O testemunho de Daniel Paul Schreber (1842-1911) em

Memórias de um Doente dos Nervos (1903)

Construção Hipertextual dos Alunos da Disciplina de Psicopatologia I - UFRGS 2007/01

 

Schreber: o delírio como defesa

 

A partir de alguns capítulos escritos por Schreber e de artigos sobre este caso, é possível realizar uma análise sobre a relação deste com o pai, bem como sobre possíveis propulsores para suas crises mentais.

A biografia de Schreber e de sua família indica que seu pai, Daniel Gottlieb Moritz, apesar de carismático, era muito disciplinado e audacioso. Criou em sua época um sistema de promoção de saúde física a partir de atividades ao ar livre e, por essa razão, é reconhecido até hoje na Alemanha. O interesse pela saúde havia sido gerado por ter sido uma criança muito doente, de baixa estatura e bastante frágil. Através de suas crenças no que deveria ser seguido para a obtenção de uma boa saúde, as utilizou também na criação de seus filhos, sendo que Schreber, após a morte de seu outro filho homem, seria seu paciente “em turno integral” (Niederland, 1981). Além do lugar de destaque que o pai e outros ancestrais haviam conquistado na sociedade, havia o fato do perfeccionismo de saúde que este prezava. Schreber, inserido neste contexto, pode ter criado uma imagem de seu pai como autoritário e exigente de uma perfeição vinda de seu mais assíduo paciente, o próprio filho. Além disso, a exigência e a expectativa de sucesso na família Schreber pode ser observada também pelas tantas incidências do nome Daniel nas gerações, que se repete desde seu avô paterno. E como seus antecedentes tiveram significativo destaque em suas funções, pode soar para Schreber que ele deva retribuir da mesma forma o nome que lhe foi dado. Vale também lembrar que Schreber, após a morte do irmão, torna-se o único filho homem da família, o que para ele pode ter reforçado a condição de ostentar um poder herdado, agora unicamente por ele.

A estrutura psicótica se dá quando, ao invés do sujeito desejar o desejo do Outro, o sujeito se coloca como objeto desse desejo. Neste caso, o pai de Schreber, na figura do Grande Outro, não supõe, na idéia de Schreber, o desejo deste. Então Schreber se coloca numa posição de suprir tudo aquilo que o Outro deseje. Ele vê a figura do pai como o Ideal do Eu inatingível, mas ao mesmo tempo se coloca como objeto de satisfação do pai sujeito.

Esta imagem ideal de poder e de autoridade social trazida por seus ancestrais e, especificamente, por seu pai, estaria internalizada em Schreber a partir do Ideal do Eu que este cria, sendo impossível para ele assumir um lugar como esse. Tendo o pai como base de seu Ideal do Eu, como modelo de uma autoridade parental em seu superego (Kaufmann, 1996), poderia ser impossível ou assustador chegar a este “eu modelo”. Pensando dessa forma, Schreber parece ter sido castrado, pois cria um Eu Ideal que compara ao seu Ideal do Eu. No entanto, tudo o que envolve o pai e a figura de autoridade que ele representa está no núcleo foracluído de Schreber, ou seja, a figura paterna pertence apenas ao pai. Schreber se coloca apenas como objeto nesta relação, pois foracluiu a figura de autoridade, continuando objeto das expectativas do pai. Esta foraclusão cria uma lacuna no real, sendo preenchida por um delírio no real de que possui a grandeza buscada ao criar com Deus um “povo Schreber”. Mesmo neste delírio, Schreber se coloca como objeto de Deus. Diante das situações de cargos de trabalho assumidos, por exemplo, Schreber se viu como um filho intruso e indefeso, frente a figuras paternas ameaçadoras (Niederland, 1981).

Ambas as vezes em que caiu em crise, fatores em relação a cargos profissionais antecederam estes momentos. A primeira crise, em 1884, coincide com a candidatura de Schreber ao Reichstag (equivalente a membro do congresso da Alemanha). Na época, ser membro do Reichstag significava opor-se a Bismark, figura de pai na Alemanha deste período. Não se sabe muito sobre este momento da vida de Schreber, o que faz pensar que ele retirou sua candidatura ou foi derrotado. No momento em que Schreber é convocado a ser membro do Reichstag, ele poderia já ter idéia de que não seria eleito. Desta forma, estaria se colocando novamente como objeto de um pai, Bismark, para que esta autoridade se sobressaia e goze da vitória a partir de um objeto (Schreber) utilizado para satisfazer este desejo. Porém, ao se deparar com o Ideal do Eu de autoridade, inatingível de acordo com seu Eu Ideal, Schreber entra em melancolia e, como defesa desta insuportável dor, entra em delírio. A segunda crise havia se desencadeado, segundo Schreber, após sua designação para o alto cargo de juiz presidente da Corte Superior de Apelos, que também pode ser interpretado como um lugar de poder a ser ocupado (Niederland, 1981). As duas situações possuem um fator em comum: a insustentabilidade de assumir um papel masculino real em sua vida. A solução para fugir dessa posição desesperadora seria adoecer, psicotizando, o que realmente ocorre.

