| A questão é
antiga e a tarefa, árdua. A despoluição
do Arroio Dilúvio, que já constituía
preocupação para as administrações
anteriores no município, agora inquieta a atual.
É de 1990 a Lei Orgânica que define as faixas
de terreno junto aos arroios como Áreas de Preservação
Permanente. Já o Pró-Dilúvio, criado
em março deste ano, envolve a Secretaria Municipal
do Meio Ambiente (Smam), os Departamentos Municipais de
Água e Esgotos (Dmae), de Esgotos Pluviais (DEP),
de Limpeza Urbana (DMLU) e a Secretaria da Saúde
na descontaminação do arroio.
O Departamento de Esgotos Pluviais é o órgão
responsável pela drenagem urbana, processo no qual
o Dilúvio tem importância significativa.
“Os arroios são sistemas naturais de drenagem.
Eles, junto com o sistema construído (bocas-de-lobo,
canos), levam a água da chuva até o Guaíba”,
destaca Cristina Ferreira, Coordenadora da Equipe de Educação
Ambiental do DEP. Porém o lixo, acumulado nas ruas,
acaba seguindo esse mesmo caminho. Cristina lembra que,
juntamente com os resíduos, o assoreamento é
a principal causa dos alagamentos. “Os arroios não
são respeitados. Existe uma lei dizendo que a 30
metros de uma lateral e 30 de outra não poderia
haver construção nenhuma, a vegetação
não poderia ser retirada. Mas não é
essa a realidade. As pessoas cortam a mata que fica nas
bordas dos rios e com isso vem a erosão”.
Basta passarmos por qualquer ponto da Avenida Ipiranga
para percebermos que a legislação não
é cumprida. Sem proteção, a cada
chuva uma grande quantidade de areia é depositada
no Dilúvio. “Se o fundo do arroio sobe, é
muito mais provável que ele possa transbordar.
Por isso deve ser feita a retirada da areia, o que se
chama dragagem. Nesse ano nós não pudemos
fazer porque é muito caro, esperamos que em 2006
seja feito, pelo menos nos locais mais críticos”,
ressalta.
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Além do lixo e do assoreamento, o Dilúvio
tem de enfrentar outro inimigo, o esgoto cloacal. O arroio,
que nasce dentro de uma reserva ecológica, no Parque
Saint’Hilaire, em Viamão, tem suas águas
poluídas por dejetos e gordura ao longo de seus
17,6 km de extensão, área ocupada por cerca
de 450 mil pessoas. Estima-se que o arroio seja contaminado
por um terço do esgoto produzido no município
antes de desaguar no lago Guaíba, entre os Parques
Marinha do Brasil e Harmonia. A péssima qualidade
da água e as imagens impactantes da poluição
do arroio verificadas ao longo da Avenida Ipiranga, não
são resultados de ações antiecológicas
apenas nesse trecho. O Dilúvio recebe vários
afluentes, como os arroios Marianos, Moinho, São
Vicente, Cascatinha, formando uma bacia hidrográfica
de 83,7 km². Segundo Cristina Ferreira, as águas
destes afluentes carregam uma grande carga de resíduo
inorgânico e esgoto cloacal. “O arroio Moinho
deságua debaixo da PUC. Ele vem de toda aquela
região do Partenon. Há cerca de um mês
nós estivemos fazendo a retirada de lixo nesse
arroio em cerca de 200 metros, o que é muito pouco.
Foram retirados 12 caminhões-caçamba de
resíduos, e se tu fores lá, hoje, tu tirarias
a mesma quantidade”, salienta.
Conhecendo a realidade do arroio, fica difícil
imaginá-lo com águas límpidas, cercado
por abundante vegetação e passando por entre
chácaras e no fundo das casas. Mas o Dilúvio
já foi assim. De acordo com a Coordenadora do Pró-Dilúvio
pela Smam, Daniela Bolner, ainda hoje podemos nos surpreender
com a beleza preservada de sua nascente: “Nem parece
o mesmo arroio que vemos na Ipiranga, e a Barragem do
Sabão também é muito bonita. Lá
se pode tomar banho, pescar”. A Represa do Sabão,
também localizada no Parque Saint’Hilaire,
é formada pela junção de cinco arroios.
