Sexualidade e Educação Sexual

De Psicologia da Educação

APRESENTAÇÃO


Neste trabalho pretendemos apresentar alguns aspectos da Educação Sexual nas Escolas, não só no Brasil, como também em outros países no mundo. Sua essencial relação com a família, com as comunidades e com a sociedade como um todo. Sua asseguração constitucional. Bem como as conseqüências da recusa de uma discussão ponderada a seu respeito.


Optamos por não resumirmos os pontos de vista individuais dos elaboradores deste trabalho em um só ponto de vista geral. Isso porque acreditamos que não há uma conclusão realmente óbvia e incontestável sobre esse tema e com isso as opiniões contrárias possibilitam uma melhor reflexão sobre o assunto. Assim como a pluralidade de abordagens sempre melhoram a percepção daquele que pretende conhecer um assunto polêmico.


Respeitando essa concepção, dividimos o desenvolvimento por participantes e não por temáticas. O que confere uma excentricidade à estrutura deste trabalho.


GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA


A gravidez na adolescência é um problema bem anterior a esta fase da vida.


Começa, na realidade, na infância, na forma com que os pais percebem a sexualidade das crianças, principalmente para a menina. Pois os pais são de uma geração em que a informação lhes foi negada e tudo ligado ao sexo era considerado feio e proibido.


Este acanhamento que os pais têm ao lidar com o assunto dificulta a conversa com os filhos, que não tendo este diálogo com os pais, e sendo bombardeados pela mídia através de filmes, programas, propagandas comerciais, outdoors, músicas, têm sua inocência violada. O problema é que tudo é aparentemente inocente, mas carrega uma pesada dose de pornografia, incitando ao sexo precoce, deturpando na mente da criança os verdadeiros fatos sobre o sexo.


De acordo com Freud a ocultação de assuntos sexuais só faz com que a criança suspeite mais do que nunca da verdade. A curiosidade da criança é aguçada, o que a faz estar sempre atenta a todas as conversas e informações que possam lhe oferecer conhecimento sobre o assunto.


Se, por outro lado, a informação correta fosse oferecida em casa, pelos pais, a criança teria uma visão mais saudável do sexo.


Outro fator que contribui muito para os alarmantes números de adolescentes grávidas é a desestruturação familiar. Nas classes pobres isto se torna ainda mais evidente, pois muitas mães têm um filho de cada homem e nenhum representa o papel de protetor da família. A mãe, geralmente, tem que trabalhar fora o dia todo para sustentar a prole que fica aos próprios cuidados.


Um adolescente curioso, sozinho em casa, impulsionado pelo "é proibido" dos pais, sem esclarecimento adequado é a fórmula perfeita para que ocorra não só a gravidez precoce, mas com ela, e além dela, muitos outros problemas.


É importante mencionar que mesmo muitos filhos que têm pai e mãe em casa na infância, não recebem destes o devido cuidado, atenção e amor, o que afeta a vida afetiva, fazendo com que muitas adolescentes busquem por esta aceitação fora de casa.


Embora ocorra que muitos pais, mesmo presentes fisicamente, caem em descrédito perante os filhos quando estes entram na faze da adolescência e não são atendidos em suas solicitações, mesmo quando tentam protegê-los.


É importante mencionar que muitas mães, e mesmo pais solteiros, conseguem constituir uma família estruturada e protetora mesmo que isto fuja dos padrões e que seja mais difícil criar um filho sozinho(a).


Enfim, concluo que a família é a base para toda a vida de um ser humano, mas principalmente base emocional, pois o homem depende de seu relacionamento com os pais desde o seu nascimento, diferente dos animais na natureza que não têm esta dependência, pois têm seu instinto natural.


O homem necessita de cuidados e proteção desde o nascimento. Ou seja, ele depende de relacionamentos. Se ele não tem relacionamentos saudáveis em casa, ele vai buscar isto em outros lugares e pessoas. E isto mais tarde culmina na gravidez precoce, que é um preço alto para ser pago por uma pessoa que ainda não teve tempo nem mesmo para concluir seus próprios projetos de vida.


GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA


Cerca de 1,1 milhão de adolescentes engravidam por ano no Brasil e esse número continua crescendo. O índice de adolescentes e jovens brasileiras grávidas é hoje 2% maior do que na última década; as meninas de 10 a 20 anos respondem por 25% dos partos feitos no país, segundo o Ministério da Saúde.


É um dado preocupante e alarmante que traz à tona a discussão sobre sexualidade e gravidez na adolescência no âmbito escolar, já que uma das suas diversas conseqüências (por exemplo, é a terceira causa de morte nessa fase da vida) é a evasão, o abandono dos estudos para o cuidado do bebê e o trabalho para sustentar essa nova família, que acaba por prejudicar ainda mais o futuro dos adolescentes e jovens.


O debate em sala de aula faz-se necessário, mas não é simples. O próprio tema sexo é polêmico, pois depende do juízo que cada um faz, influenciado por questões particulares como religião, ética, moral, política, etc.


Contudo, percebe-se pelas pesquisas que realizamos, que ações estão ocorrendo pelo Brasil, chegando, até mesmo, a reduzir em 90% os índices de gravidez na adolescência.


Escolas de São Paulo e de Minas Gerais, com o apoio de ONG’s (Organizações Não-Governamentais) realizam oficinas onde os jovens são levados não só a conhecer o funcionamento do organismo como também discutir sobre o futuro, percebendo o quanto uma gravidez indesejada pode atrapalhar seus planos para o futuro.


Muito interessante também é que, em alguns programas, os jovens que participam das oficinas podem tornar-se multiplicadores. Acredita-se que o jovem ouça e apreenda melhor sobre o assunto quando recebe informações de outro jovem. Quando a gravidez não pôde ser impedida, há discussões a fim de evitar o preconceito em sala de aula e manter a adolescente grávida na escola, e depois, facilitar seu reingresso depois do parto.


Outro passo é flexibilizar horários e o número de faltas permitidas. A EE Fazenda da Betânia, em Itabira, a 100 quilômetros de Belo Horizonte, reduziu a zero a evasão nesses casos com medidas simples. A diretora Jânea Martins Gomes permite que aulas perdidas para ir ao médico ou para cuidar do bebê sejam repostas em outra turma e que as grávidas façam trabalhos em casa (mais sugestões para evitar a evasão no quadro da página anterior). Shirley da Silva Ramos, de 16 anos diz que estudou até os últimos dias de gestação porque foi muito incentivada pelos professores e pela diretora, confessa ter pensado abandonar a escola quando soube que seria mãe, na 8ª série. Ao voltar da licença, fez todos os trabalhos e avaliações que havia perdido. Em pouco tempo já estava acompanhando normalmente a turma. Na EE Odilon Behrens, em Barão de Cocais, a 90 quilômetros de Belo Horizonte, a luta para evitar que meninas grávidas deixem de estudar vai além dos horários alternativos. Maria de Lourdes Drepalde, coordenadora do programa, visita todas em casa para convencê-las a voltar, como fez com Francislaine Fernandes Dias, 16 anos. Expliquei a ela e aos pais que não há impedimento em continuar freqüentando as aulas. Deixei-os à vontade para conversar sobre o assunto sempre que tivessem dúvida ou precisassem de orientação, mostrando que estamos prontos para ajudar, conta Maria de Lourdes. Com isso elas se sentem acolhidas e sabem que têm um porto seguro.


As ações são variadas e conjuntas, é necessário dar as informações, discutir o futuro, apresentar os diversos métodos anticoncepcionais, mas também é necessário dar acesso aos meios de saúde.


A discussão sobre a sexualidade, como ressaltamos na apresentação de nosso trabalho, permite diversas abordagens, tem diversos nuances. Indentificamos a gravidez na adolescência como sendo uma discussão importante mas reconhecemos que outros temas podem ser abordados. Segue adiante outras abordagens.


QUESTIONAMENTOS, PARÂMETROS LEGAIS E POSSIBILIDADES


I - Os Questionamentos Pertinentes:


As questões que envolvem a Educação Sexual nas instituições de ensino levantam indagações sobre o tipo de ensino que cada Estado deve oferecer (se ele será emancipador ou apenas técnico, por exemplo); sobre até que ponto a moralidade individual deve ser respeitada (religião ou orientação política, por exemplo); quais as questões pertinentes a Educação Sexual são coerentes com as respostas dadas aos questionamentos anteriores; e de que forma será abordada a Educação Sexual especificamente.


