro ainda, que nesta análise só houve maior precisão na formulação de estratégias teóricas por parte dos sujeitos após as perguntas terem sido aplicadas, mostrando uma possível importância de um mediador neste processo, onde as indagações sobre as práticas repetidas podem vir a ter um papel fundamental no processo de tomada de consciência.


--201.22.223.88 14:31, 17 Maio 2007 (BRT)

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