Técnicas de Ensino **
De Psicologia da Educação
INTRODUÇÃO
Para ser professor, é imprescindível o domínio da matéria. Séculos se passaram desde a crença que o mestre teria que ser o detentor do conhecimento, e distribuí-lo em doses homeopáticas, numa posição hierárquica superior à do aluno. Hoje, ser professor é dominar o assunto, mas dominar também a forma como transmitir a noção pretendida.
A proposta deste trabalho é apresentar três técnicas de ensino bastante diferentes do tradicional professor-falando-aluno-ouvindo. Ao abordar o behaviorismo - num sentido bastante amplo - e sua revolucionária máquina de ensinar, a democrática Escola da Ponte e a dramatização como técnica prática de ensino, propomo-nos a uma reflexão acerca também da resposta do aluno como participante ativo do processo educacional, e não somente um mero receptor do conteúdo - não do conhecimento.
Não seríamos ingênuos, portanto, de tirar conclusões precipitadas a respeito desta ou daquela técnica como salvadora do ensino (não do ensino mundial, nacional ou regional, mas da NOSSA atividade de ensino, bem particular mesmo), mas a reflexão pura sobre cada um destes atos pode desenvolver pelo menos a curiosidade em movimentar as estruturas tradicionais - nem sempre boas, e nem sempre ruins - apenas com o propósito de qualificar a tão degradada atividade de lecionar.
I. BEHAVIORISMO
O Behaviorismo tem como unidade conceitual o comportamento (behavior). Os behavioristas trabalham com o princípio de que a conduta dos indivíduos é observável, mensurável e controlável similarmente aos fatos e eventos nas ciências naturais e nas exatas. Com esta teoria, a Psicologia alcança o status de ciência por ter um objeto palpável.
Existem três linhas seguidas dentro do Behaviorismo, entretanto, nos deteremos mais à descrição do Behaviorismo Radical, como fizemos em nossa apresentação em aula.
1.1 Behaviorismo Metodológico
John Watson declarou, em seu artigo “Psicologia vista por um Behaviorista”, que a psicologia era um ramo puramente objetivo e experimental, que tinha como finalidade prever e controlar o comportamento de todo e qualquer indivíduo. Baseou-se no condicionamento clássico. Exemplo: Cães salivam não só quando vêem comida, mas também quando associam algum gesto ou som à chegada de comida. O fenômeno de associação (Estímulo Resposta) acredita na existência da mente, mas a ignora em suas explicações sobre o comportamento. Os estados mentais não seriam objetos de estudo empírico.
1.2 Behaviorismo Filosófico (Analítico ou Lógico)
Trata do sentido e da semântica das estruturas de pensamento. A disposição mental – que é mais um tipo de comportamento - é a disposição comportamental, um reflete o outro. Assim, são analisados os estados mentais intencionais e representativos.
1.3 Behaviorismo Radical
Adotando uma linha diferente do behaviorismo metodológico, o behaviorismo radical “não nega a possibilidade da auto-observação ou do autoconhecimento ou sua possível utilidade, mas questiona a natureza daquilo que é sentido ou observado e, portanto, conhecido” . Tal teoria, desenvolvida por B. F. Skinner a partir de seus estudos de laborário, e acompanhada por diversos psicólogos, tais como Ferster, Sidman, Schoenfeld, Catania e Jack Michael, surgiu como uma nova proposta filosófica dentro da Psicologia, e como uma espécie de crítica ao behaviorismo metodológico de cunho preponderantemente positivista.
Os estudos de Skinner avaliam a repercussão e a validade das pesquisas científicas experimentais no estudo do comportamento, considerando, por exemplo, que as noções desenvolvidas por Darwin no que se refere à seleção natural também poderiam ser aplicadas ao comportamento dos indivíduos. Trata-se o behaviorismo radical de um caso especial da filosofia da ciência que não se limita a ser uma ciência do comportamento humano, justamente por considerar que as diferentes explicações sobre o comportamento humano deveriam ser resolvidas não com base em especulações abstratas, mas em evidências refutáveis, tudo em razão dos experimentos realizados sob o rigor da produção de conhecimento científico (conforme dito acima, o Behaviorismo Radical teve sua origem científica em ambiente controlado de laboratório e a análise do comportamento é a aplicação prática das técnicas estudadas).