No entanto, mesmo sendo disparadas em momentos como os citados acima, as manifestações psicóticas apresentadas por Schreber não são efeitos imediatos de alguma situação, mas se constroem a partir de uma luta insistente e superinvestida do eu para se defender de uma dor insuportável (Nasio, 2001). Neste sentido, toda a história da relação de Schreber com seu pai seria também a história de um superinvestimento em uma relação com uma figura de autoridade, bem como a luta constante entre o Ideal do Eu que se apresenta e o Eu ideal que é construído. Para Freud (em Nasio, 2001), o estado psicótico seria uma doença de defesa, para se preservar de uma representação que é inassimilável para o sujeito. Para Schreber, esta dor insuportável seria a consciência de uma impossibilidade em alcançar um ideal de autoridade representado por seu pai.

Assim, Schreber passa parte de sua vida de forma sadia, pois não precisou se deparar com a lacuna foracluída relacionada à figura de autoridade e poder. No entanto, os momentos de disparo das crises coincidem com o momento em que Schreber se depara com a não equivalência entre o Ideal do Eu, que remete simbolicamente à figura paterna, e o Eu Ideal, o Schreber como a imagem de si mesmo Esta impotência diante de postos de poder e a frustração por não poder assumi-los seria insuportável ao eu de Schreber, uma ameaça a sua integridade. Desse modo, torna-se mais agradável ao sujeito apaziguar este conflito construindo um sintoma, de modo a poupar ao eu um trabalho de elaboração gigantesco e penoso (Freud, 1916-1917).

Se é mais vantajoso ao ego não ter que elaborar tal agressão, a rejeição violenta dessa representação é inevitável. A cobrança por ser reconhecido e por alcançar algum poder na sociedade tornou-se algo superinvestido pelo eu de Schreber, até que em algum momento (nos momentos de deparação com postos de trabalho de grande responsabilidade e poder) o indivíduo retire completamente a significação desta representação. Dessa forma, deslocando a representação inconciliável para fora do eu, abre-se um furo neste, o qual corresponde a um furo na realidade (Nasio, 2001).

Explicam-se então as crises de Schreber, através do deslocamento violento da representação de responsabilidade e autoridade vindas, em especial, da imagem do pai. Após o supeinvestimento que Schreber pode ter vivido durante toda sua infância, rejeita essas questões, abrindo uma lacuna no real, que precisa ser preenchida. O pedaço rejeitado, então, é percebido por Schreber através de algo corresponde no campo da alucinação e do delírio. Suas fantasias relacionando Deus, Sol e seu pai de certa forma aparecem como uma equivalência do pai com poderes absurdamente fortes, os quais ele talvez não se sentisse capaz de alcançar. Esta nova realidade alucinada, que substitui a realidade simbólica insuportável e rejeitada, coexiste com outras realidades não afetadas, o que explica o fato de Schreber ter vivido sem crises por boa parte de sua vida e também por ter a consciência de deixar uma obra de cunho autobiográfico para análises. Talvez a própria preocupação de Schreber em contribuir com a ciência através de seu livro mostre uma ligação de sua construção com o delírio apresentado, ou seja, é possível que Schreber tenha produzido esta obra visando à busca de êxito e reconhecimento de seus feitos. Isto implica questionar por que esta preocupação ainda aparece, e agora não alucinatória (no sentido da produção, e não do conteúdo), mesmo com a representação real da autoridade já foracluída.

Por Bruna Larissa Seibel

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. Conferência XXIV: o estado neurótico comum, 1917. In: ______. Conferências introdutórias sobre psicanálise (continuação). Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 379-392. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 16).
          Kaufman, P. (1996). Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. Cap. I, pp. 255 -259. Rio de Janeiro: Zahar.
Nasio, J. (2001). Observações Psicanalíticas sobre as Psicoses. In:_____. Os Grandes Casos de Psicose. Rio de Janeiro: Zahar.
          Niederland, W. G. (1981). O Caso Schreber: um perfil psicanalítico de uma personalidade psicótica. Rio de Janeiro: Editora Campus LTDA.