É necessária, para responder cada uma das indagações relatadas acima, uma reflexão aprofundada sobre os objetivos do Estado. Primeiramente a qual classe de cidadãos pretende favorecer. Após, que tipo de cidadãos pretende formar.


Pode-se dizer que se torna de igual relevância uma discussão sobre como deve se constituir um Estado ideal. Para isso, discutir também qual o objetivo de uma organização coletiva de seres humanos e por fim qual, afinal, o objetivo geral das vidas humanas.


Obviamente se nos detivermos a essas análises admitiremos que o problema da Educação Sexual se torna insolúvel, já que as respostas às perguntas levantadas ainda não foram enunciadas de forma definitiva e incontestável.


Por isso, teremos que nos conformar com uma discussão que parta de algo não tão verdadeiramente legítimo, mas sim apenas convencionado: as leis das instituições que administram a educação.


II - Os parâmetros políticos que dispomos:


“Parafraseando a cartilha: COS - Comunicação em Sexualidade . Sexo Sem Vergonha - uma metodologia de trabalho com Educação Sexual. São Paulo : ECOS, 2001.”


Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)


Publicada em 1996 e elaborada pelo Ministério da Educação, com apoio de diversos especialistas. Propõe que temas como meio ambiente, ética, pluralidade cultural, trabalho e consumo, educação sexual, devam ser tratados de forma transversal, isto é, poderão ser abordados a qualquer momento e por todas as disciplinas. Não existe obrigatoriedade em executar esta proposta, mas sem dúvida se trata de um importante apoio para se incluir temas como sexualidade e saúde reprodutiva no contexto educacional.


Neste documento, a sexualidade é tratada como algo que faz parte da vida e da saúde de todas as pessoas e que se expressa do nascimento até a morte. Relaciona-se com o direito ao prazer e ao exercício da sexualidade com responsabilidade. Engloba as relações entre homens e mulheres, o respeito a si mesmo e ao outro e às diferentes crenças, valores e expressões culturais existentes numa sociedade democrática. Pretende contribuir para a superação de tabus e preconceitos que ainda existem no contexto sociocultural brasileiro e que, de alguma maneira, dificultam o exercício da cidadania. Assim, o tema da Educação Sexual foi dividido nos seguintes blocos de conteúdo: Corpo - Matriz da Sexualidade; Relações de Gênero e Prevenção das DST/Aids.


Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (Cairo,1994)


O relatório da conferência trás nos capítulos Igualdade e Eqüidade entre os Gêneros; Direitos Reprodutivos e Saúde Reprodutiva; População, Desenvolvimento e Educação algumas recomendações para os governos. Por exemplo: tomar iniciativas para valorizar a capacidade das mulheres. Eliminando as desigualdades entre homens e mulheres, inclusive no trabalho e nos salários e toda forma de exploração, abuso, assédio e violência praticada contra mulheres, adolescentes e crianças. Estimular também a participação igual dos homens e das mulheres nas tarefas domésticas e em todas as áreas da família; Se esforçar especialmente para que os homens se envolvam mais ativamente na paternidade responsável, na prevenção da gravidez, das doenças sexualmente transmissíveis e da Aids; Implantar também programas de assistência à saúde reprodutiva para atender as necessidades da mulher, inclusive das adolescentes, bem como criar programas para a informação, orientação e serviços de saúde reprodutiva acessíveis aos homens e aos jovens; Assegurar que mulheres e homens tenham acesso à informação, à educação e aos serviços necessários à boa saúde sexual e que possam exercer seus direitos e responsabilidades reprodutivas.


Há um capítulo dedicado especialmente à adolescência. A proposta é a de os problemas da saúde sexual e reprodutiva do adolescente, inclusive a gravidez, aborto inseguro e as doenças sexualmente transmissíveis/Aids, precisam de tratamento. O Relatório do Cairo recomenda, inclusive, que os países garantam o direito dos adolescentes à educação, à informação e à assistência para saúde reprodutiva. Que reduzam significativamente o número de gestações entre adolescentes e que os programas envolvam e treinem todas as pessoas, instituições, comunidades, escolas etc., responsáveis pela orientação de adolescentes no tocante ao seu comportamento sexual e reprodutivo.


Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Promulgado em 1990)


Define que todas as crianças e adolescentes têm direito à proteção integral, e que são sujeitos com direitos especiais porque são pessoas em processo de desenvolvimento. Determina que o atendimento das necessidades e dos direitos das crianças (até 12 anos) e adolescentes (de 12 a 18 anos) seja prioridade absoluta das políticas públicas do país. Também define meios de participação da população no estabelecimento e na fiscalização dessas políticas, através dos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente e dos Conselhos Tutelares.


O ECA coloca o Brasil em posição de vanguarda no reconhecimento da proteção integral da infância e juventude. Mas a existência de uma lei não garante necessariamente a sua execução. E embora seja um valioso instrumento na criação de condições jurídicas para uma série de ações, alguns pontos desse estatuto deixam margem para indagações: existem fatores que envolvem a saúde reprodutiva de adolescentes, que vão além da situação de maternidade, que está explicitamente protegida pelo Estatuto. Daí, a necessidade de se inserir, principalmente nas escolas, ações preventivas e discutir com os jovens os cuidados com a saúde reprodutiva e desenvolvimento de atitudes saudáveis em relação à sexualidade. Educar na área da sexualidade é educar para a cidadania, para a formação de sujeitos autônomos, solidários e competentes.


III - Uma possibilidade de ação coerente com essa concepção de Educação Sexual:


A cartilha que parafraseei acima propõe uma metodologia para tratar a Educação Sexual nas escolas. Consiste basicamente em:


Primeiramente, estar ciente que um dos fatores mais importantes para garantir projetos desta natureza é que a Educação Sexual esteja prevista no projeto anual da escola e que contemple todos os alunos em suas diferentes faixas etárias. Para isso é necessário sensibilizar a direção e outras instâncias de poder na instituição sobre a importância de um projeto desse porte. E se achar que terá problemas com pais e mães, marcar uma reunião e explicar a proposta e os objetivos, deixar o material que pretende usar disponível para quem quiser conhecê-lo e abrir um espaço para discussão tanto durante a reunião como em particular, caso seja necessário.


Segundamente, propor que a escola trate as questões da sexualidade e da prevenção das DST/Aids numa perspectiva dos direitos do cidadão e da cidadã e sob os princípios da eqüidade, entendendo por Educação Sexual um processo de intervenção que visa favorecer a reflexão sobre a sexualidade e a saúde reprodutiva, contemplando não só a informação sobre aspectos biológicos, mas também a discussão sobre sentimentos, valores, crenças, preconceitos, experiências pessoais, etc.


Para isso torna-se necessário que o profissional participe de um processo amplo e aprofundado de formação, tanto em termos de conhecimento teórico quanto de uma metodologia adequada. A sua formação é fundamental para que possa desenvolver seu trabalho com segurança e para que os alunos se sintam tranqüilos e motivados para expressarem suas opiniões sobre o assunto. Por conhecimento teórico entende-se, não só o conhecimento dos aspectos biológicos e psico-afetivos – como por exemplo: conhecimentos acerca dos aparelhos reprodutivos; dos métodos contraceptivos; das doenças sexualmente transmissíveis e da AIDS; do desenvolvimento das relações afetivas – sobre o tema, como também um conhecimento histórico-social acerca de algumas temáticas fundamentais – como por exemplo: teorias sobre o desenvolvimento da sexualidade na infância e na adolescência; teorias acerca das relações de gênero; e construção da auto-estima e formação da identidade sexual.


Quanto à metodologia, a que melhor tem encontrado resultados satisfatórios para desenvolver esse tema é a de linha participativo-construtivista. Esta linha metodológica parte do princípio que o conhecimento é uma construção, procurando oferecer aos alunos uma possibilidade maior de autonomia de raciocínio e que, conseqüentemente, levaria a uma autonomia de ação, isto é, na medida em que a pessoa é capaz de construir o próprio conhecimento, torna-se mais capacitado para entender e interpretar a realidade e a fazer intervenções no mundo em que vive. Nesse sentido, o professor deve partir sempre do conhecimento que o aluno já possui sobre o assunto e ir preenchendo as lacunas nas informações. As estratégias pedagógicas para o trabalho dentro desta metodologia devem ser lúdicas e criativas para facilitar a participação do aluno, criar o interesse grupal e possibilitar um clima de confiança que permita ao profissional identificar como as crianças e adolescentes se relacionam com as situações ligadas aos relacionamentos, afetos e a sexualidade. Dinâmicas de grupo, jogos educativos, estudos de casos, dramatizações produzem um bom resultado nesse sentido.