Na realidade, o objeto de estudo do behaviorismo radical foca a relação entre o indivíduo e seu ambiente físico, químico ou social, não apelando para estados mentais como causa do comportamento, como o fazia o Behaviorismo Metodológico. Para Skinner e para os demais behavioristas radicais, a análise do comportamento, por pertencer à ciência natural, procura entender a relação entre o indivíduo e o ambiente, podendo as probabilidade de emissão serem diminuídas ou aumentadas conforme a história de condicionamento do indivíduo, e a apresentação ou retirada de estímulos ambientais.
1.3.1 A Máquina de Ensinar de Skinner
Precursoras dos computadores e dos sistemas virtuais de ensino, a máquina de ensinar foi proposta por Skinner como um modelo ideal de instrumento de aprendizado.
Para o seu criador, o equipamento apresentava inúmeras vantagens, especialmente no que se referia à efetividade do estudo, por oferecer ao aluno condições rápidas e aperfeiçoadas para tanto, além de se mostrar bastante aperfeiçoada em relação aos sistemas de correção por parte dos professores, já que, neste último caso, os alunos não recebiam, de imediato, o resultado sobre acertos ou erros. Assim, o uso da máquina de ensinar apresentava resultados imediatos, tanto por levar mais rapidamente à formação do comportamento correto, quanto pelo efeito motivador de o estudante estar livre da indecisão ou ansiedade sobre seu sucesso ou falha.
O trabalho, portanto, seria prazeroso, também por não requerer esforço do aluno para estudar. Skinner destacava, também, como função da máquina, fornecer ao aluno um relatório da adequação da sua resposta, o que era importante não apenas para uma aprendizagem eficiente, mas também para gerar um alto nível de motivação e de entusiasmo.
Outra vantagem destacada por Skinner era a de que o aluno seria livre pra se mover em seu próprio ritmo, ao contrário do que ocorre em relação a outras técnicas, em razão das quais os alunos eram forçados a caminharem juntos – como resultado: os estudantes com maior agilidade de assimilação perdiam tempo esperando os outros alunos, e os mais lentos eram forçados a responder muito rapidamente. Com a máquina de ensinar, cada aluno teria seu ritmo respeitado e todos aprenderiam o material profundamente.
A máquina possuía, ainda, outra característica: cada estudante, através de uma grande quantidade de pequenos passos organizados de forma coerente, seguiria um programa cuidadosamente planejado, saindo de um estágio inicial, no qual ele seria pouco familiarizado com o material, para um estágio final, no qual ele se tornaria competente.
1.4 O impacto do Behaviorismo na Educação
Cada professor tem alguma crença ou teoria sobre aprendizagem, que é o elemento motor de sua estratégia de ensino. Professores que concordam com as afirmativas abaixo são coerentes com os psicólogos que seguem a teoria comportamentalista:
- Estudantes necessitam de notas, estrelas douradas e outros incentivos para aprender e cumprir as tarefas escolares;
- Estudantes deveriam receber notas de acordo com padrões uniformes de resultados alcançados que o professor estabeleceu para a classe ;
- Curriculum deve ser organizado por temas que são cuidadosamente organizados em seqüências.
Professores que aceitam a perspectiva comportamentalista assumem que os alunos são passíveis e moldáveis e que o comportamento dos estudantes é uma resposta a seu ambiente passado e presente e que todo o comportamento é aprendido. Como decorrência, qualquer comportamento pode ser analisado em termos de seu histórico de reforços. Uma vez que a aprendizagem é uma forma de modificação de comportamento, a responsabilidade do professor é construir um ambiente em que o comportamento correto do estudante seja reforçado.
II. A ESCOLA DA PONTE
A Escola da Ponte é uma escola pública, situada em Portugal e teve início em 1976, sob o comando de José Pacheco. A escola é pequena, com cerca de 200 alunos, e recebe crianças do primeiro e segundo ciclos do ensino básico (o que seria dos 5 aos 13 anos).
Quanto à estrutura da Escola da Ponte: os alunos formam grupos heterogêneos, não estando classificados por turmas nem por anos de escolaridade; não há salas de aula; não existe série ou currículo; não existe diferença hierárquica entre professores e alunos; e não há espaço para exames finais (à medida que se sente preparado, cada aluno procura o professor e, juntos, fazem a avaliação do trabalho realizado).
