Lolita um romance sobre a perversão?
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Lolita: Um romance sobre a perversão?
“...coração, cabeça...tudo. Lolita, Lolita, Lolita, Lolita, Lolita, Lolita, Lolita, Lolita, Lolita. Tipógrafo, repita, por favor, até preencher toda a página.” Nabokov apud Moraes(2007)
A partir desta fala podemos vislumbrar o drama vivido por Humbert Humbert, personagem do livro ‘Lolita’ de Vladimir Nabokov e filme de mesmo nome de Stanley Kubrick, que se sente completamente tomado, enfeitiçado por Lolita.
A história vivida entre os anos 40-50 traz ao olhar questões conflitantes e contemporâneas como a pedofilia e a perversão.
A trama aborda a vida de um erudito professor universitário britânico de meia idade que vai trabalhar nos Estados Unidos e lá fica tão obcecado por uma menina de 12 anos que acaba por casar-se com sua mãe a fim de ficar próximo da menina. Porém a esposa morre atropelada e ele vê este momento como o propício para seduzir a enteada, mantendo com ela uma vida de amante. Seria Humbert um perverso, um pedófilo?
De acordo com DSM-IV, da Associação de Psiquiatras Americanos,a pedofilia é um transtorno parafílico onde a pessoa apresenta fantasia e excitação sexual com crianças pré-púberes, efetivando na prática seus anseios, com sentimento de angustia e sofrimento. Utiliza para critérios diagnósticos (Cid 10-f65.4 e DSMIV 302.2 pedofilia) os seguintes requisitos: A. Ao longo de um período mínimo de 6 meses, fantasias sexualmente excitantes recorrentes e intensas, impulsos sexuais ou comportamentos envolvendo atividade sexual com uma (ou mais de uma) criança pré-púbere (geralmente com 13 anos ou menos). B. As fantasias, impulsos sexuais ou comportamentos causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. C. O indivíduo tem no mínimo 16 anos e é pelo menos 5 anos mais velho que a criança ou crianças no Critério A. Salientam ainda que o pedófilo pode utilizar estratégias para se aproximar das crianças tais como: obtenção da confiança da mãe, ou mesmo casar-se com esta para se aproximar da criança, adotar crianças, atender às necessidades e desejos das crianças. O transtorno geralmente começa na adolescência, embora alguns indivíduos com Pedofilia relatem não terem sentido atração por crianças até a meia-idade.
Assim nosso personagem Humbert de acordo com a Organização Mundial da Saúde e Associação de Psiquiatras Americanos poderia ser enquadrado como um pedófilo passível de receber tratamento. Porém uma questão que chama atenção na história é que Lolita, apesar da idade, apresenta um comportamento que parece demonstrar outras experiências sexuais e também uma conduta de oferecimento e sedução em relação a Humbert.
“ Desejo agora apresentar a seguinte idéia. Entre um limite de idade que vai dos nove aos catorze anos, existem raparigas que, diante de certos viajantes enfeitiçados, revelam sua verdadeira natureza, que não é humana, mas ‘nínfica’( isto é,demoníaca), e a essas dadas criaturas proponho designar como nymphets.”Pereira ([1996?]);
Poderíamos pensar então que Lolita, com seu comportamento, consentiu em se envolver sexualmente com Humbert, colocando em ‘xeque’ sua classificação de pedófilo? Penso que cabe aqui pensar os papéis e funções de cada um em nossa sociedade. Para um adulto não cabe o mesmo papel desempenhado por um pré-púbere, uma criança ou um adolescente. Assim como em psicanálise falamos em função materna, função paterna e na importância de cada um destes papéis na constituição de um sujeito, penso que comparativamente nas relações sociais a definição destes papéis é importante para a constituição da sociedade. Caso contrário, instituiremos uma sociedade onde tudo vale, nada faz diferença.
Será Humbert também um perverso?
Pensar a perversão traz vários contrapontos. É um estudo polêmico que tem passado por várias interpretações, desde posturas moralistas, estruturas clínicas, chegando à perversão social. Fleig (2008) afirma que o termo perversão é muito antigo e provém da teologia moral cristã, significando inversão do suposto natural. Desta forma, nasce marcado pela caracterização de um comportamento que se afastaria do prescrito pela natureza. No campo sexual, segundo a Igreja, este natural estaria relacionado com a reprodução, tornando-se pecado o que fosse fora dela.
Este termo, apesar das críticas à moral cristã, acabou sendo utilizado pela psiquiatria e, desta forma, uma série de comportamentos sexuais, repudiados socialmente, acabaram sendo integrados ao campo da competência médica. Por esta ótica Humbert, sem dúvida, seria considerado um perverso. Porém o caminho da perversão não parou por aí. Freud nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) rompe com a concepção de perversão como desvio de norma e apresenta a idéia de uma sexualidade infantil polimorfa e perversa.
A perversão então poderia ser compreendida como representando a permanência da sexualidade em moldes infantis, ou seja, uma expressão direta das pulsões, que em razão da ausência ou deficiência das defesas ou do recalque não seria transformada em sintoma neurótico. Isto poderia nos fazer supor que as perversões seriam fixações em fases primitivas. Porém o que Freud introduziu foi, como aponta Fleig (2008), o conceito da disposição do ser humano à perversão, significando que a sexualidade humana não se molda a condutas fixadas biologicamente, mas se forma marcada por sua condição desnaturada. Gillespie apud Rudge (2005) assinala que no texto de Freud de 1919 ‘Bate-se numa criança’ aparece claramente o fato das perversões serem tomadas como formações defensivas e não mais como aspectos da sexualidade infantil que ludibriaram as defesas. A forma defensiva utilizada na perversão consiste então em desmentir a falta no outro induzindo ao mecanismo de clivagem do eu.