Por último é salientada a importância de um planejamento de parcerias, já que sabemos muito bem que a escola, sozinha, não será capaz de modificar a vulnerabilidade dos jovens frente a Aids ou de diminuir os casos de gravidez na adolescência, mas articulando-se com outros segmentos da sociedade que assumem os mesmos princípios democráticos poderá, sim, constituir-se num pólo irradiador destas transformações. Uma boa forma de se estabelecer parcerias é, inicialmente, verificar que tipos de programas na área da educação e da saúde têm sido oferecidos à comunidade onde a escola está inserida e que organizações oferecem esses programas. Feito isso, o segundo passo seria entrar em contato com essas organizações, sejam elas governamentais ou não-governamentais, e propor compartilhar idéias e recursos para a implantação deste tipo de projeto, a fim de evitar a duplicação de esforços e se garantir um outro tipo de apoio profissional. Seria interessante divulgar o projeto para toda a comunidade, mostrando que ele é importante e útil para todos e, quem sabe assim, obter sugestões e apoio.


Segue-se, então, na cartilha, uma série de oficinas que poderiam ser executadas com os alunos. Essas oficinas são formadas, normalmente, de um momento em que os alunos irão produzir algo que manifeste seu conhecimento acerca do tema e um momento em que é incitada uma discussão pelo coordenador da oficina. Para cada uma das oficinas propostas é acrescentada uma bibliografia relacionada às temáticas abordadas.


SOBRE O ESCLARECIMENTO SEXUAL DOS SERES HUMANOS EM NOSSA SOCIEDADE


De fato, hoje em dia e em nossa sociedade, o esclarecimento da vida sexual humana a adolescentes vem sendo visto pela maioria dos adultos como algo necessário, porém a noção errônea de grande parte dos homens e mulheres já crescidos a respeito de até onde vão os assuntos pertinentes para tal esclarecimento juvenil, prejudica a educação sexual de adolescentes de forma bastante significativa e expõe um problema ainda maior: a necessidade do esclarecimento da vida sexual humana a todos. Ou seja, para educar adolescentes, nesse sentido e em nosso mundo, deve-se educar também seus pais, professores e todos os adultos que forem designados para tal função, a saber, esclarecer a vida sexual humana (questão que por sinal, não é nada fácil e nem está resolvida).


Podemos encontrar em diversos colégios as chamadas palestras de “educação sexual”, já presenciei algumas, li sobre e escutei diversos relatos a respeito de tais acontecimentos. Nessas palestras os seguintes temas são abordados: como é o coito, como se deve agir para prevenir a gravidez e doenças sexualmente transmissíveis; são abordados também os problemas e basicamente o que são tais doenças. São apenas esses os assuntos pertinentes para esclarecer ao jovem o que significa sexo? Em minha opinião a resposta é negativa. Freud, que foi um importante psicanalista, acreditava que a sexualidade humana tivesse relação com praticamente todos os atos humanos. Eu não sou tão radical assim, mas acredito que fatores relacionados à sexualidade têm influência direta no comportamento social dos adolescentes que por sua vez é decisivo para a formação do próprio individuo e da própria sociedade. Questões como a relação entre ética e sexo, a diferença entre o significado da construção histórico-social do sexo e do ato sexual biológico, a função social e individual do sexo, atos sexuais não genitais, zonas erógenas, atração sexual, sexo e mídia, heterossexualidade e homossexualidade entre outras, deveriam ser abordadas nas palestras ou aulas de educação sexual, porém isso não ocorre por diversos motivos, entre eles o despreparo do palestrante, que normalmente é apenas uma única pessoa e só às vezes especializada. O esclarecimento sexual é uma tarefa extensa e complexa e como tal exige muito tempo (muito mais tempo do que o reservado para essa tarefa geralmente), profissionais preparados e com métodos pedagógicos em mãos. Aqui gostaria de ressaltar a importância de um especialista no ensino da sexualidade. Tal como se exige nível profissional para quem ensina, por exemplo, educação física e para evitar que os alunos aprendam coisas que venham a lhes prejudicar em sua saúde, o educador designado para esclarecer os assuntos referentes à sexualidade deve ter instrução de nível, pelo menos, superior. Essa necessidade se dá tanto em função da complexidade e da vasta extensão do tema referido quanto da absoluta importância individual e coletiva do esclarecimento desse assunto, que por motivos biológicos e sociais, está invariavelmente e necessariamente vinculado de forma intrínseca à vida humana. Sendo assim posiciono-me contra a possibilidade de todos os profissionais da área da educação não especializados no sentido de educação sexual, contribuírem nesse ponto fora de sua área, pelo motivo do despreparo desses para desempenhar tal função tão complexa quanto ensinar antropologia, que mesmo que alguém entenda sobre não se segue que saiba como educar nesse sentido.