Na Escola da Ponte, as crianças decidem o que e com quem estudar, em vez de classes, grupos de estudo. Independente da idade, o que as une é a vontade de estar juntas e de aprender juntas.
As técnicas de ensino utilizadas na Escola da Ponte visam principalmente à emancipação dos alunos. Os instrumentos pedagógicos , como eles mesmo chamam, são:
- Direitos e Deveres
- Assembléia da Escola
- Comissão de Ajuda
- Debate
- Biblioteca
- Caixinha dos Segredos
- Caixinha dos Textos Inventados
- Eu já Sei
- Eu Preciso de Ajuda
- Professor Tutor
- Grupos de Responsabilidade
A Assembléia da Escola tem como objetivo fazer com que os alunos aprendam a exercer a solidariedade, pois, através dela, as crianças participam de um projeto de preparação para a cidadania no exercício da cidadania, em vista de as próprias crianças participarem da organização interna da escola. Na Assembléia, os alunos escolhem os seus próprios direitos e deveres de maneira democrática: todos expõem as suas opiniões em um debate e, após, as consideradas mais adequadas são votadas.
No caso de serem expostos problemas graves mediante a Assembléia, os professores e alunos escolhem seis alunos para resolvê-los, formando a comissão de ajuda, os quais se baseiam nos direitos e deveres escolhidos. Assim, temos a responsabilidade do aluno a funcionar e não a voz autoritária de um professor a falar sempre mais alto.
A Escola da Ponte preocupa-se, principalmente, com os problemas dos alunos, pois tem como intuito formar cidadãos felizes. Para ajudá-los nos problemas pessoais foi criada a caixinha de segredos, na qual os alunos deixam cartas, recados e pedidos de ajuda. Isso faz com que os professores reaprendam, pois passam a compreender o porquê das dificuldades de cada aluno.
Os alunos são avaliados de modo totalmente distinto daqueles praticados nas escolas tradicionais: eles próprios decidem quando é a hora de realizarem uma prova, oral ou escrita, escrevendo um bilhete aos professores intitulado: eu já sei. O aluno deve mostrar total responsabilidade, pois ele próprio toma todas as decisões.
Quando o aluno está pesquisando o assunto que solicitou é normal surgirem diversas dúvidas. Quando isso ocorre, procuram a ajuda de um professor, colocando o seu nome e a dúvida em um mural (existem vários espalhados pela escola). Esse processo é intitulado eu preciso de ajuda. Normalmente, os professores, antes de responderem a questão, indagam o aluno sobre o que ele já sabe tentando fazer com que, assim, ele próprio responda a sua dúvida, através da reflexão.
Cada grupo, formado de 8 a 11 alunos, possui um monitoramento feito por um professor tutor, o qual é escolhido por questão de afinidade, já que vai acompanhá-los por um certo período de tempo.
Tanto os alunos quanto os professores e funcionários são responsáveis por um determinado aspecto do funcionamento da escola - todos trabalham em união para que as atividades se realizem de maneira satisfatória.
Ao refletirmos sobre esses instrumentos e a compreensão dos alunos sobre eles, a Escola da Ponte parece ser algo imaginário, ilusório, pois tendemos a realizar uma comparação com as escolas tradicionais, rígidas e autoritárias, onde os alunos nem possuem voz, sendo totalmente submissos ao professor.
Logo abaixo anexamos uma entrevista feita com os fundadores da Escola da Ponte sobre o trabalho desenvolvido na Escola, e a carta feita por uma aluna da Escola da Ponte em 2003, questionando a atitude do Ministro da Educação, o qual, além de não cumprir as promessas feitas aos alunos, demitiu todos os professores do 3º ciclo, dos quais os alunos sentiram imensa falta.
Através da leitura da entrevista e da carta podemos melhor entender o funcionamento da escola e compreendermos que ela realmente funciona e torna as crianças cidadãos exemplares.
2.1 A Entrevista - Perguntas Freqüentes
1. A escola da Ponte é privada? Não, a Escola da Ponte é uma escola pública estatal. Os alunos não pagam nada para freqüentar a Escola e os orientadores educativos são todos contratados pelo Ministério da Educação.