Freud ao tomar a perversão como uma formação de defesa a fim de evitar a angústia de castração, a situa como uma terceira estrutura clínica, ao lado das estruturas neurótica e psicótica. Fleig (2008) ressalta que a estrutura perversa tem o caráter de negar radicalmente a alteridade do outro, principalmente a característica de ser vivo desejante e com isso coloca-se na posição se ter e de ser o falo, através do fetiche ou da posição de ídolo. Lacan apud Fleig (2008) afirma o caráter desnaturado do desejo. O desejo é o desejo do Outro e nasce a partir da falta que está representada pelo falo. A condição de ser faltante leva o sujeito a supor que há algo, ao que Lacan denomina de objeto a, que poderia obturar a sua falta. Seguindo a visão de Lacan observa-se que o perverso, a nível do desejo, está identificado à forma imaginária do falo, constituindo o objeto perdido o fascínio do perverso.
O fundo perverso comum do ser humano não pode ser confundido com a estrutura perversa. “O fantasma perverso em sentido estrito poderia ser diferenciado de fantasmas perversos que se encontram freqüentemente nos neuróticos a partir da forma como o roteiro fantasmático se apresenta. No caso de sujeitos perversos, vemos que o roteiro fantasmático aparece recortado e destacado da história do sujeito, como se fosse uma seqüência de cenas sedutoras de um filme, desconectadas de seu enredo completo, o que determina sua relativa fixidez, e mais do que isso, a posição de certeza de saber como se dá a captura do objeto de gozo.” Fleig (2008) Rudge (2005) afirma que o discurso perverso está empenhado com a busca incessante de colocar os atores coadjuvantes nos papéis agenciados por ele. Portanto, o perverso está habituado ao modo imperativo e à sedução como formas alternativas de submeter os outros. Busca assim, montar um jogo determinado pelas próprias regras, o que lhe confere uma marca tirânica. Olhando Humbert em seu agir poderíamos supor que apresenta uma estrutura perversa, pois impõe a Lolita seu roteiro particular de filme de uma forma categórica e rígida, parecendo desconsiderar a posição de alteridade da menina. Parece estar focado na satisfação de seu gozo, mesmo que isto cause desprazer ao outro, pois o que interessa é ir até o fim em sua proposição. Nesta sua forma de agir transforma o seu objeto em objeto inanimado e se coloca na posição de puro executante.
Lacan (1958-1959), porém, chama a atenção a respeito da característica da relação de Humbert com o objeto salientando “o caráter fulgurante do desejo enquanto ele é meditado, enquanto ele ocupa cerca de trinta anos da vida do sujeito”, aproximando-o do fantasma neurótico propriamente dito.
Além disso, não podemos vê-lo sozinho. Temos que considerar a posição que adota na relação com Lolita.
Lolita é uma menina que não adota uma postura de submissão. Ela determina os caminhos de viagem, questiona as proibições impostas, arruma formas de burlar o que Humbert estabeleceu e cobra em dinheiro por seu afeto. No transcorrer do filme não se tem a impressão que Humbert tem o domínio do roteiro em suas mãos. Calligaris apud Pires (2004) salienta que a estrutura perversa é pouco comum na clínica. Ressalta que o mais habitual é encontrar dois sujeitos neuróticos juntos no mesmo fantasma, ou seja, numa montagem perversa. Justifica que isto ocorre por ser a posição neurótica insatisfatória, pois além de seu gozo ser impossível, o neurótico se defende deste gozo, preferindo sacrificar sua singularidade e assim aceder ao gozo da montagem perversa. Melman apud Fleig (2008) afirma que a lógica perversa do laço social procura suprimir na relação com o outro tudo que é da ordem da restrição, transformando todas as relações em duais, onde se trata sempre de determinar quem ganha e quem perde. Observa que é um modo de relação social no qual não há bom senso, uma vez que se explora o que é o gozo de cada um.
Assim, a partir deste olhar proposto por Calligaris e Melman podemos levantar a suposição de que Lolita e Humbert organizaram-se numa montagem perversa preferindo ambos penalizarem-se em suas singularidades a fim de explorar o que representava o gozo de cada um. Enfim, Lolita não é o melhor romance para exemplificar a perversão, porém trás elementos para fazer pensar a diferença entre a estrutura perversa e a lógica social perversa, o que parece ser bastante interessante neste momento social em que há vários questionamentos em relação a forma como estamos nos relacionando socialmente
Autora: Kleide Martins - klemartins@hotmail.com
Bibliografia
DSM-IV [1].
FLEIG, M. O desejo perverso. Porto Alegre: CMC, 2008.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1973. 142 p
LACAN, J. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p.485-500.
MORAES, Eliane Robert. A ingenuidade de um perverso: linguagem e erotismo em Nabokov. Ide (São Paulo). [online]. dic. 2007, vol.30, no.45 [citado 30 Septiembre 2008], p.115-119. >. ISSN 0101-3106
PEREIRA, L.S. Lolita: um comentário a partir do romance de Vladimir Nabokov. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Porto Alegre, Ano VI, n 12, p 95-100, [1996?].
PIRES, Andréa Lucena de Souza, PIRES, Angela Lucena de Souza, BICALHO, Clovis Figueiredo Sette et al. Perversão - estrutura ou montagem?. Reverso. [online]. dez. 2004, vol.26, no.51 [citado 30 Setembro 2008], p.43-50. >. ISSN 0102-7395.
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