As questões sobre sexualidade vão muito além do âmbito fisiológico, elas envolvem questões sociais, psicológicas e filosóficas (ética e estética, por exemplo). A visão de que o sexo serviria apenas para a reprodução é evidentemente equivocada, só é valida para seguidores de certas doutrinas religiosas que sustentam seus argumentos por conta da fé. Para os outros seres humanos que não optarem por esse tipo de doutrina, é importante apresentar o sexo, também como um meio de aquisição de prazer e importante ritual de significados adversos em nossa sociedade. É importante ensinar como se pode utilizar de nossa sexualidade tanto quanto como não se pode, como o sexo pode nos ajudar a ter uma vida feliz e como pode nos levar àquilo que não queremos. Essas questões transcendem o conteúdo acadêmico da medicina, por exemplo, é realmente muito difícil ensinar sobre esse tema peculiar e trans-disciplinar sem um grau de estudos de qualidade, por isso essa especialização se faz necessária. Apesar dos assuntos pertinentes para esclarece ao ser humano sobre sua sexualidade envolverem tantas coisas distintas, elas não são ensinadas de forma geral, mas apenas de uma forma insuficientemente parcial em nossa formação básica. Talvez porque seja conveniente para o Estado e para os detentores do poder econômico promover ações de controle populacional e prevenção de doenças, mas nada conveniente tornar a população esclarecida nesse sentido. Foucault fala da estimulação e repressão sexual imposta por instituições como as igrejas e o Estado como ações com uma função local e tática visando interesses desligados dos aparentes motivos coletivos humanistas. Evidentemente a questão da sexualidade é mais uma peça na construção e manutenção do poder, já que está ligada diretamente a interesses econômicos, e talvez seja essa a verdadeira causa da falta de profissionais preparados para ensinar sobre uma questão tão importante na vida dos homens e mulheres, como é a questão da sexualidade humana.


BIBLIOGRAFIA GERAL


ECOS - Comunicação em Sexualidade. Sexo Sem Vergonha - uma metodologia de trabalho com Educação Sexual. São Paulo: ECOS, 2001. Site que possibilita o acesso ao texto integral: http://www.adolec.br/bvs/adolec/P/textocompleto/sexo_sem_vergonha/indice.htm

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. Sobre as teorias sexuais das crianças. (1908 - v. 9) Site que possibilita o acesso ao texto integral: http://www.chasqueweb.ufrgs.br/~slomp/edu01011/freud-esclarecimento-sexual-.rtf

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. O esclarecimento sexual das crianças. (1907 - v. 9) Site que possibilita o acesso ao texto integral: http://www.chasqueweb.ufrgs.br/~slomp/edu01011/freud-teorias-sexuais-.rtf

FOUCAULT, Michel - A História da Sexualidade, por Lara Haje. Site que possibilita o acesso ao texto integral: http://www.abordo.com.br/sat/res01_lara.htm

Educação Sexual – Gravidez Precoce – “Questão de Escolha, agora e no futuro”, Revista Nova Escola, Ano XXIII, nº 212, Maio de 2008.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Site : www.ibge.gov.br

Dráuzio Varella Site: http://drauziovarella.ig.com.br/

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