2. Quais os anos de escolaridade que existem na Escola da Ponte? A Escola da Ponte, (Escola Básica Integrada com Jardim de Infância de Aves/S. Tomé de Negrelos) recebe alunos desde o 1º até ao 9º ano - terminal do ensino básico. Neste momento, o Núcleo da Iniciação e da Consolidação continuam a funcionar no Largo Dr. Braga da Cruz, o Núcleo do Aprofundamento encontra-se a funcionar em Vila das Aves, num edifício que habitualmente se denomina por “Escolinha”. A "Escolinha" era, originalmente, uma escola do 1º ciclo (Plano dos Centenários). Para o núcleo de Aprofundamento aí funcionar foi necessário acrescentar dois contentores. Por outro lado, os alunos deste Núcleo utilizam os laboratórios, o pavilhão e a cantina da Escola Secundária D. Afonso Henriques. Para a tipologia da Escola se concretizar só falta o Jardim de Infância. Continuamos a acreditar que tal será possível, em breve.
3. Quantos alunos freqüentam a Escola da Ponte? A Escola da Ponte tem, presentemente, 220 alunos a frequentá-la.
4. Existe Ensino Especial na Escola da Ponte? A nossa Escola considera que todos os alunos são especiais. Isto não é apenas uma forma de contornar a questão. Tentamos ao máximo que cada aluno receba da parte da escola o tipo de apoio de que necessita.
Todos os alunos realizam o mesmo tipo de trabalho e encontram-se enquadrados em grupos de trabalho. Os professores vão dando o apoio que é considerado mais adequado, sem fazer discriminação relativamente a cada aluno. Todos os professores são professores de todos os alunos. Todos diferentes, todos iguais, todos com o apoio de que necessitam.
5. De que forma os alunos são avaliados na Escola da Ponte? A avaliação na Ponte é feita de várias formas. Em primeiro lugar, através da observação. Esta é uma das formas de avaliação que nos permite avaliar melhor os alunos em termos de valores e atitudes. Consideramos que é fundamental e trabalhamos constantemente para que os alunos sejam solidários, responsáveis e autônomos. No que diz respeito aos conhecimentos (é lógico que a separação entre todos estes factores é artificial, mas torna mais simples a explicação), estes são avaliados de diferentes formas, consoante o nível em que os alunos se encontram.
Enquanto os alunos ainda não sabem ler e escrever com correcção, a avaliação é realizada em grande parte através da observação informal do trabalho produzido pelos alunos.
À medida que os alunos começam a ser mais autónomos e começam a elaborar o seu plano diário (onde planificam o trabalho para esse dia e, no fundo, se comprometem a cumprir certos objectivos), a avaliação passa a ser efectuada de outro modo.
Em primeiro lugar, os alunos auto-avaliam-se. Sempre que consideram que dominam um determinado ponto do programa escrevem-no numa folha do "Eu já sei". Depois, um professor que domine um pouco melhor a área a que diz respeito o objectivo dirige-se ao aluno e faz uma avaliação "mais formal". Esta avaliação pode ser efectuada de várias formas: uma conversa, um exercício escrito, a resolução de um problema, etc. Tudo depende do objectivo em questão. Por outro lado, tenta-se sempre que os objectivos anteriores também sejam avaliados de forma a que a avaliação sejam um processo contínuo.
Quando um determinado aluno pensa que esgotou todos os instrumentos que tem ao seu dispor para estudar um determinado assunto (biblioteca, computador, colegas), e mesmo assim não conseguiu compreender um determinado ponto, recorre ao professor. O aluno escreve então o seu nome, a data e tema em estudo na folha do "Eu preciso de ajuda". Depois, o professor dirige-se ao aluno (ou alunos) com a dificuldade e tenta esclarecê-lo no que os alunos costumam chamar de “aula directa”. Por outro lado, o comportamento na sala, a Assembleia de Escola, os Debates e as apresentações dos trabalhos constituem, também, excelentes momentos de avaliação.
6. Quantos professores trabalham na Escola da Ponte? O Ministério da Educação paga, neste momento, o salário a 39 orientadores educativos na Escola da Ponte. Infelizmente, este será o segundo ano em que não contamos com nenhum psicólogo contratado pelo Ministério da Educação. A Escola tem-se socorrido psicólogos que se encontram desempregados, através de um protocolo com o Centro de Emprego (POC). Infelizmente, estas situações são extremamente precárias e não permitem a realização de um trabalho continuado. Nenhum dos orientadores educativos tem qualquer redução de horário.
