Revista OCA on-line # Dezembro de 2005
O problema que não se resolve
Somente educação ambiental e fiscalização podem garantir a revitalização do Arroio Dilúvio.
Por: Ana Paula Souza e Miqueline De Faveri

A questão é antiga e a tarefa, árdua. A despoluição do Arroio Dilúvio, que já constituía preocupação para as administrações anteriores no município, agora inquieta a atual. É de 1990 a Lei Orgânica que define as faixas de terreno junto aos arroios como Áreas de Preservação Permanente. Já o Pró-Dilúvio, criado em março deste ano, envolve a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), os Departamentos Municipais de Água e Esgotos (Dmae), de Esgotos Pluviais (DEP), de Limpeza Urbana (DMLU) e a Secretaria da Saúde na descontaminação do arroio.
O Departamento de Esgotos Pluviais é o órgão responsável pela drenagem urbana, processo no qual o Dilúvio tem importância significativa. “Os arroios são sistemas naturais de drenagem. Eles, junto com o sistema construído (bocas-de-lobo, canos), levam a água da chuva até o Guaíba”, destaca Cristina Ferreira, Coordenadora da Equipe de Educação Ambiental do DEP. Porém o lixo, acumulado nas ruas, acaba seguindo esse mesmo caminho. Cristina lembra que, juntamente com os resíduos, o assoreamento é a principal causa dos alagamentos. “Os arroios não são respeitados. Existe uma lei dizendo que a 30 metros de uma lateral e 30 de outra não poderia haver construção nenhuma, a vegetação não poderia ser retirada. Mas não é essa a realidade. As pessoas cortam a mata que fica nas bordas dos rios e com isso vem a erosão”. Basta passarmos por qualquer ponto da Avenida Ipiranga para percebermos que a legislação não é cumprida. Sem proteção, a cada chuva uma grande quantidade de areia é depositada no Dilúvio. “Se o fundo do arroio sobe, é muito mais provável que ele possa transbordar. Por isso deve ser feita a retirada da areia, o que se chama dragagem. Nesse ano nós não pudemos fazer porque é muito caro, esperamos que em 2006 seja feito, pelo menos nos locais mais críticos”, ressalta.

 
 

Além do lixo e do assoreamento, o Dilúvio tem de enfrentar outro inimigo, o esgoto cloacal. O arroio, que nasce dentro de uma reserva ecológica, no Parque Saint’Hilaire, em Viamão, tem suas águas poluídas por dejetos e gordura ao longo de seus 17,6 km de extensão, área ocupada por cerca de 450 mil pessoas. Estima-se que o arroio seja contaminado por um terço do esgoto produzido no município antes de desaguar no lago Guaíba, entre os Parques Marinha do Brasil e Harmonia. A péssima qualidade da água e as imagens impactantes da poluição do arroio verificadas ao longo da Avenida Ipiranga, não são resultados de ações antiecológicas apenas nesse trecho. O Dilúvio recebe vários afluentes, como os arroios Marianos, Moinho, São Vicente, Cascatinha, formando uma bacia hidrográfica de 83,7 km². Segundo Cristina Ferreira, as águas destes afluentes carregam uma grande carga de resíduo inorgânico e esgoto cloacal. “O arroio Moinho deságua debaixo da PUC. Ele vem de toda aquela região do Partenon. Há cerca de um mês nós estivemos fazendo a retirada de lixo nesse arroio em cerca de 200 metros, o que é muito pouco. Foram retirados 12 caminhões-caçamba de resíduos, e se tu fores lá, hoje, tu tirarias a mesma quantidade”, salienta.
Conhecendo a realidade do arroio, fica difícil imaginá-lo com águas límpidas, cercado por abundante vegetação e passando por entre chácaras e no fundo das casas. Mas o Dilúvio já foi assim. De acordo com a Coordenadora do Pró-Dilúvio pela Smam, Daniela Bolner, ainda hoje podemos nos surpreender com a beleza preservada de sua nascente: “Nem parece o mesmo arroio que vemos na Ipiranga, e a Barragem do Sabão também é muito bonita. Lá se pode tomar banho, pescar”. A Represa do Sabão, também localizada no Parque Saint’Hilaire, é formada pela junção de cinco arroios. De lá, o volume de água segue se chamando Arroio Dilúvio. “A Barragem foi criada como garantia. Caso aconteça algum acidente no Guaíba, podemos abastecer a população de Porto Alegre com água potável por algum tempo”, explica.
Até ser canalizado, o Arroio Dilúvio desaguava na Ponta da Cadeia, ao lado da Usina do Gasômetro. Antes de chegar a esse destino, passava por baixo de um dos atuais cartões-postais da cidade, a Ponte de Pedra. As obras de canalização, iniciadas nos anos 40, queriam evitar os constantes alagamentos nas moradias às margens do arroio. Foram cerca de 20 anos de trabalho. Atualmente, existem 17 pontes sobre o Dilúvio, sendo uma delas o símbolo do seu principal programa de revitalização: “A ponte da Avenida João Pessoa é a única no mundo com árvores plantadas”, salienta Daniela. “Por isso escolhemos como o logotipo do Pró-Dilúvio. É um cartão-postal de Porto Alegre”.