De lá, o volume de água segue se chamando
Arroio Dilúvio. “A Barragem foi criada como
garantia. Caso aconteça algum acidente no Guaíba,
podemos abastecer a população de Porto Alegre
com água potável por algum tempo”,
explica.
Até ser canalizado, o Arroio Dilúvio desaguava
na Ponta da Cadeia, ao lado da Usina do Gasômetro.
Antes de chegar a esse destino, passava por baixo de um
dos atuais cartões-postais da cidade, a Ponte de
Pedra. As obras de canalização, iniciadas
nos anos 40, queriam evitar os constantes alagamentos
nas moradias às margens do arroio. Foram cerca
de 20 anos de trabalho. Atualmente, existem 17 pontes
sobre o Dilúvio, sendo uma delas o símbolo
do seu principal programa de revitalização:
“A ponte da Avenida João Pessoa é
a única no mundo com árvores plantadas”,
salienta Daniela. “Por isso escolhemos como o logotipo
do Pró-Dilúvio. É um cartão-postal
de Porto Alegre”.
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Educação Ambiental e Fiscalização
Para a Coordenadora da Equipe de Educação
Ambiental do DEP, Cristina Bernardes, o que ainda está
faltando é consciência ambiental. “As
pessoas têm como cultura jogar resíduos no
arroio e nas ruas sem preocupação. Se cada
um não o fizesse, faria diferença”.
O programa Pró-Dilúvio é novo, mas
seus realizadores já antecipam que bons resultados
dependem mais da colaboração da população
do que propriamente da prefeitura. Existem sub-projetos,
dentro do projeto principal, como o de Educação
Ambiental onde foram criadas várias atividades
junto à comunidade e escolas de Porto Alegre. Daniela
Bolner, coordenadora do Pró-Dilúvio explica
algumas das ações dos órgãos
de fiscalização do projeto. “Na educação
ambiental a gente atua com escolas, fazemos um mapeamento
de cada região. Nas associações a
gente procura também fazer contatos, organizar
palestras, trabalhos interativos com crianças,
com adultos e os idosos. Os enfoques são feitos
conforme o público.”
Porém a poluição do Arroio Dilúvio
é uma questão multidisciplinar porque envolve
diversos problemas. Os detritos que vão parar no
leito do arroio e a ocupação irregular de
morros dentro da bacia do dilúvio são alguns
deles. Por causa disso foram criadas ações
conjuntas onde cada órgão designado é
responsável por uma tarefa. A SMAM tem a coordenação
do licenciamento ambiental das indústrias e estabelecimentos
de comércio e serviços.. O DMAE faz análises
da qualidade da água produzindo um diagnóstico
e averigua a evolução do processo. A atuação
do DMAE também se estende ao pessoal que verifica
as ligações irregulares. “E a questão
de obras, do que é necessário ser feito,
eles vão fazer toda a avaliação Esse
diagnóstico serve para se fazer o planejamento
de obras, ligações que têm que ser
feitas, pedaços de rede que não existem”,
explica Daniela Bolner.
Além da Educação Ambiental, o DEP
faz a retirada da areia e do material que fica depositado
no fundo, através da dragagem. O DMLU recolhe o
lixo e faz a manutenção da grama plantada
ao longo do arroio. A Secretaria da Saúde atua
junto às residências. “Precisa haver
toda uma parceria para que isso possa acontecer. A estimativa
é de que só esse processo de diagnóstico,
para saber tudo o que está errado, vai até
2009. Mas nesse tempo a gente vai vendo o que está
errado e vai corrigindo. É um processo de no mínimo
de 10 a 20 anos, média a longo prazo para se ter
um arroio de qualidade boa”, frisa Daniela Bolner.
Porém, a técnica destaca que educação
ambiental é a base mais importante para despoluição
do arroio. “Não adianta a gente fazer toda
essa pesquisa de ligações, sem a educação
ambiental, porque logo fica tudo igual de novo”.
É preciso um trabalho árduo de fiscalização
conjunta entre os órgãos responsáveis
e educação ambiental. É a maneira
mais eficiente e lógica de revitalizar, não
só o Arroio Dilúvio, mas tantos outros arroios
poluídos.
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