7. Quando é que os orientadores educativos da Escola da Ponte se reúnem? Os orientadores educativos da Ponte reúnem-se em vários momentos. A quarta-feira de tarde encontra-se destinada a reuniões. Estas podem ser de Núcleo (Iniciação, Consolidação e Aprofundamento), de Dimensão (Lógico Matemática; Naturalista; Linguística; Identitária; Artística) e de Conselho de Projecto (gerais). Normalmente, todas as quartas-feiras existe uma reunião geral e uma de núcleo ou dimensão. Nem sempre estas reuniões de quarta-feira são suficientes e é, então, necessário que os orientadores educativos se reúnam noutros momentos.
8. Depois de os alunos saírem da escola, têm dificuldades em acompanhar o "ensino tradicional"?
Pensamos que a resposta a essa pergunta é: o ensino tradicional é que tem dificuldade em acompanhar estes alunos. Os alunos que saem da Escola da Ponte e rumam a outras escolas têm tido, sempre, em média, melhores classificações do que os colegas de outras escolas. Nós, na Escola da Ponte, não pensamos que as classificações sejam a melhor forma de avaliar os alunos, mas estes são os únicos dados de que dispomos vindos de outras escolas e, de qualquer modo, são os dados que são relevantes para as escolas mais tradicionalistas. Nos últimos anos tem havido cuidado para, de alguma forma, preparar os alunos para o trabalho que se realiza noutras escolas: terem que estar sentados a ouvir o professor, não trabalharem em grupo, só terem o manual como auxiliar, terem que decorar a matéria toda para um teste, as notas, etc...
9. Em que consiste o Método Global? Na iniciação à leitura e à escrita existem diferentes métodos. Uns defendem que a iniciação deverá começar pela letra, posteriormente, a sílaba e, finalmente, a palavra. O método global, pelo contrário, defende a primazia da frase ou da palavra. A letra é algo que não tem significado para a criança. A frase e a palavra, sim.
Na nossa escola, os alunos costumam contar, por exemplo, o que aconteceu no seu fim-de-semana. Posteriormente, o professor escreve a frase no quadro ou no seu caderno e os alunos copiam a frase e inventam outras frases com uma ou mais palavras da frase inicial.
Com o tempo, os alunos vão aprendendo a ler. É frequente encontrar alunos que, no Natal, já lêem com muita fluência. Quando os alunos começam a ler, inicia-se o trabalho de forma a que eles tomem consciência da existência da sílaba, de forma a que as apliquem em novas palavras. Quando já lêem e escrevem com algum correcção, começam a trabalhar os chamados "casos especiais" da nossa língua: diferentes formas de escrever o som "z", etc...
2.2 Carta dos Alunos ao Ministro da Educação
Escola da Ponte, 22 de Setembro de 2003.
Senhor Ministro da Educação,
Nas reuniões semanais da nossa Assembleia, nós aprendemos o que são os nossos direitos e os nossos deveres. Por isso, decidimos escrever uma carta ao Sr. Ministro da Educação. É uma carta assinada por todos os alunos. Decidimos enviar ao senhor esta carta, que ela fala sobre o que aprendemos a sentir, a respeitar, e sobre o significado da palavra AJUDAR e da palavra AMAR, e sobre como a escola que se transforma em família. Para que assim o senhor perceba que está a destruir o lar e a família de muitas crianças.
Na nossa opinião, muitas pessoas não estão a par do que está acontecendo com a nossa escola. Já pensámos em publicar artigos para que, assim, as pessoas tenham noção do problema que diariamente temos vindo a enfrentar e também para que, juntamente connosco lutem pela justiça e pelo ensino moderno.
Já não sabemos, sinceramente, o que fazer para que possamos trabalhar em paz e com professores. A escola já fez de tudo para poder voltar ao normal. É preciso arranjar uma solução, para que possamos ter os nossos professores de volta e possamos estudar. Para fazermos com que os nossos professores voltem, temos de demonstrar quanto fortes somos e conseguir o que tanto merecemos. Os nossos professores são nossos amigos e sabem ajudar-nos no que precisamos porque eles têm sabedoria. E nós estamos habituados com eles. Vamos mandar uma carta aos nossos professores, para lhes dizer a falta que eles fazem na escola. Dizemos aos nossos professores que gostamos muito deles e que estamos com muitas saudades.