 
 

Educação Ambiental e Fiscalização
Para a Coordenadora da Equipe de Educação Ambiental do DEP, Cristina Bernardes, o que ainda está faltando é consciência ambiental. “As pessoas têm como cultura jogar resíduos no arroio e nas ruas sem preocupação. Se cada um não o fizesse, faria diferença”. O programa Pró-Dilúvio é novo, mas seus realizadores já antecipam que bons resultados dependem mais da colaboração da população do que propriamente da prefeitura. Existem sub-projetos, dentro do projeto principal, como o de Educação Ambiental onde foram criadas várias atividades junto à comunidade e escolas de Porto Alegre. Daniela Bolner, coordenadora do Pró-Dilúvio explica algumas das ações dos órgãos de fiscalização do projeto. “Na educação ambiental a gente atua com escolas, fazemos um mapeamento de cada região. Nas associações a gente procura também fazer contatos, organizar palestras, trabalhos interativos com crianças, com adultos e os idosos. Os enfoques são feitos conforme o público.”
Porém a poluição do Arroio Dilúvio é uma questão multidisciplinar porque envolve diversos problemas. Os detritos que vão parar no leito do arroio e a ocupação irregular de morros dentro da bacia do dilúvio são alguns deles. Por causa disso foram criadas ações conjuntas onde cada órgão designado é responsável por uma tarefa. A SMAM tem a coordenação do licenciamento ambiental das indústrias e estabelecimentos de comércio e serviços.. O DMAE faz análises da qualidade da água produzindo um diagnóstico e averigua a evolução do processo. A atuação do DMAE também se estende ao pessoal que verifica as ligações irregulares. “E a questão de obras, do que é necessário ser feito, eles vão fazer toda a avaliação Esse diagnóstico serve para se fazer o planejamento de obras, ligações que têm que ser feitas, pedaços de rede que não existem”, explica Daniela Bolner.
Além da Educação Ambiental, o DEP faz a retirada da areia e do material que fica depositado no fundo, através da dragagem. O DMLU recolhe o lixo e faz a manutenção da grama plantada ao longo do arroio. A Secretaria da Saúde atua junto às residências. “Precisa haver toda uma parceria para que isso possa acontecer. A estimativa é de que só esse processo de diagnóstico, para saber tudo o que está errado, vai até 2009. Mas nesse tempo a gente vai vendo o que está errado e vai corrigindo. É um processo de no mínimo de 10 a 20 anos, média a longo prazo para se ter um arroio de qualidade boa”, frisa Daniela Bolner. Porém, a técnica destaca que educação ambiental é a base mais importante para despoluição do arroio. “Não adianta a gente fazer toda essa pesquisa de ligações, sem a educação ambiental, porque logo fica tudo igual de novo”. É preciso um trabalho árduo de fiscalização conjunta entre os órgãos responsáveis e educação ambiental. É a maneira mais eficiente e lógica de revitalizar, não só o Arroio Dilúvio, mas tantos outros arroios poluídos.

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos de Jornalismo Ambiental da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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