Nós vamos continuar a lutar pelo 3º ciclo. Vamos fornecer a todos os alunos o e-mail do Ministério da Educação, para que todos escrevam ao senhor ministro. Vamos ter muita esperança e também muita paciência, até nos dar todas as condições necessárias para nós podermos estudar com gosto e seriedade. Vamos mandar ao ministro uma gravação do trabalho que os nossos colegas monitores fazem, para o senhor ver que, mesmo sem os nossos professores, nós não nos vamos abaixo. Nós mantemos a calma e ajudamos os mais novos a perceber o que se passa. Venha visitar a nossa escola, para ver que é uma escola com sucesso. Ao ver os nossos colegas do 7º ano a trabalharem como professores, certamente vai dar-nos o 7º ano.
O senhor não se pode esquecer de que é o Ministro da Educação. E nós (os alunos) não podemos passar a vida toda a fazer de monitores. O senhor deve devolver-nos os nossos professores e o 3º ciclo.
O senhor Ministro sabe o que é ser pai de um aluno da nossa escola? O senhor Ministro aceita vir à nossa escola? Queremos que o senhor ministro veja a nossa situação, para que possa ver o quanto nos está a prejudicar. Queremos que o Sr. Ministro veja as condições que nós temos e nos dê os professores. Continuamos a insistir com o senhor Ministro, até que veja realmente o nosso projecto, pois assim pode cair na realidade.
Senhor Ministro da Educação, seja simpático connosco, que terá uma recompensa. Se não nos responder, nós iremos fazer uma conferência de imprensa só com alunos.
Nós precisamos de um ginásio, mais espaço para brincar, um campo de futebol, mais espaço para estudar, e precisamos de uma cantina maior. Também precisamos de ter confiança de que vamos conseguir. Nós só fazemos pressão porque queremos que se realize o nosso sonho. Nós, os alunos, estamos a sofrer. Mas, se o senhor não fizer nada, nós continuamos a lutar com unhas e dentes pelo o que é nosso, nós temos força e a esperança é a última coisa a morrer. Nós nunca iremos desistir dos nossos direitos.
Estamos todos juntos, “um por todos e todos por um”, demore o tempo que demorar!!! Nós estaremos sempre unidos e pediremos o que já era prometido. Se o Governo prometeu, agora faça o que disse, para nós sermos uns alunos felizes. Se o Governo nos prometeu, por que razão, agora, não cumpre o que prometeu? É muito feio uma pessoa prometer e depois não cumprir.
Quais as razões de não responder durante quase DOIS anos aos nossos pedidos? Porque nunca nos visitou, para nos conhecer pessoalmente e tentar perceber o que está a fazer? Teve a oportunidade de pensar ao que está a chegar este assunto por causa das suas teimosias? Esperamos que seja consciente ao pensar nisto. Já pensou nas vantagens deste projecto em relação aos outros métodos de ensino completamente normais? Nós lutamos como temos lutado para mostrar ao senhor ministro que o projecto da Escola da Ponte é importante de mais para poder acabar. Senhor Ministro, deixe-nos continuar com este projecto! Por favor!
A Presidente da Mesa da Assembléia Em nome de todos os Alunos da Escola da Ponte que elaboraram e aprovaram esta carta
Constança Azevedo
ALUNOS DA ESCOLA DA PONTE
III. A DRAMATIZAÇÃO COMO TÉCNICA DE ENSINO
O método tradicional de aula, em que o professor disserta sobre o assunto e é complementado pelo conhecimento livresco, pode não ser eficaz à medida que, após realizadas as provas, o assunto não permanece a longo prazo na memória dos alunos. Isto acontece porque o assunto, muitas vezes distante da realidade do aluno, lhe é desinteressante.
A dramatização apresenta-se como uma técnica de ensino cujo princípio é o de causar uma impressão no estudante. Através de variadas técnicas de expressão e abordagem, é possível fazer o aluno vivenciar os assuntos que lhe são propostos, independentemente da área que se queira trabalhar. Assim, a visualização do assunto e o próprio assunto são incorporados ao mesmo tempo, e isso desencadeia, a princípio, duas vantagens: a incorporação do método de reflexão e de imaginação, e a apreensão do assunto em si.
Os cursos pré-vestibulares utilizam esta técnica: professores dramatizam situações tornando a aula mais atraente. A dramatização é comumente utilizada, também, no ensino de enfermagem, em que os alunos criam situações de problemas de saúde e o respectivo atendimento, vivenciando situações que enfrentarão no exercício da profissão.
Portanto, a dramatização faz com que o estudante vivencie uma situação, e esta experiência lhe causará maior impacto que o conhecimento livresco, fazendo com que o assunto se torne mais arraigado na sua memória.
O ensino da dramatização é um recurso que libera bloqueios e timidez. Um objetivo importante da expressão dramática é o de desenvolver a adaptação da criança ao meio em que vive, e também mostrar a ela sua capacidade de transformação deste mundo. Através da expressão dramática podemos obter o desenvolvimento integral da criança, pois trabalhamos sua motricidade fina e ampla e oportunizamos um trabalho com vocabulário próprio. A expressão dramática também desenvolve hábitos e atitudes, e é por tudo isso um dos recursos mais vivos e mais criativos de que se pode lançar mão no dia-a-dia de uma escola (Revista do Professor, 1986).
Obviamente, esta técnica não é uma estratégia definitiva, mas pode ser, de fato, um poderoso recurso nas mãos de um professor que saiba fazer bom uso dela.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quando escolhemos o assunto “técnicas de ensino” para realizarmos o respectivo trabalho, tínhamos como objetivo aprendermos novos meio de ensinar, em vista de sermos, todos, futuros professores.
Já tínhamos ouvido falar a respeito da Escola da Ponte, que se trata de uma escola inimaginável, totalmente distinta de todas as que conhecemos e, por isso, recorremos a ela para tentarmos entender como técnicas tão distintas das tradicionais funcionam de maneira tão satisfatória.
Partindo do pressuposto de que o intuito de uma escola é formar cidadãos, podemos chegar à conclusão que isso ocorre, sim, na Escola da Ponte. Considerando que o aluno deve estar pronto para o mundo e deve ser motivado para isso, a Escola estudada tem como intuito mostrar ao aluno o porquê e o para que do seu esforço, formando, assim, alunos prontos para exercer a cidadania.
A principal questão é se tais técnicas funcionariam em diferentes escolas, em vista de os alunos estarem acostumados ao padrão da escola tradicional.
Já ao abordarmos a questão da dramatização, pretendíamos encontrar algo mais palpável e fácil de ser exercidos por nós, professores, nas escolas que iremos lecionar, ou seja, algo não tão revolucionário quanto às técnicas utilizadas na Escola da Ponte. Chegamos à conclusão de que os alunos gostam da dramatização, pois tendo uma visualização do conteúdo passam a melhor compreendê-lo, além, é claro, de gostarem, em sua maioria, de realizar tal atividade, pois os diverte. Ou seja, os alunos gostam de aprender por meio de atividades que dêem prazer a eles, que sejam satisfatórias e não que os repreendam os fazendo sentirem-se inferiores e os levando, em alguns casos, a largarem a escola.
A máquina de ensinar, proposta por Skinner como uma técnica ideal de ensino, também pode ser considerada uma atividade prazerosa, pois o aluno recebe respostas imediatas, sendo, assim, a todo o momento motivado e entusiasmado a continuar o exercício.
Tanto as técnicas utilizadas na Escola da Ponte, quanto a máquina de ensinar deixam o aluno livre para se mover em seu próprio ritmo. Dessa maneira, todos os alunos atingem um bom resultado final, evitando competições e desestímulos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALENCAR, Eunice Maria Lima Soriano de. Psicologia : introdução aos princípios básicos do comportamento. Petrópolis: Vozes, 1986.
LEMOS, Lúcia de. Dramatização na escola primária. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1969.
SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix, 1974.
Entrevista Escola da Ponte. Disponível em <(http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/)>. Acesso em 15 de junho de 2008.
Skinner fala sobre a Máquina de Ensinar. Disponível em <http://br.youtube.com/watch?v=vmRmBgKQq20 >. Acesso em 16 de junho de 2008.
Instrumentos Pedagógicos. Disponível em <http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/html2/portug/projecto/instrume.htm>. Acesso 15 de junho de 2008.
Revista do professor (Porto Alegre). v.2 n.7 jul/set. Porto Alegre: Centro de Pesquisas e Orientação, 1986.

